Capítulo 10: Faça o que quiser

Quando o ataque cessou e a barreira estava ativa novamente, levei Eren para a estalagem e cuidei do seu ferimento, com a ajuda da mãe da menina, que tinha estudado medicina.

— Você é jovem e vai se curar logo, mas é provável que fique uma cicatriz, mesmo que seja pequena — alertou, pouco antes de agradecer Eren novamente e sair. As crianças estavam todas ali, assim como muitos idosos, pois pelas frestas de portas e janelas, muitos viram o que aconteceu.

Alguns minutos mais tarde, Reiner e seus homens chegaram dizendo que tinham feito um bom trabalho e que iriam beber para comemorar.

— Comemorar o quê? Quantas bestas deixaram escapar? — perguntei irônico, me levantando da cadeira em frente ao Eren e seguindo na direção do grupo que tinha acabado de entrar. Os cidadãos, ao verem minha raiva, afastaram-se para não se envolver.

— Por que está tão irritado, nós vence... — Não deixei que ele terminasse suas palavras, apenas soquei-lhe e o derrubei no chão, pisando em sua barriga para mantê-lo ali. Um de seus companheiros tentou se aproximar, mas puxei uma das lâminas das minhas costas, do equipamento que ainda vestia e coloquei em sua garganta, impedindo que continuasse.

— Dê um passo à frente e vou matá-lo — avisei em tom sério. Ele deu um passo atrás e voltei a minha atenção para o homem sob meus pés, após guardar a lâmina. Me ajoelhei no chão e segurei em seu colarinho, fazendo-o se erguer um pouco para que pudesse encará-lo nos olhos.

— Você e seus homens somam doze soldados. O que estavam fazendo lá fora que deixaram três bestas escapar e entrar no lugar que deviam estar protegendo? — questionei vendo surpresa em sua face.

— Nós ferimos todos eles mortalmente... Não deixamos nem um escapar — disse em tom sério. Ao escutar suas palavras, soltei-o no chão e soquei-lhe de novo, antes de voltar a puxá-lo e encará-lo.

— Não existe ferimento mortal para uma besta, que não seja cortar a cabeça. Você acha que isso foi explicado quando ainda estava na acadêmia de recrutas, para quê?! — contei soltando-o e olhando para os demais.

— Peguem seu Capitão e sumam daqui. Quando chegarem na cidade, sugiro que deixem seu esquadrão atual, pois quando regressar vou fazer uma queixa oficial ao comandante para que esse lixo seja preso ou destituído do seu cargo e se ficarem com ele, todos serão igualmente culpados — avisei dando-lhes uma chance, afinal, como Capitão, Reiner é responsável por tudo o que seu esquadrão faz, isso incluí suas falhas.

— Vamos — disse ao Eren, segurando em seu braço bom e puxando-o para que subisse comigo ao quarto. Ele veio sem resistir. Quando chegamos, comecei a tirar o meu equipamento e depois fui ajudá-lo com o seu.

— Tem certeza de que não terá problemas em ter agredido aquele homem? — perguntou em minha frente, enquanto eu abria as fivelas e retirava seu equipamento.

— Preocupe-se com você mesmo e deixe que eu cuido de mim — disse erguendo o seu braço machucado em um aviso de que não queria que aquilo acontecesse de novo.

— Sobre isso... Desculpe ter quebrado sua ordem e ter me mexido — pediu preocupado que eu fosse ficar bravo.

— Vou pensar em uma punição depois. Por agora, lembre-se: Da próxima vez que me desobedecer, garanta que não se machucará no processo. Seu ferimento vai me fazer ficar com raiva — expliquei e ele afirmou ter entendido.

Mesmo que eu não tivesse dito com todas as palavras, ele entendeu que o motivo principal da minha raiva, não era ele ter desobedecido uma ordem minha, e sim, ter se ferido no processo. Pois o motivo pelo qual mandei que não se envolvesse, era justamente pelo bem da sua segurança.

Ele guardou seu equipamento e fiz uma vistoria no meu, colocando-o novamente para garantir a nossa segurança durante a volta para casa. Quando descemos, os soldados já não estavam mais ali, assim como as crianças pequenas.

— Elas ficaram um pouco assustadas com a briga, mas não lhe culpamos e apoiamos suas ações, elas foram certas — disse o chefe, logo após a minha pergunta sobre o paradeiro dos pequenos que pareciam ter grudado em meu recruta. Tudo resolvido, montamos nos cavalos e seguimos para longe dali.

Durante o caminho, fizemos uma parada e percebi que Eren estava "viajando". — No que está pensando? Se ficar se distraindo, pode acabar morrendo — lembrei aonde estávamos com um aviso sério. Já era perigoso uma cidade sem barreira, estar em um lugar, que nem sequer era uma cidade, era considerado ainda pior.

— Estou pensando sobre algo que quero fazer... mas acho que não devo fazer — explicou com palavras confusas.

— Se não for algo perigoso e que cause problemas para alguém. Faça o que quer fazer, caso contrário, vai ficar se distraindo e isso sim, será perigoso — alertei levantando-me da pedra onde estava sentado e indo até o cavalo, pegar o meu cantil de água para matar minha sede.

Alguns minutos depois, seguimos caminho. Alcançamos a base perto do anoitecer. Mandei-o tomar um banho e ir se preparar para dormir, enquanto eu fazia o mesmo. Ele tomou banho e se vestiu em seu próprio quarto, vindo até mim apenas na hora de dormir.

Naquela noite, ele parecia estar com a cabeça cheia de pensamentos, pois custou a dormir e resmungou palavras incompreensíveis, durante toda a noite. Na manhã seguinte juntei minha raiva por não ter conseguido dormir direito, com a punição que tinha que dar a ele e ordenei que fizesse uma faxina geral na casa.

Como ele não era muito bom em faxina, fiquei ao seu lado dando-lhe instruções, enquanto aproveitava para vigiar seus movimentos, pois ele costumava ser desatento e quando estava machucado, esquecia-se disso.

Enquanto tirava a poeira de uma estante de livros, escorei-me na parede e observei sua dedicação em limpar, enquanto fazia cara feia devido a poeira. Mesmo que tivesse um pano no rosto, protegendo o nariz e a boca, ainda assim parecia incomodado com a tarefa.

— Eu terminei a parte de cima, devo colocar os livros de volta?

— Limpe os livros primeiros. Ou a poeira vai voltar para a estante — expliquei vendo-o suspirar e vir até mim. Ele pegou o livro que eu tinha nas mãos e olhou seriamente para ele.

— Você não parece que lê esses livros, já que estão cobertos de poeira. Por que não guardamos em caixas, ao invés de deixar em exposição? — perguntou olhando em ambos os lados da capa, com uma expressão de quem tentava identificar o que eu gostava naquele conteúdo aleatório.

— Eu já li todos os livros. E deixo-os em exposição, pois são um presente — expliquei entregando uma espanador a ele que pegou sem discordar. Após tirar a poeira daquele livro e colocá-lo na prateleira, ele veio pegar outro.

Entreguei o próximo e ele continuou o processo. Até que em determinado momento, ele pegou o livro de minhas mãos, mas não voltou para a estante. Após colocar o espanador na mesma mão que segurava o livro, Eren abaixou o pano que cobria seu rosto e olhou-me intensamente.

Sustentei seu olhar tentando entender o motivo por trás de suas ações e foi quando, para a minha surpresa, ele me beijou. Foi tão de repente, que fui pego completamente desprevenido. Ele simplesmente se aproximou e tocou seus lábios nos meus, se afastando poucos segundos depois.

— O que foi isso?

— Eu fiz o que queria fazer. Para evitar me distrair — explicou seriamente, se afastando e voltando ao trabalho. Continuou vindo a mim e continuei a lhe entregar os livros. Não fiz mais perguntas e nem mesmo toquei no assunto, enquanto ele fazia o mesmo.

Por fora eu estava calmo, como sempre, mas por dentro estava em pânico. Eu já tinha aceitado a ideia de ter um homem em minha vida, mas Eren era uma criança aos meus olhos e não o considerava um homem. Ao me beijar, ele mostrou que possui algum interesse em mim, interesse esse que supera o profissional.

Constatei então, da pior forma possível, que ele não era uma criança e que eu mesmo já não o via mais assim. Eren Jaeger era um homem, mesmo que eu considerasse sua idade como sendo infantil, ele definitivamente era homem e sem sombra de dúvida, me via como um.

Na intenção de evitar problemas maiores, que podiam vir a ser judiciais. Disse a mim mesmo que ele era uma criança e ia continuar tratando-o assim. Até porque, me envolver com o recruta sob minha responsabilidade poderia estragar tudo no que trabalhamos até aquele momento e até mesmo nos colocar em perigo... Eu estava decidido a esquecer aquele acontecimento!

Mas não esqueci. Não tinha como esquecer, quando na semana seguinte, toda vez que ele me olhava, eu sentia o seu desejo de me beijar e o esforço que estava fazendo para se conter. Mesmo quando fui chamado pelos oficiais de justiça, para falar sobre o meu envolvimento na briga com Reiner, tudo o que tinha na cabeça, era o pirralho com aqueles intensos olhos verdes, que às vezes eram amarelos.

Notas finais
Até mais.