Perjúrio
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Não quero parecer velha quando digo que, no meu tempo de faculdade, esse lance de direito super-humano não existia. Quer dizer, existia; o ataque a Nova York por aliens, Sokovia, Lagos – tudo era real, e suficientemente longe da ensolarada Califórnia. Não era comum a menção a isso na UCLA, havendo poucas pesquisas acadêmicas, a maioria artigos, a respeito. Também, os Tratados de Sokovia entraram em vigor pouco tempo depois, então super-heróis foram esquecidos por um período razoável... Até o blip.
Lembro que estava arduamente trabalhando em um caso na mesa de um café na esquina do meu antigo escritório quando desapareci. E reapareci cinco anos mais tarde, no mesmo lugar, mas sem toda a papelada na minha frente. A primeira notícia veio da televisão ligada na parede da cafeteria, mostrando imagens amadoras de uma luta contra aquele que depois descobri ser Thanos, causador do estalo. O heroísmo dos Vingadores levou a uma enxurrada de informações em todo o mundo.
Tudo aconteceu rápido depois – o tiro, a transfusão de sangue, poderes, minha demissão, a mudança. Às vezes eu nem percebia que direito super-humano não era mais aquela menção distante da minha casa na Califórnia, e estava tão próximo a ponto de tocar minha nova versão. Tal pensamento me faz olhar a pasta por alguns instantes com a boca entreaberta, respirando pesadamente, até mudar a expressão para sorrir, escondendo o incômodo que minha mente trazia naquele instante, e dizer, em tom de piada:
— Achei que tinham pego o Demônio de Hell’s Kitchen. – Dei de ombros, e torci para algum dos dois homens na sala rir. Enquanto Holliway permaneceu sério, Murdock deu um sorriso de cumplicidade. – Ou que, sei lá, iriam me prender e eu deveria atuar em causa própria.
— Um advogado nunca deve atuar em causa própria. – Argumentou Matt. – Achei justamente que eu tinha sido chamado para defender a poderosa Mulher Hulk na cadeia.
Revirei os olhos.
— Os dois estão bem errados nas suas suposições. – Holliway já tinha um pé para fora da sala quando falou aquelas palavras. – O doutor Murdock vai ser seu ajudante até o final desse caso. Se precisarem, é só chamar.
— Obrigado pela recepção, Holden. – Murdock se virou e caminhou na direção da mesa.
— Espera aí, obrigada nada! – Mas meu chefe já estava no corredor. – Espere aqui só um minuto, por favor. – Imploro ao homem misterioso, cujo primeiro nome ainda não sabia, e desço pelo corredor atrás de Holliway.
Os batimentos do meu coração estavam erráticos, e eu respirava fundo, contando até dez para não me transformar na Mulher Hulk no meio do escritório. Quando alcancei Holliway, ele já estava quase em sua sala, do outro lado de um extenso corredor e uma ampla recepção.
— Holliway! – Chamei. – Que história é essa de me dar um assistente sem eu nem solicitar?
— Não é para sempre, Walters, é só porque o caso tem algumas peculiaridades, e você vai precisar da ajuda do Murdock.
— Mas eu nem vi o caso ainda! – Choraminguei, pensando que ele talvez pudesse mudar de ideia. – Se eu precisar da ajuda do Murdock, posso falar com ele depois. Por favor.
Contudo, a expressão dele era impassível.
— Vai deixar seu assistente esperando? – Ele deu um meio sorriso e entrou na sala.
Respirei fundo com a resposta, ouvindo a porta bater. “Não vire a Mulher Hulk, esse é o seu melhor terno...” era praticamente um mantra que repetia internamente no caminho de volta.
Quando retornei a minha sala, derrotada, Murdock me recebeu com um sorriso.
— Temos muito trabalho a fazer. – Respirei, fechando a porta atrás de mim.
— Acho melhor nos apresentarmos primeiro. – Pigarreou ele, esticando a mão para mim. – Meu nome é Matthew Murdock. Meus amigos me chamam de Matthew, e meus inimigos me chamam de Matt. Columbia.
— Mantenha seus amigos perto e seus inimigos mais perto, não é mesmo? – Disse e apertei a mão dele. – Jennifer Walters. – Só depois notei que ele havia dito “Columbia”, que significava a Universidade onde havia se formado. Isso me fez lembrar do quanto o lugar onde se estuda direito vale mais do que a sua própria competência, e rapidamente acrescentei: – UCLA, na Costa Oeste.
— Percebi pelo seu sotaque que não era da região. – Matt chacoalhou minha mão antes de soltá-la. – Como está se adaptando ao frio de Nova York?
Dou uma risada sem graça enquanto começo a folhear a pasta do processo. Nisso, ouço minha barriga roncar, mas ignoro.
— Daquele jeito, né, ‘cê sabe. Várias cobertas durante à noite... E tal.
Era mentira, porém. Quando eu estava como Mulher Hulk, geralmente não sentia tanto frio – e eu estava como Mulher Hulk 90% do meu tempo fora do escritório.
— Você já sabe alguma coisa desse caso? – Perguntei.
— Bom, senhorita Walters, infelizmente o judiciário não é exatamente acessível para deficientes visuais... – Levo a mão à testa quando ele fala isso. Puxa vida, era verdade. – ... Mas eu ouvi as notícias sobre a Maximoff em jornais, podcasts, e afins. Suponho que seja uma boa ideia a senhorita me atualizar da parte legal, pois os fatos já tenho algum conhecimento sobre os fatos.
Ele fez uma breve pausa.
— Que tal conversarmos enquanto tomamos um café? Imagino que você tenha saído correndo de casa. Ouvi dizer que os elevadores magicamente voltaram a funcionar...

Na fila da cafeteria, analisei Matthew de longe por alguns instantes. Ele tinha os cabelos castanhos escuros um tanto despojados, e, sentado ao lado da janela, com a luz do sol refletindo nas lentes vermelhas de seus óculos, podia notar que a raiz era mais clara que as pontas, um tom mais ameno de castanho. Ele também tinha a barba rala e vestia um terno preto com a gravata cinza. À sua frente, na mesa da cafeteria, havia uma pequena impressora de braile a qual ele usava para anotar e ler alguns papéis.
Ele era um homem charmoso, não dava para negar. Só que ainda me sentia um tanto contrariada de ter um assistente designado sem o meu consentimento.
Logo chegou a minha vez na fila, e não demorei a voltar para a mesa com dois lattes em mãos.
— Então – Comecei ao entregar o café dele e bebericar um pouco do meu, usando a mão oposta para folhear a pasta a qual Holliway me entregara mais cedo –, sobre o caso Maximoff, temos... Uma cidade inteira que decidiu processar uma mulher por tê-los, e eu abro aspas, “mantido sob seu controle mental, pelo período de uma semana, por não conseguir lidar com o seu próprio luto”. Fecha aspas.
Matt imprimiu algo na impressora de braile e prosseguiu:
— Pelo que lembro, ela tinha perdido o seu namorado após o blip.
Quase morro de vontade de perguntar a Matt se ele fora blipado, ou se passara aqueles dolorosos cinco anos aqui, esperando alguém especial voltar; contudo, em sendo uma relação apenas profissional, mordi a língua e prossegui:
— A Maximoff é revel... É um ponto contra nós. Você acha que ela iria aparecer?
Ele levou o copo de café até a boca, balançando a cabeça negativamente.
— E não temos nem precedentes para lidar com isso... – Suspiro, levando a mão das páginas ao rosto.
— Pense pelo lado positivo. – Diz Matt, tentando me alegrar. – Estamos criando um precedente.
— Claro. – Ironizo. – Vou manter isso em mente na próxima vez que alguém sequestrar uma cidade através dos seus poderes.
O homem em minha frente solta uma risada de deboche.
— Eu digo que isso é uma verdadeira revolução no direito super-humano. Por isso a gente precisa livrar a Maximoff dessa.
Por um momento, o otimismo de Matt me deixou um pouco irritada. Engulo uma porção de café antes de prosseguir:
— Então, Matt... – Giro o líquido dentro do copo, e ele deixa de mexer no objeto em suas mãos para me ouvir. – Você é um advogado formado em Columbia.
— Correto. – Respondeu ele.
— Não é um estagiário. Não é um recém-formado. Provavelmente tem a sua firma. – Espero ele confirmar com a cabeça para seguir falando: – Por que você está atuando como assistente em um caso como esse?
A boca de Matt se contorce no que parece ser uma expressão incomodada apenas para, no momento seguinte, mostrar o sorriso mais brilhante que já havia visto em toda a minha vida, provavelmente. Ele não parecia incomodado o mínimo com as palavras que saíram da minha boca, pelo contrário; parecia até mais animado do que antes.
— Senhorita Walters, você já ouviu falar que deficientes visuais possuem outros sentidos mais... Aguçados?
— Sim. – Respondi. – Mas o que isso tem a ver com direito?
Matt inclinou o corpo para frente, diminuindo o tom de voz:
— Eu posso dizer que, por conta da súbita irritação ao ter um assistente designado sem o seu consentimento, seu coração está batendo extremamente forte no seu peito, e você tem usado da sua própria respiração para não se transformar na Mulher Hulk sem querer. Provavelmente não trouxe outro terno, ou se arrumou muito bem depois que o seu chefe ligou pedindo para você se apressar.
Pisco os olhos duas vezes, mantendo o olhar fixo nele.
— Se você olhar ao seu redor, vai perceber que há um casal umas... Três mesas atrás de nós. O menino está totalmente apaixonado, mas ela não dá a mínima. E, lá fora, à minha esquerda, tem dois homens discutindo por conta de uma vaga de estacionamento.
Lentamente giro a cabeça e confirmo os detalhes de sua fala. O casal que Matt mencionara estava realmente há exatas três mesas de distância, e os homens brigavam do lado de fora com um ticket de estacionamento em mãos.
— Você tem poderes? – É o que sou capaz de perguntar alguns segundos atônita. – É por isso que está tão interessado no caso?
— Se quiser compreender dessa maneira, senhorita, mas acredito que não seja só isso. E não, eu não tenho poderes. – Ele bebeu mais um gole da bebida quente em suas mãos. – Porém, ouvi a sua barriga roncando no caminho até aqui, então acho melhor não tomar só café. Vai acabar ficando com gastrite.
... Aquele homem estava começando a me assustar. Seriamente.
— Já olhou a lista de possíveis testemunhas? – Perguntou Matt.
— São praticamente todos os moradores da cidade. Acho que não temos ninguém para nos ajudar. – Respondo com um pesado suspiro.
— Negativo. – Acrescenta Matt em seguida. – Eu ouvi alguns nomes importantes. Rambeau, Darcy Lewis, Jimmy Woo... Alguma informação deles nos Autos?
Folheio as páginas rapidamente.
— Monica Rambeau está no espaço. Ótimo. – Solto uma risada antes de seguir. – Mas temos como procurar a Lewis e o Woo!
As minhas últimas palavras saíram com uma fagulha de esperança, e noto, com o canto dos olhos, que isso faz Matt sorrir sem mostrar os dentes.
— Você sabe quem era o namorado da Maximoff? – Ele levanta a mão para pedir alguma comida diretamente na mesa. – Ele era um Vingador. Colega seu?
— Eu não sou uma Vingadora, Matt. – Resisto à vontade de acrescentar “ainda”. – Mas tenho meus contatos.
Folheio as páginas até achar diversas menções a um único nome: desenhos, fotos, anotações. Um corpo que, apesar da aparência, certamente não era humano. Lentamente arregalo os olhos e sinto minha boca entreabrir em surpresa; com certeza meu colega, sentado à minha frente, notou alguma diferença nos meus batimentos cardíacos enquanto cada peça começava a fazer sentido. O caso de direito super-humano. Matthew Murdock ser meu assistente, com suas incríveis habilidades de oitiva, por ele perceber nuances que a maioria das pessoas não perceberia.
— Ai, meu Deus. – É a primeira coisa que consigo dizer. – Não vamos interrogar uma pessoa. Vamos interrogar o Visão.
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