Capítulo 11: Punição ou armação?

Eu recebi uma intimação para ir falar sobre a briga com Reiner, até aí estava normal, mas ao saber que a intimação também era para Eren, comecei a suspeitar de que havia algo estranho.

Seguimos de cavalo até a cidade de Shina, a maior das três cidades, onde ficava o quartel central da Polícia do Interior, da Tropa de Exploração e onde estava localizado o tribunal para pequenos e grandes julgamentos. Quando chegamos, estava acontecendo uma audiência envolvendo alguns policiais, então fomos orientados a esperar do lado de fora. Havia um banco, então sentamos nele, um ao lado do outro.

— Estou um pouco nervoso — comentou o pirralho, mostrando medo. Quase ri ao perceber que ele tinha medo de um tribunal, quando não tinha medo das bestas.

— Eu já vim aqui tantas vezes, que não sinto mais nada, além de sono — respondi honesto, fazendo-o sorrir divertido. Aquele sorriso era o mesmo que já havia visto várias vezes e o mesmo que esteve em meus pensamentos nos últimos dias. Fechei os olhos e respirei fundo, tentando bloquear aquela visão. Cruzei as pernas, escorei minha cabeça no ombro de Eren e cruzei os braços enquanto esperava.

— Estou com sono. Me acorde quando chegar a nossa vez de entrar — expliquei tentando realmente descansar, pois por culpa de um certo pirralho que me abraça todas as noites, eu quase não dormi naquela semana.

— Capitão... O julgamento já acabou e apesar de ainda não termos sido chamados, há muitos pessoas nos encarando — avisou com voz hesitante.

— Isso te incomoda? — perguntei sem me mexer e ainda de olhos fechados.

— Não.

— Então pare de falar. Quero dormir — disse suspirando pesadamente. Eu estava realmente querendo dormir. Não ouvi mais a voz dele, mas seu ombro que antes estava tenso, relaxou, então não havia motivos para eu me preocupar.

— Capitão Rivaille, o comandante está se aproximando — avisou o meu recruta. Abri os olhos e encontrei Erwin, assim que chegou até mim.

— Cansado?... Está em condições de comparecer ao julgamento? — perguntou preocupado. Levantei-me junto de Eren e respondi:

— Só estou com sono, vamos acabar logo com isso para que eu possa ir para casa dormir — disse seguindo para dentro da sala.

Eren foi colocado em uma cadeira e eu fui até o meio da área de julgamento. Tendo superiores em ambos os lados e em minha frente, sentados e encarando-me com expressões hostis. Na parte de trás, haviam alguns curiosos para observar meu julgamento.

— Nos encontramos novamente, Rivaille... Essa já é o quê, a quinta vez, nesse ano? — perguntou o juíz, olhando para os papeis referentes ao meu caso.

— É a sétima vez esse ano, Senhor — respondi honestamente.

— Devo ter me perdido depois da terceira — disse em um reflexão que parecia ser para si mesmo. — Pouco depois de receber a acusação de Reiner pela agressão sofrida, eu recebi o seu pedido para tirá-lo de seu posto, então já sei o que aconteceu. Mas precisamos confirmar os acontecimentos — explicou, sendo imparcial em suas observações.

Pelos minutos seguintes respondi dezenas de perguntas que iam desde se realmente bati em Reiner, meus motivos para fazer isso e até o que eu estava fazendo naquele lugar, quando não fui mandado lá para uma missão.

— Eu estou ciente da sua segunda base Rivaille, assim como do seu trabalho fora do exército — anunciou o juiz, deixando muitos surpresos ou curiosos, afinal, poucos sabiam sobre aquilo. — Mas você precisa entender que não pode interferir em uma missão oficial, isso é considerado como ir contra as ordens do exército.

— Também não posso deixar passar a agressão. Pois tendo motivo ou não, agressão física deve ser punida, mesmo que a pessoa que apanhou, tenha merecido isso — disse, estando claramento do meu lado, o que pareceu não agradar alguns dos presentes.

Continue parado e apenas escutando suas palavras. — A gravidade da sua punição, será determinada após algumas perguntas que serão feitas ao recruta, Eren Jaeger — disse, pedindo ao Eren para levantar de sua cadeira e se aproximar, quando ele chegou ao meu lado, as perguntas começaram.

— Senhor Jaeger. As regras do exército dizem que menores de idade, não podem ser forçados a lutar. Você foi levado para fora da barreira contra a sua vontade?

— Não Senhor. O capitão Rivaille me explicou que se eu fosse treinado por ele, deveria estar pronto para lutar a qualquer momento, mesmo que não tivesse idade para isso. Eu estava ciente e de acordo com seus métodos — explicou de modo formal.

— No dia do acontecido. Você se envolveu na luta e se feriu. Nesse dia, recebeste ordem para lutar.

— Não Senhor. Me foi recomendado a não lutar, pois ainda não estou pronto para isso. O meu envolvimento foi por iniciativa própria, quando a vida de uma criança corria perigo.

— Última pergunta, Senhor Jaeger. Na equipe que foi desfeita, que estava sob a supervisão do Capitão Reiner, houve um soldado que fez menção ao fato de que Rivaille dividiu um quarto com você. Essa ação foi feita com seu consentimento, e se sim, por quê?

Essa pergunta pegou todos de surpresa, não só os superiores que estavam ali como jurados, como a mim e ao próprio Jaeger. Eren levou um tempo para responder, parecia em choque com o fato de aquele assunto ter surgido do nada. Quanto a mim, sabia que algo assim podia acontecer e até suspeitava de quem poderia ter falado. Ela não pareceu feliz de ter sido ignorada.

— Eu aceitei dividir o quarto com o Capitão. Isso me deixa com mais segurança para dormir, já que não posso me defender no caso de um ataque surpresa — Foi a resposta do meu recruta. Felizmente ele não disse que a ideia de dormir juntos era minha, o que evitou mais falatório desnecessário.

— Todas as dúvidas foram tiradas e como o caso não possuí nada que possa ser considerado muito grave, vou lhe dar uma punição leve. Ofereço seis meses de corte da metade do seu salário, você pode aceitar ou escolher a segunda opção.

— Segunda opção? — Aquilo não era comum.

— O comandante da polícia do Interior quer ter Eren Jaeger sob sua supervisão. Se você entregá-lo, estará livre da punição — explicou parecendo não gostar daquilo, tanto quanto eu.

Ali estava o motivo pelo qual eu tinha a sensação de que aquele julgamento era estranho. Não era só o fato de Eren ter sido intimado, mas outras pequenas questões, como a espera de uma semana para falar sobre o assunto e por não terem me dado nem uma missão naqueles últimos dias.

A punição que o juiz me ofereceu era o normal e justo para aquela acusação. Quanto a oferta do comandante, aquilo era uma grande armação. Ele nunca gostou de mim, então, era provável que quisesse dificultar a minha vida.

— Escolho o corte no pagamento — disse, não vendo surpresa em sua face e percebendo um leve traço de alívio. Esse alívio foi explicado pelas palavras seguintes, palavras de aviso que estavam sendo acobertadas por elogios ao meu recruta.

— Desde que o garoto Eren participou do teste de coragem, o nome dele se espalhou pelas três cidades. É um recruta impressionante e tenho certeza que muitos gostariam de tê-lo em seu time. Continue treinando-o para que se torne um bom soldado — encerrou suas palavras e meu julgamento.

Daquelas palavras eu pude tirar quê: Pessoas importantes criaram interesse no garoto. Existem aqueles que estão tramando enquanto tentam tirá-lo de minha supervisão e aqueles que o querem, não são considerados bons soldados. Eram muitas informações e ao mesmo tempo, poucas.

Assim que saímos da sala, Erwin veio até mim e me pediu para acompanhá-lo até seu escritório. Saímos do parlamento judiciário e seguimos a pé, algumas ruas depois, alcançamos o quartel central da Tropa de Exploração. Já em sua sala, o comandante me passou a minha próxima missão, explicando-me com detalhes e dando-me duas opções.

— Os superiores querem uma investigação na Vila Mo, ela teve sua barreira quebrada há seis anos e já foi completamente desabitada, mas recentemente há muitas atividades de bestas naquela região e recebemos relatos de um grupo que passou por lá, na volta de uma missão, que há uma grande quantidade de bestas nível dois dentro da Vila.

Alguns acreditam que essa "temporada de paz" que nossa região está tendo, é porque as bestas estão sendo atraídas para essa região. Sua missão é investigar e descobrir o que as está atraindo até lá e se for possível, deve eliminá-las.

— Será uma missão perigosa, algo que confio apenas a você, por ser o melhor sob meu comando. A Vila Mo é longe e só de viagem será preciso uns dois ou três dias, incluindo a ida e a volta.

— Dependendo do tempo que você levar para fazer a investigação, e se possível o extermínio das bestas, talvez precise se ausentar por meio mês ou um mês inteiro. Levando em consideração que o Jaeger não está preparado para uma missão de alto nível, te dou a opção de levá-lo ou deixá-lo sob meus cuidados. O que prefere fazer?

— O que quer fazer, pirralho? — perguntei, me virando para trás e encarando-o nos olhos.

— Eu quero ir — respondeu sem hesitar por nem sequer um segundo. Sorri discretamente e voltei a olhar meu amigo. — Está aí a sua resposta. Eu me responsabilizo por cuidar dele.

— Entendido. Você parte em uma semana — explicou após o último detalhe ter sido acertado. "Uma semana" aquelas duas palavras rondaram em minha mente. Nesses sete dias, eu teria que fazer algo quanto aqueles pensamentos nada descentes em relação ao meu recruta.

Notas finais
Até mais. :-)