Perseus

2 I - ECOS DO OLIMPO


No alto do Empire State, em uma dimensão paralela onde os mortais nem sequer faziam ideia de que existia, onze tronos se erguiam majestosamente. Entre eles, um trono negro como a noite — deslocado, sombrio, quase pulsando uma energia própria.

Mas o que realmente chamava atenção eram as figuras colossais que ocupavam aquelas cadeiras. Cada uma com cerca de doze metros de altura, irradiando poder e imponência. Tão belos quanto terríveis, eram os deuses do Olimpo em sua forma plena — eternos, impiedosos e quase humanos em sua vaidade.

Naquele dia, a reunião do solstício de verão tomava lugar. Era o momento em que seus poderes se intensificavam — e talvez por isso, o ar vibrava, carregado de energia e tensão. Mesmo assim, três tronos permaneciam vazios, um silêncio incômodo pairando sobre eles.

O trono negro ainda aguardava o Senhor da Morte — Hades. O deus do Submundo, como sempre, fazia questão de se atrasar. Um ato de desafio, um lembrete de que não se curvava às ordens do irmão, Zeus. Este, por sua vez, já tinha os olhos faiscando de impaciência, os dedos tamborilando no braço dourado do trono, como trovões prestes a nascer.

Além de Hades, Atena — deusa da sabedoria e da estratégia — e Poseidon, o senhor dos mares, também estavam ausentes. Um fato curioso.

Atena nunca se atrasava, nem mesmo quando travava suas guerras mais longas. E Poseidon... bem, ele raramente perdia a chance de estar presente apenas para contrariar Zeus — o que, para os outros deuses, era uma das poucas formas de entretenimento que aquele conselho oferecia.

Mas algo naquela manhã parecia diferente. O ar estava pesado, denso como antes de uma tempestade.

Zeus observava os tronos vazios com um brilho estranho nos olhos. Era um olhar que misturava expectativa e algo mais sombrio — algo quase infantil, mas perigoso. Um deleite disfarçado de calma. Nenhum dos deuses ousou perguntar o motivo de seu humor repentino; sabiam que a curiosidade, no Olimpo, podia ser mortal.

As portas do grande salão se abriram com um estrondo metálico.

Atena entrou.

Caminhava com a postura ereta de sempre, o manto branco reluzindo sob a luz dourada que caía do teto, mas... havia algo no seu rosto. Uma perturbação contida. O olhar era firme, mas a respiração denunciava o peso de algo mal resolvido.

Ela se aproximou do trono dourado e se inclinou.

— Zeus — disse, com respeito contido. — Foi feito como ordenaste, mas eu...

— Excelente! — interrompeu Zeus com um sorriso largo, quase psicótico. — Excelente, minha filha. Um bom trabalho. Agora, sente-se.

O silêncio que se seguiu foi quase palpável.

Atena sentiu a frase como um golpe. Desde há algum tempo, Zeus não parecia mais o mesmo. O olhar, antes majestoso, agora era o de um tirano à beira da loucura. Mesmo assim, ela conteve o orgulho e se retirou, sentando-se em seu trono de marfim branco, o som metálico ecoando como um suspiro de rendição.

Mal havia se acomodado quando as portas se abriram novamente.

Um vento frio percorreu o salão.

Hades entrou.

Sua presença parecia rasgar o ar. Caminhava com passos lentos, o manto negro costurado com as almas rebeldes do Asfódelos arrastando-se pelo chão. Um sorriso irônico brincava em seus lábios.

— Irmãozinho... — disse, com um tom debochado, inclinando-se levemente. — Desculpe a demora. Sabe como é... o trânsito no submundo anda insuportável.

Alguns deuses tentaram disfarçar o riso. Os olhos de Zeus faiscaram, mas ele apenas bufou, recostando-se novamente, segurando a raiva com os punhos fechados. Ele ainda esperava o clímax — algo que, sabia, marcaria aquele conselho para sempre.

Afrodite, por sua vez, sequer parecia notar a tensão. Retocava a maquiagem pela milésima vez, indiferente à tempestade prestes a estourar.

Então veio a umidade. Densa. Quase sufocante.

O chão tremeu. A água condensava-se no ar como névoa viva.

Poseidon havia chegado.

Entrou com o rosto de pedra — frio, mas seus olhos azuis eram puro furacão. Nenhuma tempestade do mundo poderia igualar a fúria que queimava neles. Vestia uma armadura de batalha completa, cada placa pulsando com energia marinha, e em suas mãos trazia o tridente — seu símbolo supremo de poder — faiscando em um azul tão intenso que cegava.

Os deuses se levantaram instintivamente, preparando suas armas.

Exceto Hades, que apenas cruzou as pernas, observando como quem assiste a um episódio especial de comédia.

Zeus continuava sentado, mas o olhar dele era puro veneno.

Atena, por outro lado, não conseguiu esconder o arrependimento nos olhos — um olhar que dizia que ela sabia o motivo daquela tempestade.

Zeus se inclinou para frente, com um meio sorriso.

— Algum problema, irmão?

Poseidon o encarou sem dizer nada. E então, sem aviso, ergueu o tridente.

Uma onda de puro poder explodiu da arma, atravessando o salão como uma maré viva.

Zeus foi lançado de seu trono como uma peça de brinquedo, voando por entre colunas que desabaram ao redor.

Os deuses ficaram em choque. Um silêncio mortal tomou conta.

Poseidon apenas respirou fundo e golpeou o chão com o tridente. O impacto fez o Olimpo inteiro estremecer. Vários deuses foram arremessados contra as paredes.

E foi nesse instante que o trovão rugiu.

Um raio caiu sobre Poseidon, rasgando o teto dourado, envolto em nuvens negras.

Zeus caminhava em meio à fumaça, olhos faiscando de fúria.

— Como ousa, Poseidon?!

O deus dos mares ergueu o tridente, a voz reverberando como uma maré em fúria:

— Como ousa você, Zeus?! Você não tinha o direito!

O chão começou a tremer. O salão inteiro rachava sob a força dos ventos e das ondas que colidiam invisivelmente no ar. Os deuses se afastaram, sabiam o que estava por vir — o confronto entre dois dos Três Grandes era uma calamidade em si.

O tridente se ergueu novamente.

Outro raio o atingiu, o dobro do anterior. Poseidon cambaleou, cuspindo licor divino — o sangue dos deuses.

Zeus sorriu. Um sorriso insano.

Mas então o chão cedeu sob seus pés. Um terremoto se abriu, engolindo o deus dos céus em um rugido profundo.

Poseidon respirava ofegante, o tridente ainda faiscando.

O salão, em ruínas, tremia.

E foi nesse instante que o olhar de Hades mudou — uma centelha de compreensão sombria surgiu em seus olhos.

Algo estava errado.

Poseidon avançou até a cratera aberta pelo terremoto, encarando Zeus, que jazia a centenas de metros abaixo. Um corte na têmpora começava a se fechar, mas ainda era possível notar os ferimentos internos do deus. Quando Zeus cuspiu um nódulo de néctar, Poseidon sentiu a fúria transbordar.

Mas algo inesperado aconteceu. Alguém se esgueirou silenciosamente por trás do deus dos mares, aproximando uma espada de bronze celestial rente ao seu pescoço. Poseidon congelou. A lâmina pressionava com firmeza, obrigando-o a se afastar da borda da cratera.

Seu agressor era ousado — mais do que qualquer mortal poderia imaginar. Lentamente, Poseidon girou, encarando quem ousava desafiá-lo. Dois olhos tempestuosos encontraram os dela: Atena.

A deusa permanecia rígida, como uma sentinela preparada para a guerra, mas o nervosismo emanava dela em ondas sutis. Até mesmo a sábia Atena não podia negar os sentimentos que ainda nutria pelo deus dos mares.

Poseidon a fitou com frieza. Não havia sorriso, não havia brincadeira — só sede de sangue, e não de qualquer sangue, mas daquele de um certo deus dos deuses.

— Não se meta — disse, a voz gelada e firme. — Isso não é da sua conta.

Atena avançou, corajosamente, ficando cara a cara com ele.

— Mas é claro que é! — respondeu, firme. — A partir do momento em que você se descontrola e coloca a vida de milhares de mortais em risco, sim, Poseidon, isso é da minha conta!

A fúria do deus apenas aumentou. Os olhos verdes cintilavam com energia pura, prestes a devastar tudo à sua volta.

— Mortais? — rosnou, cuspindo as palavras com ódio. — Eu não me importo com eles! Só quero que ele pague pelo que fez ao meu filho!

O salão ficou em silêncio absoluto. Um filho? Poseidon com um filho? Era uma das revelações mais inesperadas de toda a existência divina. Até então, todos sabiam que o último filho mortal havia sido Teseu, e depois disso, Poseidon havia evitado qualquer vínculo com mortais.

Atena permaneceu imóvel, assimilando a revelação. A tristeza e desolação do deus eram palpáveis, como nunca antes se vira. Ela demorou segundos, mas tudo se encaixou: a missão que seu pai lhe deu, os comportamentos estranhos de Poseidon nos últimos dias, o plano ardiloso de Zeus para manipulá-la sem que ela percebesse sua real intenção.

Os outros deuses observavam, perplexos. O Olimpo inteiro estava em silêncio, testemunhando o início de uma crise sem precedentes.

Zeus, por sua vez, se aproximou com passos firmes, o terno agora em farrapos, a raiva transbordando em cada gesto. Desferiu um soco em Poseidon. O deus dos mares sequer se moveu — mas o choque de ouvir aquelas palavras do irmão arrancou-lhe a respiração.

Zeus então avançou, imponente, e ergueu Poseidon pelo pescoço, com força divina.

— Por que, Zeus? — murmurou Poseidon, uma lágrima solitária escorrendo pelo rosto. Atena foi a única a perceber. — Por quê, meu filho?

Hades, até então descrente, agora observava incrédulo. Zeus soltou uma risada de escárnio, fria e cruel.

— A profecia não vai se realizar, irmão — disse Zeus com firmeza. — Nem que para isso eu...

Mas ele jamais terminou. De repente, várias náiades da água invadiram o salão destruído, mas congelaram ao ver seu senhor subjugado pelo deus dos céus.

Com uma elegância inesperada, Poseidon se liberou do aperto de Zeus, deixando o irmão estatelado no chão. Dirigiu-se rapidamente às pequenas criaturas e ouviu atentamente seus sussurros.

Um silêncio absoluto tomou o salão. Poseidon ficou rígido por alguns segundos antes de se voltar para Zeus e declarar:

— Você errou, irmão. — Seus olhos verdes perfuraram Atena, que desviou o olhar. — E todos aqueles que te apoiaram também. Prepare suas melhores armas, Zeus, pois a partir de hoje, céu e mar estão em guerra.

Uma luz esverdeada iluminou todo o salão, e segundos depois Poseidon, junto com as náiades, desapareceu nas profundezas.

Os deuses no Monte Olimpo observavam a cena, atônitos. Menos Zeus, cujo olhar perplexo mostrava que nem ele podia compreender completamente a gravidade do que havia ocorrido.

Apenas Atena permanecia imóvel, olhando para o vazio, como se tivessem arrancado seu coração.

O primeiro capítulo terminava ali, em silêncio e tensão, com a certeza de que o mundo dos deuses jamais seria o mesmo. O Olimpo, em ruínas, testemunhara o início de uma guerra épica entre Céu e Mar, e nenhum mortal — nem mesmo os próprios deuses — poderia prever quem sairia vitorioso.