Perfeitos um para o outro... Ou quase isso

36 Treinamento em conjunto - Eren - Parte 02


Capítulo 36: Treinamento conjunto — Eren — Parte 02

Narração do ponto de vista de Eren.

No restante daquela noite, fomos instruídos a dormir e descansar da viagem, pela manhã fomos reunidos no centro da cidade e Becker nos passou algumas instruções:

— Essa cidade é pequena e seus muros são baixos, então vocês podem ver bestas do lado de fora em completa segurança, que é fornecida pela barreira. Para aqueles que tiverem coragem, podem montar grupos de três ou quatro e sair para fora da cidade, investigar e caçar bestas e depois voltar para dentro da barreira, mas tome cuidado, pois ao sair daqui para treinar, você estará responsável por si mesmo.

Suas instruções eram o esperado de alguém que parecia não querer nos ensinar e que não queria ser responsabilizado caso alguma das crianças seja devorada. Mikasa, Armin e mais dois formaram um time para ir até a floresta ali perto e me convidaram, mas recusei.

Não queria sair sem meu equipamento e também não queria mostrar-lhes minha arma. Lhes pedi para ter cuidado e para não entrarem muito na floresta e já ia acrescentar que deveriam ir de cavalos quando alguém me interrompeu.

— Eren?! Não sabia que estava aqui, cara olha como você cresceu?

— E que músculos definidos são esses? O que tem feito nesses últimos meses? — brincaram os dois jovens, Tony e Riran, que havia conhecido em minha primeira viagem até ali e com quem tinha feito amizade.

— Eu tenho treinado muito. E quanto a vocês? — questionei com um fraco sorriso. Era bom vê-los, mas não naquele momento.

— Como se conhecem? Você já esteve nessa cidade antes? — Perguntou-me Becker, fazendo os meninos perceberem que algo estava errado e trazendo a atenção dos outros recrutas para mim. O chefe chegou e fuzilou os dois garotos com os olhos, antes de olhar para mim com aquele semblante culpado e pedindo desculpas com os olhos.

Apenas sorri amigavelmente para ele e respondi ao Major, da melhor maneira que podia. Falando a verdade, mas não toda ela.

— O capitão Rivaille veio em uma missão nessa cidade, quando recém me tornei seu recruta. Essa ocasião não foi divulgada devido aos muitos problemas que aconteceram naquela ocasião, que incluem eu me ferir, o Capitão sendo repreendido e até a demissão de um outro capitão que estava presente durante o incidente — expliquei vendo-o pensativo.

— Deve ter sido quando o Rivaille teve o corte do salário e o Reiner foi expulso do exército... Haviam boatos de que você estava presente, mas não achei que fossem verdadeiros — comentou o Major, mostrando ser bem informado.

— Eu não estou interessado nas bestas por hoje, então vou me retirar para conversar com meus amigos — avisei passando o braço pelos ombros de um deles e arrastando-o para longe enquanto o outro nos seguia.

— Desculpe, Eren. Parece que te causamos problemas — pediu aquele a quem eu estava abraçado.

— Não se importe muito com isso — disse sendo honesto. Eu sabia que não poderia esconder aquilo dele, mas mesmo assim fazia o possível para ocultar o máximo de informações possíveis. Era algo essencial que tinha aprendido com Rivaille.

Durante aquele dia, brinquei de lutar com os dois, devolvendo a vez em que fui vencido por eles e aproveitei para conversar com os demais cidadãos que eram as mulheres, crianças e os idosos.

Durante o dia, também mantive a vigia no lado de fora e percebi que as bestas continuavam ali, espreitando. Quando o grupo de Mikasa voltou, eles reportaram ao Major que havia muitas bestas ali e que por ser perigoso, não era recomendável que fôssemos treinar do lado de fora. Com o passar do dia, as bestas continuaram aumentando de quantidade, ao ponto de ficarem visíveis para que qualquer um pudesse vê-las rondando a cidade. Isso começou a deixar os recrutas apreensivos... Bom, a maioria deles.

Durante o jantar na estalagem, estavam todos de cabeça baixa e temerosos. Pois mesmo sem experiência em combate, era de conhecimento de qualquer membro da Tropa de Exploração, que quando bestas se reuniam ao redor de uma cidade, era sinal de que a barreira estava para falhar.

O chefe conversou com o Major e perguntou a ele o que faria e se podia ajudar. O major explicou que não podia lutar usando os recrutas e que iria partir naquela noite, assim que chegasse na cidade de Maria, iria pedir para que uma unidade viesse ajudá-los. Sem poder fazer nada, além de aceitar a sua decisão, o chefe concordou.

Depois do jantar, estavam todos descansando, em um silêncio sufocante, foi quando a esposa do chefe apareceu.

— Como vai o Capitão Rivaille? — perguntou amigavelmente.

— Bem e impiedoso como sempre.

— Foi assim que melhorou tanto as suas habilidades em luta? — perguntou Tony, entrando com seu amigo inseparável e sentando na mesa na qual eu estava antes sozinho e que agora tinha como companhia a esposa do chefe.

— Sim. Caí e fui derrubado tantas vezes que eu e o chão nos tornamos bons amigos — respondi fazendo-os rir.

— Como vocês podem sorrir?! Nós podemos ser atacados a qualquer momento! — disse um dos recrutas, ele estava em completo pânico e o olhar de Becker para ele era de decepção.

— Nós só...

— Temos um problema Major! — disse Armin entrando na estalagem e interrompendo o que Tony ia dizer. Ele estava preparando os cavalos lá fora e disse que viu movimentação das bestas — Elas cercaram a cidade, e estão paradas principalmente em frente ao portão — reportou o meu amigo.

Ao ouvir suas palavras, todos correram para fora para conferir o problema com seus próprios olhos, assim como eu. Ao avaliar a situação e ver aquelas bestas, uma lembrança quase distante veio em minha mente.

— Eu nunca vi um comportamento como esse — comentou Becker, olhando intrigado para as bestas.

— Eu já vi — disse chamando a atenção de todos.

— Para falar a verdade, eu também já vi — disse Armin, olhando para Mikasa que fez sinal afirmativo. — Nós vimos isso, dois dias antes de Shiganshina ser atacada — explicou Armin para aqueles que não tinham entendido.

— Então...

— A barreira está prestes a quebrar permanentemente — disse as palavras que Becker parecia não querer dizer. — Não será nesse momento, mas elas obviamente não querem deixar que qualquer um de nós saía, principalmente quando nosso objetivo é trazer reforços — conclui o que tinha percebido da situação.

— Não fale como se as bestas tivessem consciência! — repreendeu-me o Major, olhando-me com ódio... Ali estava o verdadeiro Major por trás daquela máscara falsa de gentileza que ele usava.

— Você estava planejando sair essa noite. Acha mesmo que é coincidência elas terem aparecido justo agora? — perguntei cruzando os braços sobre o peito e vendo os recrutas lhe encararem.

— Parece que você passou tempo demais com Rivaille. Já está tão louco quanto ele — disse-me em tom sério, chamando os recrutas para dentro da estalagem, para fazer uma reunião. Todos eles o seguiram, enquanto o chefe e os demais mostravam o terror em suas expressões.

— Não se preocupem. Elas estão cercando a cidade, mas ainda não posso sentir a sua intenção de matar. Isso significa que elas não vão atacar imediatamente, temos ao menos mais algumas horas, até lá eu vou pensar em alguma coisa — garanti ao chefe, tranquilizando a sua esposa com um toque em seu ombro.

Ao me juntar aos demais, fiquei de canto ouvindo-os debater sobre o que deveria ser feito. Depois de quase uma hora, Becker decidiu que iríamos embora, pois ficar ali era mais perigoso do que tentar uma fuga.

— Você vai abandoná-los?! Essas pessoas todas vão morrer assim que a barreira quebrar, se não tiver ninguém para protegê-las! — disse em tom indignado.

— Não vou proteger estranhos ao custo da minha vida — disse sério e sem nenhum pingo de remorso. Eu podia ver que a maioria dos recrutas estava um pouco assustado ao ver aquela mudança de personalidade dele, mas ao mesmo tempo, eles estavam contentes por não precisar morrer.

— Rivaille jamais iria abandonar essas pessoas... É por isso que ele é o melhor e você nunca poderá vencê-lo — disse em sua frente, sentindo-o segurar na gola de minha camisa e me encarar com raiva.

— Se gosta tanto do modo como seu Capitão age, então seja como ele! Fique aqui e tente salvá-los. Eu vou embora amanhã pela manhã, assim que conseguir uma brecha por onde passar — disse me soltando.

— Pois é isso mesmo que vou fazer. Prefiro morrer a ser um babaca idiota como você! — xinguei-o com raiva ouvindo-o rir.

— Quer ficar, fique. Você vai morrer e mesmo se sobreviver, nunca mais poderá voltar ao exército, pois ofender um superior e ir contra as suas ordens é considerado crime — debochou sem nem se importar que os outros estivessem ouvindo tudo.

Aquilo era uma verdade. Mesmo se eu o acusasse de estar indo contra o seu dever ou de ter abandonado todos aqueles moradores, as pessoas não me dariam ouvidos. Por quê? Porque eu era um recruta e ele era um oficial de alto cargo e condecorado. Entre a minha palavra e a dele, a minha palavra não valia nada.

— Eu Eren Jaeger, estou assumindo ações por conta própria, mas tenho autorização para isso do comandante Erwin Smith, então o babaca do Major Becker, não pode me impedir ou me ameaçar — disse tirando do bolso o que tinha ganhado do amigo do meu Capitão e jogando em cima da mesa, antes de sair da sala e deixar todos ali de boca aberta.

Aquele documento era um presente de Erwin por eu ter aceitado a missão que ele me deu. Originalmente o propósito era para eu cancelar o treinamento no caso de ver que minha vida corria algum risco, mas fui instruído a usar como bem entendia e que ele assumiria responsabilidade pelos meus atos.

Felizmente foi útil naquele momento, pois se eu não voltasse com Becker e não tivesse aquela autorização, poderia ser expulso do exército e ser separado para sempre de Rivaille.

— O que houve? — perguntou o chefe, quando saí de dentro da estalagem onde a reunião acontecia.

— Sinto muito, eles estão partindo ao amanhecer — avisei vendo desespero daqueles que estavam ali presentes. — Mas garanto que não vou a lugar algum. Vou fazer o que puder para protegê-los — garanti ao chefe.

Pedi a ele que reunisse todos, assim que a reunião dos soldados acabasse. Eles liberaram o espaço apenas uma hora depois e todos os moradores da cidade entraram lá. Ao invés de sair e nos deixar a sós, os soldados se expremeram perto da parede e ficaram em pé observando a conversa que viria a seguir.

— Estão todos aqui?

— Sim. Todos os trinta e dois moradores estão aqui, até mesmo os idosos e crianças — afirmou o chefe. Forcei-me a ignorar aqueles que me observavam e a esquecer que meus dois amigos estavam ali e que novamente tinham me abandonado.

— Como vocês sabem, ainda não possuo muita experiência, mas garanto que vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance. Posso contar com a ajuda de vocês?

— Ser o recruta do Capitão Rivaille, já lhe dá a nossa confiança, mas sabemos o quanto você é esforçado e se diz que está aqui para nos ajudar, seríamos tolos em não cooperar — disse a mãe da menina a quem salvei no passado.

— Diga-nos suas ordens Eren. Acataremos cada uma delas — disse o chefe da vila. Pude ver a surpresa ser esboçada no rosto dos recrutas que a tudo ouviam e viam com espanto, até mesmo Becker.

Eu estava escorado em uma mesa, enquanto observava a todos e sentia o peso de suas vidas em minhas mãos. Me perguntava se ele sempre sentia aquilo e se em todas as vezes que ele foi lutar, era tão difícil quanto era para mim naquele momento... Como se não tivesse oxigênio o suficiente para respirar.

— Eren, fico feliz que esteja disposto a ficar para nos proteger, mas tome cuidado para não se machucar. Ou lidar com o Capitão Rivaille, vai ser mais assustador do que enfrentar as bestas — comentou a esposa do chefe em tom de brincadeira, fazendo os mais velhos presentes rirem ao lembrar do que o Capitão tinha feito ao Reiner.