Capítulo 43: O livro — Parte 01

Quando acordei naquela manhã, estava sozinho na cama. Levantei, vesti uma roupa e desci as escadas calmamente, escutando risadas vindas da sala. Ao chegar lá, encontrei Eren sentado no sofá, olhando para algo com grande interesse e rindo enquanto era acompanhado pelos demais.

— O que estão olhando? — perguntei vendo todos saírem da sala, alegando que tinham algo para fazer, obviamente fugindo da minha presença. Ao sentar-me ao lado de Eren, vi o que era de tanto interesse, era um álbum de família, com as poucas e raras fotos que eu já tinha tirado e que pertenciam todas a minha infância.

— Onde encontrou isso? — perguntei curioso, pois nem me lembrava mais daquele álbum.

— Estava na estante do seu quarto, entre os livros — respondeu virando mais uma das páginas que tinham aquelas fotografias em preto e branco, como todas as demais que eram tiradas, mesmo nos dias atuais. — Seu pai era muito bonito e sério como você e sua mãe parece ser gentil e sorridente... Acho que puxou mais o seu pai — brincou sorrindo para mim.

Não gostava das minhas fotos, mas ele parecia tão feliz em vê-las que permiti que ficasse com elas o dia todo, respondendo suas perguntas quando ele as tinha.

A manhã se passou entre conversas calmas e tranquilas, depois do almoço, Eren pediu para ficar no quarto, vasculhando para ver se achava mais alguma coisa "interessante" e eu peguei um livro da estante no antigo escritório de meu pai e fui para fora de casa, sentei em uma rede na varanda dos fundos e aproveitei o clima agradável para ler.

Algumas horas depois, Eren veio até mim e se juntou ao meu repouso, deitando parcialmente sobre mim e apoiando sua cabeça em meu peito. Continuei a ler, mas segurei o livro com apenas um mão e usei a outra para abraçá-lo.

Os minutos se passaram e quando percebi, ele estava dormindo. Sorri ao ver o quão confortável estava e continuei a leitura por mais alguns minutos, até que meu braço cansou e desisti da atividade.

Larguei o livro e coloquei o braço atrás da cabeça, lembrando de tudo o que ainda tinha que falar com Eren, tudo o que ainda não tinha falado sobre aquela missão na qual fui e o que encontrei nela.

— Por que essa expressão pensativa? — perguntou uma voz sonolenta. Olhei para baixo e pude vê-lo me encarando e ainda deitado, pouco antes de se ajeitar na rede e subir alguns centímetros deixando o seu rosto perto do meu.

— Tem algumas questões que precisamos conversar, mas não é relacionado ao meu passado, e sim, ao futuro —expliquei calmamente.

— Estou ouvindo — garantiu, dando-me espaço para falar sobre o que quer que fosse que estava me deixando tão pensativo e até certo ponto, preocupado. Virei-me na rede, ficando de lado na rede e de frente para ele, sentindo sua perna sobre a minha, enquanto ele se ajeitava o mais perto possível de meu corpo, e ainda assim, longe o suficiente para que pudéssemos conversar.

Contei a ele um resumo da viagem, que ia desde o nosso caminho até lá quando falei com seu "amigo" Armin e o que ele me revelou, depois a minha missão no laboratório e o que encontrei lá, sobre o livro, o ovo e encerrando com a destruição de Becker do laboratório.

Ele ficou surpreso, principalmente com a parte sobre si mesmo que não sabia. Ele disse que lembra de ter escrito seu nome na folha que Armin me entregou e garantiu que realmente escreveu seu nome ali, sem nem perceber que tinha usado uma outra língua, pois ele vê palavras normais.

Compartilhei com ele uma das teorias de Mya que dizia que Eren podia ter a capacidade de ler algo diferente, pois talvez estivesse relacionado com as bestas, assim fazia sentido que só ele pudesse ler. Após afirmar que eu nada podia entender, Eren garantiu que iria ler o tal livro e compartilhar comigo o que tinha descoberto, mas me deu uma condição.

Como ele mesmo não sabe como funcionava essa capacidade de ler outra língua, ele queria ler todo o livro primeiro e deixaria para me dizer o que tinha descoberto depois que o terminasse, assim não precisaria se distrair e não correria o risco de cometer algum erro.

O seu pedido era simples e eu podia entender seus receios, então concordei, garantindo que ele podia ler quando quisesse, pois havia trazido o livro comigo. Quanto ao ovo... Concordamos em decidir o que fazer com ele depois de obter os conhecimentos do livro, mas de imediato, havia algo decidido, que era manter aquele ovo em segredo por algum tempo.

Com esse assunto resolvido, optamos por aproveitar mais esse tempo que nos foi dado juntos e quando ele quisesse ler o livro, eu lhe daria. Namoramos um pouco na rede, mas preferimos deixar as carícias mais ousadas para dentro de casa, pois namorar a céu aberto nos deixava meio apreensivos... Talvez fosse por sabermos que nosso relacionamento ainda deveria ser um segredo para a maioria das pessoas.

A primeira semana se passou rápido, enquanto a cada dia que se passava, Eren explorava um pedaço de minha casa ou conversava com meus empregados, era como se tivesse encontrado um novo parque de diversões. Como me prometeu, ele não treinou em nem um dos dias, embora tenha confidenciado que sentia tédio por não ter nada para fazer.

Na segunda semana levei-o para fora de casa todos os dias, usando casacos com capuz, saímos ao anoitecer e íamos passear por nossas terras, voltando ao amanhecer e dormindo por boa parte do dia.

Nas nossas "escapadas noturnas" até aproveitamos para dar uma variada no sexo, enquanto eu descobria que meu pirralho era mais pervertido do que eu achava e que se dependesse dele, faríamos sexo em 10/10 vezes em que estivéssemos sozinhos... Eu chamava isso de hormônios e adolescência.

Apenas na terceira semana é que ele enfim se aquietou e decidiu ler o livro. Por três dias ele não saiu do quarto para nada que não fosse comer ou ir ao banheiro e tomar banho. Deixei-o sozinho e a noite dormia ao seu lado, mas não lhe fazia perguntas, vendo que ele parecia ter muito no que pensar.

No terceiro dia, desde que ele começou a ler o livro, estava esperando no velho escritório de meu pai enquanto ele tomava banho, quando Eren entrou correndo no escritório. O seu cabelo estava molhado devido ao banho e em uma mão ele tinha uma toalha, que provavelmente estava usando para secar o cabelo e na outra mão tinha um bolsa de couro velha.

Aquela era a bolsa que tinha pegado no laboratório, a bolsa que usei para carregar o livro dentro e que tinha trazido ali quando vim avisar meus empregados de que passaria algumas semanas em casa. Eu tinha acabado de mandar alguém jogar fora, pois já não tinha mais utilidades.

— Onde conseguiu isso? — perguntou erguendo-a em sua frente.

— É a bolsa que usei para trazer o livro do laboratório — comecei a explicação, dizendo que tinha trazido o livro ainda ali dentro, quando vim fazer as nossas preparações na casa, uns dias antes da nossa chegada até ali e que agora tinha mandado jogarem ela fora. — Qual é o problema, por que parece tão surpreso? — questionei me aproximando e vendo-o encarar a bolsa como se visse um fantasma.

— Essa bolsa pertencia ao meu pai... Minha mãe deu a ele de presente — explicou-me seriamente, mas mostrando tanta confusão quanto eu mesmo.

— Tem certeza? — Não pude deixar de perguntar.

— É fácil ter uma prova — explicou enquanto abria a bolsa e rasgava parte do pano interno, com facilidade devido aos estragos do tempo, e me mostrava um pedaço de couro costurado por dentro. Ali estava escrito "Eren Jaeger".

— Ele sempre dizia que ter o nome do seu filho sempre consigo, lhe trazia sorte, então mamãe sempre fazia isso no interior de suas bolsas e de seus casacos — contou-me sobre o significado do nome estar ali.

Olhando para a bolsa, lembrei-me de achar estranho que seu material parecesse mais novo do que os demais que estavam naquele lugar... mas nunca me passaria pela cabeça que aquele fosse o motivo.

— Já terminou de ler o livro, não é? — Eren confirmou com um balançar de cabeça. — Ótimo. Pois temos muito o que conversar — disse olhando seriamente para aquela bolsa.