Perseus

3 II - ECOS DE TEMPESTADE


O ar ainda cheirava a sal e trovão quando Annabeth atravessou os portões do Acampamento Meio-Sangue. A areia da praia estava encharcada, e os galhos do carvalho onde o Velocino de Ouro repousava ainda tremiam, como se a própria natureza temesse o que acabara de acontecer. O céu, antes pintado de azul, agora era um amontoado de nuvens densas, iluminadas por relâmpagos que dançavam sobre o mar como serpentes de fogo.

Ela se sentou sob a árvore, tentando retomar a leitura do livro de arquitetura antiga. As letras em inglês dançavam na página, como sempre faziam. Para uma filha de Atena, a dislexia era um fardo irônico — o cérebro programado para o grego antigo se revoltava contra o alfabeto moderno. Ainda assim, ela insistia. Projetar, estudar, compreender... eram formas de manter o controle quando o mundo dos deuses se tornava imprevisível.

Mas algo no ar mudou. O vento que antes era apenas uma brisa se transformou em uma corrente violenta. Annabeth ergueu os olhos do livro, e seu coração gelou. O horizonte do mar começava a girar, primeiro devagar, depois com força devastadora. Um ciclone. E não um comum. O som era grave, quase consciente — uma fúria viva.

— Não... — sussurrou, levantando-se de um salto.

O ar cheirava a ozônio e sal, uma mistura antiga, primitiva. Ela sabia o que aquilo significava. Nenhum mal podia atravessar as barreiras do Acampamento... exceto aquele que vinha do próprio deus que as moldara. A fúria de Poseidon atravessava fronteiras como um deus atravessa mares.

Annabeth recuou alguns passos, mas não tirou os olhos da tempestade. O vento a empurrava para trás, mas ela continuava ali, petrificada entre o medo e a curiosidade — filha da sabedoria, mas refém da dúvida.

— Annabeth! — A voz cortou o vento como um trovão humano.

Thalia corria em sua direção, a capa preta chicoteando sob a chuva. Os cabelos escuros colados à pele, os olhos elétricos faiscando, literalmente.

— Perdeu o juízo, filha de Atena? Vai ficar aqui pra dar boas-vindas ao fim do mundo?

Annabeth piscou, ainda paralisada.

— Eu só... — tentou dizer algo, mas o som do ciclone engoliu suas palavras.

Thalia bufou, ajeitando a jaqueta encharcada.

— Só estava pensando? É, claro. A melhor hora pra refletir é quando um deus está prestes a demolir o acampamento.

Annabeth sorriu, cansada. O tipo de sorriso que se faz quando o caos é inevitável.

— Háháhá. Muito engraçado, Thalia Grace.

— Eu tô falando sério. — Thalia lançou um olhar para o mar, e sua expressão endureceu. — Isso não é natural.

Elas correram juntas até o Chalé Um, o chalé de Zeus, empurradas pelo vento. O interior estava escuro, iluminado apenas por relâmpagos que atravessavam as frestas das janelas. O som das ondas batendo parecia uma sinfonia de guerra.

O chalé era um reflexo de Thalia: caótico, poderoso e contraditório. Pôsteres de bandas antigas cobriam as paredes — Green Day, Ramones, Kansas — e, no centro, uma estátua colossal de Zeus, moldada em mármore branco, observava tudo com olhar julgador.

— Você dorme sob a vigilância do seu pai — murmurou Annabeth, tentando distrair-se. — Isso explica muita coisa.

Thalia riu com sarcasmo, mas o riso morreu rápido. Ela olhava pela janela, os olhos presos à escuridão do mar.

— Hoje está pior — disse. — Parece que tem algo... mais.

Annabeth assentiu em silêncio. A cada trovão, o chão vibrava.

Sabia do que Thalia falava. O mundo inteiro sabia. Havia oito anos que o céu e o mar estavam em guerra. Poseidon contra Zeus. O motivo — um filho morto, uma profecia antiga, e a arrogância de um rei dos deuses que acreditava poder controlar o destino.

A guerra dos três grandes dividira não apenas os deuses, mas também seus filhos. Os semideuses eram as peças de um tabuleiro que eles não haviam escolhido jogar. Cada missão, cada morte, era uma consequência dessa disputa.

Annabeth olhou para fora. O ciclone rugia mais forte, mas agora havia uma clareza assustadora: o olho da tempestade apontava diretamente para o chalé de Zeus.

— Ele não... — murmurou.

— Vai destruir o próprio templo? — completou Thalia, tensa. — Sim, parece que vai.

Um trovão ecoou tão forte que o vidro das janelas trincou. Quando a tempestade finalmente cessou, o silêncio que se seguiu foi pior. O vento parou, e tudo o que restou foi o som do coração batendo rápido.

Elas saíram. O acampamento estava irreconhecível. Chalés destruídos, bandeiras rasgadas, o campo de morangos devastado. Filhos de Apolo corriam com tochas, ajudando os feridos. Filhos de Hefesto tentavam apagar incêndios. E no meio de tudo, apenas um chalé permanecia intacto — o de Poseidon.

Os olhares se cruzavam em silêncio. Ninguém ousava falar, mas a raiva era palpável.

Que Zeus amaldiçoe Poseidon, pensavam todos.

Annabeth se virou para Thalia, que observava o próprio chalé destruído com um misto de raiva e medo.

— Você acha que ele vai atrás de mim? — perguntou, a voz falhando pela primeira vez.

Annabeth a observou. Era estranho ver Thalia, sempre tão firme, tão... humana.

— Seu pai te protege — começou com cuidado.

— Protege? — riu, amarga. — Você viu isso? Ele me protegeu? Ele jogou um raio em direção ao meu chalé, Annie. Se não fosse o ciclone...

— Ele protege o equilíbrio — tentou dizer, mas Thalia já desviava o olhar.

— Ele protege os brinquedos dele. Nós. — As palavras saíram carregadas de ódio.

Annabeth ficou em silêncio. Não podia negar. Zeus usava os filhos como soldados, como símbolos de poder. A guerra dos deuses não poupava nem o sangue dos próprios.

Um som de cascos se aproximou. Malcolm, seu meio-irmão, chegou ofegante.

— Annabeth! Reunião... Casa Grande... agora!

Thalia arqueou as sobrancelhas.

— É sobre o tornado?

— Mais do que isso. — Ele limpou o suor da testa. — Quíron parece perturbado. E o Sr. D... bom, ele está irritado. Mais do que o normal.

Elas se entreolharam e correram.

A Casa Grande estava tomada por murmúrios e medo. Quando atravessaram a varanda, viram os semideuses ajoelhados. Annabeth parou bruscamente, o coração acelerando.

Na entrada, um homem — não, um deus — observava em silêncio.

Poseidon.

Sua presença era uma força em si mesma. O ar pareceu se tornar líquido. As luzes das tochas tremularam, e o chão pareceu vibrar sob seus pés.

Alto, cabelos negros como a noite, olhos verdes que lembravam o fundo de um oceano em tempestade. Vestia uma armadura grega que parecia feita de água solidificada, ondulando suavemente, viva. Cada passo que dava parecia ecoar o som distante das ondas.

Silena, filha de Afrodite, mal conseguia respirar. Sua expressão era de puro encantamento. Quíron, ao contrário, parecia inquieto — um sorriso forçado nos lábios e a tensão evidente no olhar.

Poseidon olhou para cada um dos presentes, como se pudesse ler suas almas. Quando seus olhos encontraram os de Thalia, o ar pareceu congelar. O mar e o céu se encararam, silenciosos, como dois predadores prestes a atacar. Pequenas faíscas de eletricidade começaram a percorrer o corpo da filha de Zeus.

Annabeth segurou o punho da amiga discretamente, tentando lembrá-la de respirar.

Então a porta se abriu bruscamente.

— Ora, Poseidon — disse o Sr. D, entrando desajeitado, os cabelos desgrenhados — não precisa assustar meus campistas.

O silêncio que se seguiu foi quase palpável.

Poseidon virou-se lentamente, e o olhar que lançou faria até monstros ancestrais recuarem. Dionísio engoliu em seco e recuou um passo, murmurando algo sobre “deuses temperamentais”.

— Não me venha com brincadeiras, Dionísio — disse Poseidon, a voz grave, profunda, ressoando como o eco de uma concha. — Não estou aqui por prazer. Vim propor algo... a você e aos seus campistas.

Todos se entreolharam. A palavra “propor” vinda de um deus em guerra parecia absurda.

Dionísio hesitou, mas se aproximou da mesa, sentando-se ao lado de Quíron. O centauro parecia pronto para sair correndo.

Poseidon então olhou na direção de Annabeth, e por um instante, seus olhos se suavizaram. Era um olhar distante, nostálgico — como o de quem vê um fantasma familiar.

Annabeth sentiu o rosto corar. Ele podia ler seus pensamentos. Todos sabiam que deuses liam mentes, mas sentir isso era como ser despida diante de uma tempestade.

— Para uma filha de Atena, você ainda é tola, criança — disse Poseidon com frieza. — Acredita que esta guerra é apenas por orgulho?

Um trovão soou ao longe. Thalia se enrijeceu.

— A morte de cada semideus não é apenas culpa minha — continuou Poseidon, a voz firme. — É culpa dele. Do brinquedo preferido de Zeus.

Clarisse bufou, e o som ecoou como um trovão de carne e osso. Mas antes que pudesse reagir, Quíron interveio.

— Senhor... — começou, cauteloso. — Se há chance de paz, suponho que ela tenha um preço.

Poseidon o fitou por um longo momento e depois assentiu.

— Boas palavras, velho amigo. Há, de fato, um preço. — Ele se levantou lentamente. — Quero que encontrem alguém para mim.

Um murmúrio percorreu a sala.

— E quem seria esse alguém? — perguntou Annabeth antes que pudesse se conter.

Os olhos verdes recaíram sobre ela, e o mundo pareceu silenciar.

— Meu filho.

O choque foi imediato. Vozes sussurraram, incredulidade, medo, esperança. Outro filho de Poseidon? Não podia ser.

Quíron, tentando manter a calma, inclinou-se levemente.

— Meu senhor, então a criança ainda deve ser pequena...

Poseidon soltou uma risada amarga, como o rugido distante do mar.

— Pequena? Não, Quíron. — Sua expressão endureceu. — Até pouco tempo, pensei tê-lo perdido para sempre.

O silêncio caiu pesado. Até o vento pareceu hesitar.

— E quem é ele? — perguntou o centauro, com voz quase trêmula.

Poseidon percorreu a sala com o olhar e, por um instante, parou em Thalia. O ar se encheu de tensão.

— Aquele que Zeus tentou matar.

As palavras ecoaram como um trovão. Annabeth sentiu o coração bater forte. Thalia empalideceu. Quíron baixou a cabeça, em respeito ou medo.

E foi nesse instante que Annabeth percebeu: aquela guerra não havia terminado. O que se erguia agora não era apenas a fúria dos deuses — era o prelúdio de algo maior, uma tempestade que não se aplacaria com trégua alguma.

Lá fora, o mar rugia. E, em algum lugar entre o céu e a terra, o destino começava a despertar.