Perfeitos um para o outro... Ou quase isso
8 O recruta sem talento - Parte 01
Capítulo 08: O recruta sem talento — Parte 01
Mais dois dias se passaram e seguimos para a minha segunda base, que com o passar dos anos acabou se tornando a minha base principal. Saímos pelo portão secundário, ao qual só se podia passar com autorização de pessoas importantes como Erwin. Felizmente eu tinha uma licença especial.
Foram trinta minutos andando a cavalo, até chegar naquela cidade esquecida em meio a uma floresta, com dezenas de construções destruídas e apenas poucas casas inteiras, sendo uma elas a minha base, outra o celeiro e um armazém.
— Há explosivos sonoros ao redor de toda essa área, não se aproxime dos antigos muros e permaneça sempre no meio da cidade. Há minas soterradas no lado de fora, perto da floresta, às vezes elas são acionadas quando alguma besta passa sobre elas, por isso não se assuste se ouvir explosões e não entre em uma luta, sem que eu diga que é preciso lutar .
Esclareci enquanto estávamos parados no portão de entrada, o único lugar que não tinha defesas. Nada além do portão e uma armadilha. Eren parecia assustado desde que saiu da barreira, mas manteve-se atento e receptivo as minhas ordens. Assim que descemos dos cavalos uma nova vida se iniciou.
Com sua arma em mãos, treinamos novamente a sua movimentação, todos os dias. Havia melhorias e ele já não caía ou batia tanto. Seu histórico de quedas, diminuiu de 7/10 para apenas umas três vezes a cada dez tentativas. Com a colaboração do comandante, que não me mandava missões, pude me concentrar em seu treinamento, vendo-o evoluir a cada dia que passava, se comparado ao dia anterior.
A noite dividimos a cama e felizmente, ele estava cansado demais para tagarelar. Não fomos atacados nem uma vez, assim como toda aquela área que estava em uma "temporada de paz" e sem muitos ataques. Decidi não colocá-lo em um confronto direto até que pudesse se locomover com cuidado e também não pedi que ficasse atento durante a noite, pois no momento, ele precisava aproveitar enquanto podia dormir.
Dois meses se passaram e a convivência se tornou aceitável. Eren tornou-se mais responsável durante as limpezas e mesmo que pouco, evoluía em seus treinamentos. Nós dividimos as tarefas da casa, como fazer comida e lavar roupa. E nos tempos em que estávamos descansando acabávamos por conversar.
O garoto parecia ter uma curiosidade infinita e a cada dia ele tinha algo para me perguntar. Me senti estranho em falar tanto, mas tinha que admitir que era cada pergunta estranha ou maluca que as vezes eu até me divertia. Conversar era algo bom, pois ele confiava em mim e aceitava as minhas respostas. Gostei tanto dessas conversas, que ao anoitecer, antes de dormir, enquanto tomávamos chá, sempre conversamos e essa hora se tornou uma das mais esperadas do meu dia.
Em mais um dia que se encaminhava para ser normal, nos recebemos uma visita, era uma das mulheres da vila nas montanhas, que veio pedir ajuda, pois as crianças viram as bestas rondando a pequena cidade, o que significava que em breve a barreira iria falhar e eles iriam atacar. Foi nesse dia que ele descobriu que eu ajudava as cidades pequena. Mesmo quando não era uma missão, eu o fazia por vontade própria.
Nós pegamos nossos equipamentos e partimos de cavalo. Fizemos uma parada no meio do caminho e Eren me perguntou por que uma mulher se arriscaria a ir pedir ajuda tão longe. Disse a ele que quando chegasse em nosso destino, ele iria descobrir. Ao chegar lá, ele viu a realidade.
Tirando poucos adolescentes, os demais moradores eram velhos, crianças e mulheres. Surpresa era pouco para descrever seus sentimentos, mas felizmente ele segurou suas perguntas. O chefe da vila veio nos receber e me tratou como sempre com respeito.
— Peço desculpas Rivaille, pois são muitas bestas e estávamos preocupados, por isso, enviamos um pedido especial ao comandante Smith, já que não sabíamos se você iria ser encontrado — explicou suas ações, assim que desci do cavalo.
Apesar de não gostar disso, eu podia entender a sua preocupação. — Não há problema, vou proteger vocês como sempre fiz. E não se preocupe, já estive observando as bestas antes de chegar aqui, então sei que o ataque não vai acontecer de imediato — garanti para a sua tranquilidade.
Seguimos para dentro, enquanto eles perguntavam sobre Eren e eu explicava que estava treinando-o. O chefe brincou e disse que se ele fosse metade do que eu era, que morreria em paz, sabendo que seus descendentes teriam com quem contar.
Não querendo atrasar o treinamento, mandei o garoto continuar com seus treinos. As crianças da cidade que queriam ajudar, montaram percursos para ele fazer, nos quais tinha que desviar dos objetos e aos quais bateu muitos vezes, para a diversão de quem assistia.
— Você está bem, jovem? — perguntou uma velha Senhora, quando ele tropeçou ao tentar passar por cima da cerca do seu quintal e caiu de cara no chão.
— Estou bem. Já me acostumei a cair — riu com a Senhora.
— Não Acostume-se a cair. Evite a queda, pirralho idiota! — disse parado em cima do telhado da casa, para a sua surpresa
— Sim Senhor! — disse seguindo em frente e tentando desviar da próxima residência. As lâminas foram tiradas de suas espadas, para que ele não ferisse ninguém, mas ainda assim, continuava a ser uma ameaça a si mesmo.
Deixei-o sozinho e voltei para o lado do chefe com quem estava conversando antes de sair para ir repreendê-lo. — Desculpe por isso, ele ainda está no treinamento inicial — expliquei suspirando e vendo o chefe rir.
— Ele é determinado e apesar do pouco talento, posso ver o motivo por tê-lo aceitado. É um jovem de bom coração e que está disposto a aprender — disse olhando na direção dele, que tentava pegar uma das crianças, falhava e fazia-os rir. — Ele será um bom soldado no futuro e parece ser um bom companheiro de trabalho. O ar ao seu redor está menos sombrio — riu o chefe, dando-me um tapinha amigável nas costas, enquanto eu tentava decifrar se aquelas palavras eram ou não um elogio.
O dia se passou entre risos e brincadeiras das crianças, enquanto os moradores incentivavam Eren a continuar sempre que ele caía ou batia em algo. Enquanto eu o observava, tinha que admitir, que comparado com o primeiro dia, ele estava muito melhor e que seu aprendizado aumentava com o passar do tempo.
Ao anoitecer, garanti que todos podiam dormir sossegados e fiquei na taverna pertencente a estalagem, lendo um livro para passar o tempo, enquanto o pirralho estava fazendo a manutenção do seu equipamento, algo que ainda estava aprendendo e no qual era muito ruim. Resolvi descansar um pouco e fechei meus olhos, enquanto me debruçava sobre a mesa.
Alguns minutos depois, senti a aproximação dele, mas não me movi. O meu casaco que estava na cadeira, foi pego e colocado sobre meus ombros, numa tentativa de me aquecer, eu presumi. Depois que ele saiu, abri meus olhos e olhei para o lado, vendo o casaco sobre mim.
Às vezes eu achava que estava dando liberdade demais para ele, mas ao mesmo tempo, não encontrava um motivo para repreendê-lo. Nós morávamos juntos e trabalhamos juntos, é normal se aproximar, não é?
Respirei fundo, levantei, vesti meu casaco, devolvi o livro para o Senhor que havia me emprestado e deixei o recinto sob os olhares curiosos dos poucos que estavam ali presentes.
Procurei por Eren e encontrei-o sentado no muro, olhando para a floresta, no mesmo lugar onde outrora eu estava esperando pelo ataque que poderia vir. Subi no muro, pela escada de madeira na parede e me sentei ao seu lado, vendo seus olhos vagarem pela floresta, enquanto seus pensamentos pareciam estar bem longe dali.
— Não há homens aqui. Apenas pessoas indefesas... Isso é resultado dos adultos de quem me falou? Tem alguma ligação com o motivo pelo qual eles não vão para as grandes cidades? — questionou voltando ao assunto de meses atrás.
— Para entrar em uma das cidades, você precisa ser necessário... Homens servem como mão de obra para as dezenas de empresas, então são aceitos, junto com esposas e filhos, mas os demais não tem tanta sorte.
— Idosos e crianças são considerados um peso e mulheres só são aceitas se for como escrava ou se possuírem alguma profissão respeitada, como médicos... Quando não se encaixam nesses padrões, sua entrada na cidade é recusada — expliquei sendo honesto e vendo-o chorar em silêncio.
— O mundo estaria melhor sem adultos como esses.
— Sim... Concordo plenamente — disse enquanto lhe fazia companhia e deixava que chorasse. Lamentando por não poder fazer nada, naquele mundo onde vidas eram jogadas fora como lixo, apenas porque não tinham utilidade para quem possuía a maior quantidade de dinheiro.
— O que vai acontecer com essas pessoas? — perguntou olhando discretamente para as casas atrás de nós.
— Aqueles que conseguirem ir para as cidades, vão ir. Os que ficarem serão protegidos pela barreira e quando ela quebrar por completo, ou vão todos morrer ou vão aprender a sobreviver. Esse lugar não será o primeiro e nem o último a passar por isso e assim como tenho a minha base segura, alguns conseguem criar um lugar no qual é possível viver.
— Não podemos fazer nada para ajudar?
Eu me perguntava aquilo durante todos aqueles anos, e até agora, ainda não tinha encontrado uma resposta. — Mate o quanto de bestas conseguir... Isso é tudo o que podemos fazer — respondi, sentindo-me impotente por não poder dar uma resposta diferente.
— O que é aquilo? — perguntou chamando a minha atenção para algumas luzes que se moviam longe e continuavam a vir em nossa direção.
— Um problema em grupo, chamado incompetência — respondi me levando e oferecendo ajuda para que ele fizesse o mesmo. Voltamos para a taverna, enquanto eu instruía Eren a não falar com ninguém, e não dizer que fomos chamados ali, assim como não mostrar seu treinamento ou sua arma, sem necessidade.
Uma hora depois, elem chegaram. Para a surpresa deles, eu estava ali. E para a minha surpresa, era o grupo de Reiner.
— O que faz aqui Rivaille?
— Passeando — respondi calmamente o que pareceu deixá-lo com raiva. Levantei-me e recebi um olhar do chefe que podia ser considerado um novo pedido de desculpas. Acenei em concordância e avisei — Eu vou me retirar por hoje. Vamos usar o quarto lá em cima — disse andando enquanto Eren me seguia.
— Eu não sabia que você traria um companheiro, então só havíamos preparado um quarto. Se puder esperar uns minutos, vamos arranjar outro — explicou o chefe.
— Não é necessário, nós vamos dividir o quarto — disse para a surpresa de todos, seguindo para as escadas com ele ao meu lado, que estava sorrindo.
Ao chegar em nosso quarto, olhei para a cama que era de solteiro, mas ainda assim maior que o normal e suspirei, enquanto ele continuava sorrindo. — Qual é a graça? — Não contive a curiosidade em perguntar.
— As expressões que vi lá embaixo... Eles parecem ter entendido errado, quando disse que iríamos dividir o quarto — disse tentando não rir. — Foi uma expressão mais ou menos assim — completou me dando uma demonstração. Boca aberta, olhos esbugalhados e mãos para cima, como se uma aberração estive presente. Ao ver tal cena e imaginá-la no rosto de todos, acabei rindo.
— Fico feliz que possa rir — disse após alguns segundos. Ignorei suas palavras e chamei-o para ir dormir, o dia seguinte iria ser cansativo.
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