Personalidades Perdidas
3 Digressio
Quando recobrou a consciência, uma forte luz branca encandeava os olhos semi-cerrados de Diana. Ao mesmo tempo que tentava abri-los, analisava a situação em que se encontrava naquele momento. O fluxo de ideias passando pela cabeça chegava a doer e ela não conseguia se lembrar perfeitamente de como havia parado ali.
Partiu para a alternativa de examinar aquele local que ela estava. Era um hospital. Além da desconfortável cama em que se encontrava, haviam duas cortinas de PVC, servindo de separadores entre os leitos da enfermaria, e um soro que se encontrava no apoiador e que estava sendo injetado por via venal. Havia também um criado mudo com algumas flores coloridas, mas, excetuando isso, tudo que estava ao redor dela era branco, excetuando o piso que era ladrilhado com uma alternância estranha de azul-bebê e um cinza claro.
Tudo isso só poderia significar apenas uma coisa: ela estava sob observação médica e toda sua inaptidão para sequer levantar da cama indicava que ela estava dopada com alguma medicação.
Sem muitas forças para fazer qualquer coisa, suas mãos se encontraram com um controle deixado na cama e ela apertou um botão para chamar a equipe médica. O barulho feito ao apertar tal botão soava familiar, ela já o tinha escutado bastante vezes sempre que ia a um hospital.
Não se sabe quanto tempo passou até que alguém fosse verificá-la. Entre o pouco tempo acordada e suas dormidas no hospital, Diana finalmente consegue ver alguém trocando o soro e cada pedaço de seu corpo se reúne para fazer uma única pergunta:
– Que... dia é hoje?
– Quinta-feira, senhorita — responde a enfermeira.
Quinta-feira. Isso indicava que ela já estava ali há pelo menos três dias. Conseguia lembrar que havia ido ao Instituto de Física na segunda-feira, que havia assistido uma aula na universidade, mas a razão de ter desfalecido ainda não era muito clara em sua cabeça.
Ela se lembrava ainda que estava com a Lara... mas cadê ela, afinal? Sem se importar muito graças ao efeito das drogas atuando em seu corpo, Diana voltou a dormir novamente.
***
Na outra vez que Diana recobrou a consciência, havia uma pessoa sentada ao seu lado. Seu chefe direto não estava usando aquelas excentricidades as quais ela estava acostumada, mas como se fosse uma pessoa normal. Suas vestimentas eram casuais e tratavam apenas de uma calça jeans, camisa pólo e um tênis preto. As feições e as rugas presentes nele estavam mais acentuadas que nunca, e havia um clima cansativo ao redor dele. O Bill, a qual ela tanto admirava, estava agindo apenas como uma pessoa normal.
A cadeira que ele estava era de uma madeira rústica, mas bem chique com vários fios de palha na cabeceira dela, e provavelmente tão desconfortável quanto a cama de Diana. Não que o hospital fosse ruim ou pobre, muito pelo contrário, mas toda aquela infraestrutura era proposital para os pacientes em estado de choque.
Ela não acha que havia dormido muito. Talvez ainda fosse o mesmo dia desde a última vez que acordou.
– Então... vejo que finalmente acordou, não é? — o visitante comentou com uma fraca voz, fitando-a com aqueles olhos verdes — Acho que temos bastante assunto para conversar.
Só então notou que havia uma enfermeira por perto e esta retirava a agulha do soro de seu braço. A única coisa que se conseguia ver eram os olhos da mesma, já que todo o rosto estava coberto por uma máscara de proteção contra doenças infecciosas. Diana, ainda zonza de ter despertado há apenas alguns minutos, tentou sentar e viu a metade superior da cama acompanhar o corpo dela para conseguir apoiar as costas decentemente. Diminuiu a respiração buscando ainda mais tranquilidade, botando lentamente a cabeça em ordem novamente, até que decidiu ouvir o que Bill iria falar antes.
– Pois bem, senhor, o que gostaria de conversar? — falou, tentando imprimir a maior naturalidade possível em cada palavra.
– Então... Apesar de muito desejar isso, não estou aqui como seu "amigo", mas sim como seu chefe, então serei direto: até onde você se lembra antes de estar aqui?
– Bom, a última coisa que me vem a cabeça foi quando me separei da Lara. Minha cabeça fica enevoada logo após isso.
– Pois bem, você foi encontrada desmaiada próximo a alguns corpos e bastante manchada de sangue. Graças a isso, a divisão da Polícia Federal que está envolvida no caso te considera como a principal suspeita. Você terá que prestar depoimento logo após sair daqui e ficará sob acompanhamento por algum tempo durante seu trabalho no Instituto. Entretanto, acho que esse não seja o maior problema aqui. Além disso...
Ele parou de falar e respirou fundo, mas Diana já tinha um pressentimento do que viria a seguir.
– Lamento muito informar que a Srta. Fujibayashi, que você acompanhava mais cedo antes do meu chamado para ir verificar, foi uma das vítimas em questão.
Era o que tinha pressentido. Aquela amiga não deixaria Diana sozinha no hospital por nenhum momento, mas ela sempre sentiu que deveria haver um motivo para aquela ausência. Tentou não acreditar no que ouvia, mas Bill continuou sem cerimônia.
– O corpo dessa garota foi encontrado em uma lata de lixo a algumas centenas de metros próximo de onde você estava. Como um ex-médico militar, examinei pessoalmente o corpo porque conheço a garota e o pai dela era um antigo conhecido meu. Acho que não preciso dizer como estava a situação dela para não te chocar, porém o que foi feito está além da nossa medicina de nosso tempo. A mãe e os avós da menina decidiram por bem para transferir o corpo ao Japão neste sábado para que ela descanse em paz na sua terra de nascença.
A boca de Diana estava totalmente seca, sem palavras, tentou forçar algumas palavras.
– Sábado? Este sábado? — foi o que conseguiu falar, em um tom meio rouco.
Toda aquela enxurrada de informações era demais para ela, e o baque do aviso da morte de Lara havia sido demasiadamente forte. Além disso, ela, como sendo a principal suspeita da morte de sua melhor amiga! A pessoa que não tinha nada a ver com a tudo isso e que cansou de botar o que tinha no estômago para fora diversas vezes por causa desse caso estava sendo considerada suspeita! Aquilo era algo ridículo!
– Diana... Tudo ficará um pouco mais complicado para você nos próximos dias. O médico de plantão responsável por você aqui te liberará em uma ou duas horas, tudo que peço é que você pegue um táxi e siga direto para casa e vá à Polícia Federal o mais cedo possível amanhã e tente evitar problemas. Até.
Bill não esperou por uma resposta. Apenas se levantou e foi embora sem sequer olhar para trás de relance. Mesmo sendo uma pessoa tendo boas conexões em todo o país, ainda existiam, e sempre iriam existir, situações que estavam bem além de qualquer poder dele.
***
Uma rápida olhada no relógio indicava que já era pouco mais que quatro da tarde daquela quinta-feira ensolarada.
Com a alta médica em mãos, começou a se preparar para ir embora. Não haviam muitos pertences a serem recolhidos senão as poucas mudas de roupas que alguém havia trazido de seu apartamento. Conversando com a equipe médica presente, percebeu que estava no Hospital Santa Trindade. Assim, pôde mentalmente visualizar a rota que faria para casa: estava no centro da cidade e o trajeto de volta não seria tão longo. Sem cerimônias, apenas fez o caminho de saída do hospital. Tudo estava sendo pago pelo Instituto Internacional de Física e o médico receitou apenas alguns anti-depressivos e tranquilizantes que já estavam na mão dela.
Apesar das salas de observação médica serem propositalmente desconfortáveis para os pacientes, o saguão de entrada e os corredores eram luxuosos e pomposos ao extremo com grandes tapetes se estendendo de um lado a outro, luminárias enormes colocadas em várias regiões, em estilo retrô, e várias árvores sintéticas com mármore fino para decorar o local e fazer bancadas.
A fachada do Santa Helena, que ficava de frente à Avenida Hermes da Fonseca, que possuia um enorme fluxo de pessoas todos os dias, lembrava uma espécie de Partenon moderno com Igrejas da Idade Média, com um grande número de colunas bem detalhadas com alto relevo apontando para cima e fazendo com que o expectador se sinta ainda menor.
A estação de metrô parecia mais interessante que um táxi. Os trens andavam por levitação magnética, o que fazia com que fossem bem mais rápidos devido à ausência do atrito com o chão. Mas algumas coisas nunca mudavam: sempre havia o aviso para se ter cuidado com o espaço entre o vão e a plataforma, que quase sempre se tornava um problema em horários de pico.
Entre a estação que ela se encontrava e a da casa de Diana (estação "Lagoa Nova") haviam umas 5 estações, o que daria uns 15 minutos de viagem. Comprou o bilhete e logo entrou em um vagão no primeiro trem que parou. Dentro, tudo era branco, excetuando as poltronas que eram cinza e dispostas nas mais diversas posições, tanto no sentido que o trem ia quanto perpendicular (ou mesmo inverso) a ele. Ela se sentou na poltrona e encostou a cabeça no vidro, tentando não pensar nada.
Chegou em casa, a louça da segunda-feira ainda estava lá, intocada. As portas dos guarda-roupas estavam abertos, provavelmente foram deixados assim pela pessoa que foi ao apartamento dela.
Tomou um banho. Há quanto tempo ela não fazia isso? Enxugou-se e, ainda despida, simplesmente se deitou na cama e fechou os olhos. Alguns minutos depois, despertou com uma mensagem no celular.
"10:00, aeroporto". E voltou a dormir.
***
***
De táxi, ela havia chegado ao Terminal 4 do Aeroporto Internacional de São Gonçalo do Amarante, onde o corpo daquela que era sua amiga ia ser mandado à Osaka, no Japão e, sem delongas, seguiu direto para o pátio dos aviões, onde haviam pouco mais de 20 pessoas. O aeroporto possuía um belo piso granítico e várias divisórias de vidro com vista para o pátio externo. Pessoas de todas as partes do mundo iam e vinham o tempo inteiro. Na fila para o embarque, ela viu que várias estavam com roupas escuras, principalmente de preto, e a maioria também usava óculos escuros. Seguiu-as, sabendo onde iria parar.
O céu da região naquele horário estava cinzento e nublado. Haviam alguns poucos respingos de chuva e, pomposamente, todos abriram seus guarda-chuvas diante do imenso avião da All Nippon Airways, com voo direto para Osaka.
Ali, o silêncio reinava exceto pelos sons dos carros que haviam acabado de chegar. O motorista do primeiro carro saiu e abriu a porta traseira para dar passagem à uma mulher corpulenta, visivelmente arrasada com os acontecimentos, que saiu de lá. O segundo carro, do modelo picape trazia o caixão de mogno claro na parte de trás, e todo ao redor estava coberto de orquídeas, tulipas e rosas. De certa forma, elas remetiam à vividez de Lara e isso fazia com que Diana sentisse ainda mais a falta dela.
Chegando perto do caixão, Diana viu o rosto de Lara. Imaginou que devido ao estado do corpo, optaram por deixar somente a face visível.
Naquele dia nublado que não choveu, e mesmo protegido por um guarda-chuva, o rosto de Diana estava molhado.
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