Perículo
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Esse sonho foi diferente dos outros.
Havia uma garota. Ela estava revoltada, tinha acabado de ter uma enorme discussão com os pais. Chovia muito, nem ao menos almoçou direito, podia sentir a sensação de seu estômago vazio. Mal voltou de sua escola e a bomba já se espalhou, brigas familiares sempre a deixavam triste. A calçada era imunda, lixo jogado para todos os cantos, lama e outros tipos de porcaria espalhados pela mesma.
Um carro preto dava a ré após passar, parando diretamente em sua frente. No início, recusou a entrada, até que viu alguém familiar dentro. Não só para ela, mas para mim também. O rosto não foi demonstrado, mas pude ver o cabelo. Era uma mulher de cabelos cacheados e bagunçados ruivos, com a pele clara ao extremo e algumas sardas no braço, mas com um belo corpo.
A menina aceitara o convite. Aconchegou-se no banco do fundo, junto à senhora, que tentou distrai-la por todo o caminho, as duas conversaram, riram e a mulher deu conselhos a mesma sobre sua família, como tinha de lidar com eles. Parecia uma ótima maneira fazê-los entender o seu ponto de vista, conversar numa boa, algo que realmente ela estaria disposta a tentar.
No banco da frente havia dois homens, altos e gordos. Não eram malhados ou no mínimo pesados, eles eram realmente gordos. Não falaram nada durante o caminho, mas provocaram a desconfiança da garota. Estacionaram. Era um lugar completamente desconhecido, deserto e com muita grama ao redor. Havia apenas uma casa, velha e empoeirada. Os homens carregaram a menina para dentro da garagem, enquanto ela se contorcia e tentava desviar dos braços deles, mas eram fortes de mais para ela.
A última coisa que pude ouvir foram pedidos de socorro, a garagem estava se fechando. Quando a porta finalmente bateu ao chão, pude ouvir um último grito de desespero.
...
Logan me sacudia como um desesperado. Podia escutá-lo murmurar o meu nome. Abri os olhos, ainda doloridos.
- Você está bem? – perguntou preocupado.
Não. Eu não estava bem. Foi assustador. Sei que pode parecer besta, mas foi tão desesperador, a garota soava e gritava, ela tentava fugir mas não conseguia. E aqueles cabelos... eu reconhecia. Eu sabia de onde eram. Mas não me recordava. Não queria deixá-lo ainda mais aflito do que já parecia estar, então, me restou mentir.
- Claro. – falei rindo falsamente – Sempre estou, certo?
- Eu só fiquei preocupado, não queria que algo ruim te acontecesse. – cruzou os braços – Tem algo que você queira me contar? Sobre o sonho? Isso ajudaria muito.
- Nada.
- Blair, não minta pra mim. – falou em um tom suave e forte ao mesmo tempo
- Eu só não quero lembrar do sonho, tá legal? – comecei – Olha, não foi nada legal, eu to ainda meio que me recuperando, mas irei te contar em breve.
Logan revirou os olhos. Será possível que eu tinha que esperar por respostas mas ele não podia aguardar pelas minhas? Por que ele tem mais direitos que eu?
- Me chame quando resolveu me contar. – e então desmaterializou-se.
- Merda. – minha vontade real era de xingar algo mais profundo e intenso, mas eu sou uma dama, e provavelmente, o Logan era o vagabundo.
Só sei que neste exato momento não queria visitas nem ao menos de meus pais. Ajeitei o meu cabelo e olhei para a porta. Tinha alguém parado ali. Em pé. Parecia mais um adulto em miniatura. Tinha os olhos castanhos e usava algo como uma camisola. O cabelo estava cortado pouco acima do casco, quase completamente retirado.
— O que foi?
Aquela pergunta pareceu ofender ainda mais a garotinha. Ela abaixou a cabeça e vi lágrimas em seus olhos, seguidas por um beicinho. Era uma menininha com cerca de uns nove anos ou por aí. Ela era magra e baixa, e pra falar a verdade, bastante pálida.
- Eu... – ela tentou falar algo, mas estava choramingando de mais.
- Você. – falei – Foi você quem tinha vindo me procurar um mês atrás? Eu disse que podia te ajudar, você fugiu. – ela se encolheu para traz da porta, com vergonha, não me levantei porque estava fraca de mais para este tipo de coisa. – Se acalme. Eu não vou te machucar. Na verdade, quero te ajudar, no momento, sou uma das únicas que pode.
A garota levantou um pouco mais a cabeça, mas ainda olhava para o chão. Chamei-a para perto, tentando fazer com que fosse com a minha cara. Não era exatamente assim que eu imaginava estar cuidando de meu primeiro caso, quero dizer, eu estava com a cabeça quebrada e roxa pelo corpo. Além de tudo, estava com um dos olhos inchados, então eu estava mais parecida com o Edward mãos de tesourado que com uma pessoa normal – não que eu fosse, porque, pra começar, eu vejo fantasmas, tenho uma melhor amiga morta que quer me matar, e um guia que enfiaria o mundo em um buraco pra eu não descobrir nada -.
- Do que se lembra? – disse tentando manter a calma – Nada do tipo... Sua mãe? Seu pai? Irmãos? Nem do próprio nome?
- Não. – respondeu por fim, mas continuou. – Eu só me lembro de algo como, bem... Flash.
Eu poderia socar a cara dela. Flash? Ela queria que eu decifrasse isso? Ah, claro, alguém tirou uma foto minha e eu morri. Porque isso faz muito sentido.
- E como quer que eu te ajude? Não lembra nem do nome do próprio cachorro.
- Não sou obrigada a lembrar.
E então ela sumiu. Revoltadinha. Quantas visitas emocionantes eu iria receber hoje? Cadê o médico para nos deixar grogue no momento em que precisamos urgentemente dele? Eu queria ir para casa, deitar em meu colchão de água e desabafar com o Haroldo, que era meu ursinho de pelúcia. Sim, eu tinha quinze anos e um ursinho de pelúcia, qual o seu problema com isso? Era um leão muito fofo e gordo, e quando eu era menor, costumava o chamar de “filho”.
Eu ainda cantava para ele antes de dormir, e sim, ele me servia de proteção de noite: Se eu ouvisse algum barulho, sejam espíritos, ladrões, sequestradores ou tarados, era só eu jogar o Haroldo em cima deles. Também sentia falta dos Teletubbies, e aí? Mas pelo menos eu me lembrava da minha infância. Gente lerda não.
E como se não bastasse toda a minha cabeça sendo amassada como se eu estivesse nos jogos mortais, ainda me aparece mais alguém para atazanar a minha existência: Sam.
- Oi.
- Não está muito feliz em me ver, hein? – ele riu.
- Não é isso. – respondi. – Só estou com sono.
Ele ficou parado. Qual era a dele? Me deu um fora alguns meses atrás, e agora, quer dar uma de namorado do ano? Nem pensar, alguma coisa tinha de errado. Mas o que eu podia fazer? Mandá-lo vazar que não, minha mãe iria me daria uma surra quando eu chegasse em casa, dizendo que ele foi muito legal comigo e que eu fui uma grossa e dei um chute na bunda dele com mais força do que uma bola acerta minha cara.
- Se quiser eu posso sair. – disse ele. – Ou ficar aqui até você dormir.
Nessa mesma hora, algo se materializou do meu lado.
- Ou ele pode vazar. – sussurrou Logan.
Meu Deus. Ali estavam os dois, um parado de cada lado. Sam não podia ver Logan, mas Logan podia vê-lo, e isso era suficiente pra ficar sério. Ele não tinha simpatizado com a cara de Sam desde o começo.
- E então vai querer que eu vá embora? – perguntou Sam.
- Sim. – respondeu Logan. Ele se virou pra mim. – Por que ele tá aqui mesmo?
- Veio me fazer uma visita. – disse me referindo a Logan.
- Sim. – respondeu Sam.
Eu realmente não sei quem estava mais incomodado: Sam achava que eu queria que ele vazasse. Eu não fazia a mínima ideia de a qual dos dois eu deveria dar atenção. E Logan, bem, não gostava do fato de eu estar tentando dar atenção aos dois.
- Você pode esperar um pouco Sam? – perguntei – Já chamo você. – sorri falsamente, e em seguida me virei com o mesmo sorriso falso para Logan. – O que foi agora?
É, ele estava de braços cruzados. Isso é um péssimo sinal.
- Nada ué. – falou revirando os olhos – Só estou olhando se você tá fazendo algo de útil. Vai que a Julliet ou outro maníaco assassino aparece aqui. Pode ser um tarado também, sei lá.
Revirei os olhos. Véi, na boa... Qual era agora? Não sabia se era eu ou ele se estava cada vez mais surtado.
- Logan, — pronunciei baixo, mas meu tom de voz foi aumentando – dá pra vazar?
Ele parecia que não estava entendendo. Piscou e olhou pra mim novamente.
- Como?
- Vaza, ué. – respondi.
Ele abaixou a cabeça, seu rosto ficou inexpressível por um bom tempo, era como se algo tivesse levado sua brincadeira embora. Ele se apoiou na parede, olhou pra mim com um olhar triste, e respondeu finalmente:
- Se é assim que você quer.
Então, se desmaterializou como da última vez. Mas a única diferença agora era que desta vez, eu havia pedido. Chamei Sam, que andou em direção à meu quarto com um sorriso no rosto.
- E então? – ele riu – Vai querer ficar sozinha de novo?
- Não. – respondi fechando os olhos – Quero que fique comigo.
Sam sentou-se na cadeira que ficava na beirada da cama e sorriu para mim, tocando a minha mão. Tentei sorrir, mas, bem, não estava muito disposta, estava cansada e com os olhos pesados. Ele havia tentado me beijar, eu sei. Também sei que eu não deveria ter dado um fora no cara um mês atrás e agora estar aqui, praticamente cedendo.
Não sou aquele tipo de garota fácil, mas eu queria companhia, eu estava trancada ali por um mês. E, além disso, não podia ficar igual uma maluca falando só com um fantasma no meu quarto de hospital. Eu precisava ver as pessoas vivas também. E vamos admitir, Logan me irritou com as piadinhas dele.
- Faz tanto tempo que não converso com você... – disse fraco – Quero dizer, não no mês passado, aquilo foi algo tão... Inútil. Eu tinha tanta coisa pra falar pra você, tentei te beijar, mas não devia ter te pego de surpresa. Desculpe.
- Não foi nada. – eu sorri – Mas eu não entendi nada. Você foi embora. E depois volta do nada e quer voltar a ser meu amigo, como antes?
- Não foi por querer. – ele ficou sério – Eu tive de ir embora. Mas voltei por você. Quero você de volta... – ele tentou se corrigir – Sua amizade, é claro.
Tirei minha mão de cima da dele.
- Então, — comecei – veio aqui, do nada, dizendo pra mim que quer minha amizade de volta, que agora vamos nos reaproximar, e que promete não errar de novo? Errar é humano, claro, mas eu quero dizer, promete não cometer o mesmo erro de novo? E espera que eu acredite nisso? Sam, eu sou sincera, você sabe. Não tem mais a minha confiança como antigamente.
Sam respirou fundo. Ele afastou sua mão ainda mais da minha, mas continuou a olhar para mim, com uma cara de “eu não fiz nada, mas só porque você acha que eu fiz eu vou dizer que sim, tá?”. Eu não sou uma pessoa cruel. Eu sou uma pessoa extremamente gentil pra falar a verdade, mas não estava com paciência, nem mesmo para Sam, um cara que aguentou os meus discursos idiotas o ano passado inteiro.
E também não estava ligando pra nada. Nem minha mãe sabia do que estava acontecendo ultimamente, e eu e ela sempre fomos tão próximas... Mas nem ela seria insensata suficientemente para entender o que estava acontecendo no momento, ou até mesmo para tentar acreditar.
- Não foi o que eu quis dizer. – ele gaguejou – Eu senti sua falta, Blair. E não foi pouca. Então implorei pra minha mãe me deixar voltar, e tentei falar com você antes, mas... Não tive coragem, soube da morte da Julliet, e com tudo que aconteceu entre a gente ano passado achava que você não iria querer falar comigo tão cedo, principalmente depois dela.
- Então essa é sua justificativa? – eu já estava totalmente de saco cheio. Mas gostava do fato de estar ali com Sam, então não queria estragar tudo e mandar o cara embora tendo um surto com a minha cara. – Você era meu melhor amigo, devia ter me apoiado assim que voltou. Achou que eu iria querer ficar sozinha depois de minha melhor amiga ter morrido?
Foi então que eu olhei pela porta de vidro do hospital. Espera um pouco, aquele era o Logan parado na frente da porta conversando com alguém? Hã? Mas eu achei que só eu podia... Ah que se dane.
- Desculpa então. – disse ele
- Está desculpado. – respondi, sugando o ar que ainda restava em meus pulmões.
Agora Logan estava de costas, era tão estranho... Não conseguia me acostumar com o fato de outra pessoa estar conversando com ele. Quero dizer, ele era meu. Meu guia, claro. Mas do mesmo jeito era meu, certo? Não deveria estar por aí falando com qualquer pessoa que aparecesse.
Sam soltou uma risadinha, e eu não consegui entender o por que. Talvez por causa da minha cara de idiota enquanto olhava pra fora, ou talvez porque eu estivesse muito concentrada nas pernas do Logan naquela calça rasgada, estavam extremamente lin... Estranhas. Eu quis dizer estranhas tá legal? Ele passou a mão nos cabelos, e que cabelos, hein?
- O que você tanto olha lá fora? – respondeu Sam sorrindo
- Eu? Não estou olhando... – estava ficando zonza de tantas perguntas e respostas – Nada ué. O que teria pra eu olhar? A balconista? Isso é sua especialidade, não minha.
Ele riu.
- Você está trancada aqui há um tempão, não quer fazer nada de interessante?
- Tipo o que? – respondi sorrindo.
- Hã... Jogar. – ele falou com um tom lesado – É isso! Vamos jogar. Que tal... Nosso preferido? – disse ele no meio de um sorriso.
Cruzei os braços. Aceitava ou não? Sim, era só um jogo, não iriam sair monstros no meio do meu quarto de hospital ou algo do tipo. Eu sabia que ele só estava querendo ser legal comigo, estava tentando me animar, e também reatar a amizade.
- Você não tem as coisas do jogo. – falei, e em seguida Sam retirou uma garrafa de dentro da mochila, tampada – Não! Você planejou tudo. Assim não é válido. Não se pode colocar coisas alcoólicas dentro de um paciente, sabe?
- Vamos fingir que você é minha paciente.
Ele sorriu de um jeito safado, mas ao mesmo tempo fofo. Bom, tanto faz. Ele me pediu pra começar.
- Então... Verdade ou desafio? – perguntei a ele, ainda risonha. Ele gesticulou um desafio com a boca, sem emitir som algum. – Te desafio a ir até o balcão, chamar a recepcionista pra sala de limpeza e depois pedir o telefone dela.
Sam colocou a mão nos olhos, rindo envergonhado.
- O que eu não faço por uma paciente. – disse bebendo um gole de vodka – Principalmente aquelas que merecem meu tratamento especial.
Ele andou até a porta, abrindo-a e saindo em direção ao balcão, onde estava uma garota loira com um coque alto segurado por um lacinho preto. Logan deu um passo pra trás e o fuzilou com o olhar, olhando diretamente pra mim depois e abaixando a cabeça. Sam se pendurou no balcão, sorrindo galantemente para a recepcionista. Ela não pareceu se convencer assim tão fácil, mas ele enrolou um pouco, deu um grito que pude ouvir de longe:
- Meus Deuses! Tem um paciente caído na sala do zelador.
Ela correu até lá, enquanto ele virou-se e piscou pra mim. Eu explodi em risos, nem mesmo o olhar de Logan poderia me fazer parar de rir daquele jeito, por mais triste que pudesse ser. Parecia um cachorrinho dizendo “me deixa entrar”.
A porta do zelador ainda estava fechada, o que me fazia pensar que ou a menina poderia estar matando Sam, ou ele poderia estar com as mãos na menina. Nenhum barulho, pelo menos eu sabia que havia mais uma “alma” pura no mundo. Ele voltou com um pano nas mãos e com a expressão divertida.
- Ela jogou isso na sua cara? – perguntei
- Só depois de anotar o telefone.
Agora era minha vez, e Sam não seria muito piedoso comigo. Ele adoraria me desafiar a algo pior do que eu fizera pra ele. Mas quem sabe ele não fosse uma pessoa generosa e decidisse pegar leve hoje.
- Eu vou dizer logo o que eu escolho. – respondi – Vou ser alguém bom que irá te dar a oportunidade de me fazer passar vergonha. Desafio.
- Hum... – ele ainda estava pensando – Quero que você pegue essa garrafa de Vodka, suba no balcão, jogue ela com vidro e tudo na cara do paciente mais próximo.
- Só isso? – eu realmente esperava algo mais desafiador.
- Claro que não. – ele sorriu maliciosamente – Antes de atacar um paciente com a garrafa, quero que rebole em cima dela e sente na cabeça da recepcionista.
- Pode deixar doutor. – respondi, saindo do quarto ainda com a camisola do hospital.
Finalmente eu tinha levantado durante todo esse tempo, podia sentir o gelo em meus pés e a utilidade em poder fazer algo sozinha de novo. Eu faria tudo com tranquilidade, mas sentar na cara da recepcionista? Não era um pouco de exagero? Eu sou uma garota normal, não daquelas que ficaria do tipo, ah, será que ela vai gostar da minha bunda? Mas enfim, eu tinha que fazer isto, ele levou a garota pra sala do zelador com a desculpa mais esfarrapada que eu já vi, devia isto a ele, certo?
Apesar de ser divertido, tudo tem um lado ruim – além é claro, de ter que enfiar sua bunda na cara das pessoas -, Logan estava apoiado no balcão, um braço segurava o peso do seu corpo e o outro passava a mão pelos seus cabelos. A propósito, os bíceps dele pareciam que tinha malhado desde que nasceu.
Senti um de seus braços passando pela minha cintura e me virando.
- Sentiu muito minha falta? – ele murmurou
Sim, falou meu subconsciente. Não, falou a minha consciência. Preferi não responder, esses barracos na minha cabeça estavam me deixando confusa.
- Agora não vai mais falar comigo? – disse Logan, olhando dentro de meus olhos.
- Eu estou meio ocupada no momento, — respondi tentando ser fria, mas aquele olhar... Não conseguia me concentrar em ser má. – eu tenho que continuar. Sam não pode achar que eu sou louca, estou no meio de um jogo, não dá pra parar do nada pra conversar com o ar.
- Ah, claro. Ele. – o seu tom de voz agora era desanimador – Eu sou o ar agora, sério?
Eu tirei o braço dele de minha cintura.
- Sinto muito dizer isso, — respondi – mas você é sim. Tecnicamente não é feito de matéria. Agora, licença.
Virei às costas e fui andando com a garrafa na mão. Ele ficou parado por um bom tempo, mas veio me seguindo depois. Um pouco do líquido da garrafa caiu no chão. Logan me virou novamente e perguntou:
- Isso aí é vodka? – assenti – Então é isso que ele faz. Em vez de estar cuidando de você, está te deixando bêbada.
Revirei os olhos. Tomei um gole grande só para irritá-lo ainda mais.
- Eu disse que estava no meio de um jogo. – repeti – Se você me der licença, Sr. Oxigênio, preciso ir em frente.
Subi em cima do balcão devagar. Todos começaram a olhar pra minha cara. O desafio de Sam poderia ter sido mais safado, mas não era tão comprometedor. Flertar com alguém é algo normal comparado à subir em um balcão, dançar e beber vodka. Coloquei a garrafa em cima do balcão, embaixo de mim. Comecei a rebolar, eu não estava bêbada, ok? Ainda não.
- O que você está fazendo? – Logan perguntou confuso – Tudo bem, eu posso ser o ar, mas pelo menos não sou um maluco bêbado. – falou indo se sentar.
Joguei-me em cima da cara da mulher da recepção e taquei a garrafa no ar, que foi quebrada em mil pedacinhos ao pousar delicadamente na cabeça de um idoso com baba no queixo. A mulher do balcão levantou-se assustada e me empurrou, caí de bunda no chão – para melhorar a situação, já que a cara dela também não era tão macia -.
Fui andando como quem não tivesse feito nada, mas algo me puxou.
- Quando ele fizer algo que te irrite, — disse Logan baixo – eu estarei aqui fora.
Fingi que não ouvi e voltei para o quarto, de onde deu pra perceber que ele ainda estava olhando pra mim. Mas desta vez, havia outro olhar também, o de Sam, que me puxou, e me fez cair em seu colo.
- Ah não.
- Eu apenas estou cuidando direito de minha paciente – falou me segurando. Ele chegou perto, mas eu me afastei um pouco.
- Ainda não estou bêbada suficiente pra isso. – respondi.
Deitei no colchão novamente. Era muita cara de pau mesmo, tentar um jogo pra me agarrar. Só não iria parar porque estava ficando divertido. Eu disse estava não é?
- Sinto falta disso. – ouvi uma voz – Não pare. Eu não vou incomodar, ué. Não tínhamos tantos segredos assim, Blair.
Merda. E agora? Como eu iria chamar alguém de vadia sem parecer que eu estava me referindo ao próprio Sam? Logan levantou da cadeira de onde estava sentado e ficou parado a porta, só esperando o próximo ataque de Julliet para entrar.
- Sam, você pode... – perguntei – Pegar um suco pra mim? É lá em baixo, primeiro andar. – ele assentiu – Obrigada.
Quando ele abriu a porta para descer, Logan sussurrou:
- Bem-vindo ao clube.
Não tinha tempo para visualizar a face risonha de Logan, então simplesmente olhei para Julliet, ainda que não fosse uma paisagem melhor do que os olhos do cara da porta. Lá estava ela, com a mesma roupa de um mês atrás, já havia sentado no colchão, dando um tapinha de leve no lugar ao lado do seu, me indicando para ir.
- Então, — falou sorrindo – vai me contar se você e Sam voltaram? – Hã? Agora ela é minha amiga? Qual era o problema dessa alma, afinal? Começo a achar que a vida após a morte não faz muito bem para o raciocínio. Ela me jogou na frente de um carro. Não me jogou na frente de um poodle ou algo do tipo, foi na frente de um carro. Ela sabia disso, não é?
- Eu...
- Vai me dizer que voltou? – ela estava cada vez mais entusiasmada – Ah, Meu Deus! Então isto é um sim? – parecia de queixo caído, tão fulminante quando ouviu algo que era mentira quanto quando ainda estava viva. Não via este brilho nos olhos de Julliet há muito tempo – E enquanto ao garotão ali? – falou apontando para Logan – Está disponível? Já que agora você está com Sam e ele livre não tem problema, tem? – e eu boiava cada vez mais, até entender sobre o que ela estava falando e ficar séria – Ah, qual é! Não vai levar a sério né? Eu só estava zoando.
Ela havia entrado em algum tipo de máquina-do-esquecimento-para-fantasmas? Se é que existisse. Pela primeira vez, nesses dois meses de morte, Julliet estava tentando ser legal. E estava conseguindo. Eu ainda não conseguia entender. Quer dizer, a garota parecia querer me jogar de um penhasco e agora vem com essa história de “Como você cresceu! Venha cá me contar quem você ta pegando, melhor amiga!”.
A expressão divertida continuava em seu rosto, como se ela continuasse viva. Como se ela nunca tivesse morrido. Logan me encarou, parecendo tão confuso quanto eu. Dei de ombros, o que o fez continuar observando, como se um animal estivesse à espreita, apenas esperando para me atacar.
- Você está bem? – perguntei – Julliet, um mês atrás você queria me matar. Me jogou em cima de um carro, e você sabe que a intenção era que ele me esmagasse.
- Essa batida na cabeça deve ter afetado algum ponto importante em seu cérebro. – ela riu – Ah, qual é! Como viveria sem minha melhor amiga?
- Hã... Tipo... – comecei – Lamento te mandar a real, Ju: Você não vive!
Isso era realmente sério? Julliet estava realmente ali, voltando a se divertir comigo e sendo minha melhor amiga? Meu cérebro parecia girar com tantas informações estranhas de uma vez só em minha cabeça, e de algum modo eu sabia que o meu não era o único.
Logan também não conseguia digerir o fato de que a minha ex melhor amiga – ou melhor amiga novamente, e a garota que havia tentado me assassinar – tinha ficado alegre, gentil e saltitante de uma hora para a outra. Apesar de Sam ter perdido minha confiança por ter me deixado, Julliet sempre me fazia pensar o melhor dela, de um modo que eu não conseguia parar de perdoar ela por mais que me desse todos os motivos do mundo para me fazer odiá-la.
- Desculpe, então. – disse ela encolhendo os ombros. Ela colocou a mão em meus cabelos e começou a alisa–los. – Ficaria linda com o cabelo curto.
Cabelo curto? Eu sempre detestei que meu cabelo ficasse curto. Simplesmente era... Impossível. Eu nunca cortaria o meu cabelo, nem que me pagassem todo o dinheiro de Eike Batista ou se fosse uma sugestão da própria Katy Perry. Não iria rolar, ela ficaria sonhando até ir para o purgatório, inferno ou céu, ou seja lá onde fossem parar as almas saltitantes depois de mortas. Espera aí, eu acabei de pensar no Logan saltitando? Tenho que parar com essas coisas...
– Você sabe que eu iria odiar. – reclamei.
– É eu sei. Mas eu não.
Sam voltou com o suco na mão. Agora eu teria de arrumar outra desculpa, e ela com certeza não seria “Ah, você pode dar licença pra eu conversar com a alma penada aqui do meu lado? Obrigada, você é um lindo” – não que ele não fosse né, mas só seria estranho. Só acho –.
– Já? – disse Logan revirando os olhos – Vira folha, isso é que é ser membro do clube.
– Hã... Obrigada.
Julliet olhou para Sam como se ainda estivesse viva. Ela sempre o achou lindo, mas, bem, ela tinha namorado, e por falar nele, havia sumido. Tentei questionar ela sobre ele, mas Sam estava ali, não daria muito certo. Neste mesmo momento chegou mais alguém no quarto. A questão é, agora sim eu não poderia falar, ou meus pais iriam me achar louca.
– Blair, o que você pensa que estava fazendo? – perguntou meu pai – Pular no colo de uma recepcionista é meio exagero não acha? Disseram que o senhor em que você quebrou sua “garrafinha” de brinquedo entrou em choque. Como você me explica isso?
Espera aí, eu tinha uma explicação para isso... É eu tinha. Espere aí, eu tinha não é? Tentei ser razoavelmente sensata.
– Hã... – comecei – Foi a... Quero dizer, foi o... – Sam, pensei. – Analgésico. Foi isso mesmo, acho que o médico colocou alguma coisa no soro... Tipo aqueles remédios do dentista, sabe?
Minha mãe era a única que parecia não acreditar. Mas então eu enrolei mais um pouco. Pontos para mim. Quando eles se viraram, Sam piscou.
– Você já pode ir para casa. – falou minha mãe – Vai querer uma cadeira de rodas?
– Mãe! – gritei – Qual é!
Minha mãe enfiou todas as coisas que tinha levado para o hospital de volta em uma bolsa grande e lilás. Enquanto isso, Julliet cutucava as máquinas do hospital e Sam sentava do meu lado. Logan, bem... Estava agindo como... Logan. Parado na porta esperando os indesejáveis saírem para poder entrar em cena.
Coloquei um vestido verde e uma sandália aberta de salto alto. Prendi os meus cabelos em um rabo de cavalo alto e saí do quarto. Finalmente eu iria poder ver algo que não fossem velhos cuspindo no chão ou algo do tipo. Sam veio me seguindo. Minha mãe olhou para ele de baixo para cima.
– Vai ficar aqui? – perguntou – Ou vai com a gente?
– Se não tiver problema. –– em seguida ele se virou para mim e sussurrou: – Minha paciente precisa de cuidados particulares.
– Sua paciente precisa de distância. Tipo... Um ou dois quilômetros se possível. – respondeu Logan como se Sam o ouvisse. – Eu tive uma idéia! E se você fosse na China comprar uns remédios? Ouvi dizer que lá tem uns comprimidos ótimos e tal...
– Ah vá. – disse para Logan.
– Tá falando comigo? – respondeu Sam.
– Não. Estava pensando alto.
Ele deu um sorriso brincalhão e continuou me seguindo. Do outro lado estava Logan, e Julliet... Eu realmente não sabia onde estava. A garotinha apareceu novamente. Parei na frente dela, Sam me olhou.
– Você não vem?
Mandei-o ir à frente. Logan ficou do lado dela esperando alguma reação.
– Resolveu lembrar de algo? – perguntei revirando os olhos
– Sim. – ela falou baixo – Meu nome.
Logan ajoelhou na frente dela para ficar com sua altura. Ele sorriu para ela, então a garotinha sorriu de volta. Em seguida ele perguntou:
– E então, vai nos dizer seu nome?
Ela assentiu.
– Jamie.
Logan sorriu para ela novamente. Só eu que não conseguia me dar bem com as crianças? Não é isso, quero dizer, eu me dava bem com algumas crianças às vezes, mas não com o “Jamie”.
– Só se lembra disso? – perguntei – Nada de sobrenomes? Nadinha?
– Eu tinha uma irmão. – respondeu Jamie – O nome dele era Gregory.
E em seguida ela desapareceu. Entrei no elevador. Não eram as duas informações mais importantes que haviam no mundo, mas eram o suficiente para começar.
– Relaxa, – falou Logan – vamos descobrir o resto. – ele sorriu
Evitei falar.
– Você não vai mesmo continuar me ignorando, vai?
A voz dele era profunda. E os olhos eram simplesmente... Eu não sei descrever, só vendo pra saber o quanto diziam. Eu estava num elevador com ele, não poderia ignora–lo para sempre.
– Eu sei que vamos descobrir, tá? – respondi.
– Obrigada. – falou
– Pelo quê? – perguntei.
– Fazer pelo menos minha voz sóbria de novo. – ele sorriu
[...]
No carro foi tudo meio... Tenso. Sem palavras, gestos ou qualquer tipo de movimento. Apenas olhares. O meu problema, é que tinha algo do tipo cinco olhares, todos em minha direção, incluindo meu pai, que desviava a visão da estrada direto pra mim. Minha mãe fingia não estar me observando, mas fingia olhar para o retrovisor enquanto estava olhando a mim.
Essa história de coisas notórias acabou assim que cheguei em casa. Sam levou minhas malas para cima, enquanto Logan o acompanhava – mesmo sem seu concentimento-. Minha mãe me abraçou e me deixou no quarto, sorrindo e deixando a porta encostada. Sam fechou a porta e sentou-se em um puff.
- E então... – falou colocando os dois braços atrás da nuca – Quer o diagnóstico ainda? – sorriu maliciosamente. Logan sentou-se no puff ao lado dele.
- Acho que meu doutor teve uma grande influência em minha melhora. – comentei.
Sam ficou inexpressível e logo em seguida fez beicinho.
- Acha mesmo? – tentou uma cara triste – Pensava que tinha certeza.
Ele jogou-se para trás do puff e sorriu pra mim. Fez uma expressão safada.
- Que tal se sentar aqui? – ele esticou a mão para dar batidinhas no puff, mas iriam pegar no colo de Logan
- Hã... se eu fosse você não tocaria aí – protestei. Ele sussurrou um “por quê” – Acredite em mim, você realmente não vai querer por sua mão aí.
Logan me encarou com uma cara meio tensa.
- Esse cara tá me estranhando ou o quê?
Sam encolheu a mão, ainda me estranhando. Provavelmente estava achando que eu sou louca, mas não o culpo. Quem iria achar normal uma garota que não deixa caras encostarem dedos em puffs vazios?
- Você tem algum problema com o puff? – ele riu
- Meu nome é Logan. Muito obrigado. – resmungou o ser morto ao lado dele, olhando para os pés.
Fiquei muda. Não sabia o que dizer, como iria dar uma explicação racional pra o cara? “Ah, é que tem um cara morto e com abdômen definido sentado do seu lado. A não ser que você seja o Rick Martin, não vai gostar de colocar suas mãos onde não deve”. Acho que isso ficou coerente, certo? Não. Não ficou. Sam puxou meu braço para seu lado do puff, rindo.
- Ai. – Logan soltou um sussurro.
Sam aproximou seu acento. Sorriu para mim e ajeitou uma mecha de meus cabelos com o dedo. Sorriu olhando diretamente nos meus olhos, um sorriso tímido. Dei um sorriso extremamente forçado, mais que qualquer outro. Tinha um cara que estava, literalmente, embaixo de mim, e o outro se aproximando cada vez mais de meu rosto.
Garotas normais estariam aproveitando este momento silencioso para estarem se esfregando em Sam. Mas acontece que garotas normais não poderiam ver que estavam sentadas em cima de um fantasma alto, musculoso e gostosão. E estar beijando um sentado no colo do outro não me parecia uma boa opção.
Sam se aproximava cada vez mais de meu rosto, mas eu estava desconfortável de mais em cima de Logan para prestar atenção em suas ações.
- Você pode... – tentei argumentar, mas fui interrompida por uma voz grossa, e claro, inconfundível.
- Não vou sair daqui, se é isto que está pensando. — falou Logan. Ele estava conseguindo me deixar irritada. Fiz uma cara que assustaria até mesmo minha mãe, que costumava me achar linda e não ter medo de nada. Mas não ele, que apenas se justificou – O quê? Eu cheguei primeiro.
Levantei-me. Sinto muito às esperanças de Sam, mas realmente não estava um clima muito legal pra isso. Não agora. Mas ele não sabia. Tive de arrumar uma desculpa rápida e descente o suficiente pra ele não me achar uma completa retardada.
- Acho que já está na hora de você ir, Sam. Seus olhos negros me encararam, como se quisesse ficar mais um pouco. Mas eu estava cansada de mais para flertar, mesmo que ali fosse o Ian Somehalder.
Levantou-se, beijou minha bochecha, e segurou meu rosto com as duas mãos, aproximando a boca de meu ouvido:
- Nos vemos amanhã à noite.
- Mas... o que vamos fazer à noite? – perguntei confusa. Ah por favor né, o cara chega falando uma coisa dessas em meu ouvido e ainda querem que eu tenha pensamentos puros. Simplesmente não dá!
Ele riu.
— Te pego às 19h
Com as mãos nos bolsos, desceu as escadas em passos leves. Fechei a porta. Nem eu imaginava o quão cansada estava, parecia que tinha sido enterrada em tijolos – ou em três Logans vivos, que eu tenho certeza que não pesavam menos -. E por falar nele, o sujeito jogou-se em minha cama, rindo safadamente e aprofundando aqueles olhos claros nos meus.
- Enfim sós... – sorriu maliciosamente.
Quando o conheci, poderia jurar que ele era um pouco menos safado. Tudo bem que ele já chegou só de casaco e sem nenhuma camisa, mas sei lá, ele parecia ser mais para santo... Agora eu tenho total certeza de que fui completamente enganada pelas aparências. Mas será que ele era tão evoluído assim quando ainda era vivo?
- Aham. Eu e minha cama.
Fez cara de ofendido.
- Está me expulsando?
Sentei ao lado de seus pés. Ele tinha sido ótimo para mim, apesar do pouco tempo. Me ajudou a guiar os espíritos, é um grande amigo, e por mais que eu odeie admitir, as piadas dele são sacanamente engraçadas.
- Obrigada. – falei baixo – Mesmo.
Logan sorriu para mim ironicamente, lá vem.
- Pelo quê? Por deitar em sua cama?
- Idiota! – disse rindo e dando um tapa em seu ombro – Você sabe muito bem o por quê.
Ele levantou-se e colocou os braços em minha volta, me abraçando. Alisou os fios vagarosamente, sua voz estava fraca e ele suspirava.
- Eu tenho que cuidar de você, pequena. – pude sentir um sorriso abafado vindo de seu rosto – É o meu dever.
Suas palavras eram tão precisas. Logan parecia tão seguro ao dizê-las, o que me passava certa confiança e calmaria. Seus braços se desenrolaram de meus ombros e uma de suas mãos foi até a minha bochecha. Aqueles olhos cor-de-mar pareciam colados aos meus mesmo com quilômetros de distância.
- Eu sei me cuidar sozinha. – murmurei
- Eu sei cuidar de você. – Logan sorriu fraco.
Abracei-o novamente, encostando minha cabeça em seu abdômen. Era diferente. Simplesmente diferente. Eu costumava abraçar todos os meus amigos, mas estar ali, com ele era tão estranho... Talvez pelo fato de não sentir seu calor ou o sangue pulsando nas veias. Havia uma pergunta que não queria calar, e eu precisava ser direta, era o momento perfeito.
- Logan, como era? Quer dizer, como você era vivo? – meu comentário fez ele rir.
- Do mesmo jeito que você me vê hoje, — respondeu enfim – apenas uma diferença.
- O coração batendo. – completei.
Ele assentiu. Não era a resposta certa, quer dizer, não a completa. Mas eu estava sonolenta de mais para atormentá-lo com minhas perguntas. Logan quebrou o silêncio novamente.
- Ainda o tenho aqui.
- O quê? – perguntei, ainda sem entender.
- Meu coração, — falou ofegante – ele apenas se cansou de bater.
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