Perfeitos um para o outro... Ou quase isso

7 Preparações para a nova vida


Capítulo 07: Preparações para a nova vida

— Como eu já havia dito antes, em breve estaremos indo para outra base. Ela é uma cidade abandonada que fica há alguns quilômetros das três grandes cidades, e não é protegida por uma barreira — comecei a minha explicação, me escorando na parede e continuando em seguida.

— Eu estou acostumado a viver assim, apesar do perigo. E mesmo com a ausência da barreira, possuo meus métodos para proteção, além de ser temido pelas bestas que habitam as redondezas. Mas nunca me descuido, mesmo durante a noite.

— Diferente do que a maioria acredita, não há nada que impeça as bestas de atacarem durante a noite, além da escuridão. Então, em dias em que a lua trás grande claridade, um ataque pode acontecer a qualquer momento. Por isso podemos ser atacados enquanto dormimos.

— Não sou tão desumano ao ponto de esperar que consiga se proteger sozinho durante um ataque surpresa, por isso quero que se acostume a dormir em minha cama. Estando ao meu lado, posso facilmentr protegê-lo, até que aprenda a fazer isso sozinho — encerrei a explicação principal, saindo de perto da parede e indo ao meu quarto.

— Troque de roupa e venha dormir. Quanto antes se acostumar, melhor será para nós dois — acrescentei, entrando no quarto e fechando a porta atrás de mim.

Aproveitando o tempo que tinha sozinho, troquei de roupa, tirando o que quase sempre usava que era a farda militar e vestindo uma calça e camisa comuns. Ele apareceu minutos depois, batendo na porta.

— Entre — autorizei e ele entrou, trazendo consigo o seu travesseiro e colocando-o na cama, deitando logo em seguida, sem esperar por minha permissão. Deitei-me na cama e deixei as luzes acesas, explicando o motivo enquanto me ajeitava em meu travesseiro.

— Acostume-se a dormir com as luzes acesas, pois durante a noite, elas são necessários em lugares onde não há barreira.

— Entendido — disse virando-se de lado e olhando para mim, mantive meus olhos no teto, esperando que o sono viesse e que o garoto fizesse as perguntas que queria fazer... Isso se ele criasse coragem para falar.

— Não sou acostumado a dividir a cama com outra pessoa... Você já fez muito isso? Dividir a cama com outro soldado? — perguntou curioso, para a minha surpresa, que não esperava tanta honestidade em suas palavras.

— Não... Sempre trabalhei sozinho, então nunca precisei proteger ninguém — expliquei quê, por não precisar proteger outra pessoa, não precisaria de algo como dividir minha cama, que felizmente era de casal.

— Você é conhecido como "exército de um homem só". Por isso é de conhecimento público que costuma trabalhar sozinho, mas qual é o motivo para isso? É só por que você pensa diferente dos outros? — questionou para mais uma surpresa. Além de Erwin e Hange, ninguém nunca tinha me perguntado sobre aquele assunto.

— Existem outros motivos... são tantos que não tenho vontade de falar sobre eles — disse sentindo-me cansado.— Mas pode-se dizer que eu acredito que ser parte do exército, não é um emprego qualquer e quê, ser um soldado trás muito mais obrigações do que apenas cumprir uma missão — disse lembrando-me das vezes em que desobedeci ordens e dos motivos pelo qual me disseram que nunca me dariam um posto mais alto do que Capitão.

— Você não gosta muito de falar sobre si mesmo, não é? — perguntou com um tom afirmação. Não respondi, mas ele pareceu entender, pois mudou o tópico para o trabalho.

— Ainda não entendo muito sobre esse negócio de barreiras e nem sobre o que as faz falhar. Pode me dizer algo a respeito? — suspirei fundo e fechei meus olhos. O sono ainda não tinha vindo e com ele tagarelando, não viria tão cedo, mas sua curiosidade era interessante e seria necessária para que ele evoluísse, assim como qualquer outra criança.

— Como você deve saber, as bestas surgiram há cerca de 300 anos, em todo o planeta. Eles matam humanos e se tornaram uma raça com a qual temos lidado por todos esses anos. Não se sabe quando e nem por quê, mas certo dia, as cidades foram involtas por barreiras e os ataques cessaram — comecei aquela história que todas as crianças aprendiam na escola, atualizando-a com os acontecimentos dos últimos anos.

— Os humanos sempre lutaram contra as bestas, mesmo estando seguros, e essa luta se intensificou há oito anos, quando as barreiras começaram a se quebrar. Não se sabe quanto ao restante do mundo, mas em nosso país, o primeiro lugar a ter a barreira rompida, foi a pequena cidade de Shiganshina — Ao mencionar sua cidade natal, ele pareceu ficar tenso, então não me demorei demais nessa parte.

— Depois da queda dessa barreira, foi investigado e descoberto que a barreira já estava falhando há muitos anos, mas ninguém percebeu. Com isso descobrimos que as barreiras possuem uma data de validade e quanto menor ela é, menos tempo ela dura. Cidades grandes como Maria, Rose e Shina, não passam por dificuldades, mas as cidades das redondezas, são um problema

— Algumas se quebram imediatamente e outras começam a falhar e só se quebram depois de anos... Em casos de barreiras falhando, nós evacuamos os cidadãos aos poucos, mas quando a barreira se rompe de repente, é provável que todos morram...

— Não se sabe nada sobre a origem das bestas ou das barreiras, mas já foi comprovado que o número de bestas nunca diminuí, enquanto as barreiras estão se extinguindo com o passar do tempo... Entendeu? — Ele balançou a cabeça em sinal afirmativo e mandei-o dormir.

— Se todas as barreiras se quebram algum dia, não seria mais fácil trazer todos para dentro das grandes cidades? — comentou como se conversasse consigo mesmo.

— Os adultos não são tão gentis, pirralho... Principalmente adultos que prezam pelo dinheiro — disse, evitando responder aquela pergunta. — Vá dormir... ou amanhã vou triplicar seu treinamento — avisei seriamente, enquanto me virava para o lado oposto ao seu e enfim, escutava nada além do silêncio.

Naquela noite em algum momento da madrugada, estava dormindo de costas na cama, quando senti alguém segurar em minhas roupas. Abri meus olhos e olhei o garoto que dormia profundamente, com uma expressão de dor em seu rosto enquanto segurava em minha camisa e puxava-a levemente, quase como um pedido de ajuda.

Fiquei observando-o sem saber o que fazer, até que vi uma lágrima escorrer pelo seu olho. Estiquei minha outra mão em sua direção e só quando já estava prestes a tocar seu rosto, é que me dei conta do que estava fazendo. Recolhi a minha mão e puxei meu braço, saindo do seu alcance.

Me virei para o outro lado e tentei dormir, enquanto a criança ao meu lado parecia estar sofrendo. Eu não gostava disso, ao olhar para ele, eu me via muitos anos atrás, quando achava que o mundo era um lugar lindo e acreditava que soldados eram heróis.

Mesmo que só tenha se passado uma semana e alguns dias, eu já conseguia falar com ele e me aproximar, parecia um sonho... Um sonho ao qual eu esperava que não se tornasse um pesadelo no futuro. Os minutos voltaram a passar e dormi, acordando ainda na madrugada ao escutar sua voz, me chamando:

— O quê? — perguntei sem me virar. Não ouvi nada mais, então me virei e me surpreendi ao vê-lo ainda dormindo. — Capitão Rivaille... — disse novamente, mas em tom mais baixo.

— Ótimo, ele fala dormindo — disse para mim mesmo, enquanto tentava descobrir com o que ele estava sonhando que tinha a ver comigo.

— Capitão... Vou ficar sempre ao seu lado... confie em mim — pediu dando um sorriso.

— Não fale como se estivéssemos casados, pirralho! — disse em repreensão. Lembrando pouco depois que ele ainda dormia e respirando fundo para me conter, me virando e dizendo a mim mesmo que iria ignorá-lo o restante da noite, o que pareceu dar certo, pois fui capaz de dormir.

Notas finais
Até mais. :-)