Capítulo 03: Arma especial

Quando deu o horário, eu estava esperando do lado de fora da casa e ele apareceu. Vestindo calça marrom e camisa de mangas compridas, preta. Quanto a mim, estava completamente armado.

— Você parece ter ouvido algo sobre mim. Sabe algo sobre minha arma? — questionei sério, enquanto apertava e fechava as últimas fivelas de segurança. Pegando em seguida, as duas lâminas que estavam fincadas no chão.

— É uma arma única. Você mesmo teve a ideia e a construiu junto com uma engenheira que é sua amiga de infância. Dizem que muitos soldados invejam sua arma, mas poucos conseguem usá-la — respondeu parecendo ser bem informado.

— A primeira versão foi feita por Hange, minha amiga engenheira. Mas eu já modifiquei muito e está bem longe do que foi inicialmente feito. O motivo pelo qual ninguém consegue usar, é porque o equipamento precisa estar constantemente em revisão e para cada pessoa ele deve ser usado de um modo diferente — expliquei seriamente parado em sua frente.

— Hange também possuí uma dessas armas, mas ela quase não usa, pois prefere ficar fazendo seus experimentos, do que lutar. Tirando ela e eu, ninguém mais possuí tal arma e você será a primeira e única exceção. Então esteja ciente disso — pedi, enquanto abria um pouco as pernas e erguia os braços.

— Eu vou apresentar o equipamento de modo geral, tente entender ao menos como o mecanismo de gás funciona — pedi e ele acenou afirmativamente, descendo seus olhos ao meu corpo e olhando para todos os cintos e fivelas de segurança, tentando entender algo por conta própria.

— Esse suspensório na parte superior do corpo, é para sustentar o peso desses dois tubos que ficam ao lado do quadril. É aqui que fica o gás que é usado na locomoção — expliquei abaixando ambas as mãos e tocando com o cabo das lâminas nos tubos em um reforço visual do que eu havia dito.

— Há duas formas de usar o gás e ambas são acionadas pelo controle que fica no cabo da espada e que é ligado por um fio ao sistema que fica na parte na trás — Me virei por alguns segundos para que ele visse o pequeno aparelho no início de minhas costas que estava acoplado a cinta que carregava os tubos de gás.

— Nunca perca sua espada em uma luta, pois sem ela o sistema de gás não irá funcionar — lembrei antes de voltar a olhá-lo e me aproximar abrindo uma de minhas mãos e mostrando os dois botões que havia na espada.

— O botão de cima serve para o gás no quadril e o botão de baixo, serve para o gás que vai para os pés — expliquei apontando para um fino tubo que descia pela lateral da perna e era fixado ao lado do pé por mais cintas que desciam pela perna.

— Eu uso o gás no quadril para impulsionar meus movimentos e o gás do pé, para controlar viradas e paradas. Vou dar uma demonstração — expliquei me afastando e assumindo uma posição de ataque, acionando o gás ao lado do quadril e indo para cima dele, usando o gás nos pés para me desviar e rodá-lo, indo parar atrás dele e colocando a lâmina em seu pescoço para a sua surpresa.

— O projeto original era uma arma que usasse lâminas e que fosse ágil na movimentação. Foi daí que veio a ideia de usar o gás, mas cada um tem um método de lutar e a arma não funciona bem para todos — expliquei enquanto me afastava para o seu alívio, que respirou profundamente após ter minha lâmina longe do seu pescoço.

Andei até sua frente e continuei a falar. — O meu estilo de luta é agressivo, então só precisava de um jeito que me possibilitasse atacar de diferentes direções. Por isso criei o apetrecho para liberar o gás perto dos pés, o que me permite mudar a minha trajetória, sem ter que diminuir a minha velocidade ou cessá-la.

— Além dessa diferença. Eu carrego um conjunto extra de lâminas, pois tenho muita força e elas costumam quebrar após muitos golpes — acrescentei enquanto apontava para o suporte de metal que tinha as lâminas extras e que eu carregava na cintura, um de cada lado do corpo, bem abaixo do tubo de gás.

— Não é pesado se mover com tanto equipamento? — perguntou curioso, enquanto eu guardava as lâminas atrás do corpo, em um compartimento que ficava nas costas, junto ao suspensório, que formato um "x" com as duas espadas, quando elas estavam guardadas.

— De início você pode estranhar o peso, mas com o passar do tempo, é fácil acostumar. Além disso, o peso ajuda a evitar que você vá mais longe do que pretendia ir, já que o gás tem grande potência — expliquei dando um suspiro.

Fazia tempo desde a última vez que eu havia falado tanto e parecia que a conversa ainda iria durar muito tempo. — Você vai usar um equipamento que contém as opções originais — avisei andando até perto da casa e pegando-o. Voltei ao garoto e comecei a vesti-lo, colocando pelas costas como um casaco e depois fechando as fivelas e os cintos de segurança em seu peito, em sua cintura e ao redor do quadril.

Ele manteve seus braços e pernas abertos, não se afastando ou se movendo enquanto eu ajudava-o a vestir o equipamento e fazia a checagem.

— Se possuí as configurações originais. Então só há as lâminas e o gás de cima? — questionou, tentando entender se havia compreendido certo.

— Exatamente. Nessa semana, você vai treinar para controlar esse equipamento de locomoção. Não espero que domine-o ou que de fato, consiga controlá-lo, mas se descobrir o que falta para que se torne adequada as suas necessidades, isso será o bastante — disse me afastando e tendo uma visão geral do seu corpo, verificando se tudo estava bem.

— Você é um pouco mais alto do que eu, então os cintos podem ficar um pouco apertados, mas faça o possível para aguentar. Amanhã eu enviarei um pedido a Hange para vir tirar suas medidas e fazer o seu próprio equipamento — avisei puxando as minhas lâminas das costas, pegando-as por cima dos ombros.

— Pegue suas espadas — ordenei e ele o fez — Hoje você vai treinar enquanto se move. Tente me seguir ou se aproximar, enquanto ando por todo esse espaço. Tente desviar das árvores e animais, e se não conseguir, imagine o que poderia ajudá-lo a conseguir — expliquei assumindo uma posição de ataque e me movendo para a direita, parando alguns metros mais longe e esperando pelo seu movimento.

Ele tentou me seguir, mas ao ativar o gás e não deixar seus pés deslizarem, foi como ter seus pés presos por uma corda e ele foi de cara ao chão, caindo desajeitadamente e fazendo grande barulho.

Respirei fundo e disse a mim mesmo que ninguém mais além de mim conseguiria controlar o primeiro movimento com êxito — De pé! — disse vendo-o levantar com dificuldades e limpar o rosto na manga da blusa, antes de tentar novamente, seguindo em minha direção e dando de cara em uma árvore, dois metros atrás de mim, após eu ter desviado.

— Isso vai demorar — disse a mim mesmo com um novo suspiro. Tentando encontrar a paciência que nunca tive.

Bater em objetos e cair, devia ser a sua especialidade, pois foi o que mais vi naquele dia. Apesar do grande desastre que foi seu treino, eu tinha que admitir que sua persistência era admirável e que ter aparecido para o treino do dia seguinte, foi uma boa notícia.

A semana se passou mais rápido do que eu esperava. Hange veio pegar suas medidas e para a minha surpresa, não ficou para me infernizar, pois estava com grande quantidade de trabalho para fazer. Eu e Eren, reabastecemos nosso gás dezenas de vezes naquela semana e logo ficaríamos sem, então precisei fazer uma viagem até o quartel e pedir mais. Foi quando descobri que teria que sair em uma missão e meus planos foram atrasados em uma semana.

Naquela manhã, estávamos treinando na floresta ao redor de minha base, enquanto o garoto tentava, sem sucesso, me seguir. Ele já não batia mais tantas vezes e a porcentagem de batidas diminuiu de 10/10 para umas 7/10.

Tentando me alcançar rapidamente, ele apertou o botão com muita força e muito gás saiu. Tanto que ele quase voou em minha direção e foi tão rápido que nem consegui me desviar, só tive tempo para segurá-lo, e quando seu corpo se chocou contra o meu, fomos arremessados para trás.

Por estar perto do lago, caímos na água. Felizmente foi na parte rasa, pois com todo aquele equipamento, teríamos dificuldades em nadar. Devido a força que nos jogou e ao fato do gás ainda estar ativado durante nossa queda, acabamos por rodar no ar e inverter as nossas posições.

Ele estava deitado embaixo de mim, enquanto acabei sentado sobre seu quadril. Olhei para suas mãos e fiquei feliz em constatar que as espadas estavam ali. Mesmo com a batida e a queda, ele não as soltou, era uma grande melhoria.

— Se machucou? — perguntei sério, vendo ele olhar para meu corpo e depois desviar o olhar, parecendo estar concentrado em algum pensamento — Não — respondeu depois de alguns segundos, olhando em meus olhos e parecendo ter mandado embora o que lhe distraía, seja lá quais pensamentos forem.

— Estão se levante e vamos voltar ao treino — disse saindo de cima dele e me levantando, vendo-o fazer o mesmo logo em seguida.

Continuamos o treino até perto do anoitecer, quando nossa visão começou a ficar comprometida, encerramos o treinamento e voltamos para casa. Tomei um banho e coloquei uma nova roupa, assim como o meu equipamento reserva, deixando o que eu estava usando para ser revisado e limpo.

Quando desci as escadas na grande casa que possuía mais de dez quartos, encontrei-o no salão de refeições, sentado em uma das mesas, com as luzes acesas e com duas do xícaras de chá em sua frente.

— O que está fazendo acordado? Vá dormir e se recuperar para amanhã — ordenei passando por ele e seguindo em direção a rua.

— Capitão! — chamou se levantando e me fazendo interromper a minha caminhada. Me virei e olhei para ele, vendo-o me oferecer uma das xícaras. — Um chá que aprendi a fazer na minha cidade. Ele ajuda no cansaço... É um pedido de desculpas por ter te derrubado no lago — explicou calmamente.

Voltei até a mesa e peguei a xícara, no mesmo momento em que batidas altas soaram na porta.

— Capitão Rivaille! As tropas de exploração estão prontas para partir e apenas esperando sua presença — avisou alguém a quem não conhecia.

— Eu terei que me ausentar por alguns dia, devido a uma missão — expliquei lembrando que ainda não tinha dito nada a ele. — Com isso nossos planos mudaram e ficaremos aqui mais uma semana. Treine enquanto eu estiver fora, não fale com ninguém sem a minha presença, limpe o seu quarto sempre que puder e quando eu chegar, quero uma resposta sobre que mudanças vai querer fazer no seu dispositivo de locomoção.

— S-Sim senhor — respondeu parecendo surpreso em ter recebido tantas instruções. Tomei um gole do chá e coloquei-o sobre a mesa.

— Tem um gosto bom. Espero poder desfrutar dele em outra ocasião — disse sendo honesto.

— Fico feliz que tenha gostado — respondeu com um grande sorriso, para a minha surpresa. Um sorriso que beirava a inocência. Bem diferente do soldado a quem treinei naquela última semana.

Notas finais
Até mais :-)