Capítulo 16: O segredo de Eren — Parte 01

Naqueles últimos dias, o garoto tem estado tão preocupado, que sua mente estava exausta. Poucos minutos depois de escorar-se na árvore, ele entrou em sono profundo e cansado, nem ao menos falou. Vigiando-o e cuidando da nossa segurança, fiz questão de ficar acordado, mesmo sabendo que as bestas não chegariam ali, eu nunca seria tolo ao ponto de me descuidar.

Olhando para a vastidão de terras que podia ver, independentemente da direção na qual direcionava a minha visão, pensei naqueles dias ao lado do recruta e tudo o que percebi e que mantive para mim mesmo.

Assim como eu havia dito a ele, eu iria aceitá-lo, e disse isso sabendo que talvez ele nem mesmo seja humano... ao menos, não completamente humano.

Aqueles olhos amarelos que pensei ter visto, realmente existiam e não eram uma ilusão de ótica. Sempre que ele estava concentrado em algo, determinado, mostrando a sua coragem ou sério, esses olhos apareciam em sua face. Dependendo da ocasião, o amarelo se mescla com o verde e em determinadas vezes, eles ficaram completamente amarelos.

Um amarelo quase dourado, exatamente como os das bestas e igualmente selvagem e mortífero... Além desses incomuns olhos, pude perceber outras peculiaridades, se é que podemos chamar assim.

Ele era determinado, isso era um fato, mas sua energia era incomum. Ele se adaptou ao meu treinamento com muita facilidade e apesar de sua mente não ser boa para gravar movimentos, o seu corpo era excelente para aprender. Tanto, que naqueles pouco mais de dois meses, seus músculos quase duplicaram, mesmo que ele não tenho percebido.

Há também aquelas pequenas questões, como a sua sensibilidade para as bestas. Mesmo sem experiência real de combate, ele pode sentir a aproximação delas. E também há a sua cura acelerada, sua fome e seus medos.

O ferimento no braço que deveria levar uma semana para melhorar, ficou cicatrizado em três dias. Sendo adolescente ou não, ele come muito mais do que deveria, mostrando que seu corpo gasta mais energia do que o normal e mesmo que não diga isso, ele parece estar constantemente com medo... com medo de si mesmo.

Eu não era idiota. Era óbvio que ele estava escondendo algo. Juntando tudo o que vi com a sua aparente falta de temor pelas bestas e o fato dele ter sobrevivido ao massacre em Shiganshina, era fácil deduzir que ele não era normal. Também não podia descartar a sua ligação com o médico desaparecido do exército.

Disseram que Grisha Jaeger, pai de Eren, além de ser médico, era um dos cientistas que trabalhavam nos testes que buscavam provar que as bestas eram uma experiência humana que deu errado ou que fugiu do controle... Se ele descobriu algo naquela pesquisa...

Eu realmente não me importava com o segredo do garoto, pois eu também tinha os meus, mas se ele mesmo tinha medo de si, seria melhor se eu descobrisse o que tanto o assustava, para que pudesse evitar problemas em nossa convivência e com nossa segurança.

— Você entendeu tudo o que eu falei? — perguntei para confirmar. Eren acenou em confirmação enquanto estava de pé, em cima do galho e em minha frente, checando seu equipamento. — Repita as instruções — pedi seriamente. Ele olhou-me e disse:

— Quando chegarmos perto da Vila Mo, vamos nos separar. Você irá para a vila e eu seguirei para a floresta que fica á direita das construções. Devo esperar em um lugar alto e seguro e da onde seja possível ver a vila. Depois de fazer a investigação, você irá soltar um sinalizar. Vermelho significa para ficar atento, que há muitas bestas por perto e que você ficará lá por bastante tempo.

— Amarelo significa que você descobriu algo e precisa investigar. Devo permanecer atento e pronto para futuras instruções. Verde, é uma permissão para que eu possa ir para a cidade, significa que é seguro. E preto é para recuar, devido a problemas que podem surgir. Se eu ver o sinal preto, devo vir para este lugar o mais rápido possível e tomar cuidado com os inimigos, sejam eles bestas ou humanos.

— Se encontrar algum humano que seja um inimigo, devo fugir ou me render, mas não lutar. Se encontrar uma besta, devo matá-la imediatamente. Atacar por cima é o melhor método, pois as bestas procuram os humanos apenas abaixo de si e raramente olham para cima.

— Muito bom — elogiei pela sua boa memória. Achei que ele seria ruim em memorizar instruções, mas em um momento de crise, ele estava se saindo muito bem. — Lembre-se de se preocupar consigo mesmo. Eu sei cuidar de mim — avisei calmamente, sabendo que assim como eu prezava pela sua vida, ele prezava pela minha.

Deixamos os nossos cavalos ali e seguimos para a Vila Mo caminhando, correndo e às vezes usando o gás. Quando avistei as construções, dei o sinal ao Eren, para que ele fosse na direção da floresta e assim nos separamos. No meu caminho, encontrei apenas uma besta e esta era de nível um.

Quando alcancei o muro, já velho e esfarelando-se, escutei nada além de silêncio. Disseram que a cidade estava cheia de bestas nível dois, mas elas eram grandes e eu não estava vendo-as em lugar algum. Além disso, estava silencioso demais, isso era sempre um sinal ruim. Ao ver manchas de sangue nas paredes das velhas casas e constatar que estava fresco, sabia que uma recente batalha havia acontecido ali, mas ainda havia muito para investigar.

Peguei o sinalizador que tinha colocado em meu cinto, assim como um dos cartuchos de tinta e atirei o sinal amarelo, pouco antes de entrar na vila deserta. Ao soltar aquele sinal, eu tinha duas intenções, não só a de avisar o meu recruta como tínhamos combinado, mas também o de chamar a atenção para mim e minha posição. Se tivesse algum inimigo pelas redondezas, eu iria trazê-lo a mim, diminuindo o perigo para ele.

Segui andando entre as casas e ruas, mantendo as minhas espadas em frente ao corpo e os dedos perto dos botões, pronto para apertá-los assim que fosse preciso. As bestas tinham desaparecido daquela vila, isso só podia significar que não havia mais nada que lhes chamasse a atenção. E constatei isso ao sentir o mal cheiro vindo de uma das casas e ver ali, dezenas de corpos destroçados.

Era um grupo de humanos que foi cercado pelas bestas, um grupo que foi completamente aniquilado. Peguei um lenço que tinha no bolso e usei para cobrir meu nariz e boca, impedindo-me de inalar o odor da carne destroçada, enquanto investigava.

Não é uma novidade, que um grupo de humanos que esteja viajando, seja cercado e morto por bestas, mas isso ainda não explicava o fato de chamar a atenção de tantas bestas, principalmente as de nível dois. Elas eram mais inteligentes e como podiam controlar as bestas de nível um, raramente apareciam. Para muitas delas se reuniram em um mesmo lugar, algo deve ter acontecido.

Enquanto olhava por cima dos corpos, notei que eram pessoas acostumadas a viajar, pois dentre seus pertences, haviam muitas armas e seus corpos possuíam cicatrizes antigas de batalhas. Continuei procurando e não demorei a encontrar informações suspeitas. Algumas pegadas no chão, feitas por pessoas que pisaram no sangue, agora já seco, deixaram marcas que eu podia reconhecer facilmente como sendo botas do exército.

Ao usar as minhas espadas, movi um dos corpos para ver o que estava embaixo, era o corpo de uma mulher, suas roupas foram rasgadas e havia vestígios de violência, assim como um corte na garganta que provavelmente, era a causa da sua morte.

Percebi também a falta de bolsas com dinheiro e a ausência de três pessoas, ao contar e averiguar os objetos e itens pessoais, podia saber que eram três crianças... Depois de muitos minutos, eu tinha certeza que o primeiro ataque não veio das bestas, e sim de outros humanos e quê... Seja lá o que as bestas queriam naquele grupo, não estava mais lá e devia ter alguma ligação com as crianças desaparecidas e os soldados que ali estiveram.

— Capitão!! — ouvi a voz desespera do garoto e saí imediatamente da casa, surpreso com a sua presença ali sem a minha autorização e com o tom de urgência em sua voz. Assim que saí da residência e ele me viu, veio até mim, correndo entre as casas. Ao me alcançar, ele segurou em meu braço e começou a correr levando-me consigo, sem nem sequer me dar a chance de protestar.

Pensei em parar para perguntar o que estava acontecendo, mas não demorou até que pudesse sentir aquela imensa intenção assassina, que era provida de dezenas de bestas que eu podia sentir ao nosso redor. Ao constatar que não havia como fugir, ele parou de correr e quase rosnou de raiva.

Eu não sabia o que estava acontecendo, mas a sua pressa, não parecia ser apenas por estarmos em uma armadilha. Afinal, ele me conhecia e sabia que ser confrontado daquela maneira, era algo pelo qual já havia passado muitas vezes.

— Rivaille, preciso que confie em mim. Pode fazer isso? — disse olhando em minha direção. Naqueles poucos segundos, tive uma sequência de surpresas.

Seja pelo tom de sua voz cheio de determinação e coragem. Seja pela menção do nome "Rivaille" sem o costumeiro "Capitão" que ele costumava empregar com respeito... Ou seja pelos seus olhos quando olhou em minha direção. Olhos amarelos que viraram vermelhos diante de mim.

Notas finais
Até mais. :-)