Perjúrio
8 Capítulo 8
Notas iniciais
— Tem algo interessante no Visão, que eu notei depois da nossa conversa aquele dia. – Nesse momento, Matt segura meu braço para subirmos as escadas de um prédio extremamente velho em uma rua que eu jamais passei perto em toda a minha vida. – Você mencionou o fato dele olhar para baixo, porém, junto disso, a voz dele altera levemente o tom cada vez que ele mente ou fala algo que não deveria falar. Podemos usar isso, sendo o caso dele aparecer na audiência.
Respiro pesadamente ao lembrar que disse a Reyes sobre Visão ser uma das nossas testemunhas, e balanço a cabeça para não pensar no assunto. Em uma das mãos, seguro uma sacola com dois tacos e uma porção daquele petisco crocante feito de milho, enquanto seguimos por um corredor que possuía uma pequena porta ao final.
— Academia Fogwell. – Leio o nome em voz alta. – O que é este lugar?
— Um lugar especial para mim. – Responde Matt, pegando a maçaneta para notar que a porta estava trancada.
— Afaste-se.
Ele prontamente obedece, e jogo o ombro na porta para abri-la à força. Matt ouve a maçaneta pender e bater contra a madeira do lado de dentro, acenando com a cabeça em surpresa.
— Mais fácil que eu pensei. – Ele ri em seguida.
Quando entramos, coloco o pacote sobre uma mesa ao lado de um ringue – posso dizer que, apesar de ter acabado de comer com Bruce, ser a Hulk me deixa com bastante fome –, enquanto percebo meu colega pôr os óculos sobre o tatame e segurar um saco de pancadas o qual vai até metade das suas pernas.
— Pronta para dar uns socos?
O ginásio estava completamente vazio, e me pergunto, por alguns segundos, qual a relação de Matt com este lugar. Não parecia estar abandonado, mas a sensação que passa é a de um lugar cujos dias de glória ficaram para trás há um bom tempo; ainda assim, ele parecia animado, além de conhecer cada detalhe do local como a palma da mão. Cada passo meu é pesado, cuidadoso, por ser a primeira vez que entro lá.
Quando chego em sua frente, dou o primeiro soco. Leve. Literalmente toquei o material quem lembrava couro com a mão em punho.
— Não, não, Walters. Eu sei que tem mais força aí, e nem preciso ver para isso. – Ele mexe o saco de pancadas. – Mais um.
Dou outro soco sem graça.
— O que irrita você? – Matt me pergunta.
— O fato que a audiência é amanhã e não estamos trabalhando agora. – Zombo em resposta.
— Além disso. Algo mais profundo.
O próximo soco sai um pouco mais forte.
— A droga da promotora ter pedido a prisão da Maximoff e ter zombado da nossa cara.
— Além disso. – Insiste ele.
Aos poucos, pequenas gotas de suor aparecem na minha testa.
— O fato de eu sentir que a Wanda não fez nada de tão errado quanto a promotoria quer provar.
Um novo soco, dessa vez tão forte que Matt dá um solavanco para trás, contudo, ele parece não se abalar.
— E o que mais? O que deixa seu coração irritado, Walters?
Seguro um pouco de energia no punho direito, fechado, e golpeio o saco com os pensamentos de Maximoff ter perdido tudo o que amava, e na conversa com Bruce mais cedo. Os pensamentos passam como flashes diante de meus olhos, quase em câmera lenta enquanto movo o braço escutando, ao mesmo tempo, o saco de boxe se desprender do teto e vir diretamente ao chão. Me ajoelho no tatame em seguida, apenas percebendo que Matt se esquivara antes do baque surdo provocado pela queda, para baixar a cabeça e olhar minhas próprias mãos.
— Eu sou um monstro.
Murdock se aproxima, sentando em minha frente para segurar meus pulsos.
— Você sabe que não é um monstro.
Penso em levantar a cabeça e olhar para ele, contudo, antes de tomar o impulso de coragem, meu coração acelera e minha mente obriga meus olhos a se manterem fixos no tatame. Acho uma pequena brecha que me permite olhar para o lado, mirando a coluna de sustentação do prédio a qual possuía um pôster fixado sobre o concreto, grande, e com as cores desbotadas pelo tempo. Ainda assim, um nome me chamou a atenção, e o repito em voz baixa:
— Jack Batalhador Murdock...
Não preciso encarar Matt para notar que ele sorri em minha direção timidamente, sem mostrar os dentes, e concordando com a cabeça devagar.
— Meu pai era boxeador. Treinava nessa academia. Por isso quis trazê-la aqui.
Os carros na rua soam altos, desde buzinas até pneus derrapando, sons os quais devem ser incômodos para Matt. Uma quantidade razoável de automóveis corre pelas ruas de Hell’s Kitchen até ele abrir a boca novamente:
— Quem você perdeu, Walters?
Ele percebe que meu coração pula dentro do peito, provavelmente escuta quando engulo em seco, além de certamente saber quantas respirações dou por minuto. Quase me sentia despida em sua frente, entretanto, da maneira mais confortável possível. O conforto me envolve em um abraço quando começo a falar:
— Minha mãe. Eu perdi a minha mãe. Ela morreu quando eu era criança... em um acidente de carro. Fiquei distante do meu pai depois disso.
Cada palavra saiu em um sussurro. Era um assunto difícil de se falar a respeito, geralmente escondido sob várias camadas de pensamento. As lembranças aparecem uma a uma como a goteira de uma barragem prestes a explodir: seu sorriso, o cheiro floral de suas roupas, o acidente que tirou sua vida. Horas na biblioteca com Bruce para evitar de ir para casa. A barragem se estoura, provocando uma ardência em meus olhos na forma de lágrimas correndo por minhas bochechas.
— Pelo menos ela não viu o monstro que eu me tornei, não é mesmo? – Dou um meio sorriso.
Surpreendentemente, Matt se aproxima e joga os braços ao redor do meu pescoço, abraçando-me com carinho. Encosto minha testa em seu ombro e suspiro. Aquela era a maneira mais silenciosa de dizer condolências que já havia presenciado; abraço seu tórax, ligeiramente acima do abdômen, buscando devolver um pouco do carinho.
Ele se afasta e acaricia minha bochecha com uma das mãos.
— Quando eu era criança, eu salvei um idoso de ser atropelado por um caminhão enorme, sendo que eu fui atropelado no lugar dele. Aquele caminhão tinha dejetos tóxicos que caíram na rua e vieram diretamente no meu rosto. Foi assim que eu fiquei cego.
Lentamente levanto a cabeça e olho suas feições. Ele mantém o rosto fixo na minha direção, apesar de eu ter a certeza de que ele não veria mais que uma silhueta no tatame. Ainda assim, seus olhos castanhos, combinados com o restante de seu rosto, são amáveis. Ele não tem medo algum de um espectro com o dobro de tamanho de uma pessoa normal.
— Os médicos tentaram algumas cirurgias de reconstrução, só que a minha córnea ficou comprometida. Não muito tempo depois, meu pai foi assassinado pelo empregador dele.
Matt morde o lábio, e quase sinto vontade de avisar que ele não precisava dizer nada caso não se sentisse à vontade, contudo, ele dá prosseguimento antes disso:
— Walters, eu não posso apenas ouvir o seu coração, ou saber o tom de voz do Visão quando ele mente. – Percebo seu pomo de adão subir e descer rapidamente. – Teve um barulho alto quando você se transformou na Hulk. Eu sabia que você estava a três quadras do meu escritório. Mesmo sem enxergar, eu senti o cheiro da sua adrenalina pelos seus poros quando a encontrei no chão. Quando você socou o saco de boxe, eu senti as moléculas vibrarem sob a ponta dos meus dedos, o que me deu tempo de sair de trás. O cheiro de talco e loção pós-barba do meu pai ainda está impregnado nesse lugar, mesmo tantos anos depois. Os dejetos tóxicos ampliaram meus outros sentidos mais que o normal.
Encaro-o, boquiaberta.
— Você ainda acha que é o único monstro? – Pergunta ele, enfim. – Somos iguais, Walters. Então, respondendo a um de seus primeiros questionamentos quando nos vimos a primeira vez, talvez eu tenha poderes.
Sorrio em sua direção.
— Você não é um monstro.
— Nem você. – Matt rebate, segurando meus ombros. – Você salvou a mulher no beco mais cedo. Você usa os seus poderes para o bem. Isso é louvável. E eu a admiro por isso, e por estar tão envolvida com o caso Maximoff. Vocês duas perderam o que era mais importante para vocês. Vamos dar um jeito nisso juntos, certo?
Balanço a cabeça em afirmação, novamente o abraçando como uma tácita forma de agradecimento. Levanto do chão em seguida, segurando Matt pelo tórax e o levantando para colocá-lo de pé. Seu corpo estremece sob minhas mãos assim que a ponta de seu sapato encosta no chão.
— ... Não faça isso de novo, por favor.
Nós dois começamos a rir tanto que o ar falta das minhas narinas. Estar perto de Matt era estar um passo mais próximo da liberdade plena, tanto que fico suficientemente confortável para dizer:
— Matthew, você é uma das poucas pessoas no mundo que me deixam à vontade para ser a Hulk ou a Jennifer.
Quando me afasto para pegar a comida que compramos no caminho, olho para Matt, ainda no mesmo lugar. Sua expressão estava confusa, e ele andou lentamente, antes parando próximo ao ringue para colocar os óculos novamente sobre a face. Pego duas cervejas, quentes, dentro da sacola, e as abro batendo as tampas fortemente contra a mesa. Ele permanece desconfiado ao pegar a bebida, tomando um longo gole, até finalmente questionar:
— Você me chamou de Matthew?
— Ué, sim. Seus amigos chamam você assim, não é mesmo? – O imito e tomo um pouco da cerveja diretamente do gargalo, pegando os tacos e petiscos de dentro da sacola.
— Ninguém me chama de Matthew. Todos me chamam de Matt. – Ele ri. – Estava brincando com você... Jennifer.
— Jen. – Mordo um taco de carne com queijo. – Me chame de Jen.
Enquanto comemos em relativo silêncio, apenas o som da nossa mastigação no ambiente, uma dúvida se forma no canto da minha mente. Uma dúvida que tinha há muito tempo, porém, não encontrava coragem para dizê-la em voz alta. Talvez a bebida fizesse um pouco de efeito rápido demais, pois a pergunta saiu naturalmente em seguida:
— Matt. – Chamo enquanto me sirvo de alguns aperitivos, mergulhando em um pouco de molho, e ele inclina o queixo na minha direção, permitindo que eu fale: – Você foi blipado?
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