Capítulo 02: Faça a sua escolha

Os Recrutas tinham um treinamento obrigatório de duas semanas, nos quais seriam testados nas qualificações mais básicas de um soldado, como força, combate e capacidade de seguir ordem. Sendo um recruta, Jaeger teria que fazer esse teste e eu só poderia aceitá-lo oficialmente, se ele passasse.

Durante esse tempo, os mais de duzentos recrutas, tornaram-se 80.

Eu fiz o meu trabalho, como sempre o fazia. E dias depois, tive que ir em uma das festas as quais precisava comparecer para criar relações. Ou "escutar idiotas falando", como eu preferia chamar.

Sendo um capitão, a minha presença era quase obrigatória, assim como todos que tinham um cargo como aquele e acima. A não ser em casos de estar muito ferido ou em missões, era impossível fugir dessas festas. Às vezes achava aquilo mais cansativo do que ter que enfrentar dezenas de bestas, de uma única vez.

— Os recrutas esse ano são excelentes! Acredito que muitos deles vão se tornar ótimos soldados — disse um homem empolgado, um homem que era um famoso comerciante e nada entendia do exército.

— Diga isso se eles sobreviverem mais de três meses — disse um Capitão, fazendo alguns homens rirem. Me mantive escorado na parede, com um copo em minha mão de alguma bebida que nem sequer cheguei a experimentar.

— Comandante, soube que temos alguns garotos interessantes esse ano. São sobreviventes de Shiganshina — comentou alguém que conversava com Erwin, fazendo menção aos três e chamando a atenção daqueles que estavam por perto.

Meu velho amigo confirmou e explicou sobre os três. Sobre os mesmos pontos aos quais eu já havia destacado em minha análise. O sobrenome Ackerman, a inteligência superior e o parentesco com o médico desaparecido.

— Esse garoto, Jaeger. Soube pelo responsável em treinamento, que passou por muito pouco e que não está a altura dos outros dois. Parece que só tem determinação e zero talento.

— Que pena, já sofreu tanto é nem mesmo assim conseguiu se tornar mais forte — comentaram duas oficiais perto de mim. Aqueles homens que falavam dos garotos, provavelmente não as ouviram, mas eu ouvi, alto e claro.

— Antes de conceder uma vaga ao Jaeger. Você deveria mandá-lo para a polícia interior. A tropa de exploração, não será um bom lugar para ele. Tenho certeza que nenhum esquadrão irá querer um rapaz tão sem talento — comentou um nobre que era conhecido por fazer grandes doações para a polícia.

A tropa de exploração, era conhecida por seus membros talentosos e destemidos que lutavam contra as bestas. Enquanto a polícia interior era responsável por manter a ordem dentro das cidade. Aquelas três grandes cidades que ficavam lado a lado e quase formavam um grande círculo. As cidades Rose, Maria e Shina.

Os soldados que passavam no teste inicial e que não se davam bem na exploração, geralmente eram mandados para a policial para fazer trabalhos simples como patrulha, negociações ou vigia. Por isso era comum mandar jovens para a polícia, isso salvaria suas vidas, já que a maioria, como foi dito naquele mesmo dia, não chegava a durar três meses.

— Acredito que a polícia vai receber muitos soldados, mas Eren Jaeger, não será um — disse Erwin com toda a sua autoridade, chamando a atenção dos demais. Sorri minimamente esperando pelas reações que logo poderiam ser vistas.

— Antes mesmo de iniciar seu teste. Ele foi escolhido por um Capitão e assim que for liberado amanhã, estará oficialmente sob a supervisão das tropas de exploração — explicou chamando a atenção de um oficial de alto cargo. O comandante da Polícia do interior.

— Perdoe-me a intromissão em seus assuntos. Mas quem escolheu um recruta tão inferior, antes mesmo do teste se iniciar? — perguntou, verbalizando a curiosidade que muitos ali estavam emanando.

— Rivaille — respondeu meu amigo, fazendo todos olharem em minha direção com expressão que variavam de choque até incredulidade. "Olha! Aqui estão as expressões babacas!" Disse a mim mesmo, sabendo que aquilo ia acontecer e internamente rindo muito.

Rivaille. Esse era o nome conhecido como: "Exército de um homem só". Eu tentei trabalhar com diferentes soldados, mas não foi preciso muito tempo para ver que eu ficava melhor sozinho. Isso foi antes de eu ter criado minha própria arma, com o auxílio da engenheira maluca e minha amiga de infância, Hange.

Trabalhar sozinho, se tornou algo que as pessoas esperam de mim. Mesmo enquanto eu continuava a subir de patente e minhas missões continuaram a ficar mais perigosas e importantes, ninguém estranhou a minha solidão.

— Isso é surpreendente, Capitão. Fico curioso para saber seus motivos em ter escolhido esse jovem.

— Então vai continuar curioso — disse sem respeito algum. Colocando o copo intocado em uma das mesas e seguindo para fora após cumprimentar Erwin com um aceno de cabeça. Eu já tinha ficado ali por quase uma hora, então, já tinha cumprido com a minha obrigação.

Peguei meu cavalo e segui para a minha base, enquanto imaginava o quanto chamaria a atenção pelos próximos dias. Depois de anos naquela imagem de anti social, convocar um recruta me faria ser o centro das atenções, assim como o garoto.

Naquela noite aproveitei para fazer algo que não fazia há meses. Dormi tranquilamente até o amanhecer. Seguindo para o acampamento dos recrutas o mais cedo possível. Eles seriam dispensados a tarde, mas preferi ir de manhã para evitar chamar muita atenção.

Para a minha felicidade, Erwin me conhecia muito bem, tanto que quando cheguei lá, já havia uma autorização do comandante para que eu levasse o garoto comigo.

Entrei no alojamento onde todos estavam tomando o café da manhã e procurei rapidamente, encontrando-o sentado em uma mesa no canto, acompanhado dos outros dois. Caminhei até ele e parei ao estar em sua frente, atrás da garota Ackerman.

— Eren Jaeger — disse vendo surpresa em seus olhos. Seu amigo loiro que estava ao lado, esbarrou nele com o braço, parecendo despertá-lo de seu choque. — Sim! — respondeu levantando-se rapidamente e mostrando surpresa.

— Eu sou Rivaille e a partir de agora, você está sob minha responsabilidade. Pegue suas coisas e me encontre do lado de fora. Partimos em cinco minutos — expliquei, dando-lhe as costas e saindo do recinto.

Esperei em frente ao chamado: acampamento dos recrutas. Ele apareceu pouco tempo depois, carregando uma pequena mochila e sendo acompanhado pelos dois, que pareciam preocupados com ele.

— Não tenho tempo a perder. Não demore — avisei andando alguns passos e subindo em meu cavalo, esperando que ele se despedisse daqueles que eu acreditava serem seus amigos e posteriormente vir até mim, subindo no cavalo ao meu lado e galopando em minha companhia, quando o animal iniciou a sua corrida.

Vinte minutos foram necessários para atravessar todo o território da cidade Maria e chegar até a cidade Rose, onde eu trabalhava. A minha base ficava em meio a uma floresta e perto do muro, o limite da cidade, onde a barreira acabava.

Descemos dos cavalos, levamos ambos até o celeiro e depois seguimos para a casa. Assim que chegamos em frente a porta de entrada, em vez de entrar, eu segurei em seu braço e o coloquei contra a parede, colocando a minha mão apoiada na porta, perto de sua cabeça e olhando seriamente para cima, para poder encará-lo que era pouco mais alto que eu.

— Sua idade? — perguntei por garantia, pois o exército recrutava adolescentes dos quinze anos para frente.

— D-Dezesseis — respondeu um pouco confuso, mostrando-me uma personalidade infantil e até medrosa. A mesma personalidade que havia sentido antes e que sabia que não era adequada ao exercíto.

— As leis dizem que não podemos obrigar menores de idade a lutar. Então, eu deveria treiná-lo por dois anos antes de te levar a um combate real, mas não sou do tipo que tem tanta paciência.

— Se ficar comigo, vai treinar o que eu quiser que treine, vai entrar em combate mesmo que não tenha idade para isso e terá que aprender a lutar do meu modo. Se não quer ser forçado a isso, pegue o cavalo no celeiro e vá embora. Se ficar, vou considerar que está de acordo com minhas exigências — expliquei em tom sério, me afastando dois passos e lhe dando espaço para ir.

Ele olhou para os cavalos e depois voltou a me encarar. — Se eu ficar com você. Serei forte?

— Se sobreviver ao meu treinamentos, se tornará forte — garanti. Sabendo que qualquer um que fizesse o mesmo que eu, seria forte, mesmo sem talento.

— Mas pense bem antes de tomar a sua decisão. Ao escolher ficar, estará comprometendo-se a treinar e lutar comigo, mas mais do que isso, terá que se submeter a mim — expliquei indo direto ao ponto.

— Eu tenho minhas próprias leis e meu modo de trabalhar. Não me importo com o que os outros acham certo ou errado. Se ficar, terá que aceitar minhas escolhas e não dar atenção ao que as outras pessoas lhe falarem. Se submeta ao meu estilo de vida ou fuja dele — dei-lhe as suas opções.

— Eu quero ficar — disse confiante, mostrando-me um pouco daquele olhar determinado que me fez escolhê-lo dentre todos aqueles recrutas, visivelmente mais superiores.

— Quero ser forte como você. Como o famoso homem que pode enfrentar cinquenta bestas sozinho... E se para isso preciso ser o que quer que seja e não julgá-lo, ficarei feliz em fazê-lo — aceitou parecendo ser honesto.

Ao mencionar aquela história das cinquenta bestas, ele mostrou que já ouviu falar de mim, isso significa que ele devia saber que não me dava bem com o restante do exército. Se mesmo assim aceitou ficar, ele estava pronto para o meu treinamento.

— Limpe seu quarto. Descanse e me encontre aqui a uma da tarde. Seu treinamento se inicia hoje e durará uma semana, depois vamos seguir para outro lugar — disse sem dar detalhes, seguindo até ele, abrindo a porta e passando ao seu lado enquanto entrava na base, aquela base segura na qual raramente ficava mais do que poucos dias.

Notas finais
Até mais. :-)