Capítulo 17: O segredo de Eren — Parte 02

Seus olhos estavam em um vermelho escarlate, mas mesmo com a mudança de cor, ele ainda mostrava grande preocupação. — Não vai demorar muito até que eu perca o controle, preciso de uma resposta — apressou-me enquanto uma expressão de dor apareceu em seu rosto, enquanto a cor em seus olhos mudava do vermelho para o dourado e novamente ao vermelho, mostrando a luta interna que ele devia estar travando naquele momento.

— O que quer que eu faça?

— Que vá para longe e não retorne por algumas horas. De preferência siga para a floresta onde eu estava. Não tenho certeza, mas fiquei com a impressão de ter ouvido um pedido de socorro de uma criança — explicou fazendo-me lembrar de imediato, das crianças que eu havia percebido estarem faltando.

— E quanto a você? Não posso simplesmente deixá-lo sozinho — disse sentindo a aproximação das bestas que começavam a atacar. Quanto mais perto as bestas chegavam, mais os olhos dele ficavam vermelhos e o dourado já não aparecia mais.

— Eu sou um péssimo soldado, mas sou um ótimo sobrevivente. Não irei perder. Não para as bestas — encerrou, soltando meu braço e correndo na direção contrária na qual estava localizada a floresta.

Fiquei ali, olhando suas costas, enquanto ele corria para a batalha, indignado comigo mesmo por estar permitindo que ele fosse sozinho. Mas eu precisava verificar a história da criança e era óbvio que Eren estava perdendo o seu controle. Era só um palpite, mas em breve, ele não poderia mais ser racional, por isso pediu para me afastar.

Com dentes cerrados e punhos fechados, corri na outra direção, usando as espadas ainda em minha mão, para ativar o gás e seguir até lá. Quanto mais cedo eu fosse investigar, mais rápido poderia voltar. Saltei para o telhado de uma casa e parei um instante, olhando para trás ao ouvir o grito de dor de uma besta.

Ao me virar para trás, vi o momento em que a cabeça de uma besta nível um se desprendeu do corpo e Eren estava saltando sobre o animal. Ele não estava usando gás ou os cabos, mas mesmo assim a sua movimentação era rápida e precisa.

Com um chute no corpo sem cabeça da besta que ele acabara de matar, Eren tomou impulso e foi até outra, cortando a cabeça com um único golpe e voltando ao chão. Aquela visão não parecia ser do meu recruta e nem sequer de um humano, mas eu sabia que era ele e mesmo que parecesse estar se saindo bem, ainda assim não queria deixá-lo sozinho. Voltei a minha atenção para a floresta e comecei a correr naquela direção, iria aproveitar para admirá-lo em batalha, quando tivesse tempo para isso.

Alguns minutos depois, cheguei até a beira das árvores e subi em uma delas. Parei por alguns segundos, controlando a minha respiração acelerada e tentando encontrar qualquer vestígio de que tivesse alguém naquele lugar. Apenas observando, não encontrei nada.

Avancei pelo topo das árvores, saltando de uma para outra, por cerca de um minuto e parei. Agachei-me em um dos galhos e fechei meus olhos, concentrando-me nos arredores e procurando por qualquer som que não fosse animal. Esperei um minuto, um longo minuto, depois de não ouvir nada, já estava me preparando para voltar até o garoto, quando uma risadas ressoou entre as árvores, vindo de longe.

Parei a minha retirada e segui naquela direção. Quando estava chegando perto do lugar, vi o vislumbre de um objeto sendo lançado em minha direção e usei um tronco para me esconder, ouvindo o barulho de uma lâmina, que foi cravada na madeira.

— Quem é você? — perguntou uma voz séria, vinda de algum lugar mais a frente e abaixo, do qual eu não podia ver devido a densa folhagem do topo das árvores.

— Você deveria ter perguntado isso antes de tentar me matar — respondi ouvindo uma risada. — Eu conheço essa voz. É o Rivaille, não é? Aproxime-se! — chamou parecendo feliz.

Cautelosamente eu me aproximei, pousando em frente a um grupo de soldados, um grupo de sete homens, todos vestindo o uniforme da Tropa de Exploração e usando uma capa preta por cima. Eu nunca tinha visto-os, mas sabia por Erwin quem era aquele grupo. Eles não eram chamados de "corvos" por nada.

— Não sabia que estava nessa região. Era você que estava disparando um sinalizador? Estava contactando alguém? Quantos vieram com você? — perguntou sem olhar para mim. Ele estava sentado em uma pedra, com um pé apoiado sobre ela e tendo em suas mãos um pequeno graveto e uma faca que usava para cortar algumas lascas. Enquanto os outros seis estavam parados atrás dele e me encarando de maneira extremamente hostil.

— O que fez com as três crianças que pegou do grupo nômade e por que os atacou? — perguntei indo direto ao ponto. Eu conhecia a fama que eles tinham e além de serem os "mais fortes" da Tropa de Exploração, que viviam fora das barreiras, eles também eram assassinos, ladrões e estupradores.

— Parece que não podemos esconder nada do fiel cão do comandante Erwin Smith. Seu faro é muito bom — provocou, olhando para mim com um sorriso de canto e guardando a sua faca, levantando e encarando-me. — Eu fiz as primeiras perguntas, Rivaille. É falta de respeito não respondê-las — disse calmamente, dei uma rápida olhada ao redor e constatei pelo sangue que vi em uma das árvores, que uma das crianças já devia estar morta. Eu não podia deixá-los livres.

— Falando em respeito, não estou ouvindo o "capitão" nessa frase. É grosseiro quando um mero soldado se refere a mim sem as devidas nomeações — disse com um pequeno sorriso, vendo o sorriso dele crescer com a minha provocação. Os corvos eram temidos e o pior tipo de pessoa que habita a face da terra, mas pior do que isso, era o fato de que eles trabalhavam para os superiores. Por isso faziam o que queriam e não eram punidos.

— Desculpe, Capitão Rivaille. Vamos começar novamente... O que veio fazer em terras tão longínquas? — questionou enquanto abria os braços em sinal que referia-se aquele lugar onde estávamos.

— Eu fui mandado para caçar bestas... E olhe a minha sorte! Acabei de encontrar sete delas — disse vendo-os puxarem suas espadas e pegar seus rifles apontando-os em minhas direção.

— Isso não é muito inteligente. Soube que você era um bom soldado, mas ao se colocar contra nós, está cometendo um grande erro.

— Isso não é um erro — afirmei sério.

— Por quê, não?

— Porque estou acostumado a lutar contra animais — esclareci enquanto investia contra eles. Tiros foram disparados e usando o gás nos pés, desviei da maior parte das balas, sendo acertado apenas de raspão, na perna e no braço.

Usando as lâminas, acertei o pescoço de dois deles e entrei em uma luta com os outros cinco. Alguns minutos depois, só restava o líder. Eu estava atrás de uma árvore e ele estava atrás de outra, tentei encontrar a sua localização, mas tive que recuar a cabeça ao sentir algo vir em minha direção e desviando por pouco de outra lâmina.

— Você será punido por isso!

— O que os olhos não veem, a lei não pode punir — lembrei, fazendo referência as atrocidades que seu próprio grupo fez, em dezenas de ocasiões passadas, das quais ouvi falar enquanto estava em minhas missões.

— Para um soldado acostumado a lutar contra bestas, você parece bem experiente em lugar contra humanos — sondou enquanto eu finalmente conseguia a sua localização, usando sua voz como ponto de referência.

Usando o gás em sua potência máxima, saí de trás da árvore e segui para trás de outra e depois de outra e de outra, aproximando-me dele aos poucos. Em um momento de investida total, avancei sobre ele e enfiei a minha lâmina em seu coração, vendo a surpresa em seus olhos desaparecer junto com sua vida.

— Eu disse que estava acostumado a caçar animais... Animais da pior espécie, como você — afirmei, desprendendo a lâmina de meu cabo e deixando que aquela ficasse cravada em seu corpo. Fiz uma busca rápida naquela área e encontrei uma das crianças amarradas em uma árvore, era uma garota de uns nove ou dez anos.

— Cadê as outras duas crianças? — perguntei enquanto usando a lâmina suja de sangue para cortar as cordas que lhe prendiam. Ela apenas derramou lágrimas e fez sinal que "não" com a cabeça. Vendo sua expressão, era fácil deduzir que elas não estavam mais vivas.

— Eu vou te levar para um lugar seguro, mas antes preciso ir buscar alguém. Você pode me esperar aqui? — perguntei vendo o medo em seu rosto e o pavor de ser deixada para trás. Eu não podia deixá-la ali. Usei o cabo de minha espada para bater levemente no meu tanque de gás e pelo som, eu sabia que não restava muito. Se eu o usasse durante a volta até a cidade, não teria o suficiente para entrar em uma batalha caso fosse preciso.

Desconectei a outra lâmina, permanecendo com os dois cabos vazios e peguei a menina no colo, segurando atrás de suas pernas e de suas costas enquanto abraçava-a. — Se segure — avisei sentindo seus braços em meu pescoço, usando em seguida os botões para ativar o gás.

Usei o gás para praticamente voar de volta a Vila Mo, sabendo que seria difícil correr com ela no colo e não querendo demorar nem mesmo um segundo a mais. Quando cheguei até a Vila, pouco depois de ter passado do muro, meu gás acabou. Coloquei a menina no chão, coloquei novas lâminas no cabo e me preparei para uma luta, enquanto andava com calma e ela seguia ao meu lado com sua mão segurando em meu cinto, tendo a certeza de que não iria de afastar.

Eu podia ouvir os sons de batalha, mas eles estavam do lado oposto ao nosso e por ali só haviam cadáveres de bestas, a maioria eram de nível um, mas eu podia ver alguns de nível dois. A menina parecia menos assustada em meio as bestas, do que perto daqueles homens, de certo modo, ela me lembrava dele.

Quando cheguei na rua principal, vi um vulto aparecer em minha frente. Eu nem mesmo senti sua aproximação. Quando percebi seus olhos vermelhos me encaravam e sua expressão era de raiva. Tentei erguer minhas mãos, mas ele rosnou. Eu não precisava entender a língua das bestas, para saber que aquilo soava como: "Não se mexa!"

Notas finais
Até mais. :-)