Perfeitos um para o outro... Ou quase isso
35 Treinamento em conjunto - Eren - Parte 01
Capítulo 35: Treinamento em conjunto — Eren — Parte 01
Narração do ponto de vista de Eren. *Quatro semanas antes do incidente*
Quando cheguei em frente a base do Major Becker, haviam ali mais oito recrutas de outros esquadrões que também ficariam ali por um tempo. Ficamos em silêncio e esperando, alguns minutos depois o portão que dava a entrada para um grande campo de treinamento que rodeava a base, foi aberto e um soldado veio nos receber.
Nós descemos dos cavalos e seguimos atrás dele, que estava agindo como uma espécie de guia, explicando que era treinado do lado de fora, combate corpo a corpo e treinamento com armas. Nos fundos do terreno eram feitos simulações de ataque as bestas e dentro da base, estudávamos estratégias e tínhamos acesso a diferente equipamentos de treino para musculação e preparo físico. Ainda podíamos ler em uma grande biblioteca, relatos sobre bestas e sobre confrontos com elas.
Durante todo o dia, nos foi dito para explorar a base e que podíamos ir a qualquer lugar. Não demorou muito para que eu encontrasse Armin e Mikasa e durante o intervalo dos seus treinos, pude conversar um pouco com eles.
Armin me explicou que o modo como o Major agia quanto aos recrutasse não era como os outros esquadrões. Em muitos deles, como o Capitão Rivaille havia me dito, os recrutas sofriam na mão dos superiores, mas nesse esquadrão, eles eram subornados.
Becker dava de tudo para seus recrutas, na esperança de manter os seus e de conseguir os recrutas de outros, afinal, quantos mais mão de obra se tem, mais missões podem ser feitas e mais dinheiro pode ser obtido. Ele estava fazendo um investimento para o futuro e os recrutas que ele selecionava eram sempre os melhores.
Armin só falou bem sobre o Major, mas eu sabia o quão manipulador ele podia ser e além disso, não importa o quanto ele pudesse me oferecer, ele não era o Rivaille, isso já era motivo o suficiente para que eu não quisesse ficar ali por livre e espontânea vontade.
Durante o jantar, em um grande salão abarrotado de mesas, nos foi servido boa comida e bebida e nossas instruções sobre o treino foram passadas. Os recrutas treinavam todos os dias na parte da manhã e os demais soldados, todos os dias na parte da tarde.
Tínhamos um grande dormitório só para nós e tínhamos direito a três refeições por dia. E dentro daquele esquadrão, havia um sistema de bônus, no qual era distribuído dinheiro ao vendedor das simulações. Achei aquilo exagero demais, mas não mostrei a minha opinião.
Segui o ritmo do mar, não remando e deixando o meu barco navegar calmamente e passar despercebido. Treinei com os outros sem chamar atenção e quando estava no meu período de folga, passeava pela base com meus amigos, conversando com eles enquanto investigava o que o comandante tinha me pedido.
As duas primeiras semanas se passaram rapidamente e quanto ao que senti enquanto estava ali... Tédio, era a palavra que melhor podia descrever o meu sentimento. O treino era fácil e rápido, tinha tempo livre demais e estava começando a me entediar.
Aproveitei para conversar com alguns soldados mais velhos e descobri através deles que Becker costumava ser impiedoso e que muitos recrutas já morreram em suas mãos, mas que ele mudou de tática depois que Rivaille ficou popular no exército, pois ele queria ter um grande esquadrão para poder "ganhar" do meu capitão.
Cheguei até a ouvir boatos, de que alguns recrutas ou soldados já tiverem interesse em se juntar ao meu capitão, mas que quando Becker descobria sobre suas intenções, trazia-os para o seu lado, para que Rivaille continuasse sozinho.
Ele teve sucesso no seu plano de isolar o meu capitão, mas não estava em seu planos, que mesmo sozinho, ele ainda fosse ser o melhor.
Continuei a minha investigação e gravei rostos conhecidos que vi terem reuniões frequentes com o Major e até mesmo consegui roubar uma carta que ele ia enviar para o comandante da Polícia do interior... Como consegui pegá-la? Bom... Eu vivi muito tempo sozinho e aprendi a roubar comida para sobreviver. Roubar uma carta, do bolso de um homem que estava no banheiro, foi moleza.
Na terceira semana. Aconteceu uma espécie de palestra de Becker para os recrutas, foi uma das ocasiões raras nas quais ele mesmo nos treinou, ao invés de mandar um dos seus soldados mais antigos o fazer. Durante a "palestra", ele falava sobre situações nas quais estava sozinho e precisou enfrentar muitas bestas, dando dicas de como sobreviver estando em uma situação parecida. Ele chamou de palestra, eu entendi como: Relatos da minha vida, dos quais gosto de me gabar.
Na quarta semana, nós já estávamos bem acostumados aquela base. Durante um dos jantares naquela semana, Becker fez um anúncio sobre um treinamento fora dos muros.
— Como vocês sabem, treinar fora dos muros é uma experiência de batalha que pode ser de grande valor. Eu já levei alguns recrutas em missões, mas ainda há muitos que nem mesmo pisaram fora dos muros e isso é compreensível, afinal, muitos ainda são crianças e não devemos levá-los para a guerra — começou o seu discurso, sobre uma mesa para que todos pudessem vê-lo.
Ele falava como se realmente se preocupasse conosco e mesmo depois de tudo o que ouvi de ruim sobre ele, quase comecei a achar que ele era uma boa pessoa... Era uma pessoa realmente tenebrosa quando se tratava de manipulação.
— Eu não vou forçar ninguém a ir, cada um tem o direito de recusar, vou deixar que aqueles que querem ir se apresentem, mas vou pessoalmente perguntar a esses quatro... Annie, Armin, Mikasa e Eren, levantem-se e digam: Gostariam de ir a esse treino?
— Eu não tenho interesse — disse a jovem loira chamada Annie, se levantando, dando sua resposta e voltando a sentar. Ela possuía ótimas habilidades, mas ninguém se surpreendeu com a sua resposta, pois pelo que diziam os boatos, ela entrou para o exército por um pedido do seu pai e não porque queria.
— Sem problemas. E quanto aos demais.
— Eu aceito — disseram ambos juntos, Armin e Mikasa, voltando a se sentar, sendo que sobrou apenas a mim de pé e todos os olhares se voltaram em minha direção. — Eu também aceito — afirmei antes de me sentar.
Por um momento, pensei em recusar, mas estava curioso para saber que tipo de treinamento ele ia fazer e não queria que o Capitão fosse criticado por minha causa, seria muito provável que me chamassem de covarde se eu me recusasse a ir, mesmo tendo o direito de recusar. Era sempre assim quando o assunto era difamar o meu capitão.
— Ótimo! Já temos três recrutas, os demais novatos que quiserem ir, devem se apresentar no meu escritório amanhã pela manhã e amanhã a noite iremos partir. Quanto aos recrutas que se recusarem a ir, teremos uma batalha de simulação — acrescentou encerrando seus anúncios.
Depois do jantar, me encaminhei ao dormitório. Sendo barrado pelo Major no caminho, que me acompanhou, atraindo olhares curiosos daqueles que passavam rapidamente por nós, sem ousar ficar perto demais e ouvir do que estávamos falando.
— Soube que Rivaille tem te arrastado para fora dos muros em algumas missões, não é bom ter sua opinião aceita? — perguntou calmamente. Não lhe respondi, sabendo que ele queria informações sobre o que meu Capitão fazia nas missões.
— O que acha do meu esquadrão, Jaeger? — perguntou mudando de assunto, caminhando ao meu lado e diminuindo o passo propositalmente para eu tivesse que acompanhá-lo e assim demorasse mais para chegar ao meu destino.
— É confortável. Pouco treinamento e bastante tempo livre. Ótimo para quem quer ser um soldado sem ter que fazer muito esforço — respondi sendo honesto e fazendo-o rir, como se a minha avaliação tivesse sido uma piada.
— Se vê tantos pontos positivos, por que não fica permanente, seria ótimo tê-lo em meu esquadrão — disse andando de forma reta, com as mãos atrás das costas e um sorriso vitorioso no rosto... "Seria ótimo se eu pudesse te tirar do Rivaille!" Era o que sua expressão parecia me dizer.
— Eu disse que é um ótimo lugar, nunca mencionei que queria isso para mim — disse sério, vendo surpresa em seu olhar. — Eu não quero ser um soldado com pouco esforço — encerrei minha resposta, fazendo uma continência de respeito e me afastando, não mais andando ao seu lado e não esperando-o para me seguir.
No dia seguinte, pela manhã, o comandante Smith veio dar ao Major a permissão para deixar os muros. Não ouvi a conversa, pois eles estavam longe, mas o comandante parecia estar lhe repreendendo por sair das muralhas levando consigo apenas recrutas sem experiência. Repreensão essa que o Major disse não merecer, pois não iria nos levar muito longe.
Durante a sua saída da base de Becker, Erwin me pediu para acompanhá-lo até seu cavalo. Sendo uma ordem do comandante, nem mesmo o Major pôde me impedir. Andando ao seu lado, ele perguntou em um sussurro, quando já estávamos fora da residência, no pátio de treinamento onde não havia ninguém por perto.
— Como vão as coisas aqui?
— Bem, sem motivos para preocupação.
— Descobriu algo? — perguntou referente a investigação. Relatei os encontros que ele teve com um homem encapuzado e sobre que já tinha visto aquele homem antes.
— Quem ele é?
— Não sei seu nome, mas eu o encontrei antes, enquanto estava na cidade com Rivaille. Ele estava em cima da jaula com a besta no dia em que fiz o teste de coragem. O capitão deve conhecê-lo. Além disso, consegui isso, não sei se vai ser de ajuda, mas é tudo o que posso fazer — expliquei entregando discretamente a carta para ele.
— Na última noite, o Major finalmente falou comigo sobre a possibilidade de deixar o capitão e vir para o seu esquadrão. Agora que ele mostrou o seu interesse e eu o recusei, é provável que eu seja mais vigiado, então não quero correr riscos. Por isso, vou encerrar a minha investigação por aqui — avisei seriamente.
— Não se preocupe. Você fez o suficiente e também não quero te colocar em problemas. Se cuide e use o documento caso precise dele — lembrou-me assim que chegamos ao seu cavalo, pouco antes de me despedir e ele partir.
Queria ter perguntado sobre o capitão, mas não queria aumentar ainda mais a saudade que tinha dele e das noites calorosas e cheias de paixão ao seu lado... Até mesmo sentir o toque das suas mãos ou poder abraçá-lo, seria algo que me faria muito feliz naquele momento, mas contive meus sentimentos, sabendo que ele devia sentir o mesmo e que quando nos encontrássemos de novo, poderia fazer tudo o que queria e muito mais.
Naquela noite, um grupo de dez recrutas, liderado pelo Major, deixou a cidade Maria. O nosso objetivo era a cidade mais próxima e que ainda tinha barreira, que ficava a vinte minutos de cavalgada dali. Era a parada mais próxima e achei que ficaríamos ali, mas para a minha surpresa, ele disse que iríamos além, pelas descrições do local, parecia ser a cidade nas montanhas na qual já fui duas vezes.
Fiquei surpreso, pois ele estava com certeza indo contra as ordens do comandante, mas os demais nada sabiam sobre isso. Aproveitei aquele tempo em que seguimos cavalgando em silêncio, para avaliar o modo como ele comandava.
Levando em consideração o pouco equipamento que estavam levando, a necessidade de fazer paradas a cada trinta minutos e o modo desorganizado como avançamos, era fácil dizer que ele não tinha o hábito de ir em viagens longas e até me fazia duvidar se todas aquelas histórias que ele contou, realmente tinham acontecido com ele.
Algumas horas depois, finalmente alcançamos o nosso destino e enquanto eles avançavam mais a frente, eu segui no fundo, avaliando as redondezas e sentindo muitas presenças de bestas por ali. A situação ficaria ruim em breve... eu podia sentir. A dúvida agora era o que eu faria sobre isso? O certo era conversar com o Major, mesmo que isso fosse a última ação que quisesse tomar... Ou deveria agir por mim mesmo, caso ele não percebesse nada sozinho?
— Olá, eu sou o chefe dessa cidade... O que fazem por aqui? — perguntou o homem robusto que já tinha encontrado outras vezes. Ele avaliou o grupo e ao me ver ali, a surpresa preencheu sua face. Balancei a cabeça para os lados e ele fez um rápido sinal afirmativo, entendendo que não deveria dizer nada sobre mim.
Major Becker olhou em minha direção ao ver que o chefe estava me encarando e apenas dei de ombros, em um sinal que mentia dizendo: "Não faço ideia do motivo dele estar me encarando."
Becker disse ao chefe que estava treinando alguns recrutas e pediu para ficar alguns dias na cidade, garantindo que pagaria pelas despesas que pudéssemos dar. O chefe aceitou e disse que ia avisar aos outros moradores, sorrindo discretamente ao me ver ali.
O seu sorriso era discreto, mas parecia dizer: "Tem um recruta dentre os seus, que poderia lhe ensinar muito mais do que aprender"... Ri internamente com o chefe e decidi que já que estava ali, deveria aproveitar o "treino", enquanto tentava descobrir se a pequena cidade estava ou não correndo algum risco.
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