Personalidades Perdidas
4 Editio
Em um sonho de verão, era uma tarde como qualquer outra. A garota estava em seu quarto, e o único som que ela escutava era o que vinha do piano que tocava.
Não. Aquilo não era só o que ela escutava. Era o que ela sentia também, onde seus dedos deslizavam por todas aquelas teclas. Naquela mansão, não havia muito que fazer, e o piano era a única coisa que restava para entreter a garota.
Aquele local ao qual ela estava era enorme, e isso o fazia parecer vazio. Não importava se lá tinha uma grande cama, um guarda-roupa de fazer inveja a qualquer garota: a garota sempre sentia que faltava algo nele.
Ainda quando pequena, contaram-na de uma emoção chamada tristeza, que era desconhecida a ela simplesmente porque isolavam-na do mundo. Diziam que era perigoso ou algo parecido, e que ela, como única descendente mulher — a princesinha da família — não deveria sofrer, se é que ela entende o que é isso.
Perdida em seus pensamentos, a garota continua a tocar incessantemente.
– É uma bela melodia, essa.– disse uma voz desconhecida.
A garota assustou-se por não saber à quem tal voz pertencia, mas aparentava ser de um garoto da mesma idade que ela. E ao olhar, confirmou que de fato era.
Em um local totalmente de portas fechadas, ele entrou pela janela.
"O que fazer?", perguntou-se. Não tinha qualquer interesse nele, mas ele provavelmente não sentia o mesmo em relação a ela. De certa forma, aquele som tocou o coração dele.
– Como você entrou aqui? — perguntou, já sabendo a resposta.
– Pela janela, oras — respondeu friamente enquanto não parava de fitá-la.
Analisou-o secamente. Ele aparentava (e de fato era) ser mais baixo do que a garota. Um cabelo ligeiramente cacheado e rebelde, mas curto. Roupas simples, o que indicava que o menino provavelmente era de alguma família não tão rica quanto a minha. Mas tudo isso não significava nada para uma pessoa que não sabia separar o bem do mal.
– Poderia voltar a tocar? -ele perguntou repentinamente.
Com um olhar estranho, a garota virou-se para o piano e voltou a tocar. Quando acabou aquela peça, ele não estava mais lá.
Desde aquele dia, por todas as tardes, o mesmo garoto sempre foi à casa da garota. Não trocavam palavras: ele apenas sentava perto da parede e ouvia o som do piano. Isso se repetiu por dias e mais dias, ao ponto que a garota não precisava mais vê-lo. Bastava apenas sentir que ele estava lá, e isso, por si só, já bastava.
– Por que você gosta de ouvir minha música? -perguntou inocentemente certa vez.
– É a melodia de um passarinho preso numa gaiola.– foi a resposta.
"Um passarinho preso em uma gaiola?", pensou. Era uma forma bem estranha de responder uma pergunta, e ela não tinha nem ideia do que ele quis dizer. Era ingênua, não sabia o que existia no mundo fora de sua janela. E assim, ela apenas considerava que ele estava lá por gostar, e ambos adoravam isso.
Até que um dia, ele parou de ir lá. Nunca falou nada, simplesmente parou.
Por ter passado a vida sempre sozinha, aquela garota não conhecia a solidão.
Até que seu primeiro amor a deixou.
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