Capítulo 44: O livro — Parte 02

— Por onde devemos começar? — perguntou dando um suspiro irritado ao olhar novamente para a bolsa, pouco antes de soltá-la em uma das cadeiras e ir se sentar no sofá que ficava no canto do escritório.

Caminhei até ele e sentei ao seu lado, assim que me juntei a ele no sofá, sua cabeça escorou-se em meu ombro e ele suspirou novamente. Aquele assunto parecia ser algo complicado de se tratar e isso era fácil de perceber pelo modo como ele estava agindo.

— Comece por onde quiser, encontre o melhor modo de me contar o que descobriu sobre o livro... Vamos deixar para falar sobre a bolsa depois — sugeri vendo-o balançar levemente a cabeça. Sua mão alcançou a minha e entrelaçou meus dedos com os seus, assim como para mim, para ele era um modo de se acalmar.

— Aquele livro na verdade não é um livro, e sim, um diário — começou com uma grande revelação, completando o início da história com grandes informações. — E pelo que li ali, a história que Mya nos contou era verdade, toda ela...

— Na maioria das páginas, estavam retratadas as experiências que o cientista fazia, então está explicado como ele criou as bestas e como lidou com elas... Para ser sincero, havia tantos termos que não conheço, que não entendi quase nada sobre isso.

— Mas algumas partes se destacaram e consegui compreendê-las, talvez seja por já ter ouvido sobre isso antes ou por estar interessado nesses mistérios, mas essa foram as únicas partes que gravei sobre os experimentos — explicou deixando claro que havia muito que não havia entendido e eu não podia culpá-lo, pois se tivesse lido, era provável que passaria pelo mesmo problema.

— Quando criou as bestas, ele deu a elas algumas fraquezas para que pudesse controlá-las, mas por querer um ser forte, elas são imunes a maioria dos materiais e armas... Como sabemos, para realmente matá-las, nada podemos fazer, além de cortar a cabeça. Mas há outras fraquezas que foram implantadas nelas para ajudar em sua contenção.

— Dentre essas fraquezas, estão a água. A água diminuí sua velocidade e seus movimentos, deve ser por isso que elas não atacam em dias de chuva e o motivo pelo qual não atacam com muita frequência durante a noite, é porque sua visão não é tão boa como a nossa, pelo que entendi, eles só podem ver um borrão e "enxergam" mais através do olfato e da intuição.

Para a minha surpresa, suas primeiras informações eram extremamente esclarecedoras. Em poucos minutos ele tirou as dúvidas que tinham se acumulado naqueles anos de batalha.

— Ainda relacionado as fraquezas das bestas, encontrei uma que pode ser a salvação da humanidade — disse sério, erguendo sua cabeça e me encarando com um olhar que mostrava a seriedade da questão.

— Do que se trata? — questionei calmamente.

— Assim como na história que Mya nos contou, as primeiras bestas criadas foram doze. Essas doze são aquelas que deram origens as demais e de acordo com o que foi feito no experimento, elas são as únicas capazes de gerar filhos... em outras palavras...

— Se nós as matarmos, as bestas não poderão mais se reproduzir — disse entendendo e armazenando aquela informação mais do que útil.

— Além disso, tenho algumas informações sobre os ovos de bestas, pois eles fizeram experimentos com eles. A primeira parte importante é que essas doze bestas não cuidam dos ovos ou dos filhotes. Elas geram os ovos e depois os abandonam... Para que o ovo ecloda, ele precisa receber um ordem da "besta mãe", depois disso em cerca de um ano atingirá o tamanho de uma besta nível um...

— Eles comem comida humana ou os próprios humanos, o que lhe derem, e não sei nada sobre a sua intenção assassina, mas parece ser algo que é desenvolvido de acordo com a "besta mãe" que lhe dá a ordem, pois apesar de serem todas bestas, cada uma das doze principais tem uma personalidade diferente, parecido com os humanos.

— Então... — parei um pouco e pensei sobre aquilo, dizendo a minha teoria em seguida. — Os ovos recebem o que recebemos através da genética, através da ordem para eclodir?

— É o que parece — concordou, se afastando um pouco e voltando a escorar a sua cabeça em meu ombro. — Também não há nada sobre quanto tempo leva para as bestas evoluírem de nível ou se podem ser controladas, mas ficou claro que algumas são mais inteligentes do que outras e que ainda há muitos mistérios que as envolvem.

— Há muitas informações, é mais que suficiente — comentei, escutando um fraco "sim" em resposta. Ele ficou alguns segundos em silêncio, como se estivesse decidindo o que contar e então seguiu para os próximos tópicos.

— Talvez eu devesse ter dito antes, mas parece que a minha ligação com as bestas é mais antiga do que eu imaginava.

— O que isso significa?

— O homem que criou as bestas e que escreveu aquele diário, usou seu próprio DNA para fazer os experimentos. E descobri que seu sobrenome era Kirin... E esse era o sobrenome de solteira da minha mãe — explicou-me calmamente.

— Então o motivo pelo qual consegue ver esses caracteres estranhos e que pode falar com as bestas, está ligado com seu antepassado?

— É possível... Afinal temos o mesmo sangue — comentou enquanto seu tom de voz baixava gradativamente. Ele estava falando sobre coisas que não queria falar... Ou que talvez nem quisesse ter descoberto.

— Por falar em sangue e em parentes... As últimas páginas do diário, foram escritas por uma pessoa diferente. Não há nome, mas as suas descrições são sobre os testes para criar a barreira, se olharmos pela história que Mya no contou, então...

— O filho do cientista.

— Sim — confirmou, continuando em seguida — Os relatos dos seus experimentos sobre as barreiras, foram ainda mais complicados de entender do que os relatos sobre as próprias bestas e tudo que consegui entender dessas poucas páginas, é que a barreira foi construída com a energia vital das próprias bestas, por isso elas podem deter as feras e deve ser por causa disso que as bestas sabem quando uma barreira vai se quebrar... Porém, não encontrei nada que fale sobre o processo de criação de barreiras.

Eren novamente suspirou, dessa vez, um suspirou triste. — Só precisamos matar as doze primeiras bestas, depois disso as outras podem ser caçadas pouco a pouco. Não se preocupe muito com o assunto da barreira, nos somos melhores lidando com lâminas do que com teorias — disse ouvindo-o rir.

Ele ergueu novamente o seu rosto e me deu um beijo rápido, dizendo: — Sei que não somos muitos bons em pensar, mas há algo que quero manter apenas entre nós, mesmo se não acharmos uma resposta — pediu com uma expressão triste, parecia ser algo importante para ele, então apenas acenei em concordância.

— Como eu revelei, parece que meus antepassados foram os responsáveis pela criação das bestas. E embora eu não saiba como tudo saiu de controle, não vai mudar o fato de que minha família é responsável pelo sofrimento de tantas pessoas, além disso, se tratando da minha família, fica ainda pior...

— O tal amigo do cientista que quis usar as bestas para dominar o mundo, foi mencionado uma única vez, quando visitou o laboratório. E seu nome não foi mencionado, mas seu sobrenome... era Jaeger — explicou-me para a minha surpresa.

— Parece que já sabemos o motivo de seu pai ter te transformado em meio besta... Se ele sabe dessa história do passado, talvez esteja tentando te usar para controlar as bestas — comentei e ele acenou afirmativamente, mostrando que tinha chegado a mesma conclusão.

— Além disso... acabo de pensar que talvez, o casamento dos meus pais não tenha sido uma coincidência — revelou no que estava pensando, assim como a expressão mais triste que já havia presenciado em seu rosto. A possibilidade de que seu pai tenha se aproximado de sua mãe, sabendo da sua herança genética, era alta.

— Vamos manter isso apenas entre nós, não se preocupe muito. E quanto ao seu pai, se eu encontrá-lo algum dia, vou espremer as respostas dele e depois lhe darei de comida para as bestas — disse erguendo minha mão e tocando seu rosto, vendo um pequeno sorriso surgir em sua face.

— Obrigado, Levi — respondeu usando meu verdadeiro nome pela primeira vez. Sorri ao ver o quão natural foi pronunciar meu nome e senti meu coração balançar. Eu o amava é já estava mais do que na hora de dizer e mostrar isso a ele.

Notas finais
Até mais. :-)