Perjúrio
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Quando terminei de tomar banho naquela manhã, senti o vento advindo da janela aberta contra meu corpo, ainda úmido por baixo da blusa larga. Peguei um pente sobre a mesa de cabeceira para desembaraçar o cabelo, xingando alguma coisa enquanto puxava os fios emaranhados e olhava a televisão ligada com o volume mais alto que o recomendado pelo síndico:
A fantástica Mulher Hulk, Jennifer Walters, participou ontem de um evento para angariar fundos para as escolas públicas de Nova York. Como pode uma advogada de Los Angeles fazer tanto sucesso entre a elite nova iorquina? Seria pelo seu carisma nato ou pelos poderes da Gigante Jade?
Ao ouvir aquelas palavras, solto uma risada. Aquela era a preocupação daqueles jornalistas?
— Pelo meu carisma nato, obviamente. – Digo para a televisão ao desligá-la, me abaixando em seguida para buscar algumas roupas no chão. – O mesmo carisma que fez com que eu fosse demitida.
Quer dizer, a culpa era deles? Provavelmente? Nenhum escritório simplesmente demite uma das suas melhores advogadas por nenhum motivo... Exceto pelo fato de ela ter se transformado na Mulher Hulk e sem querer ter quebrado os carros dos sócios. Mas eu já pedi desculpa! Aposto que não demitiriam meu primo, Bruce, se ele fizesse a mesma coisa. Não demitiram ele dos Vingadores até hoje.
— Urgh, o cara de ontem esqueceu uma cueca aqui. – Peguei a roupa com a ponta dos dedos, praticamente com as unhas, encostando o mínimo de pele possível nela. Aquilo era efetivamente nojento e iria direto para o lixo. – ... Ele foi embora só com as calças?
Afasto os pensamentos enquanto separo o lixo do restante das roupas, que iriam diretamente para a lavanderia. A chaleira na cozinha apita, e estou a um passo de finalizar meu café quando meu celular toca, fazendo o mundo inteiro congelar; apesar da súbita vontade de atender na mesma animação de antigamente, sei que as primeiras semanas em um novo emprego são cruciais para manter-se nele. Por isso, coloco no viva-voz enquanto despejo uma porção generosa de água sobre o pó de café.
— Bom dia, chefe! – Uma das coisas que eu mais amo em ser a poderosa Mulher Hulk era o maravilhoso fator de cura que não me deixava de ressaca nem se eu quisesse, sempre parecendo que eu havia dormido bem, ainda que não tivesse dormido nada. – Como o senhor está?
— Jennifer, já está vindo para a firma?
Olhei para minha blusa amassada sobre uma calcinha velha, cabelos molhados, a xícara de café em mãos – da qual tomei um curto gole – e ponderei a conclusão óbvia:
— Daqui a pouco estou aí.
— Espero que a noite de festança não tire você do foco. – Sua voz soou um tanto ríspida do outro lado da linha. Meu novo chefe era um senhor de meia idade, careca, provavelmente passou mais tempo exercendo a advocacia do que fazendo qualquer outra coisa. Mas ei, quem sou eu para reclamar de algo? – Tem um caso novo na sua mesa.
— Sim, senhor. – Respondo, tomando o restante do café na xícara em uma golada só.
— E Jennifer? – Ele fazia questão de me chamar pelo primeiro nome, garantindo que eu fosse aparecer no trabalho como Jennifer Walters, e não como a Mulher Hulk.
— Sim?
— Já que você ainda não saiu de casa, coloque as suas melhores roupas. Você vai precisar.
Pisco algumas vezes, surpresa.
— Como o senhor-
Mas ele desliga em seguida, e eu corro pelo apartamento procurando alguma das minhas roupas chiques que geralmente ficam guardadas para não correr o risco de rasgar ao me transformar na Mulher Hulk. Enquanto termino de me vestir, ouço a campainha tocar, e praticamente sinto o sangue chegar no topo da minha cabeça ao imaginar algum vizinho enchendo o saco quando estou claramente atrasada, especialmente se for o cara da compostagem. Abro a porta da frente com uma força descomunal para o braço humano e digo, mal abrindo a boca:
— Se você acha que eu estou com tempo de separar o lixo orgânico, você está...
Contudo, um rosto quase desconhecido está na minha frente. Quase mesmo, pois as feições eram familiares. Só podia ser...
— ... Mike? – Dei um sorriso sem graça, lembrando da noite anterior. Eu mandei ele embora justamente porque achava que ele nunca mais iria aparecer na minha vida! E ainda o recebi como Jennifer, e não como Mulher Hulk. Que vergonha.
— Mika. – Ele corrigiu. Era um supermodelo famoso com quem dormi depois da festa de ontem e enxotei logo de manhã do meu apartamento. – Bom dia, meu anjo. Por acaso eu deixei a minha cueca por aí? Acho que esqueci de pegar quando saí...
Seria um longo dia.

Abri a porta do escritório esbaforida, cumprimentando a secretária e seguindo o caminho até a minha sala de cabeça abaixa. Se ninguém me visse, não haveria perguntas sobre o meu atraso. E, se alguém notasse, o trânsito estava horrível e o elevador estava em manutenção (ambas as afirmações eram falsas, porém certamente iriam me salvar).
A firma era bastante pomposa, tendo três janelas enormes no final do corredor que levava aos escritórios individuais. Os nomes dos advogados associados restavam em placas douradas no centro das portas, refletindo a luz do sol da manhã diretamente no meu rosto. Busco não me irritar quando respiro fundo e abro a terceira porta à direita, o espaço que passei a considerar uma segunda casa, apenas para notar uma presença na sala.
— O elevador estava quebrado, eu juro!
A figura era de um homem, mais baixo quase uma cabeça, que possuía nos lábios um sorriso sem mostrar os dentes sob um óculos com lentes vermelhas tão limpas onde quase era capaz ver o meu próprio reflexo. Também tinha uma longa bengala branca em frente ao corpo, uma extensão comprovando que o homem misterioso era deficiente visual.
— Engraçado – ele comentou com uma risada –, ele não parecia quebrado quando eu subi, algum tempo atrás.
— Ai, Deus. – Senti minhas pernas amolecerem. – Contrataram outro advogado antes de me demitir? Não quero ser demitida pela segunda vez-
— Quem falou em demissão?
Meu chefe apareceu na porta atrás de mim, segurando meu ombro com uma das mãos enquanto adentrava o cômodo. Por um instante, apenas olhei para a gigante Nova York através da minha janela, uma cidade a qual eu só conhecia dos cartões postais da minha mãe, guardados no fundo da minha gaveta, tornou-se meu quintal.
— Bom dia, senhor Holliway. – O rapaz cumprimentou, esticando o braço, sendo que meu chefe apertou sua mão fortemente.
— Bom dia, doutor Murdock. – Holliway parecia excepcionalmente feliz ao falar com o convidado. Mas por que esse convidado estava justamente na minha sala?! – Por favor, me chame apenas de Holden. Espero que a minha advogada não tenha feito você esperar por muito tempo. – Ele virou o olhar para mim. – Qual foi a desculpa da vez, Jen? O elevador estava quebrado?
Senti um nó na garganta, mas o rapaz, com um sorriso, falou:
— Os elevadores realmente estavam quebrados. – Mentiu ele, e eu agradeci mentalmente, sem pensar muito nos motivos que o levaram a apoiar minha mentira. – A doutora Walters foi muito gentil em subir junto comigo. Chegamos agora há pouco.
— Fizeram você subir nove andares de escada, hein? – Holliway apertou o ombro do homem, a expressão penalizada. – Sacanagem.
— Pois é. – Murdock, por sua vez, tinha a expressão levemente contrariada, só que não deixou transparecer ao escondê-la com um sorriso.
Tomei coragem para dar um passo à frente e perguntar:
— Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui? – Resolvi embarcar na mentira contada mais cedo. – Não consegui conversar muito com o... doutor Murdock ainda.
Meu chefe balançou a cabeça devagar, pegando uma pasta grossa sobre a mesa de trabalho e colocando-a nas minhas mãos. Li a etiqueta na frente:
O POVO DE WESTVIEW X WANDA MAXIMOFF
— Parabéns, Jennifer. – Holliway disse, em um tom que suspeitei ser de deboche. – Esse é o seu primeiro caso em direito super-humano.
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