Perfeitos um para o outro... Ou quase isso
4 Meu trabalho - Levi
Notas iniciais
Capítulo 04: Meu trabalho — Levi
Após montar em meu cavalo e seguir ao lado do mensageiro por três minutos, cheguei até os portões da cidade de Rose, onde o grupo me esperava.
Alguns ficaram realmente bravos com meu atraso, mas ninguém ousou reclamar, afinal, eu estava indo a pedido de Erwin, porque eles não tinham pessoal o suficiente para se proteger... Em outras palavras, são um bando de incompetentes.
Seguimos para fora da cidade em uma grande grupo, sem nenhuma organização estratégica, algo que feria meus olhos e meu orgulho. Felizmente era noite e as bestas atacavam durante o dia, ou era isso o que pessoas sem experiência, ou com pouca experiência, acreditam. Alguém como eu, sabia que não havia hora para ser atacado.
Enquanto eles faziam pausas, conversavam e até riam, mantive meus olhos e ouvidos atentos nos arredores. Não só por precaução, mas por estar sentindo que algo me observava, algo com grandes olhos amarelos.
Era apenas o início da noite, então conseguimos alcançar nosso destino, antes da madrugada. Era uma pequena cidade, uma das poucas em que a barreira ainda estava ativa, mas que falhava de tempos em tempos. Nós fomos levados até uma estalagem e os soldados começaram a beber e comer, como se aquilo fosse algum tipo de férias ao invés de uma missão.
Sentei-me em uma das mesas e fiquei sozinho, até que ela apareceu para me fazer companhia, trazendo-me um chá e me oferendo-o. Bebi um gole para não fazer desfeita, me surpreendendo com o gosto horrível, bem diferente daquele que o garoto havia preparado.
— Desculpe pelo comportamento dos meus colegas. Eles não são muito profissionais — disse Petra, parecendo constrangida.
— Já estou acostumado com idiotas — disse escorando-me no encosto da cadeira e colocando os pés em cima da mesa, ia aproveitar para dormir um pouco. Petra ao perceber, saiu e não insistiu em continuar com a conversa.
— Rivaille! Por que não relaxa um pouco? Tire esse equipamento pesado e se junte a nós — chamou o Capitão daquele grupo, sentando na cadeira em frente a minha.
Abri meus olhos, olhei em sua direção e na direção dos seus companheiros e respondi: — Eu recuso — voltando a fechar os olhos e escutando resmungos descontentes aos quais não dei nenhuma importância. Vários minutos se passavam enquanto eu via imagens do garoto em minha mente.
Por alguma razão, eu estava me sentindo como uma mãe que tinha ido viajar e deixou o filho pequeno em casa, lembrando-se depois que as facas ficaram ao seu alcance e temendo que ele se machucasse.
— Capitão Rivaille. Fico feliz em vê-lo — disse uma voz conhecida. Abri meus olhos e vi o chefe daquela pequena cidade. Ele era alto e forte, parecendo ser ainda maior perto de alguém tão baixo quanto eu, mas ao me ver ele fez a costumeira reverência de respeito que era passada de geração em geração naquele cidade.
— Olá — retribuí, tirando os pés da mesa e sentindo-me de maneira correta, não querendo ser desrespeitoso com um homem de bom caráter.
— Nós enviamos um mensageiro até sua casa, mas por não termos encontrado-o, fizemos um pedido oficial ao homem que nos recomendou — explicou o chefe, fazendo-me entender o motivo de Erwin ter me mandado para aquela missão.
— Agradeço por ter vindo. As crianças se sentem mais seguras com a sua presença — disse sua esposa, uma mulher incrívelmente bela que estava sempre ao seu lado.
— Eu sou Reiner Braun. Recém promovido a capitão e estou no comando desta operação. Foi você quem fez o pedido? — perguntou o jovem vindo até o chefe e oferecendo a ele um aperto de mão, enquanto tinha uma caneca de cerveja na outra.
— Você está no comando? E está bebendo ao invés de caçar as bestas? — perguntou o chefe em tom sério, repreendendo aquela ação que ele considerava inapropriada.
— Não caçamos à noite. Assim que amanhecer, estaremos todos pronto para defender a vila. Não se preocupe — disse recolhendo a mão que foi oferecida para o aperto e foi rejeitada.
— Entendo — disse o homem ainda em tom sério. Aquela cidade ficava no topo de uma montanha, onde a luz do luar chegava fortemente e onde muitos ataques já aconteceram durante a noite. Não que muitas pessoas soubessem disso.
— Contamos com sua ajuda — disse ele fazendo uma nova reverência, mas não para Reiner, e sim, para mim. O que deixou o colega Capitão com raiva, principalmente quando seus colegas começaram a rir. Acenei em confirmação ao chefe e voltei a me escorar na cadeira e dormir, enquanto podia.
Eu já havia estado naquela vila umas três vezes só naquele ano, pois a barreira estava cada vez mais próxima de se romper e apesar de ter poucos moradores e da maioria já ter se mudado para uma das grandes cidades, ainda tinham muitos que não saíram. Naquelas vezes eu os protegi, o que dava-lhes a coragem de confiar suas vidas a mim.
Ignorei os olhares de raiva, assim como ignorava qualquer olhar direcionado a mim. Segui atento e descansando por toda a noite, mas nem um ataque aconteceu. As bestas não eram seres irracionais como ensinam e estavam visivelmente receosos com minha presença, afinal, matar dos seus era algo que eu fazia há muito tempo.
Durante o dia, também não houve um ataque. Mas mesmo assim o grupo de oito soldados se dividiu e vigiou toda a pequena cidade, e ao anoitecer, voltaram a beber. Dessa vez, ao invés de ficar na estalagem, fiquei em cima do muro, no limite da barreira. Me mantendo desperto e esperando o ataque que eu podia sentir estar perto de chegar.
Enquanto observava a floresta ao lado da cidade, ouvi algumas crianças brincarem de pegar e direcionei a minha atenção a eles, vendo o que representava ser o mais novo, cair ao tropeçar em seus próprios pés.
— Quantas vezes será que ele caiu hoje? — perguntei não contendo um pequeno sorriso ao lembrar de suas quedas. Aqueles dias se provaram ser divertidos, enquanto eu descobria variados tipos de quedas que uma pessoa poderia sofrer e o quanto uma pessoa podia ser destrutiva contra si mesma.
— O garoto recruta tem se ferido muito? — perguntou ela ao mostrar-se estar por perto e ter ouvido minha frase. Não respondi. Não era só por não querer puxar conversa, mas também por não querer falar nada sobre o garoto. Não importava como ele estava indo, isso era de interesse meu e de mais ninguém.
— Rivaille... Você nunca vai me dar uma chance? — perguntou em pé, ao meu lado, também sobre o muro. O vento soprou e seus curtos cabelos castanhos balançaram, assim como os meus.
Lembrei-me de quando éramos mais jovens, de quando não tinha feito fama ainda e do fato de que ela não se aproximava de mim por medo do que as pessoas falariam se nos vissem juntos. Assim como do fato de que apesar de gostar de mim, ela nunca teve coragem de pedir transferência para o meu esquadrão.
— Eu não tenho determinação para estar ao lado do Capitão Rivaille, pois muitos o odeiam. Mas, eu amo o Levi... O que devo fazer?
— Deve esquecer o Levi. Pois ele e Rivaille são a mesma pessoa — disse seriamente, levantando-me para melhor observar a floresta e sentindo suas mãos segurarem meu braço, pedindo por atenção, que eu não lhe direcionei.
— Levi... Sei que não tenho muita determinação, mas eu realmente te amo. Me dê uma chance e não vai se arrepender. Se ficar esperando por uma mulher que esteja disposta a lutar contra todos ao seu lado, talvez nunca encontre. Não existe mulher alguma com tanta determinação ao ponto de se voltar contra o mundo por sua causa, mas eu te amo e vou arriscar, mesmo sendo uma covarde! — admitiu em tom alto, fazendo as crianças pararem de brincar e nos observar.
Ao ouvir suas palavras. Senti vontade de rir. Ela estava dizendo que me amava e ao mesmo tempo que eu não valia a pena, pois, mulher alguma ficaria ao meu lado enquanto eu continuava a fazer inimigos. Foi uma confissão surpreendente em muitos sentidos.
— Talvez eu não encontre — disse dando um sorriso divertido — Não uma mulher — completei lembrando daquele que eu treinava naquele momento. Talvez, em algum momento de minha vida, eu encontrasse um homem como aquele, com aquela determinação... Por quê, não? Nunca tinha pensado em um relacionamento com outro homem, mas soava uma ideia divertida e menos problemática.
— O que... quer dizer com isso? — perguntou visivelmente confusa. Senti uma intenção assassina vir da floresta e me afastei dela sem nem uma delicadeza.
— O alarme! — disse para as crianças que ao escutarem as minhas palavras, correram em direção ao sino e o tocaram, fazendo as poucas pessoas que ainda estavam pela rua, entrarem em suas casas e fechar as portas e janelas.
Saltei para fora da fraca barreira e corri em direção a floresta, no mesmo instante em que uma das bestas emergia das árvores. Aquela aparência leonina, aquela agilidade e força, eram o normal das bestas. Com a única diferença de que possuía o tamanho de um cavalo, era uma besta de nível um, a mais fraca.
— Apenas lixo — disse ativando meu gás e usando minha arma para desviar de sua investida e cortar sua cabeça, matando-o imediatamente.
Mais três saíram das árvores e continuei a lutar. Depois de já ter matado sete deles, o resto do grupo finalmente chegou e pude deixar o trabalho chato para eles. Avancei para dentro da floresta e encontrei ali uma besta nível três, do tamanho de uma casa pequena. Era a besta de nível médio e que tinha a habilidade de controlar os menores. Ataquei-o e minutos depois consegui a vitória.
Quando os demais chegaram, eu já estava voltando para a cidade. O risco foi eliminado, mas por precaução ficamos mais dois dias, enquanto isso, não fui mais incomodado e pude ao menos cochilar em paz. Voltando para a base quando o trabalho foi oficialmente encerrado.
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