Perfeitos um para o outro... Ou quase isso
32 Todos querem o meu recruta - Parte 01
Capítulo 32: Todos querem o meu recruta — Parte 01
Sentado na cadeira em minha frente, eu tratava das feridas do homem enquanto ele me relatava o principal, agora que tinha se acalmado um pouco.
— Eu sou um viajante e já estive em cidades sem barreiras, onde ouvi falar que você ajudava as pessoas sem precisar das ordens do exército... Agora, estou morando em uma cidade com barreira, que começou a falhar recentemente — começou a explicação, fazendo caretas de dor enquanto eu tratava-o.
— O chefe da cidade fez um pedido de ajuda para o exército e o comandante Smith mandou uma unidade para ajudar os moradores, mas outra unidade apareceu, aparentemente vinda sob ordens de alguém superior ao comandante das Tropas de Exploração.
— Desde então, eles tem brigado entre si e não sabemos a quem devemos obedecer, pois suas ordens são diferentes umas das outras. Eu imploro para que nos ajude. Sei que sendo um Capitão, não pode fazer muito, mas se dependermos dessas pessoas, muitos de nós vão morrer — explicou-se com um suspiro de desespero contido, no mesmo instante em que eu terminava de tratá-lo.
— Eu entendo a sua situação e vou ajudar, não se preocupe. Pegue seu cavalo e leve-o até o celeiro, para que coma algo, se hidrate e descanse enquanto pode. Nós vamos nos arrumar e partiremos em duas horas — avisei vendo um grande sorriso em seu rosto. O homem se retirou e foi fazer o que lhe pedi.
— A situação é assim tão grave que você precisa de duas horas para se preparar? — perguntou o pirralho ao meu lado.
— Essa cidade da qual ele falou, é famosa por minerar ouro. Essa briga pelo comando é porque eles costumam pagar pelos serviços do exército. Nesse caso, a equipe que irá cuidar do problema, será aquela que terá o pagamento — expliquei terminando de guardar os materiais que tinha usado.
— No fim, eles só querem o dinheiro — disse a pequena Mya, que estava sentada na mesa e tinha ouvido toda a conversa.
— É assim que são a maioria dos adultos no exército, se acostume, pequena — disse fazendo um carinho em sua cabeça e me levantando. Acrescentando as ordens a seguir: — Eren, prepare seu equipamento e depois refaça seu curativo. Mya, prepare nossos cavalos e mantimentos para alguns dias.
— Sim senhor — disseram os dois ao mesmo tempo seguindo cada um para uma direção diferente e indo acatar minhas ordens. Em casos sérios como aquele, não havia brincadeira ou negações, cada um cumpria com seu papel sem reclamar.
Arrumei meu equipamento e depois de pegar algumas roupas, fiquei o tempo restante estudando o mapa. O terreno ao redor daquela cidade, era dos mais problemáticos, pois havia um precipício na parte de trás da cidade e florestas imensas dos lados, deixando apenas a parte da frente com livre acesso. Não era possível fugir e aquelas malditas florestas bem ao lado do muro, podiam ocultar um ataque até o último segundo.
Ainda me lembrava da última vez que tinha ido até lá, foi a minha última missão antes de recrutar o Eren e foi nela que me feri. Sempre haviam muitas bestas naquela área, e mesmo eu, não conseguia sair completamente sem danos.
As duas horas rapidamente se passaram e nós estávamos prontos para partir. O homem estranhou que eu fosse levar a pequena conosco, mas não a deixaria para trás. Seguindo cada um com um cavalo, optei por pegar uma rota diferente da que o homem usou para chegar até nós, pois ele havia encontrado muitas bestas pelo caminho.
Assim, a nossa jornada se iniciou de tarde e cinco horas foram precisos para alcançar o nosso destino, chegando lá somente ao anoitecer. A cidade estava completamente acordada, com tochas acesas durante todo o perímetro do muro, mas em suas ruas, não havia ninguém, nem mesmo os soldados.
A pessoa que abriu o portão e nos permitiu a entrada, disse que os cidadãos estavam com muito medo de ficar fora de casa, pois havia muitas bestas nas redondezas e elas podiam atacar a qualquer momento. E de fato, era algo a se temer, pois eu não estava vendo-as, mas as presenças que vinham de dentro das florestas, facilmente passavam de cem.
— Capitão... Isso é ruim — comentou Eren preocupado. — Sim, muito ruim — conclui, ao sentir que o desejo de matar das bestas estava se intensificando... A barreira iria se quebrar, ainda naquela noite.
— Onde está o chefe da cidade? — perguntei ainda montado em meu cavalo, para o jovem guarda que nos tinha aberto o portão, ele apontou para uma grande construção e disse que estava em uma reunião com os soldados.
— Você me pediu ajuda, isso significa que confia em mim. Quantos mais estão do seu lado? — perguntei devido ao fato de que muitos estavam indecisos entre quem seguir. Para algumas dessas pessoas, eu só seria um motivo para a confusão ficar ainda maior.
— Eu sou um viajante experiente e muitos acreditam em minha palavra. Quando disse que iria buscá-lo, mais da metade da cidade garantiu que se você viesse salvá-los, eles iriam obedecer suas ordens, incluindo o chefe — avisou de imediato. Sabendo disso, eu tinha consciência de que a quantidade de vidas em minhas mãos, eram muitas.
— Certo. Então vamos até o chefe — ordenei e ele acenou em afirmativo, indo na frente e me mostrando o caminho. Ao chegar na grande construção, interrompemos uma reunião que estava acontecendo na sala... se é que aquilo podia ser chamado de reunião, pois pelas palavras ofensivas e gritos que tinha ouvido, mais parecia ser uma briga.
Ao entrar no recinto recebi a atenção de todos os soldados presentes. Aqueles que vestiam uniformes marrons, que eram da Tropa de Exploração, me mostraram respeito, quanto aos que vestiam uniformes pretos, olharam-me com raiva. Eles eram da Polícia do Interior e nem mesmo deviam estar ali.
Apenas ignorei a presença de todos eles e a surpresa de me ver ali, principalmente de Petra, que estava junto do grupo de exploração.
— Chefe, esse é o homem de quem falei.
— Obrigado por ter vindo! Por favor, nos diga o que fazer? — pediu o chefe quase chorando ao me ver, fazendo uma nova rodado de olhares nada amistosos serem direcionados a mim, mesmo dos meus colegas da Exploração.
— Não há tempo para agradecimentos. A barreira vai se quebrar essa noite, precisamos nos preparar para o ataque. Encontre uma construção grande o suficiente para que possamos colocar os indefesos dentro e faça um pedido para que todas as famílias que moram perto dos muros, recuem para o centro da cidade. E de preferência, ordene que usem a menor quantidade de casas possíveis, pois não posso proteger todas as construções.
— S-Sim, mais alguma coisa?
— Leve a menina até o hospital — disse apontando para a criança atrás de mim. Ele ficou surpreso, mas concordou. Me virei para ela e me abaixei em sua frente, ficando da sua altura — Mya, preciso da sua ajuda. Vá até o hospital, suba no terraço e dispare o sinalizador, para que possamos saber a sua localização. Depois mantenha vigilância e atire sempre que conseguir ver uma besta se aproximando, assim como fizemos no treino, pode fazer isso?
— Sim. Eu fiz isso quando estava sozinha com o Eren — disse-me com um sorriso. — Eu vou pegar o sinalizador reserva no seu cavalo. Cuide do Eren, ele está machucado — lembrou-me antes de sair, fazendo-me sorrir. Levantei-me e comecei:
— Eren...
— Vou vigiar de perto a evacuação dos cidadãos e aviso se tiver qualquer problema, você fica com a vigia? — interrompeu-me já sabendo quais seriam as minhas ordens. Acenei em afirmativo e ele se virou e correu porta a fora, indo atrás do chefe que tinha saído há pouco com Mya.
— Não sabia que tinha um companheiro tão confiável, ele parece ser muito habilidoso — comentou o homem que me levara até ali.
— É meu recruta, ainda está em treinamento, mas tem muita coragem — disse sendo honesto e já seguindo para fora da residência.
— Capitão Rivaille, o que podemos fazer para ajudar? — perguntou Petra, surpreendendo seu grupo. Olhei para aquele que estava no comando e ele desviou o rosto, não parecia com vontade de me ajudar. — Aja como um soldado e faça o que seu líder mandar. Não tente fazer as coisas sozinha, ou poderá se colocar em problemas — avisei-a já me retirando, sem acrescentar mais nada.
Comecei a minha vigia, subindo em uma torre no centro da cidade e vendo que as pessoas estavam evacuando para a igreja e a casa do chefe. Mya logo disparou um sinal de fumaça, usando a cor branca para que se destacasse na escuridão da noite.
— Menina esperta — elogiei em um sussurro, não contendo o orgulho de vê-la agindo de maneira tão confiável. Devia ser aquela a tal sensação que as pessoas chamavam de "orgulho de um pai".
A evacuação estava se seguindo em um ritmo lento e isso me preocupava. Eren seguia de um lado a outro, ajudando crianças a seguirem com seus pais, verificando as casas das quais ninguém havia saído e garantindo que os primeiros a evacuar fossem as pessoas mais perto dos muros.
Estava demorando tanto que me juntei a ele, dando o aviso de evacuação para aqueles que ainda não o haviam recebido. Em determinado momento, estava ajudando uma mulher grávida a sair de sua casa com a sua filha, quando algo aconteceu.
— Senhor soldado, aquilo significa algo importante? — perguntou a mulher apontando para o céu. Mya havia disparado outro sinal branco, era o sinal de que a invasão já tinha começado.
— Desculpe. Senhora, preciso ir — disse de modo apressado, puxando minhas espadas das costas e ativando o meu gás, saindo da rua e subindo em cima de um telhado. Correndo por cima das casas e usando o gás para saltar de uma construção a outra. Quando estava na metade do caminho, outro sinal foi disparado, na mesma direção da qual eu havia vindo.
— Droga! — praguejei alto, sem saber o que fazer.
— Eu vou para aquela direção, volte de onde veio — disse Eren, chegando até mim e segurando em meus ombros olhando-me seriamente. — Mantenha o controle, se você se perder, todos nós vamos morrer — lembrou-me, dando-me um rápido beijo e partindo na direção na qual a primeira invasão aconteceu.
— Tome cuidado! — gritei quando ele já estava longe, sem saber se tinha ouvido ou não. Me virei para voltar pelo caminho que tinha feito e vi Petra me encarando surpresa, na rua abaixo e em frente de onde eu estava parado. Pela surpresa em seu rosto, acho que ela tinha visto o beijo... Não que eu me importasse muito com isso.
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