Perseus
4 III - UM FILHO PERDIDO
Thalia, filha de Zeus, mantinha o maxilar tenso. O orgulho era uma muralha entre ela e o medo, mas naquele momento, mesmo as muralhas tremiam. Estar ajoelhada diante do maior inimigo de seu pai era o tipo de humilhação que corroía até os deuses.
Quando ela e Annabeth atravessaram as portas da Casa Grande, o ar mudou. Não foi apenas o frio que se ergueu do chão — era a sensação de atravessar uma fronteira invisível, onde o ar se tornava pesado e as paredes pareciam respirar poder divino. Um eco de trovões e marés se misturava ali, como se o próprio Olimpo os observasse em silêncio.
O salão estava mergulhado em penumbra, e o som distante da tempestade fazia as janelas tremerem. O cheiro de madeira úmida e vinho antigo pairava no ar. Sentado à mesa de pinho polido, Poseidon irradiava uma presença quase impossível de suportar. Sua armadura reluzia em tons de verde e turquesa, movendo-se como ondas sob luz líquida — uma extensão viva do oceano. Cada movimento seu fazia o chão vibrar.
Os semideuses mal respiravam. O único som era o estalar leve das tochas queimando nas paredes. Silena, filha de Afrodite, parecia hipnotizada. Seus olhos brilhavam como se contemplassem o próprio ideal de beleza — e, de certo modo, era exatamente isso. Poseidon não era apenas o deus dos mares; era o reflexo da força primordial da natureza, a beleza bruta e implacável que podia encantar e destruir ao mesmo tempo.
Annabeth, em silêncio, observava cada detalhe. A postura de Quíron — sempre sábio, agora inquieto — denunciava um receio que nem séculos de vida podiam disfarçar. O centauro forçava um sorriso, mas seus olhos revelavam o peso da preocupação. Mesmo Dionísio, sempre entediado e displicente, não estava presente ainda.
A presença de Poseidon era uma ferida aberta. Nenhum dos semideuses ali jamais vira um deus em carne e osso — e muito menos um dos Três Grandes. Era tanto uma honra quanto um presságio.
Quando Thalia se sentou ao lado de Annabeth, faíscas azuis escapavam de seus dedos. A raiva e o medo se misturavam dentro dela como uma tempestade prestes a explodir. O simples olhar de Poseidon bastava para deixá-la paralisada, o corpo inteiro em tensão.
Então, sem aviso, as portas se abriram com um estrondo.
Dionísio entrou, desajeitado e com os cabelos arroxeados despenteados como se tivesse travado uma batalha com um vinhedo inteiro. O deus bufou alto, atraindo olhares de espanto e alívio.
— Ora, Poseidon, não precisa assustar meus campistas desse jeito — disse Dionísio, com uma ironia cansada.
Annabeth mal acreditava no que ouvia. O tom do deus do vinho parecia quase... protetor.
— Vamos, não faça alarde — continuou ele, até que o olhar gélido de Poseidon o silenciou.
O ar se condensou. Até o fogo nas tochas pareceu diminuir. O coração de todos afundou — se até Dionísio se calava, era porque o perigo ali era real.
— Não me venha com isso, Dionísio — respondeu Poseidon, com uma voz grave como o fundo do mar. — Não vim até aqui por prazer. Vim propor algo a você... e a seus campistas.
Um murmúrio se espalhou pelo salão. Propor algo? O deus dos mares, senhor de exércitos ciclópicos e tempestades, falando em proposta? Até Dionísio pareceu hesitar antes de se sentar ao lado de Quíron, que observava tudo com cautela.
Poseidon fixou o olhar em Annabeth, e ela sentiu a mente congelar. A intensidade daquele olhar era quase física, como se ele pudesse atravessar sua alma. Por um instante, o semblante do deus se suavizou — uma sombra de melancolia passou por seu rosto, quase humana, mas desapareceu rápido como espuma sob a maré.
— Então, qual seria essa proposta, meu caro tio? — perguntou Dionísio, tentando disfarçar o nervosismo.
Poseidon o fitou por um longo momento antes de responder, cada palavra soando como o rugido distante de uma tempestade prestes a nascer:
— Essa guerra pode acabar hoje... dependendo da sua resposta.
O silêncio que se seguiu era quase tangível. Alguns semideuses se entreolharam com esperança contida — Will, filho de Apolo, e Pollux, filho do próprio Dionísio, pareciam enxergar uma chance de paz. Outros, como Clarisse, filha de Ares, e Charles Beckendorf, filho de Hefesto, cerraram os punhos, tomados por fúria e incredulidade.
Poseidon, o mesmo deus que havia arrastado o mundo para uma guerra de oito anos por um filho morto, agora falava em paz. Assim, simples. Como se as vidas perdidas — as fogueiras erguidas para cada semideus caído — fossem nada mais que ondas que vinham e iam.
Annabeth pensou isso por um instante… e então sentiu um arrepio correr-lhe a espinha. O olhar de Poseidon se fixou nela novamente. Ele a havia ouvido.
— Para uma filha de Atena, ainda é muito tola, criança — disse ele, e sua voz soou mais afiada que o aço. — A morte de cada semideus não é apenas culpa minha… mas de vocês. Os brinquedos preferidos dele.
A palavra “dele” caiu como um trovão não dito. Zeus.
Thalia respirou fundo, lutando contra o impulso de se levantar. O ar ao redor dela faiscava — um aviso do poder que lutava para escapar. Clarisse murmurou algo entre os dentes, e Quíron interveio antes que o caos se instalasse.
— Senhor Poseidon — começou o centauro, a voz serena apesar da tensão. — Suponho que toda paz exija um preço, não é?
O deus dos mares o encarou e, para surpresa de todos, sorriu brevemente.
— Boas palavras, meu velho amigo. Sim, há um preço. Quero que vocês encontrem alguém para mim.
Annabeth se inclinou para frente, o coração acelerado.
— E quem seria esse alguém? — perguntou ela, sem conseguir conter a curiosidade.
O olhar de Poseidon se estreitou sobre ela, e então respondeu com a calma aterradora de quem carrega verdades que não podem ser contestadas:
— Meu filho.
O impacto foi imediato. O salão se transformou em um murmúrio confuso. Olhares se cruzavam, palavras se perdiam. Um novo filho de Poseidon?
Quíron foi o primeiro a recuperar o fôlego.
— Senhor, se me permite... imagino que a criança ainda seja pequena, então...
Mas Poseidon apenas riu. Uma risada profunda, ecoando como o rolar distante das marés.
— Não, Quíron. Ele não é mais uma criança. Aliás... até pouco tempo eu o considerava perdido para sempre. — O semblante do deus, antes imponente, agora se cobria de uma melancolia quase trágica. — Pensei tê-lo perdido... para sempre.
Annabeth sentiu algo dentro dela se contrair. Não sabia se era empatia ou medo. Poseidon, um deus, falando com tanta tristeza — era algo que abalava os alicerces do que ela entendia por divindade.
— E quem seria ele? — perguntou Quíron, a voz quase num sussurro.
Poseidon desviou o olhar até Thalia. Por um instante, seus olhos brilharam em fúria contida, e o vento lá fora pareceu responder.
— Aquele... que Zeus tentou matar.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Até o vento cessou.
Annabeth sentiu o coração disparar. Os ecos da profecia antiga, as histórias sobre o filho perdido, todas voltaram de uma só vez. O acampamento havia sido construído para proteger semideuses... mas e se agora tivessem de proteger o próprio motivo da guerra?
Poseidon ergueu-se lentamente. Sua armadura brilhou como uma onda sob a luz do luar.
— Encontrem-no — disse, e sua voz reverberou nas paredes. — E tragam-no a mim.
E com um estalar distante, como o som de um trovão sobre o oceano, o deus desapareceu.
Apenas o cheiro de sal permaneceu no ar — e o medo de que o mar, dessa vez, tivesse deixado algo mais do que espuma para trás.
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