Perículo

3 Capítulo 3


Notas iniciais
Demorei, mas em compesasão, o capítulo saiu uma delícia -nnnnnnnn. Espero que gostem *--*.

Eu o encarei com uma expressão tristonha. Logan ergueu o polegar para encostá-lo suavemente em sua face. Alisando-a, ele trocou mais um olhar comigo, que demonstrava a mesma expressão triste. Com alguns minutos, nós dois foram dominados pela cara chorosa. O olhava constantemente, mas não havia ganhado sua resposta ainda. Ao perceber a cara de ‘pare de me enrolar’ que eu havia acabado de fazer, simplesmente franzindo as sobrancelhas, ele levantou o lábio superior, conseguindo fazer uma voz perfeitamente segura, que dizia:

— Não minto para você.

A única coisa que fiz depois desta resposta, foi revirar os olhos. Pus minha mão acima da de Logan. O olhar penetrante dele invadiu meus olhos, fazendo com que me derretesse mais uma vez. Como podia estar apaixonada por ele? Só o vira alguns dias atrás, e ele parecia já ter revirado meu mundo, e mexido com a minha cabeça. Mas eu era orgulhosa de mais para admitir, até pra mim mesma. Abri os lábios para falar algo, mas os fechei rapidamente, antes que dissesse algo do qual provavelmente, me arrependeria pelo resto da vida. Apenas fechei os olhos e falei frágil:

— Isso não é verdade. Você mente sempre que tem oportunidade.

Minha mão ainda estava sobre a dele, segurei sua mão, retirando-a do meu rosto, o deixando com um ar totalmente abalado e triste. Seus olhos com uma cor indefinida – pois não me deixara decidir entre duas cores-, porém profunda, de um azul-esverdiado perfeito, agora estavam com expressões chorosas. Não que ele fosse chorar ali, mas percebi que ele havia ficado triste com as simples onze palavras que eu havia dito.

— Você tem que entender. – ele disse olhando em meus olhos. – Não tenho permissão.

Isso me fez soltar um riso fraco, que com certeza, era pra tirar uma da cara dele.

— Permissão? Não Logan. Não. Você não precisa de nada. Você não consegue me dizer uma só coisa verdadeira. Será possível? Era para você me ajudar. Era para ser meu guia. Mas não parece. Parece que é mais um entre uma multidão gigante, querendo me arrastar para um mundo de mentiras. Sinto muito, mas chega. Pra mim já deu.

— Um dia você saberá tudo. Mas até lá, só te peço que aguarde. – ele falou com a voz rouca. Em seguida se desmaterializou.

Me joguei em cima da cama. Um pensamento? Isso poderia ficar pior? Minha “melhor amiga” quer me matar, isto se eu não conseguir matar alguém por ela. Meu guia espiritual, um cara extremamente gato, por quem eu provavelmente estou super apaixonada, é um completo mentiroso. Ou ele apenas omite. Mas para mim isso soava como mentira. Levantei, pegando meu diário e o abraçando um pouco. Quando eu iria enfim descobrir a verdade? Quando minha melhor amiga iria se tocar de que estava morta, e que isso não era culpa minha? Quando ela iria se tocar de que é minha melhor amiga, e que eu a amo? E o Logan? Quando descobriria que eu estou tendo uma ‘queda’ por ele? Retirei o diário dos braços, o abrindo para escrever um pouco.


Querido Diário,

Sabe, eu queria saber uma vez: qual meu problema afinal? Eu tento fazer tudo certo. Sempre. Eu não sou idiota, ingênua... Ah sei lá! Na verdade, nem sei qual foi a última vez que eu escrevi aqui. Sério. Quando? Antes do enterro da Julliet? Acho que foi. Preciso desabafar agora, mas ninguém parece bom o suficiente para ter uma conversa sincera. Principalmente a Julliet. Sim, eu estou vendo minha melhor amiga morta, e não. Eu definitivamente não estou ficando louca. Eu não sou uma pessoa depressiva, antes que você pense o contrário. Mas é muita coisa de uma vez só na minha cabeça. Conheci um cara lindo. Seu nome? Logan. Ele é um espírito, esta é a parte ruim. Mas no fundo, sou EU quem me sinto transparente. Porque tem que ser sempre tão difícil? Não sei descrever como é, mas eu me sinto bem quando ele está por perto. Ele sempre me defende, me protege. Tá, isso não é nada a mais que a função dele, mas ta aí, queria que não fosse só isso sabe...

A situação é delicada. Quero dizer, além do cara ser um fantasma, ele provavelmente nunca levaria um relacionamento como esse que eu tanto penso a sério. O meu último namorado foi embora, e não me sinto muito bem com isso. Acho que nem estou pronta para recomeçar. Não que eu queira namorar o Logan, mas é meio difícil né? 1- Ele odiaria a idéia; 2- Ele é só meu guia e nada mais. 3- Como eu já disse, é a função dele. Ele não gosta de mim. Uma palavra que expresse o que estou sentindo? MERDA! Eu poderia estrangular qualquer um agora mesmo. Ou simplesmente dar um puxão no cabelo da primeira patricinha que aparecesse em minha frente. Além do mais, eu só lhe dei com 2 fantasmas até agora. Quem sabe os que virão a seguir?

Eu sei que quando era pequena conversava com alguém. Será um espírito? ‘Nãaao! Imagine’. Eu tenho que parar de falar sozinha, por mais que agora o meu ‘sozinha’, signifique com algum morto. Enfim, o Logan quer começar logo o treino. Eu preciso aprender a mudar os espíritos de plano, eles simplesmente não podem ficar presos á terra. Foi o que Logan disse. Descobri também que todos vêem espíritos até uma média de sete anos. Pelo menos a grande maioria. Ao passar disso, praticamente ninguém consegue vê-los. Só uma família com muitas gerações de médiuns. Continuando, preciso descer para tomar um ar. Antes que isso tudo me mate. É muita coisa de uma vez só na cabeça. Sinceramente? Eu preciso de uma coisa: TEMPO.

Tem uma música da Britney Spears que resumiria bem o meu momento. Como é que era o nome mesmo? Esqueci. Um minuto para pausa, por favor. Ah! Lembrei! I’m not a girl, not yet woman. O refrão combina bem comigo. Essa música fala sobre precisar de um tempo para si mesmo sabe, quando parece que tem um peso gigante sobre suas costas, e não, você olha para o lado, e simplesmente ninguém está ali para lhe ajudar a distribuir este peso. Pois é, é simplesmente isso que eu sinto. Agora estou indo.

Beijos, Blair.


Ninguém poderia imaginar como eu me sentia. Passei rapidamente pela escada, aproveitando para dar uma passada na cozinha, e roubar um pouco de leite. A campainha tocou.

— Eu atendo – falei rapidamente. Quem sabe isso não me distrairia um pouco de meus problemas?

Abri a maçaneta. Com o leite em meus lábios, tive de me segurar pra não o colocar todo para fora. Ou melhor, cuspi-lo. Não acreditei em quem vi na minha frente, era surreal. E praticamente impossível. Continuei olhando paralisada. O que era isso afinal? Um programa de pegadinha?

— Achei que ficaria feliz em me ver. – ele falou ao soltar um sorriso meio tosco.

— Desculpe, — disse rindo fraco – Não esperava te ver aqui. Mas enfim: bom ver você. – disse sorrindo – Entre. – sentei-me, ele colocou pé por pé vagarosamente pela casa, andando calmamente até o sofá para sentar ao meu lado. Coloquei o copo de leite na mesa ao lado do sofá, sentindo-me um pouco desajeitada, o que me deixou extremamente desconfortável. – Ai desculpe. Eu sou uma idiota. Ér... Quer algo pra beber? Ou comer?

Ele riu. Minha voz saiu esganiçada o suficiente para parecer com a Sugar Motta fazendo seu solo para entrar para o clube do coral em Glee. Dei um sorriso que me fez sentir uma completa retardada. Mas ele me encarou com os olhos negros em um clima sedutor. Os caras de quem eu gosto costumam sempre olhar em meus olhos. Os olhares são penetrantes o suficiente para me fazer sentir assim. Ele já conseguira fazer isto certa vez. Mas desde que Logan apareceu com seus olhos perfeitamente incríveis, ofuscara quaisquer outros que aparecessem por meu caminho.

— Não, — ele riu – Obrigada.

— Como sempre educado. – sorri. – Não tinha se mudado pra o Japão por algum tempo, Sam?

— Sabe como é... – ele começou. – Pode ser ótimo comer todo dia um belo prato de Yaksoba. Mas como sou nativo americano, molho Barbecue sempre me parecerá melhor que o Soyo. – esse trocadilho me fez rir. Por um segundo, passou pela minha cabeça, que por alguns minutos, isto havia me feito rir mais do que eu havia rido ultimamente.

Passei a mão pelos meus cabelos, estavam mais sedosos ultimamente, havia os lavado bastante na mesma semana. Pra falar a verdade, acho que lavei todos os dias. Gostaria de poder compartilhar essa informação com Julliet, mas ela não ligara mais para isso. Ela estava ocupada se importando com uma única coisa: consigo mesma. Mesmo depois de morta ela conseguira ser egocêntrica o suficiente para só pensar em si mesmo esquecendo as conseqüências. Isto me deixou mais uma vez paralisada para analisar a situação de minha melhor amiga. Escutei apenas uma voz, que foi suficiente para me tirar do meu completo estado de ausência:

— Está tudo bem?

Sacudindo instantaneamente a cabeça, falei:

— Ótimo. Tá tudo ótimo. Vamos dar uma volta?

Ele aceitou com um movimento rápido na cabeça. Capturei minha jaqueta que havia sido pendurada no cabideiro e tentei fugir dali o mais rápido possível. Olhei para o rosto de Sam e fiz um sinal de ‘espera um minuto’. Enquanto ele mostrava o polegar levantado, subi para meu quarto e vesti minhas novas botas Channel, que pelo visto eram muito confortáveis o suficiente pra fugir de qualquer fantasma que aparecesse em minha frente. Eu teria duas opções: 1- Poderia dar o fora, correndo sem sentir dor; 2- Poderia jogar meu pé contra a cara do fantasma, o salto agulha ajudaria muito nisso; ou seja, daria um belo chute. Não sei por que, mas acho que prefiro a 2° opção. Desci novamente. Sam já me esperava na porta, elegante como sempre. Estava com uma calça jeans bem menos sensual que a de Logan. Cala boca. Tudo te lembra esse cara, algo falou em minha mente.

Apenas sorri e continuei seguindo em frente, até parar ao lado de Sam, que abriu a porta para mim em um breve sorriso, não tão sedutor quando o de... Ah deixa. Droga! Merda! Droga! Será que até quando eu for sair com outro cara, vou ter que ficar me lembrando de um cara que nem é meu namorado? Qual o problema comigo? Preciso me concentrar em uma coisa agora: Eu estou com Sam. Quer dizer, não namorando com ele. Não mesmo. Mas eu estava indo dar uma volta com ele, e simplesmente não poderia ficar pensando em coisas tão estúpidas assim. Saí pela porta da qual o meu ‘acompanhante para voltas’ havia entrado. Ele acompanhou-me até o jardim, logo depois, continuou seguindo meus passos.

— O que tem feito? – perguntei um pouco sem jeito. Sei lá... Dá um desconto né? Eu não via o cara há um ano. E meio. Eu não sou advinha, e depois de tudo, é claro que não teríamos assunto.

Ele sorriu pra mim e abaixou sua cabeça. Seus olhos negros que haviam olhado para mim, agora estavam no chão, enquanto andávamos.

— Sinceramente? – ele disse soltando uma risada bastante fraca. – Pensar em você.

Essas palavras, que vindo da boca dele seriam suficientes para enlouquecer qualquer garota, teve outro efeito sobre mim, frases que eu evitei dizer, mas estavam na minha cabeça: O quê?! Você é louco. Mas a única coisa que eu tive coragem de dizer foi:

— Hum...

Não é pra rir. É pra chorar. Eu já gostei de mais desse cara, então ele simplesmente foi embora, e me deixou aqui plantada como se eu fosse um animal. Não chorei, mas me senti muito ridícula naqueles meses. Me senti uma inútil. E agora depois de tanto tempo, ele simplesmente resolve voltar, me dando umas cantadas totalmente melosas – que com certeza, depois do que ele fez não cairiam sobre mim -, com esse sorrisinho safado? O que ele pensa que eu sou? Um brinquedinho?

Continuei andando, como se não estivesse pensando na grande idiotice que Sam havia acabado de dizer. Ele andou um pouco mais rápido para acompanhar meus passos, foi quando vi que ele havia se jogado em minha frente, e dito rapidamente:

— Olha Blair — ele falou com a cabeça baixa, mais uma vez. Mas levantou-a para olhar para mim. – Eu sinto muito. Eu não queria deixar você aqui sabe... Eu sei que você não é esse tipo de garota sentimental e tal, mas eu sinto muito mesmo por ter deixado você aqui quando as coisas estavam começando a dar certo. Foi horrível da minha parte... Mas você é...

— Sam, — comecei, interrompendo-o – você não tem que se desculpar ta legal? Eu sabia que era seu pai eu tinha de se mudar, eu coloquei em minha cabeça por um tempo que a culpa era sua. Mas eu sei que não era. – mentira. Que mentira. Mentir é feio, Blair; isto foi meu subconsciente conversando comigo – Seu pai teve uma oferta melhor de emprego e você não poderia deixá-lo sozinho. Tem sua irmã mais velha, e o seu irmão mais novo. Eles podiam ficar com sua mãe. Eu entendo perfeitamente. Entendo que você não queria deixar sua mãe sozinha, mas deixa ta?

Ele riu do comentário. Qual é? Todo mundo estava no circo ultimamente?

— Eu só me senti culpado. – ele respondeu sorrindo – Gostaria de ter como te compensar. Que tal se...

— Olha, Sam – respondi rapidamente, interrompendo sua frase mais uma vez. – eu não to muito bem ultimamente, entendo que queira se redimir, mas não. Eu realmente estou sem tempo. Sem tempo até para mim mesma. Me desculpe.

Ele sacudiu a cabeça instantaneamente. Soltando outro gemido. Espera aí, isso foi uma risada? Ah não! Só podem estar de sacanagem com minha cara. Sério, o que eu fiz pra merecer um cara lindão, mas fantasma? Uma melhor amiga que depois de morta veio atormentar minha vida? E um ex que parecia rir da minha cara a cada segundo. O que era isso? Uma grande festa de circo? Piadas, palhaçadas, risos... pra mim chega sabe?

Apenas recuei, tentando voltar a minha casa. Não, ele resolveu fazer mais uma piada com minha cara e não me seguir. Eu me senti plantada. Mais uma vez. Mas quem se importava? Eu já percebi que esse vai ser um longo ano. Onde eu vou meter minha fuça muitas vezes onde não fui chamada. Por que? Simplesmente por causa do meu dom. Se eu não fosse intrometida, teria uns quinhentos fantasmas pegando no meu pé, foi o que eu aprendi com os filmes na televisão. Quando se trata de espíritos há duas opções: 1° opção – Ajude o filho da mãe; 2° opção – Seja atormentado por ele até que resolva a droga da situação dele. É, eles nunca te dão escolha.

Pude ver uma pequena figura posicionada a minha frente, mais próxima do que eu imaginava.

— Blair, — começou Sam – a melhor coisa que me aconteceu foi você. Só penso em você desde o dia em que nos conhecemos. Quando ficamos amigos, tive certeza do que queria. Eu já te achava impressionante, mas quando pude te conhecer melhor... Tudo mudou. Aí sim eu tive plena consciência sobre o que eu queria lutar se for preciso para conseguir: Você. Só você importa, Blair. Por isso eu voltei. Eu... eu só... Quero outra chance, entende?

— Eu... – fui interrompida com um nada previsto selinho de Sam. Eu queria parar, mas quando dei por mim, já estava acontecendo. Empurrei-o devagar, para não parecer grossa. – Sam, já disse: não quero um relacionamento agora... ta tudo complicado! – falei séria. Ele tentou chegar perto de novo, é claro. Mas não deixei. Empurrei-o novamente. Já disse, quando falo sério, eu estou falando sério. – Chega, Sam. Chega.

Ao virar-me vi uma ‘surpresa’ pronta. Logan! Ótimo. Sabe o que gostaria de dizer, depois de ver o cara que eu estou gostando, assistir eu beijar outro? Isso deletava 99,7% das minhas chances com ele. Isso se existisse chance, o que com minha falta de sorte, era bem improvável. Ele estava com os braços cruzados sob o abdômen. Se ele não tivesse olhos, poderia ficar ali olhando o dia inteiro, porque, apesar de estar irritado, ainda assim estava um gato. Que homem é esse?! Ele é surreal! – para com esse pensamento Blair. Pare!

Ignorei-o e segui em frente. O que eu menos queria agora era receber um sermão dele. Ou de qualquer pessoa. Sentei-me em uma rocha que vi a minha frente. Eu estava disposta a sentar até em um formigueiro. Poderia doer bem menos do que doía todas as coisas que tem me afetado, tanto fisicamente quanto emocionalmente. Coloquei as mãos ao rosto e encostei os cotovelos aos joelhos. Agora eu era bipolar. Tinha como ‘melhorar’?

— O que ta olhando? Você sempre faz isso? – revirei os olhos

Ele não riu. Isso era a coisa mais estranha que tinha acontecido entre todas as outras coisas que estavam circulando na minha vida. O fato dele não rir de mim,conseguira superar minha vida estar rodeada de fantasmas. Ao contrário. Ele estava irritado. Mas o que eu tinha feito?

— Tá, — comecei – o que é agora?

O silêncio prevaleceu. Ele se recostou nas pedras, ainda em pé, usando-as como apoio. E em seguida, falando:

— Se divertindo? – ele ainda não havia rido.

— Qual é Logan? – perguntei já irritada – Ele é só meu amigo.

— Uau. – ele respondeu – Deve ser bem íntimo, não? Já que sua língua quase entrava na boca dele. – esse comentário próprio, foi o que o fez realmente rir. Ele riu como se não houvesse amanhã

Passei a mão pelo cabelo. Ah vá. O cara não era meu dono. Quero dizer, ele é só um espírito, ou um guia. Seja lá qual sua função... ele não era meu pai. Ele não tinha o direito de me olhar daquele jeito. Espera aí, as pupilas dele estavam dilatadas? Isso sim é uma reação que não se espera de alguém como o Logan. Mas ele permaneceu forte. Ficou ali e simplesmente me encarou. Em seguida sentou ao meu lado, tocando meu rosto, com o toque mais suave e profundo que eu já sentira em toda a vida.

— A vida é sua. – ele murmurou – Não sou em quem tenho controle sobre ela. Peço desculpas. Só não quero que se distraia do que realmente é importante. Entende? – sinalizei um ‘sim’ com a cabeça – Blair, você recebeu um dom. Um dom raro, e concebido apenas aos que verdadeiramente merecem. Eu vejo em seus olhos, vejo em sua alma. Você sem dúvidas é a melhor pessoa para ele. Se eu não fosse seu guia, não seria mais de ninguém. Há um motivo para eu ter tanta fé em você.

Em seguida, ele desapareceu. Com um barulho de trovoada, uma chuva gigantesca começou. Recobri-me mais ainda com meu agasalho, correndo o mais rápido possível para chegar em casa. Estava escuro, as ruas alagadas, impedindo minha visão. Não via nada além de água. Muita água. A próxima coisa que eu vi? Algo se materializando em minha frente.

— Quem é você? – gritei

— Até ontem você sabia meu nome – sorriu a pessoa – amiguinha querida.

Revirei os olhos. Mas é claro.

— Julliet! – berrei ainda mais alto – Eu posso ajudá-la. Sabe disso. Preciso que me conte o que está te prendendo aqui. Apesar de tudo, você ainda é minha melhor amiga, e eu quero fazer o que é melhor pra você. – ela pareceu se comover, mas quando isso se trata da Julliet-pós-morte, você pode se enganar.

— Isso me deixa tão emocionada. – ela soltou um riso zoado – Já te disse o que tem que fazer para me ajudar, não é amiguinha? Mate-os

— Isso não é bom pra você! – falei para ela – Está querendo machucar pessoas. Vingança não é a melhor saída. Confie em mim. Eu nunca faria o mal para você.

— Nessas condições, — ela continuou – Não quero a sua ajuda!

— O quê quer de mim?! – perguntei – Sempre que nos vemos me ataca fisicamente ou com palavras. Quer me matar? – falei em um grito esganiçado – Faça o que tem de ser feito

— Com prazer, — falou ela – doce amiguinha.

Correndo contra mim, ela empurrou-me em cima do primeiro carro que aconteceu. Senti uma batida forte, e muita dor na cabeça. Literalmente, muita dor.

Depois? Não lembro-me de mais nada.

...

Ela vai ficar bem?- escutei alguém falar. Afinal, onde eu estava? Minhas pálpebras estavam pesadas, meus olhos doíam muito, além de eu não conseguir abri-los. O que estava acontecendo? Eu não conseguia me mover. Na verdade, nenhuma parte do corpo. Tudo doía. É como se eu tivesse perdido totalmente a mobilidade do meu corpo, mas sentisse muita dor. Ela receberá alta logo. Apenas mais alguns exames. - foi o que meus ouvidos puderam captar. Logo após se escuta outra frase: Ao ser atropelada, ela sofreu de uma forte batida no crânio. Um raio X pode confirmar se há algum traumatismo ou coálugo de sangue no cérebro. O vidro nos olhos não a deixou cega. Ele alcançou apenas as pálpebras. Ela deve ter alta logo. – pelo menos agora conseguira me lembrar de algo.

Meu corpo inteiro pesava. Tentei levantar os olhos mais uma vez, para espiar o que estava acontecendo, ou até mesmo onde eu estava. Eu tinha algumas hipóteses, é claro. Mas nada confirmado. Porém, a palavra ‘exames’ foi o suficiente para eu entender algumas coisas: Primeiramente, eu estava em um hospital. E em seguida, lembrei-me de Julliet me empurrando contra algo. Logo depois me ocorreu a minha dor de cabeça instantânea. Foi então que eu consegui entender, e até lembrar o que havia acontecido. Resumindo: Julliet havia me empurrando em cima de um carro, onde eu bati a cabeça, o que provavelmente deve tê-la rachado, pois lembro de muito sangue pelo chão antes de fechar os olhos. Hemorragia? Não vou exagerar, creio eu que não. Enfim, como alguém disse – e eu suspeito que seja o doutor – o vidro apenas alcançou minhas pálpebras e não as pupilas, o que deve explicar elas estarem pesadas.

Você tem que me ajudar, algo sussurrou. Gostaria de fingir que não o via, mas eu tinha recebido esse dom pra isso, não é mesmo? Simplesmente abri os lábios para falar algo, mas não consegui. Assim como as pálpebras, eles pesavam, saindo apenas um gruindo. Droga! Quando eu ia voltar ao normal? E cadê o Logan? Ele sempre é tão presente quando eu preciso, quando me sinto mal... Mas onde está agora? Agora que minha dor é física, e não emocional?

Eles ainda não tinham percebido que eu já havia acordado? Quer dizer, que tipo de pais são esses, que não prestam atenção na filha soltando um gemido? Porque foi o que saiu. Nenhuma palavra, apenas um gemido. E esse médico? Eu poderia ter infartado ali e ele não teria dito aos meus pais: ela morreu. Porque ele devia estar no mundo da lua, ou em qualquer acampamento de férias para crianças de oito anos de idade.

Sabe o que eu gostaria? Gostaria de não ter ganhado essa droga de dom. Gostaria de simplesmente ser deixada em paz pela minha ‘melhor amiga’ psicopata, e pela sua irmã. Gostaria de ser uma adolescente normal, trancada em um quarto, pintando as unhas, acabando com o limite do cartão de crédito dos seus pais, enquanto assiste televisão e se auto-castiga dizendo que está gorda o bastante para ser diagnosticada com obesidade. Mas não... eu não sou uma adolescente comum. Não vivo em um mundo muito feliz, onde todos são perfeitos, e me glorificam. Eu vivo em um mundo, onde todos tem pena da garota com a melhor amiga morta,que sofreu um acidente. E agora, pra completar, tem a vida repleta de espíritos. Obrigada.

Senti algo subir pelos meus braços, foi quando percebi que o médico tinha injetado algo em minhas veias. Um soro muito parecido, mas que com toda a certeza não era um boa-noite-Cinderela. Então, eu apaguei.

...

Acordei novamente. Pelo menos, é o que eu acho. Ainda não conseguia levantar os olhos, então ficava realmente difícil de saber. Meus lábios ainda estavam relativamente pesados, mas com certeza, mais confortáveis e flexíveis do que da última vez que tentei usá-los (poupe-me de sua mente poluída). Ainda escutava algumas vozes. Não do tipo ‘Oi, eu preciso de ajuda’, mas sim do tipo ‘ela vai ter de ser diagnosticada, e blábláblá’. Tudo o que eu mais queria naquele momento, era um edredom e um ar-condicionado. Nada poderia ser melhor do que isso. Bom, o ar-condicionado já estava incluso, quando se está em um hospital, e sim, isto foi um dos motivos que me deu certeza do local onde estava. O edredom estava sendo substituído por uma coberta confortável, porém, comparada a ele, muito vagabunda.

Me embrulhei um pouco mais na coberta, tentando movimentar meu corpo o máximo possível. Escutei a voz de meus pais, então tentei falar um pouco. Mas saiu apenas uma palavra, que com certeza deve tê-los deixado confuso:

— Logan!

Minha sorte é que eu estava de olhos fechados, isso me poupou dos olhares de “Quem é Logan?” dos meus pais. Devo chamar de sorte? Acho que eles preferiam ter ouvido Sam. Eles sempre o acharam o cara perfeito pra mim, apesar de eu saber que ele era um completo sacana. E a atitude dele hoje provou isso. Não por ele admitir o que sentia, até achei fofo, mas depois de eu dar uma rasteira nele, o cara simplesmente tentou me agarrar. De novo. Meu pai não ficaria muito contente em saber disso. O que certamente o faria admirar meu ‘amiguinho’ que eles nunca tinham conhecido. Isso porque eles não podem vê-lo.

Não pude ouvir muita coisa, já que o sono resolveu bater novamente. Mas afinal quando eu iria acordar? Parecia uma tortura sem fim. Senti uma mão me puxando e me colocando sentada... Seja lá no quê. Senti-me arrastada. E depois pega novamente para colocarem-me sentada de novo. Que diabos estavam fazendo? Quando eu abrisse os olhos, a primeira palavra seria um palavrão, e eu sei muito bem a quem iria me referir. Escutei um barulho meio estranho, um tanto desconhecido para mim, mas soava meio familiar. O que estava acontecendo afinal?

Apenas continuei do jeito que fui colocada. Com os olhos fechados. Eles continuariam assim por algum tempo, e eu realmente estava até gostando de ter esse tempo só pra mim. Estava precisando relaxar desse negócio de espíritos. Se bem que o espírito que disse ‘você precisa me ajudar’, com toda a certeza não me daria descanso. Não enquanto eu não resolvesse seu problema. E ainda tinha o da Julliet. A minha ‘doce’ amiga Julliet. ‘Mate-os’, foi o que ela me disse para fazer. Matar quem? Cara, essa garota ficou louca depois de morta. E eu achando que os vivos eram uns piores que os outros, agora vejo o contrário, certo? A maioria dos espíritos fica meio psicótico depois da morte. Ou será apenas os meio psicóticos quando vivos?

E tinha mais. Tinha a irmã da Julliet. Ela me mostrou um arranhão em seu corpo, mas consegui ver algumas cicatrizes, porque a blusa dela era totalmente transparente. Ela realmente me lembra bem da irmã. Da irmã depois de morta, claro. Quando Ju era viva, era simpática, divertida, amiga... e uma coisa que hoje faz falta: Sã. Ela com certeza tinha cabeça, se fosse viva simplesmente não viraria pra mim e mandaria eu matar alguém. Nem que esse alguém fosse a pior pessoa do mundo. Sinto falta dela. Eu até diria que se ela ainda estivesse viva, estaria aqui no hospital pra me ajudar. Mas se ela ainda tivesse o coração batendo, eu não teria vindo parar aqui, porque, para começar ela que me jogou contra um carro, certo?

Fui carregada novamente, mas consegui sentir algo acolchoado, que sem dúvidas, era a cama do hospital. Finalmente minha cabeça estava posta sobre algo macio novamente. Foram apenas alguns minutos, mas para quem tinha batido a cabeça bem forte, é extremamente doloroso ficar sem um travesseiro. Pode ser até mesmo algo extremamente perigoso. Eu nem sabia mais o que fazia, aqueles minutos tinham acabado com a minha cabeça.

Não sabia se ria, se chorava... Eu estava totalmente desnorteada. Me senti uma criança de três anos de idade procurando desesperadamente por seus pais. Nem lembro a última vez que senti-me assim, isto se alguma vez já tivesse me sentido desse jeito. Senti algo segurar forte minha mão e acariciá-la. Como eu gostaria de abrir os olhos e ver quem era. Seja lá quem fosse, estávamos sozinhos. Não escutava mais a voz de meus pais. Mas uma coisa foi certa, no momento em que esta pessoa tocou minha mão, me senti protegida. Foi o melhor momento que tive desde minha chegada ao hospital.

Cansada, me peguei caindo mais uma vez no sono.

...

Algo abriu meus olhos para examiná-los. O que eu vi? Luz. Só soltei mais um gemido. Quando consegui soltá-los, percebi que minhas pálpebras agora pouco pesavam e não doíam. Não tanto. Abri os olhos vagarosamente para olhar o ambiente em minha volta. A sala era bastante branca. A cama estava inclinada do jeito mais confortável possível, o que certamente deveria ter sido coisa de meus pais. Os lençóis eram brancos e confortáveis, apesar de finos e pouco calorosos, diferente de um edredom. O ar-condicionado estava posicionado na parede lateral, deixando-me extremamente confortável.

— Água? – foi a primeira coisa que disse ao olhar para a cara de meus pais. Eles sorriram para mim. Uma mulher um tanto desajeitada, vestindo uma camisa pólo azul, e uma calça folgada na mesma cor, veio com um copo de água.

Peguei-o, e enfiei o máximo de água que pude na boca. Com tanta água na boca tive de me controlar para não cuspi-lo quando ouvi uma voz dizer:

— Você tem que me ajudar.

Olhei para a criaturinha do meu lado. Era uma garota com cerca de uns sete anos de idade. Ela estava vestindo a camisola do hospital. Não tinha cabelo, nem sobrancelhas. Seu rosto estava inchado, assim como parecia seu corpo. Apenas a encarei.

— Eu posso te ajudar. – disse segura de mim mesma. Falei baixo o suficiente para nenhuma das pessoas do quarto me ouvi. Em seguida virei-me para meus pais e o médico: — Será que posso ficar sozinha um pouco? Estou meio tonta, gostaria de descansar. – eles assinalaram que sim com o polegar, e quando digo ‘eles’ quero dizer meu pai. Enfim, continuei — Mas para eu te ajudar, preciso da sua ajuda. Qual seu nome?

— Eu... eu não sei. – ela respondeu confusa.

— Do que se lembra? – disse eu, ignorando sua pergunta

Ela visualizou o local, ainda parecendo meio confusa. Ela realmente parecia bastante intrigada com o local, e não de uma forma boa. Com certeza ela morreu aqui, pensei. Em seguida, sua voz soou em um tom ainda mais confuso do que o anterior:

— Nada. – e então, ela desapareceu.

É, esse iria ser um longo caso. Contando que seria meu primeiro, porque vamos combinar, o da Julliet eu irei demorar bastante para resolver, já que ela se recusa a me dar qualquer tipo de ajuda. Diferentemente da garota, ela se lembrava de realmente tudo, mas ainda assim, ela queria só uma coisa: Vingança. Seu desejo de vingar-se era como um gordo com água na boca. Agora eu tinha que concentrar-me na garota que veio até mim pedindo ajuda. E afinal, eu estava em um hospital, uns quinhentos fantasmas ainda iriam aparecer, pedindo minha ajuda, o que não seria agradável, pois eu teria de dispensar muitos deles, sem nem ao menos atender seus pedidos. Espíritos são complexos de mais para deixar resolver uns sessenta casos por vez. Eu precisaria verificar o histórico dele. O que aconteceu antes, o que o levou á morte e mais algumas coisas.

Senti uma pontada na cabeça, levei minha mão até ela para tocá-la. No local da batida, estava inchado. Do tipo muito inchado. Era capaz de eu acordar com o galo da minha cabeça cantando no meio da noite. Por falar nisso, cadê a Julliet? E o Logan? Os dois não deveriam estar aqui? Um deveria estar dando um jeito de me levar de uma vez do mundo dos vivos, enquanto o outro jogava um Haduken muito sinistro pra impedir ele. Eu sei que isso foi puro mangar, mas é assim que acontecem as brigas entre Ju e Logan.

A minha cabeça pesava tanto... Isso sim que deveria estar me dando sono. Todas as vezes que eu sentira dor de cabeça, acabava adormecendo. Apenas fechei os olhos, não para dormir desta vez. Mas para me livrar do meu mundo espírito. A última coisa que eu gostaria de ver é uma criaturinha inexistente ao meu lado. Mas os sonhos acabam rápido.

— Fez um bom trabalho com o espírito da garotinha. – ele disse sorrindo para mim – Sabia que iria ser excelente.

— Mas Logan, — comecei – ela não me disse nada. Nome, idade, causa da morte... Não fiz nada de mais!

— Eles nunca façam de primeira. – falou sorrindo mais uma vez para mim. Em seguida se agachou no chão, ao lado da minha cama, e começou a alisar meu rosto – Você vai melhorar, e eu vou estar aqui do seu lado todo o tempo que precisar. – ele murmurou, alisando minha mão, e beijando-a delicadamente. Sorri para ele. Porque ele era tão gentil? E pra completar, um gato.

Sorri firme para ele. A mão dele ainda estava sobre a minha, e ele permanecia com seu olhar preocupado, que me deixava totalmente seduzida. Fechei os olhos novamente, e voltei a dormir. Tive apenas um sonho. Um sonho horrível, que eu preferia não ter tido nunca em minha vida.

Eu andava por um corredor. Chovia. E tentava escapar de algo. Meus cabelos estavam molhados, e eu coberta não de água, mas sim de suor. Ao escutar passos, corri instantaneamente. Estava completamente desnorteada. Eu me encontrava na escola. Armários por todos os lados, salas... Só não tinham realmente, os alunos. Onde estariam eles?

Ouvi mais passos do que planejara, corri para minha sala e tranquei-me. As luzes estavam apagadas, e eu procurava fugir do mundo. Ligando-as, todos os meus amigos reunidos em uma sala só. Como olhavam para mim? Com um olhar extremamente raivoso. Como se eu tivesse ferido um por um, e eles quisessem dar o troco. Seus olhares simplesmente demonstravam que eles queriam me torturar. Gritando o máximo que pude, eu resisti. Eles estendiam facas, armas, e qualquer outro tipo de objeto que possa machucar alguém.

Até mesmo meus melhores amigos. Eu não tinha ninguém. Tudo estava perdido. Eu estava perdida. Vi a morte na certa. Destranquei a porta rapidamente e saí correndo para o primeiro lugar que eu visse. Gritando, chorando, correndo, cheia de medo. Eu tropeçava em um caderno e caía no chão. Abri o caderno, procurando ajuda, procurando alguém que soubesse o que fazer. Uma lista simplesmente caiu em minha mão, onde estava escrito: LISTA DA MORTE. O primeiro e único nome escrito? O meu. Desesperada, corri para a diretoria. Gritando o máximo o nome da única pessoa que poderia me ajudar: Logan. Olhei para trás e vi a diretora da escola encarando-me.

— Diretora... Eu... – comecei, mas fui interrompida por um breve:

— Precisa da minha ajuda? – ela perguntou-me

— Sim.

Ela correu até mim, tirando uma grande espada de seu bolso. Seus olhos foram tomados pela cor vermelha, apavorando-me. Seu rosto foi usurpado por uma expressão demoníaca. Em apenas alguns segundos, a amável diretora havia desaparecido, e em seu lugar, restava apenas sombra e escuridão. Seu rosto já não era mais o seu. Com a face risonha, macabra, e ameaçadora, ela disse-me:

— Não adianta se esconder. Nem em seus sonhos, nem na realidade. Eu te encontrarei no lugar exato, na hora exata. Porque sei onde procurar.

E então, com estas palavras, enfiou a espada em meu coração.

Acordei. Gritando de dor, via a espada no mesmo lugar do sonho, eu gritava, gemia. A espada estava ali, de verdade. O sangue descia correndo de meu seio. Logan veio correndo ver o que era. Perguntou-me:

— O que aconteceu? – ele perguntou – O que está vendo?

Foi então que percebi que só eu via a espada. Que era como uma visão. Gemendo de dor ainda, sussurrei:

— Um pesadelo. Se tornando realidade.


Notas finais
Sabe... eu finalmente amei um capítulo rs'. Deixem reviews, please (=
Feliz Natal *-----------*