Capítulo 14: Bestas? Assassinos?

Naquela manhã, acordei cedo. Dormi o bastante para descansar e ao levantar, comecei os preparativos para a viagem. Deixei que o garoto dormisse um pouco mais, pois sabia que ele não teria outra chance como essa tão cedo.

Algumas horas depois eu o acordei e o instruí sobre como se preparar. Além de roupas extras, ele deveria levar o seu equipamento já vestido. O caminho até lá, seria tão perigoso em si, quando o nosso destino.

Tudo estava preparado e quando estávamos prestes a sair, recebi uma mensagem, de um soldado de confiança de Erwin. Era uma ordem dos superiores para que levassemos uma equipe conosco. De acordo com as instruções, eles iriam nos ajudar, mas a realidade era que queriam nos vigiar, eu tinha certeza.

— Algum problema, Capitão Rivaille? — perguntou curioso, ao ver que interrompi minha caminhada ao celeiro e que lia o documento com grande concentração.

— Teremos companhia em nossa missão. Um grupo de quatro soldados — disse sem conter a raiva em minha voz, o que impedia Eren de fazer perguntas sobre o motivo da mudança.

Pegamos os cavalos e seguimos um rumo diferente, indo até o portão da cidade Maria, ao invés de seguir para a Vila Mo. Durante o caminho, questionei internamente, o quanto os superiores devem ter planejado para terem conseguido vencer meu amigo, pois Erwin Smith, não cedia as ordens superiores, ao menos, não sem motivo.

— Mantenha seu equipamento escondido pela capa — avisei, fazendo uma parada pouco antes de alcançar nosso destino e fazendo uma checagem visual do seu equipamento. Além da camisa de mangas cumpridas e a calça preta, ele usava as botas marrons que lhe dei e o sobretudo também marrom, que possuía uma longa capa que cobria, mesmo ele estando sentado, o equipamento em seu quadril.

— Eles são como os outros? — perguntou se referindo ao Reiner e aos outros com quem nos encontramos na cidade das montanhas.

— Sim e não. A maioria dos soldados são como aqueles, mas alguns são piores — disse não entrando muito em detalhes, pois aquele não era o lugar mais indicado para se falar mal do exército. — Vamos — encerrei o assunto, avançando mais alguns metros ao lado do grande muro que cercava a cidade.

Quando chegamos até o grupo, eles ficaram visivelmente surpresos por termos chegado pelo lado de fora da cidade, mas ninguém foi corajoso o suficiente para perguntar o motivo... Não que eu fosse responder se eles perguntassem.

Nós partimos no início da tarde, para seguir durante a noite, já que a noite era "segura". Durante todo o trajeto, eles cavalgaram em dois grupos, dois deles indo em nossa frente e dois deles indo atrás. Parecia ser uma escolta e eu até poderia acreditar nisso, se não fosse o fato deles parecessem mais preocupados em vigiar meus movimentos, ao invés de vigiar os arredores.

A nossa primeira parada, foi oito horas depois da nossa partida, quando o céu já estava escuro e nós alcançamos uma cidade com barreira. Sendo que aquela seria a nossa única parada protegida, resolvemos passar a noite. De início eles queriam seguir, por ser noite, mas decidi que iria ficar e eles não tiveram escolha, a não ser aceitar a minha decisão.

Eu sabia que Erwin não teve escolhas, e que foi forçado a aceitar, mas ter aqueles quatro por perto em uma missão tão perigosa, só iria aumentar o perigo. Eu não sabia quem os mandou ou porque, mas o alvo daqueles quatro não eram as bestas, e sim, eu.

Em meu passado, eu já havia sentido muito aquilo, a intenção assassina disfarçada. Aquilo não era algo que um soldado poderia identificar, mas para o azar deles, eu já fui algo muito pior que eu um soldado.

Ao amanhecer, antes de partir, levei meu recruta para longe deles e tive com ele uma conversa particular. Pedi que evitasse falar com os quatro e que não confiasse neles. Certamente não disse o verdade motivo, mas deixei avisado que eles não iriam ajudar e que dependendo da briga que tivéssemos que enfrentar, talvez, eles pudessem ser um problema ainda maior.

Eren queria me fazer muitas perguntas, mas ao ver que o assunto era sério e que não tínhamos muito tempo a nossa disposição, ele resolveu apenas aceitar meus avisos. Durante a conversa, levei-o para cima de uma árvore e sentados em um alto galho, contei o que queria, tendo a certeza de que mais ninguém iria nos ouvir.

— Sei que não sabe muito sobre as bestas e para dizer a verdade, ninguém sabe muito sobre elas — comecei um dos assuntos principais sobre o qual queira falar com ele. — Você já as viu, então sabe porque são chamados de bestas — acrescentei olhando para uma construção à direita e sentindo uma presença tentando se aproximar.

— Escute com atenção. Não se sabe a origem das bestas, mas há teorias de que foi uma experiência científica fracassada. Não sei muito a respeito, mas se alguém descobrir os segredos por trás das bestas, essa pessoa poderia salvar o mundo, ou acabar com o que sobrou dele.

— O que quer dizer com isso?! — disse surpreso, calei sua boca com a mão e fiz gesto para que ele não falasse alto. Só liberei sua boca, quando ele acenou em afirmação. — Eu já disse antes, pirralho. Os adultos não são tão gentis quanto pensa. Enquanto alguns querem salvar as pessoas, outros querem controlá-las.

— Por isso as informações sobre as bestas são um segredo da Tropa de Exploração, mas mesmo dentre a tropa, há aqueles em quem não podemos confiar. Sempre que descobrir algo, mantenha sigilo para si mesmo e só conte para pessoas de extrema confiança.

Ele acenou em confirmação e eu continuei, sentindo presenças se aproximar ainda mais e sabendo que não tinha mais muito tempo de privacidade — Durante os anos em que morei fora das cidades, eu entrei em dezenas de confrontos contra diferentes bestas e descobri informações que os outros não sabem.

— Dentre o que descobri, está o que alguns suspeitam, mas muitos não tem certeza, sobre que as bestas podem atacar durante a noite. Acreditava-se que elas só podiam se mover com a luz do sol, mas a luz da lua também pode lhes permitir a mobilidade, então noites de lua cheia são as piores.

— Tempos de chuva são os mais seguros. Assim como não tenho explicação para a questão do sol e da lua, também não tenho para essa, mas tenho certeza que eles não atacam quando está chovendo, seja dia ou noite. E além de elas poderem saber quando uma barreira vai falhar ou quebrar, as bestas tem uma percepção de perigo, quando veem alguém como eu, que já matou muitos dos seus, elas não atacam sem pensar e analisam antes. Entendeu?

— A-Acho que sim. É muita informação, mas é importante, então vou lembrar — respondeu nervoso. Dois deles estavam quase na árvore, então o tempo estava no fim. Segurei o pescoço de Eren e puxei para mais perto sussurrando em seu ouvido. — Não saía de perto de mim. Aconteça o que acontecer, fique onde eu possa protegê-lo.

— Capitão Rivaille? Relacionamento sexual entre superior e subordinado é mal visto no exército, não deveria estar tão próximo do garoto — repreendeu um deles, enquanto o que estava ao seu lado, encarava Eren.

— Não entenda errado, estamos apenas treinando — disse me afastando, não dando qualquer explicação adicional. — Eren, não esqueça das dicas que te dei e continue com o bom trabalho... Não me decepcione — disse enfatizando as últimas palavras. Ele acenou e não disse mais nada.

Nós seguimos viagem e o recruta parece ter colocado uma fita na boca, pois não falou durante todo o caminho. Eles estranharam e perguntaram o que houve, para a minha surpresa ele mentiu, dizendo que estava fazendo treinamento mental. Fiquei surpreso com tal habilidade e disse a mim mesmo que não podia me deixar ser enganado por aquela carinha de anjo, pois pelo pouco que podia ver, o garoto não tinha nada de anjo.

Fizemos uma parada no almoço e outra ao anoitecer. Quando chegamos em uma cidade próxima a Vila Mo e que também estava desabitada, fizemos ali o nosso acampamento temporário, enquanto nos preparamos para recolher informações. Eu e Eren ocupamos uma casa, e eles se dividiram em dois grupos e ocuparam outras duas. O problema veio na hora de fazer a troca de vigias durante a noite. Eles vieram com a ideia de que eu deveria patrulhar sozinho, para não colocar Eren em perigo, mas para isso, eu teria que deixá-lo com eles.

— É melhor eu ficar junto do Capitão Rivaille. Pois tenho o hábito de causar problemas quando ele não está por perto. E devido a seriedade da missão, qualquer ocorrência que possa nos atrapalhar, devia ser evitada.

— Mas você é um soldado, e ele não é sua babá — retrucou um deles.

— Eu sou um recruta, e não um soldado. E o capitão não é minha babá, mas é meu responsável, então não quero lhe causar problemas — disse em tom triste. Eles desistiram de tentar nos separar e seguiram para ir dormir, enquanto nós dois patrulhamos.

Durante nossa caminhada, ele tinha um sorriso vitorioso nos lábios, um sorriso de quem os enganou. Quando estávamos longe o suficiente para que não nos ouvissem, segurei em seu braço para impedir que continuasse a andar e quando ele se virou, perguntei:

— Você costuma mentir com frequência? Parece ter bastante prática nisso.

— Eu sou um bom mentiroso, mas não gosto de mentir. Entretanto, vou fazer o que for preciso para cumprir seus pedidos, mesmo que não os entenda ou que não goste muito deles — explicou, deixando claro que não gostava de mentir.

— Então, me beije — disse em tom sério, puxando-o pelo braço e fazendo com que desse um passo a frente e parasse próximo a mim. Ele estava surpreso, mas sorriu e me deu um selar de lábios.

Novamente eu estava perguntando internamente "O que eu estava fazendo?". Aqueles quatro eram assassinos que queriam a minha cabeça e ali estava eu, brincando com o garoto. Ficar longe dele, era ruim. Estar acompanhado de outras pessoas, era irritante. Mas ouvir ele dizer que faria tudo o que eu dissesse, era perigoso.

"O que ele fez comigo?" Aquela pergunta sem resposta surgiu novamente e sorri discretamente ao lembrar que ele se parecia comigo na adolescência. Embora eu não lembrasse de ser assim tão tentador aos olhos dos mais velhos. Ele era igual ao meu antigo "eu" e ao mesmo tempo diferente.

Eu queria mantê-lo ao meu lado e ver qual seria seu futuro, isso era o que rondava a minha mente desde que vi seus olhos... mas ultimamente, eu estava começando a pensar em "Eu quero que ele seja meu futuro".

Como podia me apegar tanto a uma pessoa que mal conhecia?

— Capitão? — Depois do selinho, eu não disse mais nada, o que ele estranhou. Sorri e pronunciei com malícia — Eu disse que queria um beijo, mas isso foi muito superficial para ser chamado de beijo — expliquei segurando em seu pescoço e me aproximando do seu corpo.

Se eu realmente gostava do garoto, já não importava mais como tudo começou, e sim, o que aconteceria daquele momento em diante. Era hora de aproveitar a vida, enquanto eu podia tê-lo ao meu lado.

Notas finais
Até mais. :-)