Perfeitos um para o outro... Ou quase isso
34 Treinamento em conjunto - Levi
Capítulo 34: Treinamento em conjunto — Levi
Depois que me recuperei do meu ferimento, Eren voltou aos seus treinos e o restante dos três meses se passaram mais rápido do que eu gostaria. Durante esse tempo as conversas sobre o acontecido na cidade atacada se intensificou e com eles vieram os problemas.
O esquadrão da Polícia do Interior que não é acostumado a lutar com bestas, foi punido por ter ido até lá atrás do ouro e o esquadrão da Tropa de Exploração foi punido por não ter feito o seu trabalho, mas ambos os esquadrões falaram muito sobre aquele dia e com isso eu e Eren ganhamos atenção indesejada.
Mesmo que tenha sido divulgado que chegamos naquela cidade por uma coincidência, pessoas maliciosas começaram a criar teorias de que eu estava lá de propósito e que fiz todo o trabalho sozinho para que pudesse ficar com o dinheiro. E apesar de não querer o crédito, o fato de ter defendido uma cidade toda, tendo como ajuda apenas o meu recruta, se espalhou rapidamente o que despertou raiva em alguns.
Eu fiz o possível para não dar destaque ao Eren, quando o assunto é luta, e felizmente consegui, por outro lado, o fato de que Eren não recebeu destaque quanto a sua participação na batalha, foi por que um outro boato sobre ele estava circulando e esse parecia ser mais interessante do que o fato de um recruta ter boas habilidades em combate.
O boato em questão era de que "testemunhas" afirmam ter visto eu e o Eren nos beijando... Isso era verdade, nós dois sabíamos, mas para os outros ainda era motivo de debate, assim como de especulações, como se eu estava assediando o meu recruta... Felizmente o assunto ainda não era sério ao ponto do exército investigar, ou o problema iria triplicar.
Na semana da sua partida, nòs voltamos para a base segura. No dia da sua partida para o esquadrão de Theo Becker, acordei cedo e permiti que ele descansasse até um pouco mais tarde. Naquela manhã recebi Hange, que veio trazer os equipamentos novos que eu tinha pedido e que desejou boa sorte ao meu recruta.
Erwin não veio nesse dia, mas ele já havia feito uma visita na semana passada e tinha dado ao Eren as suas instruções. Admito que fiquei feliz de ver meu amigo confiar tanto em meu recruta, apesar da preocupação que envolvia aquela missão.
Já passava das nove da manhã quando fui acordá-lo. O pirralho dormia tranquilamente na cama, agarrado ao meu travesseiro. Sentei ao seu lado e me abaixei, beijando-o para despertá-lo, que abriu seus olhos e sorriu. — Jeito incrível de ser acordado pela manhã — brincou divertidamente.
— Não se acostume — avisei abaixando novamente e dando-lhe um novo beijo, sendo retribuído calmamente. — Hange trouxe o equipamento novo. Desça e teste-o para levá-lo consigo.
— Devo levar o meu dispositivo de locomoção? Achei que deveria ser segredo o fato de que consigo usá-lo? — perguntou confuso, sentando-se na cama quando me afastei.
— Eu não sei o que o Major pretende fazer nesse treinamento, mas tem alguns que resolvem treinar os recrutas do lado de fora do muro. Se isso acontecer, é melhor que lute do seu modo, para garantir que não vai se machucar — expliquei sendo honesto. — Faça o que ele ordenar, mas mais importante, faça o que acha ser certo e não o que ele acha ser certo. Sinta-se livre para desafiá-lo, eu assumo toda a responsabilidade — garanti vendo-o sorrir.
Minutos depois ele estava de pé e duas horas depois, o seu equipamento estava testado, regulado e pronto para uso. Sua mochila também estava pronta e seu equipamento foi tirado do corpo e levado em uma bolsa que estava sobre o cavalo.
— Pegou tudo?
— Sim senhor. Mya me deu remédios e curativos para caso eu me machuque e estou levando peças e ferramentas para consertar meu equipamento no caso dele quebrar. Também tenho comigo a ordem especial do comandante — explicou-me detalhadamente, enquanto terminava de amarrar a cela no seu cavalo.
— Se cuide, Eren — pedi vendo-o se virar para mim e sorrir. Antes de caminhar alguns passos em minha direção e me abraçar, não se importando com a presença de Mya ao meu lado. Retribui o abraço e me mantive assim por alguns minutos. Deixá-lo ir era mais difícil do que eu esperava.
— São só seis semanas, passa rapidinho — brincou Eren, mas seus braços ao redor de meu pescoço se apertaram. Aquele ato estava sendo mais honesto que suas palavras. Quando nos separamos, Eren se abaixou e abraçou Mya, brincando com ela e pedindo para que cuidasse de mim, pouco depois ele partiu.
Sem ter motivos para retornar a base da cidade abandonada, resolvi ficar dentro da cidade Maria enquanto Eren estava no treinamento. Embora não dissesse isso para ninguém, além de mim mesmo, eu não queria me afastar ainda mais do meu pirralho.
Nas semanas seguintes, realizei pequenas missões nas redondezas, não me afastando muito das três grandes cidades e evitando deixar a pequena sozinha por muito tempo. Por falar nela, Mya resolveu treinar ainda mais, para que fosse de ajuda em casos de perigo. Obviamente não lhe ensinei combate ou a manipular armas, mas ensinei-lhe conhecimentos.
Dentre os conhecimentos que lhe passei, estavam táticas de batalhas, tudo o que eu sabia sobre as bestas e até mesmo conversamos sobre o livro e o ovo. Apesar de ser criança e de ter uma mente cheia de imaginação, ela sempre aparecia com novas teorias e eu realmente pensava em algumas. Dentre as mais loucas, uma estava relacionado ao ovo.
Mya deu de exemplo que lobos selvagens, quando criados para serem animais de estimação, se tornam muito dóceis e que talvez fosse possível criar uma besta para ficar do nosso lado, ao invés de ser nosso inimigo... Era uma ideia maluca, isso era certeza, mas havia verdade ali.
Afinal, já fazia muito tempo que eu acreditava que algumas bestas seguiam ordens de humanos e se isso realmente fosse verdade, significa que havia um jeito de controlá-las... Criá-las para ser um aliado, era uma das opções, mas sem saber sobre seu crescimento e quanto tempo levaria até uma besta atingir o estágio adulto, tudo aquilo não passava de teoria, uma muito louca e que me faria perder meu emprego se alguém soubesse.
Dentre as teorias discutidas, muitas delas eram tão loucas que mesmo imaginá-las me fazia sentir-me como um idiota... Mas algumas delas, apesar de malucas, poderiam explicar muitos dos mistérios que rondavam aqueles pontos desconhecidos... as bestas, as barreiras e Eren Jaeger.
Mya e eu decidimos falar com Eren sobre elas, mas, depois que ele tivesse lido o livro e pudéssemos ter a confirmação do que estava escrito ali.
O tempo passou e depois de quatro semanas, ouvi que Theo Becker havia levado dez recrutas para treinar fora dos muros. Não foi surpresa para mim, mas muitos chegaram a questionar a sua irresponsabilidade, pois ele levou recrutas e somente recrutas... Se eles fossem atacados por muitas bestas, era possível que alguém pudesse morrer, pois nem todos os recrutas são tão experientes como o meu e o Major certamente não conseguiria proteger a todos eles sozinho.
Dois dias após a viagem, uma grande comoção no portão principal da cidade Maria, me chamou a atenção enquanto eu fazia compras. Depois que o grande portão de ferro foi erguido e alguém entrou, pessoas começaram a gritar de desespero e alguém gritava de dor. Me aproximei para ver do que se tratava e encontrei Becker, carregando um garoto que tinha perdido um braço e uma perna e sangrava muito.
O próprio Major estava coberto de sangue, apesar de não parecer ferido e aqueles que estavam ao seu redor, pareciam ser inexperientes em batalha e isso era fácil de ver pelos olhos esbugalhados de medo e mãos que tremiam.
Fiz as contas e só encontrei seis soldados, contando com aquele gravemente ferido e... o meu recruta não estava ali. Passei pelas pessoas amontoadas, empurrando-as sem delicadeza alguma e chegando até eles, onde um grupo médico estava tratando-os.
— Becker, onde está o Eren?! — perguntei furioso, fazendo os murmúrios das pessoas que observavam se calarem imediatamente ao me reconhecer e perceber que estava extremamente irritado.
— Ele se recusou a vir, a culpa é dele! — gritou Becker alto e furioso. Armin que estava por perto, se aproximou e com palavras abaladas pelo choque e um pouco de medo, me explicou o que tinha acontecido... Desde a saída para fora dos muros, a sua parada na vila das montanhas, o ataque e o problema com a barreira, encerrando com a decisão de Eren e a decisão de Becker.
— Você abandonou Eren?! — disse agora indignado, sentindo minhas mãos tremerem e xingando-me mentalmente por não estar com minhas lâminas naquele momento.
— Eu não ia ficar lá e morrer ao lado dele! Eu tinha o dever de proteger os outros, não tinha tempo de bancar o herói! — continuou indignado, como se a culpa fosse do Eren e não dele.
— Se não estivesse se exibindo e não tivesse deixado a cidade só com recrutas, isso tudo não teria acontecido — disse me aproximando dele e segurando em seu colarinho, encarando-o seriamente nos olhos. — Isso tudo é culpa sua — joguei em sua cara, ouvindo os murmúrios recomeçarem.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou a voz calma do comandante, fazendo as pessoas abrirem espaço para que ele pudesse passar, montado em seu cavalo.
— Desculpe Erwin, mas preciso do seu cavalo emprestado e da sua espada. Pergunte os detalhes aos outros — disse rapidamente segurando nas rédeas do seu cavalo e fazendo-o parar. Para a surpresa de todos, eles desceu do cavalo e me entregou sua espada. Saí dali assim que peguei o animal, torcendo para que chegasse a tempo de salvar sua vida e ao mesmo tempo orgulhoso pela sua ação... O que o Eren fez, apesar de ser perigoso e uma grande loucura, era o que eu esperava do homem que amava.
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