Perfeitos um para o outro... Ou quase isso

40 Meu passado - Levi - Parte 01


Capítulo 40: Meu passado — Levi — Parte 01

Fizemos a viagem a pé, caminhando tranquilamente por caminhos pouco usados, tentando fugir da atenção que podíamos receber. A viagem que podia ser feita em quinze minutos, quando a cavalo, levou mais de uma hora a pé, devido aos desvios.

Essa hora foi necessária para chegar até o muro que separava a cidade Maria da cidade Shina. Depois foram mais duas horas de caminhada, até chegar em uma área mais afastada do centro da cidade, onde poderiam ser encontradas fazendas e casas com grandes propriedades.

— De quem é essa casa? — perguntou o pirralho curioso, depois de passarmos por um muro baixo, assim que chegamos em frente a uma construção antiga em estilo rústico e que deixava claro não pertencer a classes média ou baixa.

— Minha — respondi vendo-o me encarar surpreso. — Ou deveria dizer, nossa — me corrigi vendo-o sorrir minimamente com minhas palavras.

— Seja bem-vindo, Mestre Rivaille — disse um dos empregados mais velhos de minha família, que trabalhava ali desde os tempos em que meu pai era o chefe da família. — Nós preparamos o seu quarto, assim como foi pedido anteriormente... Devemos arrumar o quarto de hóspedes? — perguntou olhando para o garoto ao meu lado.

— Não é necessário, ele vai ficar comigo — respondi, segurando na mão de Eren e entrando, não esperando para ver a sua reação, que deveria ser de surpresa. Subi direto ao meu quarto, não encontrando mais ninguém no caminho até lá, pois sobravam poucos empregados ali.

Ao chegar nos meus aposentos, vi o olhar de Eren se tornar fascinado, ao ver o quão grande era o meu quarto e quantas decorações haviam ali... Eram todas decorações dadas por meus pais e que nunca me dei ao trabalho de tirar, como vasos, quadros e até espadas antigas e decorativas que ficavam nas paredes.

— Por que levar aqueles sobreviventes da montanha para a nossa base na cidade abandonada, quando tem uma casa tão grande? Sei que não pode deixá-los na base sem serem seus empregados, mas poderia deixá-los viver aqui, não? Parece que tem dinheiro para bancá-los — comentou sentando na cama e ainda olhando ao redor.

Suas palavras podiam soar como uma reclamação ou até zombaria, mas eu sabia que era apenas curiosidade e ficava feliz por ele ser sempre tão honesto sobre o que pensa, era um dos pontos positivos sobre ele que eu mais gostava.

Sentei-me ao seu lado e segurei sua mão, trazendo a sua atenção dos arredores para mim, explicando calmamente para que ele pudesse entender, assim como sempre fazia quando o meu recruta tinha alguma dúvida.

— Eu posso deixá-los aqui e tenho condições financeiras para mantê-los, mas devido a um acordo que fiz com o exército, todos os meus movimentos serão contados aos cidadãos. Isso significa que se eu começar a abrigar pessoas, outras mais que estão na mesma situação que eles, virão pedir esse tipo de ajuda e com o passar do tempo, pode ficar fora de controle e não vou mais poder ajudar como quero.

— Mas esse é o menor dos problemas. Existem pequenos detalhes, como: Posso ser rico, mas há limite para o meu dinheiro. Se eu começar a abrigar pessoas de cidades que perderam suas barreiras, vou atrair pessoas que querem se aproveitar de minha ajuda e trazê-los para cá, pode revelar informações sobre o meu passado que não devem ser reveladas a estranhos.

— Além de tudo isso, ainda há a questão principal... Não há garantias de quanto tempo as três grandes cidades vão continuar com a barreira, pois aquela última cidade na qual estivemos, é do tamanho da cidade Rose, isso significa que talvez essa grande barreira em quem todos confiam, possa vir a cair antes do que as pessoas imaginam.

— Então, é melhor que pessoas como aqueles sobreviventes, aprendam o quanto antes a viver entre as bestas, para que no futuro não precisem reviver o pesadelo que é viver em segurança e do dia para a noite, ter sua população quase dizimada.

— Desculpe... Foi uma pergunta idiota — disse envergonhado, desviando seus olhos dos meus. Ergui a mão livre e toquei seu rosto, trazendo-o para a minha direção. Estiquei-me e lhe dei um selar de lábios, antes de sorrir e dizer:

— Não existe pergunta idiota, existe apenas, idiota que não pergunta — brinquei fazendo-o rir.

Ficamos pelo quarto no restante do dia e só saímos no horário do jantar. Na grande mesa, na sala de jantar, eu sentei-me na ponta e Eren ao meu lado, nas demais cadeiras sentaram-se os empregados, todos os dez. Na hora das refeições, não havia diferença entre funcionário e padrão e todos eram iguais.

— É bom vê-lo Rivaille, espero que a minha comida ainda seja do seu agrado — disse a velha senhora, sentada do meu lado esquerdo, em frente ao Eren.

— Sua comida sempre continuará sendo boa — elogiei aquela que me alimentou desde que eu era criança. — Por falar em comida. Quando eu for embora em três semanas, gostaria de levar algumas de suas receitas. Eu tenho uma pequena cozinheira morando comigo, que adora aprender coisas novas — expliquei antes de continuar a comer.

— Há quanto tempo não mora mais sozinho? — perguntou-me um garoto que devia ter a idade do Eren, lembro-me que ele era uma criança quando deixei aquela casa para ir para o exército. O velho ao seu lado repreendeu o menino por se meter na vida do patrão e o garoto pediu desculpas.

— Faz poucos meses. Contratei uma menina que salvei fora dos muros para ser minha empregada e Eren se tornou o recruta sob minha responsabilidade — expliquei apontando para o pirralho ao meu lado. — A propósito, ele também é meu marido — completei ouvindo pessoas se engasgarem com bebida e comida para todos os lados, enquanto Eren sorria discretamente.

— Isso é maravilhoso!... e uma grande surpresa... Nem sei qual parte me surpreendeu mais! — comentou honestamente a velha cozinheira, tomando um pouco da água de seu copo para se acalmar.

— Eren, apresente-se — pedi para o pirralho, que levantou e um pouco tímido, encarou os demais.

— Eu sou Eren Jaeger, tenho dezesseis anos... Eu deveria dizer que vou cuidar bem do seu patrão, mas a verdade é que é ele quem cuida de mim — começou fazendo todos rirem. — Se eu fizer ou disser algo que seja grosseiro, estejam livres para me repreender. Se há algo em que sou bom é em aprender com meus erros, e ser repreendido é algo com que estou acostumado a conviver — encerrou fazendo uma nova risada de todos surgir.

Ele sentou-se com um sorriso no rosto, sendo observado de modo gentil pelos outros. Eles me conheciam bem o suficiente para saber que se eu o aceitei em minha vida, ele era uma excelente pessoa e não havia nada que justificaria tratá-lo de maneira hostil.

Seguimos com o jantar entre brincadeiras e conversas, como se fossem todos uma grande família. Depois disso me retirei para o escritório com aquele que nos havia recebido, para tratar com ele pequenas questões envolvendo minhas terras. Queria fazer aquilo o quanto antes, para que depois pudesse me concentrar em Eren e só nele.

Com tudo resolvido, voltei para a sala onde tinha deixado-o e encontrei-o conversando com os outros, todos espalhados pelo sofá, enquanto ele e o outro garoto estavam sentados no chão. Havia conversas, risos e muitas brincadeiras, parei pouco antes de entrar na sala, ouvindo um pouco da conversa, tendo ao meu lado o velho empregado que sorria.

— Mas como isso funciona? Quando vocês estão treinando, Rivaille consegue ser firme com você, mesmo sendo seu marido? — perguntou uma das mulheres mais jovens, ela devia ter, no máximo, a minha idade e era filha da cozinheira.

— Eu tinha esperanças que ele afrouxasse um pouco o treino, mas tenho a impressão de que tudo ficou ainda mais difícil. Eu o amo muito, mas ainda acho que ele não sabe o conceito de piedade... Oh! Sinto-me dolorido só de lembrar dos treinos de combate! — disse o pirralho, levando as mãos até às costas e fazendo dramatização.

— E como foi que ele chegou em você?

— Sobre isso... — Eren pareceu envergonhado em responder, então resolvi aparecer.

— Foi Eren quem deu o primeiro passo. Na verdade foi um passo entanto, já chegou me beijando. Foi tanta coragem que fiquei surpreso — respondi por ele, fazendo todos o olharem surpreso e ele abaixar a cabeça levemente constrangido. Minhas memórias me levaram para o início do nosso relacionamento, quando ele costumava agir assim vez ou outra.

— Para vocês verem como são as coisas... Assim como vocês, as pessoas que descobrem esse relacionamento, acham que eu tomei a iniciativa, que eu o pedi em namoro e que eu o estou assediando e a verdade é que eu sou a vítima, pois sou atacado quase toda noite.

— Rivaille! — repreendeu-me Eren ao ouvir minhas palavras, enquanto eu estava parado na porta que dava a sala de estar.

— Falei alguma mentira? — perguntei levantando uma das sobrancelhas e encarando-o.

— Mentira, não é. Mas não precisava ter revelado a verdade — fez bico após dizer suas palavras. Mesmo sendo eu a vítima, ele não queria que soubessem que ele era o pervertido, chegava a ser engraçado. Os outros deviam estar pensando o mesmo, pois estavam todos sorrindo.

— Podem nos deixar a sós? Eu gostaria de falar com Eren em particular. Seria bom se vocês regressarem aos seus quartos — pedi de modo educado. Todos concordaram com um balançar de cabeça e começaram a se retirar, nos desejando "boa noite" e depois saindo em silêncio. Poucos minutos depois, estávamos sozinhos.

Abaixei-me e dei um beijo em Eren, pedindo-o para se sentar comigo no sofá. Era hora de falar de assuntos sérios. Ele se levantou com a minha ajuda e sentou-se comigo em um dos grandes sofás. Passou suas pernas por cima das minhas, apoiando-as em cima de mim e ficando de lado, apoiando um dos braços no encosto do sofá e sua cabeça no braço, olhando-me calmamente e sorrindo.

Achei que seria um momento difícil falar sobre tudo aquilo, mas agora que estava ali com ele, não entendia do que tinha tanto medo. O olhar de Eren era o mesmo de sempre e eu sentia como se ele nunca fosse deixar sua face, aquele olhar que dizia: "Vou sempre estar ao seu lado."

Notas finais
Até mais. :-)