Perigo eminente...
42 Onde estão meus leitores?
Notas iniciais
POV PERCY
Leo não estava no seu melhor dia. Geralmente quando você diz que pessoas com câncer vivem em uma montanha russa de emoções parece meio exagerado, mas quando você passa a conviver dia após dia com alguém doente e nesta situação, é no mínimo aterrorizante.
Ele reclamou, chorou e xingou o dia todo. Tentava ao máximo deixa-lo confortável e manter qualquer tipo de conversa para deixa-lo mais animado e esperançoso, mas nada o tirava daquele estado de depressão que só me deixava ainda mais triste. Sem falar que ele não dizia quando estava com dor, nem quando ele tinha feito as suas necessidades, muito menos quando estava cansado. Tudo que ele fazia era ficar na sacada e tentar fazer, com apenas uma mão, concertar uma torradeira velha que Paul acho enquanto voltava da faculdade.
–Bom dia Leo — falei animado e comecei a fazer todos os preparativos de manhã.
Retirei as suas cobertas e logo em segui as suas roupas, deixando-o apenas de fraldas, com uma panela de agua morna comecei a fazer a sua higiene, ele me olhava com os olhos curiosos e não respondeu ao meu cumprimento. Penteei seus cabelos e achei engraçado a forme que seus cachos rebeldes não ficavam presos atrás da orelha. Quando ele estava limpo da cintura pra cima, procurei ao lado da cômoda o saco de fraldas e lenços umedecidos para deixa-lo limpo. comecei com o de sempre, retirei a fralda e pelo jeito ele não fez nada a noite passada e me preocupei, geralmente a essa hora ele estava molhado, mas com a quantidade de remédios que vem tomando, não e surpreenderia que ele estivesse sem fazer xixi. O vesti com roupas confortáveis para a recuperação, massageava as suas pernas sempre atento a qualquer gemido quando apertava com mais força a perna direita.
– Obrigado — ele murmurou — por me aguentar...
– Isso não é um incomodo — disse enquanto tentava me concentrar em seus pés — Como se sente hoje? — questionei preparado pra que ele dissesse o que sentia.
– Sem dor, meu rosto e meu braço estão formigando – ele disse fazendo uma careta. Com o lado direito do seu corpo paralisado, ele fala mais arrastado e com alguma dificuldade. Ele já não me parecia o garoto que foi possuído e quase destruiu nova Roma. Suspirei cansado e acariciei o seu rosto.
Ah e sem falar da internação de Jason! Ainda consigo me lembrar de Nico me ligando desesperado explicando a situação e dizer que já não sabia mais o que fazer. Por impulso procuramos Thalia e internamos Jason ainda desacordado em uma clica perto daqui, e só de pensar em ter que contar isso pra Leo me assustava. Não podia esconder as coisas dele, teria que dizer, afinal ele estava doente, não morto.
– Leo – chamei atraindo a sua atenção. — Jason foi internado hoje – expliquei e esperei que ele fizesse as perguntas ou deixasse por isso mesmo. Seu rosto se recontorceu fazendo uma careta confusa, sem entender, ele abriu e fechou a boca diversas vezes sem saber o que dizer.
– O que ele tem? – disse ele por fim.
–Ele teve uma overdose, Nico achou melhor ele ser tratado por profissionais.
– Você e Nico... – começou ele e eu trinquei os dentes sem saber o que dizer, perdendo as palavras em meus pensamentos, olhei pro infinito tentando explicar o inexplicável.
– Nós voltamos a nos falar, ele mudou muito – disse esperando que saciasse a sua vontade de saber sobre nós.
– Jason queria voltar comigo – ele comentou olhando o teto e rindo com escárnio da situação. Apoiei-me na cadeira sem saber o que dizer, não quero que Leo se envolva com Jason, afinal aquele cara era um drogado sem escrúpulos que poderia machucar Leo e piorar ainda mais a sua situação. Sem falar que ele agora era um irmão, não quero que ninguém se aproxime dele daquela maneira, não acho que ele esteja preparado pra isso, quero que ele se recupere, se trate e tenha uma boa vida com um cara que lhe de valor, um cara de família e que não mecha com drogas, Leo já é viciado em álcool ter Jason por perto não melhoraria as coisas.
Meu celular no criado mudo vibrou provavelmente uma mensagem, peguei rapidamente e sorri ou ver o nome de Nico na tela.
Nico 9h43
Está ocupado?
– Quem é? – perguntou Leo curioso ajeitando a mão imóvel do lado do corpo.
– É o Max, meu ex chefe – menti tentando disfarçar essa felicidade momentânea e me senti culpado por mentir pra ele daquele jeito.
O coloquei na cadeira de rodas e guardei meu celular no bolso traseiro, levando Leo para a varanda, o sol batia fraco, mas suficiente para dar uma animada no filho de Hefesto. Fui até a cozinha e peguei o liquidificador da minha mãe, soltei muitos fios e quebrei outros, arruinei as laminas e quebrei o motor. Caminhei até onde ele estava com o liquidificador em uma mão e a caixa de ferramentas na outra.
– Minha mãe queria fazer um bolo – falei tentando soar casual – mas ele fez alguma coisa errada, da um jeito nisso antes que ela chegue – pedi com um brilho nos olhos.
– Talvez demore algumas horas – ele murmurou analisando as coisas – Percy... Posso te fazer uma pergunta? – ele disse antes que eu fosse pro quarto arrumar as camas. Sentei-me na cadeira ao seu lado com calma, e foquei seus olhos curiosos nos meus, onde olheiras enormes sem concentravam.
– Claro! – falei
– Se eu morrer... – começou ele, mas fez uma pausa para que eu cogitasse essa hipótese, trinquei os dentes e ele continuou – Quero ser cremado – terminou por fim.
– Você não vai morrer – suspirei cansado apoiando minha mão sobre a sua perna.
– Olha eu estou doente, não burro – falou com um pouco de raiva – Ouvi você falando com o médico, meus órgãos estão cedendo e logo não vou agüentar mais – completou com suas orbes marejadas.
– Eu sei – disse surpreso – Mas ainda tem o tratamento, o câncer vai ceder – me entusiasmei e só vi a sua cara de dor aumentar.
– Quero visitar Jason – ele soltou tão rapidamente que por um instante pensei que fosse apenas uma ilusão, abri a boca mais a fechei em segui temendo gritar com ele. Virei e observei os prédios ao longo do céu.
– Não acho que vai ser bom pra você – soltei antes que minha voz perdesse o equilíbrio.
– Não pedi sua permissão... Eu quero ver Jason, não sou um prisioneiro aqui... Ou sou? – murmurou pegando as ferramentas e ajeitando o seu lado incapacitado pra não cair e só aceitei isso e concordei com a cabeça. Quando fiquei mais calmo, entrei e sentei no sofá da sala retirei meu celular do bolso e enquanto observava Leo trabalhar com dificuldade no liquidificador, só me concentrei em responder Nico.
Percy 10h03min
Não mais.
Nico 10h04min
Preciso te ver, tudo bem?
Percy 10h04min
Algum problema?
Nico 10h06min
Não.
Eu só quero ver você, se não quiser tbm.
Percy 10h07min
Eu quero.
Que tal na sua casa?
Nico 10h08min
Pode vir as 18h
Percy 10h08min
Fechado
(...)
Esperei que minha mãe chegasse do trabalho e inventei uma desculpa para vir encontrar Nico, me senti culpado por mentir, mas me sentiria pior se disse que vim passar a noite com outra pessoa. Só não queria que ele se sentisse um estorvo em minha vida.
Já passava das 21h quando eu anunciei a minha chegada na portaria do prédio, o porteiro já sabia de minha chegada e liberou meu acesso para o prédio que parecia no mínimo muito luxuoso. Parei diante de sua porta e arrumei meus cabelos no espelho do lado de uma das paredes da porta e só então toquei a campainha. Não ouvi nada do outro lado por um bom tempo, pensei que talvez Nico ainda não tivesse chegado do trabalho ou então ele havia cansado me espera e foi pra outro canto. Suspirei e toquei a campainha mais uma vez sentindo a culpa e o remorso me consumir por deixá-lo esperando por tanto tempo. Olhei para o relógio e vi que tinha me atrasado um pouco alem do normal.
Até que ouvi sinal de vida dentro do apartamento, Nico abriu a porta incrédulo com a minha presença. Ele usava um moletom preto e uma camiseta do AC.DC, seus cabelos bagunçados e o rosto com uma expressão neutra, mas podia sentir o frio de seu corpo ultrapassando o meu.
– Pensei que não vinha mais – Ele murmurou encostando-se ao batente da porta, o que me preocupou muito, logo que ele não me convidou pra entra.
– Eu disse que vinha – falei dando um passo pra trás pronto pra ir embora.
– Disse que vinha às 18h não as 22h43 – Ironizou ele terminando a frase com um assobio.
– Qual é? Eu cuido de um cara com câncer e com paralisia no lado direito do corpo – disse irritado com a sua maldita ironia, ele não poderia ser tão frio ao ponto de colocar as suas vontades na frente da saúde de Leo. Mas por outro lado me senti mal com as minhas palavras, e por um instante senti o fardo da doença de Leo sobre os ombros.
– Você e a sua incrível capacidade de dar desculpas – ele disse e quando seus olhos pararam de focar o chão e encontraram os meus percebi o quanto estavam vermelhos.
– Não fui eu que pulei do barco da primeira vez – disse com um sorriso de escárnio contendo a raiva que tinha em meu peito por ele ser sempre tão egoísta. Ele me olhou por um momento sem saber o que dizer, suspirou por muitas vezes e então se endireitou.
– Quer saber – murmurou ele – Vá embora, eu estava bem melhor antes de você aparecer – terminou antes de com raiva bater a porta diante de mim.
Fiquei paralisado com a brutalidade de suas palavras e só fiquei ali, observando a grande porta de carvalho envelhecida diante de mim. Queria arrombá-la, queria gritar com ele, mas ainda sim queria pedir desculpas, beija-lo e fazer amor com ele, da mesma maneira que eu sonhei vindo pra cá. Podia ainda sentir o frio do seu corpo, sabia que ele estava ali, de frente pra porta, raciocinando tudo aquilo, mas sabia que seu orgulho não a deixaria abrir e pedir desculpas. Só então percebi que talvez esse distancia tenha criado um muro intransponível entre mim e Nico que tenha tornado qualquer reaproximação possível.
Virei-me e fui em direção do elevador, mas toda a minha raiva diminuiu quando Nico abriu a porta devagar para me observar eu ir embora. Só aparecia metade de seu rosto e podia ver suas lagrimas brilharem em sua face. Algo em mim acendeu e reuni toda a coragem que tinha pra dizer.
– Só vou embora da sua vida se você falar agora.
– Então fique e faça amor comigo...
(...)
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