Perfeitos um para o outro... Ou quase isso

41 Meu passado - Levi - Parte 02


Capítulo 41: Meu passado — Levi — Parte 02

— O quanto você quer saber sobre mim?

— Tudo — respondeu sem hesitar.

— Eu sabia que você ia dizer isso — comentei baixinho, soltando um quase inaudível suspiro e vendo-o sorrir. — Certo, então, vamos do começo.

— Minha família sempre possuiu muio dinheiro, pois há uma mina de carvão em uma de nossas terras e o carvão é um mineral muito usado nas grandes cidades. Mas apesar de serem ricos, eles não eram esnobes, sempre pensaram no povo e até se davam melhor com as pessoas em situação financeira mais inferior, do que aquelas da alta classe.

— Isso deve ter passado na genética — brincou o meu recruta.

— Talvez sim — concordei, continuando em seguida. — Sempre vi pessoas pelos seus valores e não pelo seu dinheiro, então desde criança, sabia o tipo de adulto que não queria ser. Mas naquela época eu achava isso fácil, já que não conhecia as dificuldades do mundo. E para mim, que podia ser considerado inocente do mundo sujo por trás dos adultos obsecados por poder e dinheiro, a verdade foi revelada da pior maneira possível.

— Em um dos muitos jantares que meus pais deram, meu pai fechou uma parceria com um oficial do exército, para obter proteção enquanto ia levar dinheiro para uma cidade que tinha sofrido com um incêndio e que precisava de verba para se reerguer. Essa cidade estava sob os cuidados de um amigo de infância e ele queria ajudar como pudesse.

Comecei a parte central da história que mudou tudo o que eu era e o que eu pensava. Eren pareceu perceber que o momento não era dos mais agradáveis e se apresentou para me apoiar. Ele subiu completamente em meu colo, sentando-se sobre minhas pernas e ajeitando-se para que pudesse deitar sua cabeça em meu ombro. Tendo-o tão perto, passei meus braços ao seu redor, abraçando-o, continuando a história pouco depois.

— Durante a sua ida para a cidade, uma unidade da Tropa de Exploração estava protegendo-o contra as bestas, mas, ele nunca chegou até seu destino. Foi divulgado que ele foi atacado no caminho e não sobreviveu, mas a verdade apareceu para mim, mesmo que ninguém mais soubesse sobre ela.

— Na verdade, no dia marcado para a transferência do dinheiro, meu pai resolveu levar apenas comida e roupas, que era o que eles estavam mais precisando e deixou o dinheiro para outra ocasião. Mas os soldados não sabiam sobre a troca, por isso ficaram surpresos quando o mataram pelo dinheiro e não encontraram dinheiro algum.

— De início, muitos acreditaram que meu pai foi morto pelas bestas, mas aconteceu novamente, dessa vez com minha mãe que tentou dar continuidade ao que pai queria fazer. Ela novamente contratou proteção para levar o dinheiro, mas mudou de ideia e resolveu levar remédios, pois descobriu que uma epidemia estava assombrando a cidade recém queimada e novamente, ela foi morta.

— Dessa vez uma investigação foi aberta, pois o problema não podia ser ignorado ou tratado como uma coincidência. Afinal, meus pais eram pessoas influentes nessas cidades... A polícia do Interior ficou responsável pela investigação e assim, tentei seguir com a minha vida.

— No dia do enterro da minha mãe, voltei para casa mais cedo, pois não me sentia bem. Na ocasião voltei sozinho, pois mesmo tendo menos de dez anos, já conseguia cuidar de mim mesmo. E quando cheguei em casa, encontrei o comandante da Polícia do Interior e o chefe da unidade que fez a escolta de meus pais, vasculhando minha casa, enquanto discutiam entre si... Consegue adivinhar sobre o que eles falavam?

— Sobre a morte dos seus pais... Deviam estar jogando a culpa um no outro por terem chamado a atenção e nem mesmo conseguiram o dinheiro — deduziu meu recruta, já acostumado com o lado obscuro do exército.

— Sim... Ouvindo a conversa deles, descobri que tudo era uma armação e que meus pais foram vítimas de um golpe de dois ladrões. Daquele dia em diante, a minha fantasia de ser um herói da justiça, de ser um soldado que protege os inocentes, foi despedaçada e fui lançado no mundo egoísta dos adultos... Era algo próximo de um gato domesticado que foi solto em uma selva de leões. — brinquei para aliviar o clima tenso devido a conversa.

— E quando o gato doméstico se tornou o rei da selva? — devolveu a pergunta com outra brincadeira.

— Nos anos seguintes eu assumi os negócios da família e resolvi treinar. Primeiro contratei os melhores professores que poderia ter, professores que ensinavam diferentes tipos de combate e a manejar armas, mas eles não se adequavam ao que eu tinha em mente, então mudei a minha escolha de professores.

— Contratei gangsters, lutadores de rua e até viajantes que lutavam com bestas. Tinha facilidade em aprender, então, em mais ou menos cinco anos, me tornei um especialista em combate... Só faltava colocar o que tinha aprendido em prática.

— Você os matou? — perguntou não se deixando abalar com o que eu dizia.

— Sim. Matei todos eles... Tanto a unidade que não protegeu meus pais e que lhes tiraram as vidas, como as pessoas por trás deles, que lhes davam informações e que acobertam seus crimes... Nem mesmo o comandante escapou — garanti em tom frio.

Eren fez silêncio, pois parecia pensar. Depois jogou-se para trás, caindo de costas no sofá e esticou seus braços em minha direção. Um pedido para que eu o abraçasse e me deitasse. Deitei na beira do sofá e fiquei parcialmente sobre ele, deitando-me sobre seu peito e abraçando-o pela cintura, assim como fiz no passado, quando queria descansar um pouco.

— Continue a história e não esconda nada... Eu ainda vou te amar, não importa quantas pessoas tenha matado... Não podemos apagar o passado, mas sei que o nosso futuro não será o mesmo pelo que passou — confortou-me enquanto fazia um carinho em meus cabelos e eu sorria discretamente ao ouvir "nosso futuro".

— Depois de conseguir a vingança contra meus pais, eu fiquei fora de controle e resolvi fazer justiça com minhas próprias mãos... Sempre que eu encontrava alguém corrompido no exército, procurava provas da sua corrupção e quando as tinha, ia atrás dele e o matava.

— Fiz isso por vários anos, tantos, que matar se tornou a minha ocupação principal. Eu estava com tanta obsessão com a justiça, que quando me machucava, apenas tomava dezenas de remédios para dor ou para me manter acordado e continuava a minha caça. Fiquei tantos anos fazendo isso, que mesmo hoje, o meu corpo ainda não se recuperou por completo.

— Quando me esforço muito, sinto-me tonto e começo a cuspir sangue, devido as sequelas internas pelo uso consecutivo dos remédios... Mas está melhorando com o tempo, então não é mais tão frequentemente e deixou de ser um problema há muitos anos.

—O outro único problema que tudo isso deixou de modo permanente, foi a revelação de minha identidade... Eu matei muitas pessoas importantes, então quando foi descoberto quem estava por trás dos assassinatos, meu nome foi revelado para os cidadãos. Devido a isso, tive que abandonar o nome Levi Ackerman — expliquei levantando e subindo um pouco para que pudesse encarar sua face para saber porque ele estava tão quieto.

— Surpreso? — questionei tentando compreender aquele olhar distante enquanto ele encarava o nada.

— Muito — afirmou ao olhar para mim. — Então seu nome é Levi Ackerman? Posso te chamar de Levi quanto estivermos sozinhos? E por que seu sobrenome é igual ao da Mikasa? Por falar em nome, da onde surgiu Rivaille? E se odeia tanto o exército, como virou um solda...

Tapei sua boca ao ver que as perguntas não teriam fim, explicando: — Eu vou chegar até essa parte, mas que tal esperar eu terminar de contar toda a história? — sugeri vendo-o balançar a cabeça em afirmativo. Quando afastei a minha mão, ele sorriu e pediu desculpa pelo ataque de perguntas.

— Então, onde eu estava?

— Na parte em que descobriram seu nome... Por falar em seu nome, depois de tudo o que me disse, se eu disser "Levi Ackerman" para alguém, sinto que vão sair pessoas correndo para todas as direções — brincou levando o assunto de um maneira muito mais leve e fácil do que eu esperava.

Notas finais
Até mais. :-)