Perfeitos um para o outro... Ou quase isso

38 As decisões de Levi - Parte 01


Capítulo 38: As decisões de Levi — Parte 01

Em meu caminho até lá, fui cavalgando o mais rápido que podia, nem me importando que não estivesse com meu equipamento. Uma espada era mais do que suficiente para me proteger e para matar qualquer besta que visasse a vida de Eren.

Passei por manchas de sangue e sabia que devia ser o lugar onde eles foram atacados no caminho, mas não parei para fazer investigações ou sequer para ver se os recrutas por quem passava, estavam mesmo mortos ou se ainda respiravam.

Estava sendo insensível? Desumano? Egoísta? Não me importava, nem uma daquelas vidas podres valia mais para mim do que a do Eren. Eles o largaram lá e tentaram salvar a si mesmos, soldados assim, mereciam mais que a morte.

Não parei e não diminuí a minha velocidade em nenhum momento. Implorando ao Eren que estivesse vivo e jurando a mim mesmo que nunca mais o deixaria sair do meu lado, seja por ordem de quem fosse, mesmo de Erwin. Eu estaria sempre ao seu lado e não deixaria que sofresse mais ferimentos, o teria sempre ao meu lado, seja em missões ou em minha cama, eu certamente faria tudo aquilo, então ele só precisava estar vivo.

Já estava quase chegando quando senti a chuva que começava a cair, aquilo era uma grande ajuda. Segui com ainda mais esperanças e elas só aumentaram quando avistei a pilha de cadáveres de bestas. Só o meu recruta podia fazer aquilo. Não demorei a encontrá-lo, apesar de estar de joelhos em algo que parecia ser uma poça de sangue.

Chamei seu nome e ele olhou para mim. Seus olhos estavam dourados e lágrimas eram visíveis mesmo sob a chuva, seu psicológico parecia ter sofrido um grande golpe, assim como o seu corpo, mas ele estava vivo. Meu coração disparou de alegria ao constatar isso e corri até ele, me jogando no chão e abraçando-o sem conseguir controlar meus impulsos.

Suas mãos tocaram minhas costas para retribuir meu abraço, mas não havia força ali. — Não consegui protegê-los — sua voz soou baixa, enquanto eu sentia meu coração quebrar com a dor contida naquelas poucas palavras.

— Desculpe pela demora — disse sentindo suas mãos escorregarem de minhas costas e seu corpo cair em meu abraço. Ele perdeu a consciência devido ao esforço.

Olhei em volta, vendo corpos para todos os lados e entendi de imediato a sua dor. Peguei-o no colo com dificuldade, carregando-o para dentro da casa, onde encontrei sobreviventes, para a minha surpresa. Eles me ajudaram a tirar o equipamento de Eren e cuidar de suas feridas, antes dos demais chegarem.

Erwin veio pessoalmente, assim como o garoto Armin que provavelmente foi quem os guiou até ali, pois não era um lugar muito conhecido. As dezenas de cadáveres de bestas chamaram a atenção dos soldados que vieram, assim como as pessoas que haviam morrido. Erwin me disse para voltar primeiro e garantiu que iria levar os sobreviventes em segurança.

Pedi ao meu amigo para levá-los a minha base e garanti que depois lhes arranjaria outro lugar, mesmo sabendo que não podia abrigá-los dentro da barreira. Faria o que pudesse para proteger aquelas pessoas a quem meu recruta protegeu e que eu sabia pelos corpos que vi, que o protegeram as custas das suas vidas.

Com Eren inconsciente, voltei para Maria, levando-o ao hospital para que pudesse tratar os seus ferimentos. Sabia que não deveria deixar que avaliassem seu corpo, mas estava preocupado demais para dar atenção a isso.

Eren permaneceu inconsciente enquanto seus ferimentos se curavam em uma velocidade impressionante. Não demorou muito para que isso chamasse a atenção do exército, assim como os relatos dos soldados que viram todas aquelas bestas que foram mortas por ele... Se fosse eu, isso não seria uma grande novidade, mas um recruta que tinha menos de um ano de experiência, isso se tornou motivo de debate.

Becker foi responsabilizado pelo seu erro, mas devido ao seu status e o fato de ser um dos preferidos do Marechal, ele só foi penalizado com uma diminuição do salário, o que indignou a população que soube do ocorrido, mas agradou aos superiores.

Depois da sua audiência, foi a minha. Por que eu estava em uma audiência? Bom... Eren tinha desobedecido uma ordem de um superior, eles queriam culpar Erwin, mas assumi a culpa. Além disso, eles queriam tratar comigo sobre a possibilidade de fazer testes em Eren Jeager. Por quê? Por que infelizmente, os superiores além de serem gananciosos, malévolos e nem um pouco confiáveis, também são inteligentes.

Eren era filho de um homem que dizia querer fazer experiências. Ele sobreviveu misteriosamente ao ataque a Shiganshina. Seu corpo obviamente não é normal, assim como suas habilidades... Era fácil chegar a conclusão de que algo de diferente existia nele.

— Olá novamente, Rivaille... Já fazia tanto tempo que eu não te via nesse tribunal, que estava começando a ter esperanças de que não precisasse mais vê-lo — comentou o velho juiz, com grande pesar.

— Sem enrolação, por favor. Direto ao assunto — pedi sem delicadeza alguma, ao perceber que não havia platéia na audiência ou muitos juízes. Parado no centro do tribunal, eu só via três figuras em minha frente. Sendo elas aquelas que aplicavam as leis e de quem o único que eu conhecia era o juíz com quem sempre falava.

— Devido aos problemas no qual Eren Jaeger se meteu, você está sendo responsabilizado pelos seus atos. E existem muitos que querem que seu recruta seja estudado como uma cobaia de laboratório, algo que não quero, assim como você — começou sendo honesto.

— Os superiores conversaram e estão dispostos a lhe oferecer um acordo. Ninguém irá encostar um dedo no seu recruta e iremos expedir uma ordem para que os rumores sobre ele sejam dissipados, afinal, tendo um segredo ou não, a verdade é que ele é um ótimo soldado e seria uma grande perda para o exército se ele se ausentasse dessa posição.

— Além disso, te oferecemos perdão por todos os erros cometidos pelo recruta sob sua responsabilidade e pelos quais está sendo forçado a pagar. E como um pedido especial de Erwin Smith, iremos dar um período de afastamento de um ano a você e seu recruta, pois nos foi informado que vocês estão fazendo investigações que podem ajudar a humanidade a saber um pouco mais sobre as bestas.

Aquela última parte me surpreendeu muito, mas tudo era bom demais para ser verdade. O que eu teria que dar em troca, começava a me preocupar.

— Em troca, temos três pedidos, cada um referente a uma das vantagens. Primeiro: Qualquer descoberta sobre as bestas, que esteja ligado com suas fraquezas e como podemos eliminá-las mais facilmente, deve ser apresentado em uma reunião que irá acontecer quando esse ano que lhe demos terminar... Não se preocupe, não faremos perguntas sobre como fez suas investigações desde que o resultado seja satisfatório.

Aquela sentença queria dizer: "Se passar um ano investigando e ainda assim não encontrar nada útil, estará com grandes problemas". Podia parecer algo simples, mas encontrar algo em uma ano, não era certo de se conseguir, ainda mais quando sabemos tão pouco em tantas décadas.

— Quais são as outras duas? — questionei calmamente.

— Para evitar que seu recruta chame ainda mais atenção, nós iremos direcionar o foco da atenção para você. A partir de agora, a sua segunda base e seu trabalho fora do exército serão de conhecimento público, assim como qualquer feito que realizar, mesmo quando não estiver em missão. E será revelado que isso foi feito com permissão do exército, e não contra sua ordens como é.

Daquilo eu podia entender que o exército iria lucrar com minha boa ação, dizendo a todos que eles estão por trás de tudo o que faço. Sendo assim, cada cidade que eu salvar, será divulgado como se o exército estivesse fazendo isso. Mesmo que eu não esteja recebendo dinheiro, equipamentos ou ajuda de qualquer membro do governo.

— E a última é que você assine uma autorização para que a sua arma seja distribuída para todos os soldados. Por um pedido dos superiores, Hange já fez centenas desses dispositivos e só estamos esperando pela sua aceitação para distribuí-la, já que a invenção é sua e até hoje, nunca deixou ninguém usá-la.

Era uma grande verdade. Já fazia anos desde que tentavam me convencer a assinar aquela autorização, mas nunca tinham conseguido, ao menos, não até aquele momento.

— Seria bom se você desse uma aula sobre como usar o dispositivo. Pois alguém com experiência, iria evitar que muitos se machucassem — completou o seu pedido, enquanto eu ainda pensava sobre o assunto.

— Você garante que Eren não será perseguido e não tentarão lhe fazer nem um mal, mesmo que seja algum exame?

— Você tem minha palavra e ela ficará registrada oficialmente — concordou entregando-me os documentos que eu deveria assinar. Passei as horas seguintes lendo tudo com atenção, dos dois documentos, um que ficaria comigo e o outro com eles. Depois de ter minhas dúvidas sanadas, assinei ambos e lhes entreguei um deles. Acordo fechado e eu estava livre para ir.

Fui ao hospital, chegando em frente ao quarto de Eren e encontrando muitas pessoas ali. Estavam presentes os nove sobreviventes da cidade das montanhas e os dois amigos de Eren, assim como a pequena Mya, que pedi para ficar ali.

— Eles queriam entrar para ver o Eren, mas ele disse que não quer ver ninguém, então não deixei ninguém entrar — explicou o fato de estar parada em frente a porta do quarto hospitalar.

— Você fez bem — elogiei fazendo um carinho em sua cabeça e completando — Posso entrar para vê-lo, ou também serei barrado?

— O Capitão pode. Pois não quero perder o meu emprego — brincou a pequena, abrindo a porta para mim.

— Não deixe mais ninguém entrar, nem mesmo médicos ou enfermeiros. Qualquer coisa me chame — instrui vendo-a confirmar com um balançar de cabeça. Passei pela porta e assim que estava dentro do recinto, ela a fechou.

— Vai embora — pediu o meu recruta, deitado na cama e virado para a parede.

— Desde quando você me dá ordens?

— Vá embora... por favor — disse novamente, fazendo-me sorrir. Mas meu sorriso desapareceu ao escutar o seu choro baixo. Ele ainda não conseguia se perdoar por tantas pessoas terem morrido sob sua proteção.

Deitei-me na cama e abracei-o pela cintura, assim como ele fazia comigo. Dei um beijo em seu ombro e sussurrei o mais gentil possível.

— Eu não sou bom em confortar os outros, mas ao menos posso te abraçar enquanto chora.

Ao encerrar minhas palavras, ele se virou em meus braços e escondeu sua face em meu pescoço, chorando mais abertamente enquanto eu fazia um carinho em suas costas. Aquele garoto que era maior que eu, naquele momento parecia muito pequeno... Pequeno e indefeso, como aquele garoto que segurou em minhas roupas durante o sono, na primeira vez em que dividiu a cama comigo.

Notas finais
Até mais. :-)