Perfeitos um para o outro... Ou quase isso

9 O recruta sem talento - Parte 02


Capítulo 09: O recruta sem talento — Parte 02

Deitamos na cama e ficamos em silêncio, uma raridade que não durou muito. — Como pode saber que as bestas não vão atacar hoje?

"Estava demorando". Disse a mim mesmo com uma suspiro. Eu estava deitado de costas na cama e ele deitado de lado me encarando, esperando pela resposta.

— Os humanos não sabem quando uma barreira vai falhar ou quebrar, mas as bestas podem sentir isso. Por isso elas se aproximam das cidades perto do momento do colapso da barreira e é possível ver mudanças em seus comportamentos, ficam mais atentos, nos vigiam de longe e se escondem... São coisas que você vai perceber quando tiver mais experiência — expliquei calmamente.

Alguns meses vivendo com ele e falei mais do que nos últimos anos. — Capitão... Por que tem tanta confiança em mim? Mesmo sem talento, você me escolheu, me treina e confia que vou melhorar... Como pode ser tão otimista? — questionou com um tom de voz confuso.

— Eu acredito na sua determinação e no seu esforço. Se confio em você, só tem que retribuir essa confiança com resultados... Agora vá dormir e descanse bastante, pois talvez a sua primeira batalha aconteça amanhã — avisei fechando meus olhos e ouvindo o silêncio.

As horas passaram e acordei quando senti seu braço em minha cintura. Se fosse algumas semanas atrás, eu teria ficado surpreso, mas não mais. Eren era um garoto que sofria mais do que deixava transparecer, por isso agia inconscientemente enquanto dormia.

Se estava preocupado com algo, falava, se sentia medo, segurava em minha roupa... se sentia solidão, me abraçava. Ele provavelmente nem mesmo percebeu isso e, não fiz questão de falar. Não era realmente um grande problema.

Apesar de eu dizer "abraço" ele raramente encostava seu corpo ao meu e quando o fazia, não me causava nem um mal. Certamente era estranho ser abraçado por outro homem, mas desde que comecei a pensar que me envolver com um homem, poderia ser melhor do que procurar uma mulher, isso tem mudado o modo como vejo as coisas.

Na maioria das vezes apenas o ignoro, sabendo que não duraria mais do que alguns minutos e enquanto o contato permanecia, eu secretamente aproveitava. Ser abraçado era reconfortante e quente, diferente daquelas noites frias que tinha enfrentado naquelas bases e missões.

Após o café da manhã, Eren pediu permissão para conversar com os dois únicos adolescentes presentes ali e deixei que aproveitasse um dia de "folga". Enquanto ele estava lá fora, fiz patrulha na pequena cidade, vendo que o grupo de Reiner também estava trabalhando. Eles se dividiram em dois grupos e enquanto um deles vigiava, o outro descansava... Como se vigiar fosse algo cansativo.

— Você é mais mole do que pensei, Rivaille. Sei que o garoto não está aqui para treinar ou ajudar, mas você deveria dar a ele algum treinamento, ao invés de deixá-lo brincar com as crianças — passou-me um sermão, meu colega capitão.

— Ele é uma criança. E brincar é o que as crianças fazem — respondi não prestando atenção em suas palavras, o que ele percebeu com facilidade, antes de voltar para a sua mesa e começar uma conversa com seus companheiros.

Petra veio até a minha mesa e se sentou, mas não disse nada e não fiz questão de fazê-lo. Uma hora depois ela ainda estava ali e ia sair quando o garoto chegou, com sua roupa suja de terra.

— O que houve? — perguntei ao ver seu estado. A resposta veio de um dos meninos que estavam com ele, enquanto meu recruta sentava na cadeira ao meu lado. — Estávamos brincando de lutar. Terminou 10 a 0 — explicou um dos adolescentes que o seguia.

— Dez para eles e zero para mim — disse Eren envergonhado. — Desculpe — completou baixinho.

— Sem problemas, vou garantir que ganhe uma rodada, na próxima vez — disse dando um pequeno sorriso de lado, ao imaginar que tipo de treinamentos poderia dar a ele.

— Capitão... Não me mostre esse sorriso. Sinto meu corpo doer só de vê-lo — disse meu recruta, com visível expressão de medo, fazendo tudo ficar mais divertido. Era engraçado o quanto ele aprendeu a me conhecer em tão pouco tempo.

— Vocês parecem estar se dando bem... que tal me dar umas dicas, Eren. Não sou muito boa para puxar conversa com Rivaille — disse-lhe Petra.

— Eren, já fez a verificação do seu equipamento?

— Anh... Ah, sim! — respondeu surpreso, por eu estar obviamente impedindo que os dois conversassem.

— Limpou tudo?

— Sim.

— Verificou as fivelas e cintos?

— Sim.

— Checou os cabos e as fiações ?

— Apenas o básico, mas pelo que pude ver, tudo estava bem. Se eu encontrar algum problema, aviso — explicou com todos os detalhes.

— Reabasteceu o gás?

— ...

— Eren? — insisti vendo-o se levantar e subir em direção ao quarto. Aquela resposta era um "não" para a diversão dos dois garotos ainda presentes. Após isso, saí da mesa e deixei-a para trás, indo fazer a vigia.

Eu não tinha nada contra Petra, mas depois dela afirmar que não valia a pena estar ao meu lado, a única coisa que quero dela, era distância. Não precisava estar ao lado de alguém que me lembrava do quão insignificante eu era, pois o exército inteiro já havia feito isso e alguns ainda o faziam, mesmo que eu não fosse mais o mesmo de anos atrás.

Após terminar sua tarefa, Eren veio até mim e me fez companhia, me acompanhando enquanto eu andava por cima do muro. — É impressão minha, ou parece que estamos sendo observados? ... É uma sensação desagradável — comentou andando atrás de mim.

— É realmente desagradável — concordei pouco antes de parar de andar. — Vá vestir seu equipamento e fique pronto para lutar. Não quero que lute e ficarei por perto para te proteger, mas é bom ter uma precaução — avisei vendo-o concordar e seguir em direção a estalagem, fiz o mesmo, depois de pedir ao chefe para tocar o alarme e colocar todos para dentro de suas casas.

Quando cheguei no quarto, ele ainda estava colocando as fivelas de segurança. Coloquei meu próprio equipamento e ajudei com o dele. — Vista isso. Em batalhas reais, são mais apropriados — disse entregando um par de botas que já havia encomendado no mês anterior.

O exército também usava botas, mas aquelas que eu usava eram mais cumpridas e mais resistentes. Elas vinham até perto do joelho e protegiam contra impactos, o que ajudava muito, pois as pernas eram o que mais sofriam com nosso equipamento de locomoção, devida as paradas que éramos forçados a fazer.

Descemos do quarto os dois juntos e seguimos para fora da construção, sob os olhares de surpresa e choque daqueles que perceberam que Eren tinha uma arma própria. A expressão deles não foi tão exagerada quanto aquela que o pirralho mostrou, mas ao lembrar daquela cena, sorri discretamente.

— Fique parado e não faça nada. Entrar em uma luta com suas habilidades seria suicídio — avisei seriamente. — Entendido — afirmou parando em frente a estalagem e não se movendo.

— Capitão! Capitão! Eu acho que as bestas vão atacar! — disse um dos soldados correndo na direção da estalagem, enquanto Reiner e os outros saíam para fora. — Eu já percebi. Separem-se em três grupos e ataquem — ordenou passando por mim e fingindo que eu não existia, algo que eu costumava fazer muito enquanto estava na sua presença.

— Vamos deixar que eles tomem conta de tudo? — sussurrou baixinho. Dei alguns passos até ficar ao seu lado e respondi: — Deixe que eles façam o trabalho duro. Estamos aqui para proteger os cidadãos. Eu vou intervir quando for necessário — expliquei e ele concordou com um balançar de cabeça.

A luta fora da cidade, logo começou e a barreira falhou em seguida. Enquanto eles lutavam, uma besta que resistiu aos seus ataques, entrou na cidade sem que eles percebessem.

— Bando de incompetentes! — xinguei enquanto corria até lá. Eles estavam em vários, como podia deixarem uma besta de nível um escapar? Eu não entendia o que "soldados" assim, ainda faziam no exército.

Segui até lá e o matei com um único golpe, correndo de volta enquanto usava os telhados das casas, dando-me uma visão melhor do terreno. Enquanto corria, vi uma mulher e o chefe da vila andando nas ruas.

— O que estão fazendo?!

— Capitão, minha filha... A minha filha desapareceu! — disse a mulher desesperada. Saltei do telhado e fui até eles, enquanto olhava para os lados em busca de qualquer sinal que pudesse me ajudar. Tirei a sorte grande ao encontrá-la, pois estava correndo na direção de sua mãe, porém uma besta apareceu atrás dela, outra que estava meio ferida, mas não morta.

Liberei meu gás e segui até lá, queria salvá-la, mas não ia conseguir chegar há tempo, foi quando ele apareceu. Segundos antes de ela ser acertada pelas garras do animal, Eren apareceu saindo de baixo da besta. Ele usou o gás para vir por trás e após passar por baixo do animal, pegou a menina usando o impulso do gás na potência máxima.

Usei o gás nos pés e saltei, desviando dos dois e saltando sobre a fera, matando-a com um único golpe. Quando cheguei até Eren, o chefe já havia ajudado-o a levantar e a menina chorava nos braços da mãe, que agradecia ao meu recruta que havia acabado de salvá-la.

— Ainda não acabou. Vão para dentro — ordenei sério. Virei-me para Eren e vi a manga da sua camisa rasgada no braço, que estava levemente esfolado pela queda desajeitada e necessária. Fiquei com raiva, uma emoção que não despertava já há algum tempo. Aquele machucado era culpa de Reiner e eu o faria pagar o preço.

Notas finais
Não se esqueça de deixar seu comentário. Até mais. :-)