Pernico!
4 Cap 3 - Memórias obscuras
Notas iniciais
Mesmo com a mente confusa e enevoada, Nico não demorou a perceber que estava em um navio semideus. Aquilo lhe trouxe alívio imediato, seguido por uma leve preocupação. Afinal, tinha certeza de que os gregos eram seus amigos tanto quanto os romanos, e que cuidariam bem dele até que ele se recuperasse. Mas e depois? Lhe fariam um longo questionário perguntando por onde esteve e o que descobriu em sua jornada. Ele não queria ceder informações sobre os romanos que pudessem ser úteis numa possível guerra que estava prestes a se iniciar. Havia se afeiçoado mais a eles do que aos gregos.
Considerou-se sortudo por não conhecer a maioria dos semideuses por ali. As profecias mais perigosas sempre selecionavam os menos experientes. Ele esperava não estar mais envolvido naquela aventura arriscada, agora que havia escapado de sua sina de “ter a vida ceifada pelos gêmeos”. Mas teria de suportar aquelas pessoas durante toda uma viagem. Era péssimo em socializar com gente nova, estava acostumado a não fazer muitos amigos. Mas preferia ser ignorado, nesse caso, e só falava e agia quando necessário.
Porém, nem sempre era possível se fingir de invisível, e ele já percebera que alguns de seus novos colegas de batalha o olhavam estranhamente. Hazel continuava sendo a única a realmente se importar com ele. Frank estava acostumado com ele e não o incomodava. Mas havia esse moleque babaca, Leo, que parecia estar sempre debochando dele, e não sabia a hora de parar. O pior era Jason, o altivo filho de Zeus, que parecia... ter medo dele. Isso o fazia se perguntar que tipo de criatura havia se tornado. E sua namorada, Piper, que ignorava com prazer a existência do excêntrico filho de Hades. Apesar disso, de todos, aquele que mais o incomodava era uma pessoa familiar até demais. Percy Jackson.
Como sempre, o poderoso filho de Poseidon recém resgatado do Acampamento Júpiter estava destinado a alguma façanha épica que ninguém poderia adivinhar por enquanto. Apesar de ele continuar com suas memórias bloqueadas, seu espírito heroico continuava intacto. Mesmo os que nunca haviam ouvido falar dele tinham fé em sua capacidade. Ele e Jason formavam uma ótima dupla, de longe os semideuses mais importantes dali. Os outros pareciam estar a sombra deles, principalmente Nico, que sempre vivera imerso nas sombras.
Percy não lembrava sequer do nome de sua mãe, mas sua única memória remanescente era a de sua namorada, e uma lembrança vaga do local onde poderia encontrá-la. O reencontro deles seria lindo e emocionante para todos. Mas não para Nico. Na verdade, ele continuava com a alegria egoísta de ver Percy tão solitário quanto ele. Passava os dias a observá-lo das trevas. Apesar de suas reflexões enquanto estava dentro daquele maldito vaso, ele continuava assustado demais para tomar qualquer atitude, ou sequer ter uma conversa mais íntima com Percy, talvez orientá-lo como prometera a Hazel anteriormente.
Uma certa noite, Nico estava deitado insone em sua cabine. Ele sempre sofreu de insônia. Os fantasmas em sua mente não o deixavam dormir. Mas isso se intensificava no interior daquele navio que não parava de balançar. Ele estava inerte na cama, encarando a confortável escuridão, quando de repente ouviu batidas em sua porta. Ninguém jamais o procurava assim, principalmente no meio da noite. Meio hesitante, ele caminhou em direção a porta, que não possuía um olho mágico. Não era necessário. Nenhum monstro bateria educadamente na sua porta, e nem Hedge tinha razões para lhe passar um sermão em plena madrugada. Ele entreabriu a porta e ficou surpreso com quem encontrou.
Era Percy Jackson, uma das causas de sua insônia. A julgar pelas olheiras que se formavam sob seus olhos verdes que brilhavam no escuro, ele também andara tendo dificuldade para dormir.
– Desculpe incomodar... Eu sei que horas são.
Nico ergueu uma sobrancelha escura, desconfiado.
– O que você quer? – ele perguntou sem titubear.
– Só quero conversar. Eu sei que é estranho, mas eu me lembro de você.
O coração de Nico falhou. Ele pôde sentir seu rosto pálido enrubescendo. É, fugir não adiantou.
– Bem... Você pode entrar. Se quiser.
Percy o seguiu parar dentro da minúscula cabine. Nico acendeu um abajur e sentou-se diante de Percy à meia-luz. Chegara o momento. Ele tinha de se manter firme.
– Eu lembro de você... Num outro Acampamento, diferente daquele de Nova Roma, cujo nome eu esqueci. Éramos amigos, não é? Você deve ter me reconhecido naquela hora. – Percy começou, soando inofensivo. Não estava sequer com raiva da possibilidade de Nico ter lhe negado ajuda aquele tempo todo. Só queria uma luz.
–Sim. Eu reconheci você naquela hora, mas não achei que estivesse pronto para saber a verdade. – Nico havia aprendido da pior maneira que a mentira tem perna curta, mas insistia em sustentar aquela farsa até o limite. – Sou filho de Hades, não de Plutão. Hazel não é realmente minha irmã de sangue. E eu e você viemos de um lugar diferente, chamado Acampamento Meio Sangue. Somos gregos. Rivais dos romanos.
– Isso vai causar uma bela de uma confusão. – Percy sussurrou, ainda chocado com o excesso de informações, mas lentamente compreendendo tudo. Ele sentia um turbilhão de emoções simultâneas, menos ódio de Nico.
– Vai. Com certeza. É... Desculpa por ter mentido. – Nico respondeu, ainda nervoso, e com a sensação ruim de que Percy havia percebido sua insegurança e estava achando graça.
– É claro que eu te perdoo. E estamos juntos nessa. – Percy segurou ambas as mãos de Nico sem perceber, como se tentasse lhe transmitir alguma firmeza. Nico podia sentir o calor do olhar que Percy lhe deu, diferente de tudo que ele já sentira antes. Ele finalmente o enxergara de uma maneira nova. Seus rostos estava a milímetros um do outro, e o desejo vibrava em uma onda entre eles. Quase sem querer, seus lábios se encontraram.
No dia seguinte, Nico parecia evitar Percy mais do que o normal. Nenhum deles ousaria tocar no assunto.
Fale com o autor