Capítulo 18: O segredo de Eren — Parte 03.

Apesar do ar selvagem que rondava-o e dos olhos vermelhos, aquele em minha frente era sem dúvidas, o meu recruta.

— Ei pirralho, não rosne para mim! — repreendi seriamente, vendo-o baixar o olhar e encarar o chão. Ergui uma sobrancelha em descrença e tentei novamente. — Eren, olhe para mim — pedi vendo seu rosto levantar pouco a pouco até que eu pudesse ver.

"Mesmo com uma aparência selvagem, com olhos vermelhos e uma enorme intenção assassina, ele ainda me respeita. Isso é um bom sinal" disse a mim mesmo em pensamentos. Guardei minhas espadas nas costas, com movimentos lentos, não querendo fazer nada que fizesse ele me atacar.

— Não há mais inimigos, há? — perguntei vendo-o olhar ao redor, como se estivesse tentando encontrar uma resposta para a minha pergunta. — Que tal largar suas espadas e vir limpar esse sangue nas suas mãos — disse erguendo minha mão para tentar tocá-lo, mas ele recuou dois passos, em sincronia com o meu.

A menina ainda estava ao meu lado e ainda segurava em minhas roupas, então toquei em sua mão e ela, parecendo entender o que eu queria, me soltou. Comecei a caminhar calmamente na direção dele, vendo-o andar para trás, sempre mantendo alguma distância entre nós.

— É disso que tinha medo. Tem medo de me machucar? Eu pareço ser assim tão fraco? — disse vendo suas mãos tremerem, enquanto ele continuava a andar. — Não sei porque você tem essas habilidades que não são humanas, mas sei que isso tem haver com as bestas e que tem medo de me machucar, mas você não conseguiria me machucar nem mesmo se quisesse fazer isso, o que não é o caso.

— Sei que quer me proteger e já fez isso. A criança está bem, eu estou bem e você matou todas as bestas. Não precisa mais me afastar. Temos muito o que conversar, mas agora não é a hora. Apenas pare de andar e me deixe alcançá-lo — pedi gentilmente, mas ele continuava a seguir para trás, parei de andar e ele fez o mesmo.

Esse "descontrole" dele, lhe permitia se tornar mais forte e lhe dava as habilidades de lutar, por outro lado, parecia ser um perigo para as pessoas que estavam por perto. Eu não sabia quantos eles já havia ferido, mas isso pesava em sua consciência. Pois mesmo em um estado meio irracional, ele ainda se prendia aos medos.

— Você disse que estaria sempre ao meu lado. Então não fuja de mim — disse sério, avançando em sua direção em uma velocidade normal e vendo-o ficar parado. Alcancei-o em quatro passos e o abracei por cima dos ombros.

— Des... culpe — pediu enquanto eu podia ouvir fungadas de quem estava chorando. Abracei-o ainda mais apertado e soltei um suspiro de alívio, ao perceber que ele não estava machucado.

— Não precisa pedir desculpas. Você não fez nada de errado — disse ouvindo seu choro se intensificar, suas pernas falharem e ele despencar no chão. Abracei-o pela cintura e sustentei seu peso. Ouvindo as suas espadas caindo no chão e sentindo suas mãos em minhas costas, agarrando meu casaco.

— Está tudo bem. Eu estou aqui — disse, pouco antes do seu aperto começar a enfraquecer e seu corpo ficar ainda mais pesado, na medida em que ele entrava em um estado inconsciente.

Percebendo que ainda haviam algumas bestas nas redondezas, decidi entrar em uma das casas e nos abrigar. Seria melhor do que ficar no meio da cidade ou vagar em meio ao nada, no meio do dia. Me virei de costas para o Eren e coloquei seus braços por cima de meus ombros, segurando em suas pernas e erguendo-o para que pudesse carregá-lo. Quando cheguei até a menina, ela estava parada e esperando no mesmo lugar em que a deixei para trás.

— Pode andar? — perguntei vendo um balançar de cabeça afirmativo em resposta. — Então. Me siga — disse começando a andar para o lugar que eu lembrava de ter visto algumas casas inteiras, ela novamente segurou em meu cinto e seguiu sem questionamentos.

Quando chegamos em uma das casas, deitei Eren no chão e troquei meus tubos de gás vazios, pelos seus que estavam meio cheios. A menina não se pronunciou e não fez perguntas, o único som que ouvi além de nossas respirações, foi sua barriga roncando. Dei a ela uma barra de cereal que tinha comigo e não disse nada, assim como ela.

Dava para ver que estava acostumada a passar por situações problemáticas e devido ao fato de não perguntar por seus pais e/ou amigos, deduzi que ela já soubesse o que aconteceu com eles. Eu precisava saber o motivo pelo qual seu grupo foi atacado e o motivo dela ter sido sequestrada, mas isso teria que ficar para quando estivéssemos em um lugar mais seguro.

Aquela casa de madeira, cheia de poeira e paranhos, não iria sobreviver a um ataque e eu não podia levar a garota com Eren inconsciente, não podia proteger os dois, dependendo da situação na qual estivéssemos. A melhor alternativa era a de esperar que ele acordasse, isso se não demorasse muito.

— Ele é um meio besta, não é? — perguntou a menina, escorada na parede, olhando para Eren. — Meu irmão também era, mas aqueles soldados ruins o mataram — explicou parte do que eu queria saber, sem que eu fizesse a pergunta.

— Você não o teme e mesmo assim o protege, então é uma pessoa, não é? — perguntou-me baixinho. A sua voz estava tingida de medo.

— Eu não sou uma boa pessoa, mas não vou machucá-la — disse desviando o meu olhar dela para a janela, da onde eu vigiava a noite que começava a chegar. Nós ficamos em silêncio e quando voltei a olhá-la, vi que estava deitada no chão e dormia profundamente.

— Fico feliz que tenha encontrado a criança — disse meu recruta, sentando-se com dificuldade. Seu corpo parecia dolorido e pesado. Guardei as espadas que tinha novamente na mão e andei até ele, me ajoelhei em sua frente e chequei seu pulso, assim como seus olhos e sua cabeça — Estou bem — afirmou segurando em minha mão e afastando-a de seu corpo.

— Eu estou com um pouco de dor, mas vai melhorar até amanhã. Porém, não poderei entrar em uma batalha por agora, pois não consigo me mexer muito bem — explicou com um sorriso triste.

— Se usar aqueles poderes malucos, te deixa ferido, então não os use mais — disse sério.

— Não é como se eu pudesse evitar — admitiu com vergonha.

— Vamos conversar melhor sobre isso, depois. Agora se concentre em descansar para que possamos voltar até o lugar onde deixamos nossos cavalos — instruí vendo-o confirmar e deitar, virando-se de costas para mim.

Voltei para perto da janela e segui com minha vigia. Durante toda a noite, não houve problemas, mas perto do amanhecer o problema apareceu, multiplicado por quatro. Eles não deviam estar ali, e sua presença era preocupante e perigosa. Acordei a menina e o Eren, que olharam aflitos para a minha preocupação.

— Aqueles quatro estão aqui. — expliquei ao Eren — E se desobedeceram minhas ordens, é porque não pretendem mais acatá-las. Vamos tentar sair antes que nos encontrem, evitar uma luta agora seria ideal. Consegue andar?

— Consigo andar e correr se for preciso, mas não segurar a espada. Meus braços ainda estão dormentes — confessou olhando-me com aquele olhar preocupado.

— Se pode andar é o suficiente — assegurei ajudando-o a levantar.

Segui andando na frente e Eren veio atrás de mim, a menina segurava em sua mão e nos acompanhava em silêncio, até que se pronunciou, falando sobre que em uma casa ali perto, havia um cavalo escondido, que foi deixado por sua família.

— Está muito longe?

— Naquela casa, que tem um pano vermelho na porta — apontou para uma construção cerca de vinte metros à frente. — Posso ir lá pegá-lo?

— Vá, mas seja rápida e não faça barulho — disse enquanto olhava na direção em que podia sentir a intenção assassina deles, assim como o barulho das ferraduras dos cavalos que eles montavam. A qualquer sinal de perigo, eu iria atrás dela.

Olhei para Eren e ele parecia perdido em pensamentos, assim como daquela vez em que o repreendi. — Não me diga que está pensando se deve ou não me beijar? — perguntei, sorrindo de canto ao ver seu rosto corar. — Agora não é hora para pensar nisso. Deixe seus desejos para serem saciados quando estivermos sozinhos, e de preferência em um quarto — fui honesto, desviando meus olhos dele, para a pequena que vinha até nós e trazia o cavalo muito maior do que ela, puxando-o pelas rédeas.

— Ainda poderei te beijar? — perguntou chamando a minha atenção para o tom surpreso e sério em sua voz.

— Sinceramente garoto, não sei porque você é tão teimoso em não querer me escutar. Eu já disse que nada vai mudar e reafirmo isso. Agora suba nessa cavalo com a menina e me siga — disse assim que ela chegou a nós.

Ele subiu no cavalo e ajudei a menina a subir, depois voltamos a andar, mas meio minuto depois, os quatro apareceram, dois de cada lado, bloqueando nossa fuga.

Notas finais
Até mais. :-)