Perfeitos um para o outro... Ou quase isso
29 Uma missão qualquer - Parte 03
Capítulo 29: Uma missão qualquer — Parte 03
Seguimos por quase duas horas, sem conversas e sem paradas. O Major Solaren já tinha ido em missões comigo antes e sabia que eu iria parar quando achasse ser seguro, por isso não me criticou. Já Becker e seus soldados pareciam cansados. Apesar de terem experiência em combate, eles não costumavam ser mandados para longe.
Enquanto passávamos por uma área deserta e aberta, com algumas pedras grandes, senti sermos observados e então diminuí o ritmo no qual avançamos. Antes que qualquer um pudesse perguntar qual era o problema, fiquei de pé em meu cavalo e usei o gás para saltar sobre ele e seguir em sua frente.
Alguns metros á frente, uma besta pulou de trás de uma rocha e tentou me acertar. Usando o gás nos pés, rapidamente desviei e usei as espadas para cortar-lhe a cabeça. "Vooei" até em cima da rocha e esperei alguns segundos até que meu cavalo chegasse até mim, pulando sobre ele e seguindo viagem.
Apenas uma hora depois, fizemos uma parada. Era uma cidade abandonada, então havia abrigo para que eles pudessem dormir. Não pedi ajuda para a vigia e apenas assumi que ficaria vigiando a noite toda, isso era melhor do que ter que trabalhar com Becker ou seus homens. Aproveitei a parada para falar com Solaren sobre a distância que faltava até a cidade e para a minha surpresa, já estávamos quase na metade do caminho. Sendo tão perto, perguntei porque nunca tinha visto tal cidade antes e a resposta me surpreendeu.
— Ela está escondida por uma floresta. Aquela que chamam de floresta densa. Por possuir muitas árvores e ser muito grande, existem poucos que se aventuram por ela, por isso a cidade em seu núcleo foi quase esquecida — explicou-me Solaren.
— Se é uma floresta tão perigosa. Como foi encontrada novamente? O que os soldados faziam naquela área?
— Desculpe, Capitão. Não estou autorizado a lhe dar essa informação — disse-me com respeito. Não fiz questão de insistir, pois sabia que se ele não podia falar, não falaria. Os superiores não me dariam informações que não fossem extremamente necessárias, já estava mais do que acostumado com isso.
Ordenei a todos que descansassem algumas horas e que no amanhecer iríamos partir. Sentado no telhado de uma das casas e escorado em uma velha chaminé, mantive minha atenção nos arredores e aproveitei para descansar um pouco, sabendo que não podia forçar meu corpo, ou teria problemas novamente.
Metade da madrugada se passou e não tive problemas, até consegui descansar mais do que o esperado, mas meu descanso foi interrompido e da maneira mais inesperada possível. — Capitão Rivaille... Posso ter alguns minutos da sua atenção? — perguntou Armin Arlet, após subir no telhado por uma velha escada e ainda sobre ela, me encarar e esperar permissão para se aproximar.
— Apenas alguns minutos — avisei, não querendo ser visto conversando com ele, o que podia gerar ainda mais problemas com Becker. O garoto loiro acenou em confirmação e subiu por completo no telhado, caminhando até mim e se sentando ao meu lado. Antes de dizer qualquer palavra, ele pegou um pequeno pedaço de papel em seu bolso e me entregou.
Peguei-o de sua mão e ao abrir e avaliá-lo, encontrei ali informações. Eram datas, horas, local e muito mais.
— Essas são as vezes em que Eren perdeu o controle nos dois últimos anos — explicou apontando para as datas e as especificações das circunstâncias nas quais eles estavam, como se estavam lutando com bestas ou se foram atacados por elas. — Não sei quanto ao que aconteceu antes de dois anos, pois não estava ao seu lado. Mas fiz isso na tentativa de encontrar alguma ligação que me ajudasse a impedir que um acidente acontecesse.
— Sendo que você está responsável pelo Eren e que sabe sobre seu problema, achei melhor lhe confiar isso — Suas palavras eram uma mistura de culpa com preocupação. E apesar de eu não saber dos detalhes, já conhecia o principal da história que envolvia a infância deles e o abandono de Eren, do qual ele finalmente me falou naqueles últimos meses.
— Como pode ver, em todas as vezes haviam bestas presentes, mas essa foi diferente — continuou a sua explicação enquanto apontava para uma das datas, a qual eu já havia percebido e estava encarando nos últimos segundos. — Nesse dia nós fomos atacados por bandidos e Mikasa foi gravemente ferida. Eren perdeu o controle e atacou os homens. Foi a primeira e a única vez que ele perdeu o controle sem estar perto de bestas e a primeira e única vez... que matou humanos.
— Então, o gatilho não são as bestas, e sim, as pessoas com quem se importa em perigo — afirmei, ao me lembrar que quando ele perdeu o controle, estávamos no meio de uma armadilha que nos foi armada e que ele quis me tirar de lá a todo custo.
— É o que eu acho — confirmou as minhas suspeitas. — Mas não posso oferecer provas. Tudo o que tenho são teorias — explicou, se levantando e seguindo em direção a escada, antes de voltar e se ajoelhar perto de mim. Não me movi e deixei que se aproximasse e sussurrasse em meu ouvido. Em seguida partiu sem dizer mais nada.
Abri o pedaço de papel novamente e olhei os caracteres estranhos que estavam escritos na parte de baixo, lembrando-me do que o garoto acabara de me dizer:
"— Eren possuí mais habilidades do que está ciente. Uma delas é conhecer uma língua que não é a nossa. Ele pode ler e escrever, mas não percebeu isso. No papel está escrito o que ele alega ser o seu nome, mas o qual ninguém além dele pode ler. Além disso...
— Em uma das vezes que ele perdeu o controle. Tenho certeza que ouvi ele conversando com as bestas. Apesar do animal apenas rosnar, ele respondia como se estivessem conversando. Isso só aconteceu uma única vez e não me lembro das suas palavras, mas acho que é algo importante e que não deve ser ignorado... Por favor, cuide dele."
Todas aquelas palavras estavam cheias de preocupação e me deixaram com muita curiosidade. Ao que tudo indicava, o maior mistério que eu tinha que resolver, era o próprio Eren.
O resto da noite se passou rapidamente enquanto eu seguia bem acordado e com a cabeça cheia de pensamentos. Pela manhã, juntei todos e partimos, chegando ao nosso destino algumas horas depois. Em frente a uma grande abertura no muro que cercava a cidade, eles desceram dos cavalos e fizeram a entrada a pé.
Quanto a mim, entrei ainda montado no cavalo, chamando a atenção deles. — Minha escolta está concluída. Estarei pronto para levá-los de volta quando quiserem regressar. Até lá vou achar um lugar para dormir — disse, sem esperar objeções ou aceitações e seguindo um caminho diferente ao balançar as rédeas do meu cavalo e dar a ele a ordem de seguir em frente.
A cidade era maior do que eu esperava. Podia se comparar com a cidade Maria e Shina juntas. Por isso, tive que seguir por quase meia hora, até alcançar o lado oposto da cidade. Durante todo o trajeto até ali, me mantive alerta para aproximações e só depois de ter certeza que não estava sendo seguido é que diminuí meu ritmo e comecei a minha busca.
Eu não sabia como o laboratório era, então procurei qualquer coisa suspeita. Encontrei algo apenas duas horas depois. Era uma grande construção e me chamou a atenção pelo fato de parecer ser mais resistente do que as outras, apesar de ter uma parte demolida e derrubada. Era uma construção perfeita para evitar que pessoas entrassem... E que algo saísse.
Entrei por um dos buracos na parede e percebi ter tirado a sorte grande. Pelos restos de vidros quebrados e as instalações que encontrei ali dentro, aquele era certamente, o laboratório. Vasculhei armários, gavetas e tudo o que podia nos dar algumas respostas, mas não encontrei nada útil. As poucas folhas que encontrei estavam danificadas e não se podia distinguir o seu conteúdo.
Continuei seguindo e indo cada vez mais para dentro. Mantendo minhas espadas nas mãos para o caso de algum inimigo ou imprevisto aparecer e só soltando quando precisa usar as mãos para olhar algo. Passei algumas horas investigando e não encontrei nada.
Após descer algumas escadas, encontrei placas vermelhas nas paredes e portas. Não podia ler o que estava escrito devido ao ferrugem e corrosão das letras escritas, mas era óbvio que era algum tipo de aviso. Desde os tempos passados, vermelho sempre foi usado como um sinal de alerta.
Segui com o dobro de cuidado e ao chegar em uma grande sala, que parecia ser mais frio do que as outras e encontrar ali gaiolas de metal danificadas, compreendi que estava na área restrita. Era mais escuro ali embaixo e não havia muito buracos nas paredes, então era difícil de ver o restante do cômodo. Me ajoelhei no chão e fiz o que pude para me dar alguma luz.
Usei a faixa para ferimentos que trazia no bolso e coloquei enrolada na lâmina de minha espada. Joguei sobre a faixa a pólvora que tinha em um dos cartuchos de sinalização e depois usei os fósforos que trazia comigo para acender e fazer uma tocha improvisada. O fogo que se acendeu não era forte e devido ao pano fino da faixa, não duraria muito.
Larguei a minha "tocha" e usei a outra lâmina para cortar um pedaço de minha blusa, tirando uma tira de pano da parte de baixo, enrolando calmamente na lâmina com o fogo e vendo pouco depois as chamas crescerem. Ao ver que tive resultado, retirei todo o casaco e cortei-o em várias tiras, deixando-as penduradas em minha cintura para que pudesse manter o fogo aceso.
Com o problema da iluminação resolvido e com as espadas em mãos, segui para explorar o cômodo, encontrando mais gaiolas enquanto andava. Depois de olhar por todo aquele espaço, encontrei doze gaiolas... Aquilo não devia ser uma coincidência.
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