Perfeitos um para o outro... Ou quase isso
20 Lenda ou verdade?
Capítulo 20: Lenda ou verdade?
Narração do ponto de vista de Eren.
Depois de dormir uma única noite, acordei e não consegui mais dormir. Um pouco era por não estar tão cansado e um pouco, era pela falta dele na cama. Pode não parecer muito, mas eu realmente estranhei dormir sozinho em uma cama.
Naquela manhã, como não tinha nada para fazer, conversei com o chefe, contando um pouco do que tinha acontecido antes de chegarmos ali. Omiti os ponto que não sabia e mencionei apenas as partes sobre a missão. Assim como o pouco que o Capitão havia me contado, sobre o grupo morto. E o que ouvi da menina, que era a única sobrevivente.
Ao saber sobre a história dela. Me identifiquei com seu trauma, enquanto escutava que ela chorou durante toda a noite e que não falou com ninguém desde que fomos dormir na noite anterior.
O Capitão ainda estava dormindo e provavelmente não acordaria tão cedo, então fui até ela, que estava hospedada em uma casa com mais duas crianças. Ao entrar em seu quarto, vi que estava deitada, virada para a parede e nem sequer fez menção de levantar, mesmo com a minha presença. Sentei em uma cadeira perto da janela e fiquei em silêncio por algum tempo.
— Quando tinha mais ou menos a sua idade... a minha cidade foi atacado pelas betas, ela foi a primeira de todas dessa região, então ninguém sabia o que estava acontecendo... Naquele dia vi uma besta matar a minha mãe, meus vizinhos e todos os meus amigos — contei, lembrando de um passado que machucava, e muito.
— Eu sobrevivi por que meu lado bestial despertou, mas até aquele momento, eu nem mesmo sabia dele... Machuquei meus amigos e os assustei tanto, que ficaram com medo de mim por muito tempo, mesmo hoje, acho que eles ainda me temem.
— O Capitão é a primeira pessoa que não se afasta após descobrir sobre mim, por isso eu lhe devo minha admiração. Não sou uma pessoa que tem muito, mas vou aproveitar o pouco que me foi dado, mesmo que eu tenha perdido tudo o que tinha, vou agarrar o que ganhei e me segurar nisso para poder continuar vivendo — expliquei calmamente.
— Então... Também posso viver perto do Capitão? — perguntou ainda virada de costas para mim. — Você terá que pedir a ele, mas tenho certeza que ele não irá negar. Apesar de não aparecer, ele é uma boa pessoa — disse honestamente.
— Ele realmente não parece — disse rindo, fazendo-me rir com ela. Depois de mais alguns minutos, ela levantou e me contou sua história, assim como eu havia feito. Sobre a sua cidade ter perdido a barreira três anos atrás, as viagens que fez e sobre estar preparada para perder seus parentes a qualquer momento, mas que mesmo assim doía e a perda foi maior do que ela esperava.
A parte interessante veio quando ela começou a falar sobre seu irmão e sobre o médico que o visitava. Eu não tinha certeza se ele era o meu pai, mas a história das injeções me era muito familiar. Eu teria que falar com o Capitão sobre aquilo, mas não era nada urgente, então deixaria para uma outra hora, de preferência quando estivessemos em nossa base, o nosso lar.
— Sobre aquilo que você falou, do garoto da profecia... Pode me falar mais? Se não puder ser agora, não tem problema — garanti com um pequeno sorriso, não querendo lhe forçar a tocar em um assunto que pode ser doloroso.
— É uma história que mamãe contava quando íamos dormir, quer ouvir? — Assim começou as suas revelações. A história que veio a seguir, era assim:
Há muitos anos, um homem queria que os humanos fossem mais fortes e fez uma experiência, mas falhou e criou uma besta. Ele tentou novamente e falhou doze vezes. As bestas mataram-no e ficaram livres, criando seu próprio mundo e mais bestas. No início, elas só queriam viver, mas algo aconteceu.
Dois humanos apareceram. Um deles era filho do cientista que criou as bestas e com medo de que elas pudessem vir a ser perigosas, usou os estudos do pai, para criar barreiras de proteção aos humanos. O outro homem era amigo do cientista e quiz usar seus experimentos para controlar as bestas e usá-las contra outros humanos.
Os planos do filho deram certo e o amigo fracassou. As doze bestas que possuíam inteligência superior, decidiram que os humanos eram perigosos, pois podiam lhes confrontar e controlá-los, então decidiram que o melhor seria matar todos daquela espécie, a fim de assegurar a sobrevivência de seu próprio futuro.
— A criança da profecia é meio humana e meio besta. E ela pode controlar os dois. Dizem que é a experiência do amigo do cientista, que na verdade não falhou, apenas fingiu ter falhado, enquanto ele trabalhava escondido.
— Onde sua mãe ouviu essa história? — Perguntei curioso. Ela deu de ombros, não tinha uma resposta para me dar. — Seria melhor se o Capitão ouvisse isso, quando ele acordar, pode repetir essa história para ele?
— Posso — garantiu não encontrando problemas em meu pedido. Sorri com sua colaboração e conversamos mais um pouco, na verdade, mais algumas horas. Ela era uma criança alegre e seria ótimo se ela pudesse seguir conosco.
Na parte da tarde, ajudei os moradores com o trabalho de colheita que estavam fazendo em um pequeno campo de cultivo e depois fui ao quarto do Rivaille. Ele ainda estava dormindo, mas a fome deveria despertá-lo em breve. Entrei em seus aposentos e vi uma cena rara, o capitão estava dormindo só de calça, algo que nunca tinha visto.
Eu sabia que não deveria fazer algo assim, mas não me contive em observar, mesmo só podendo ver suas costas, eu podia ver o quão lindo seu corpo era, muito melhor do que em minhas fantasias. Enquanto eu o observava, ele acordou e eu nem percebi. Levei um susto ao ver seus olhos focados em mim .
Desviei o olhar rapidamente e presencie uma cena rara na qual ele estava me provocando. Eu queria continuar ali, mas fiz questão de dizer a ele sobre a história dela que ele tinha que escutar. Sem fazer perguntas, ele vestiu uma camisa e eu o levei até ela. Sentado na cama, ao lado da menina, ele ouviu sua história e suas expressões pensativas e surpresas, me diziam que ele estava pensando o mesmo que eu, que aquela história se parecia muito com a realidade... até demais. Apesar de não podermos comprovar.
Após o encerramento da história, ela criou coragem para perguntar a ele se podia ficar em nossa companhia. Ele pensou por alguns minutos e depois lhe explicou que não pode manter pessoas próximas de si, sem que estejam trabalhando para ele. Eis que a pequena surge com a ideia de que ele pode contratá-la e para a minha surpresa, ele concordou.
Disse que ia contratá-la para me ajudar a fazer a faxina, algo no qual eu era muito ruim. Ao ouvir suas palavras, ela riu e ele pareceu feliz de vê-la sorrindo. Seu nome nos foi revelado como Mya e para a minha surpresa, o Capitão disse a ela para chamá-lo de Rivaille.
— Isso é tão injusto! Eu quero chamá-lo pelo nome também — disse, não contendo o ciúmes.
— Deixe de ser soldado e não precisará me chamar de Capitão — sugeriu para a minha tristeza e um suspiro que não passou despercebido pela pequena, que riu ao ver que eu não tinha permissão para chamá-lo pelo nome. Rimos mais um pouco e depois nós dois voltamos para a estalagem, deixando-a ali para passar mais uma noite.
Durante o jantar, comemos sozinhos na cozinha e ele me disse que iríamos voltar para a base no dia seguinte. Quando perguntei o motivo, ele explicou que estava preocupado que alguém fosse mandado atrás de nós, agora que os assassinos estavam mortos, o que poderia ser perigoso para as pessoas da vila.
Por isso, mesmo que ele ainda quisesse dormir e descansar, avisou ao chefe que iríamos partir no dia seguinte, depois de garantir que pagaria pelas despesas e o chefe recusar, alegando que o que ele fazia por nós era pouco se comparado com tudo o que meu Capitão já fez por ele e sua vila.
Durante a noite, me foi permitido dormir em seu quarto e quase dei pulos de alegria ao saber disso, só não pulei porque estava em sua frente. Fui ao meu quarto depois de jantar, coloquei uma roupa mais casual e fui ao seu quarto, ele já estava deitado na cama e depois de ter a permissão para entrar, me deitei ao seu lado.
O silêncio se fez presente como sempre, e como sempre, não resisti em quebrá-lo. — Mya é uma menina muito valente. Depois de tudo o que passou, ela está se esforçando para seguir em frente... Obrigado por ter aceitado levá-la para nossa base.
— Eu acho que ela será de ajuda, além disso, será uma boa companhia para você quando eu não estiver em casa — explicou algo que não havia mencionado antes. Sorri ao perceber que mesmo naquele momento ele pensava em mim, e fiquei feliz, mais do que já havia estado em todos aqueles anos, não só por ter sido aceito, mas por ele realmente estar me tratando como antes, mesmo depois do que presenciou.
— Você parece feliz? — disse ao meu lado, acompanhando-me na observação do teto.
— Estou feliz. Tanto que parece ser um sonho — confessei me virando de lado e olhando seu rosto sério e calmo como todas as noites. Lembrei-me de algo que eu queria perguntar, depois de ter acordado abraçado ao meu travesseiro. Apesar da vergonha decidi seguir em frente.
— Capitão... Eu tenho o hábito de abraçar coisas quando estou dormindo, então, por acaso, algum dia...
— Todas as noites — cortou-me para a minha surpresa.
— O quê?
— Você me abraça todas as noites — explicou com a mesma expressão de sempre. Senti meu rosto arder e ele devia estar completamente vermelho.
— Por que nunca falou nada?
— Porque nunca me incomodou... Na verdade, as vezes atrapalha meu sono, mas não vou morrer por isso. Além disso, é um hábito seu, não é como se pudesse parar de me abraçar só porque está ciente de que não deveria — explicou como sempre fazia, tirando todas as minhas dúvidas.
— Vá dormir. Aproveite que essa noite estamos dentro de uma barreira — lembrou, se virando para o outro lado e se preparando para dormir. Ao ver suas costas, pensei que queria abraçá-lo, não enquanto dormia, mas naquele exato momento. Mordi o lábio de nervosismo, mas tomei coragem para seguir em frente, me aproximei mais e abracei sua cintura, escorando minha testa em seu ombro.
— Boa noite, Capitão — disse baixinho.
— Boa noite, pirralho — respondeu, fazendo um sorriso aparecer em meu rosto, antes de meus olhos se fecharem e eu seguir para o mundo dos sonhos.
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