Perfeitos um para o outro... Ou quase isso
37 A decisão de Eren
Capítulo 37: A decisão de Eren
Narração do ponto de vista de Eren.
Sorri com a lembrança e continuei com a nossa reunião. — O único modo que posso usar para protegê-los, é colocar todos vocês em um única casa e limitar o espaço que preciso proteger. A melhor casa seria a da senhora — disse em frente a velhinha que considerava ser muito gentil.
— Você lembra qual é a minha casa, jovem soldado? — perguntou surpresa.
— Sim, senhora. A cerca em frente a sua casa, me fez cair tantas vezes que sinto dores só de olhar para ela. Jamais poderia esquecê-la — brinquei fazendo, agora, as crianças rirem, ao lembrar das minhas divertidas quedas enquanto aprendia a usar o dispositivo de locomoção.
— A sua casa é de material, diferente das muitas de madeira que existem por aqui e parece ser grande o suficiente para abrigar a todos. Posso pedi-la emprestada?
— Claro que pode — cedeu sem causar problemas.
— Obrigado — agradeci antes de continuar — Eu não possuo muitos equipamentos ou ajuda, então não posso criar um plano muito elaborado. As minhas instruções são simples, vamos esperar e sobreviver o máximo que puder.
— O grupo de soldados que vai partir amanhã, certamente será atacado na saída da cidade ou no caminho. Mas alguns deles vão chegar até lá. É apenas questão de tempo até que a ajuda chegue — expliquei, ouvindo o chefe se manisfestar.
— Mas e se eles não pedirem ajuda, ninguém saberá que estamos com problemas, não seria melhor enviar um dos nossos com eles?
— Não confio no Major Becker para cuidar da segurança daqueles que o cercam, então é perigoso demais pedir para alguém acompanhá-lo — disse olhando direto ao homem de quem falava e ignorando completamente a sua raiva. Ignorar era mais fácil do que entrar em debate, eu finalmente podia entender porque o capitão sempre optava por fazer isso.
— E não é preciso se preocupar com a ajuda. Mesmo que eles não façam um pedido oficial, assim que o Capitão Rivaille descobrir que não voltei para a cidade junto com os outros, ele certamente virá até aqui, então podemos contar com a sua ajuda, o único problema é quanto tempo ele vai demorar para chegar — Fui honesto em minha avaliação.
Durante o restante da noite, conversei com eles e as vezes fizemos brincadeiras, enquanto todos tentavam esquecer o medo da morte eminente. Assim que o dia clareou, Becker fez todos montarem em seus cavalos e ficarem de plantão no centro da cidade, prontos para partir assim que possível, enquanto isso os moradores estavam organizando os móveis dentro da casa da senhora, para que todos pudessem caber dentro dela. Algumas comidas e cobertores foram levados para dentro, apenas por garantia e as crianças foram instruídas a permanecer dentro da casa.
Eu fui até o celeiro e peguei meu equipamento, depois subi ao quarto e o coloquei. Quando saí da estalagem, recebi olhares surpresos dos recrutas ao verem a minha arma e mais raiva de Becker... Sinceramente, sendo ele um cara tão agressivo, era difícil imaginar como conseguia fazer aquela expressão bondosa e gentil. Ele devia ter seguido carreira de atuação ao invés da militar.
— Preparem-se, estamos saindo! — disse Becker, avançando seu cavalo e tendo os recrutas seguindo-o. Assim que passaram pelo portão, vi cinco bestas indo contra eles e um dos recrutas foi derrubado do seu cavalo e atacado pelas outras bestas, enquanto gritava de dor.
Becker estava protegendo a si mesmo e os recrutas estavam em pânico, quase acertavam uns aos outros. Armin e Mikasa se mantinham lado a lado e se viravam bem, mas não iam durar muito tempo.
— Droga! — praguejei alto. Eu deveria deixá-los para morrer, assim como estavam fazendo comigo, mas não poderia viver comigo mesmo se fizesse isso. Corri até o celeiro e peguei o meu cavalo, galopando até lá e chegando bem há tempo de salvar um recruta que tinha caído no chão.
— Suba no cavalo e não se atreva a cair novamente ou vai morrer! — avisei ao garoto que parecia ter a minha idade, chutando sua perna para tirá-lo do pânico e seguindo para perto do Armin e da Mikasa.
— Eu vou abrir caminho, sigam reto e saiam daqui o quanto antes e não importa quantas bestas apareçam, não parem para enfrentá-las! Se pararem seus cavalos, vão morrer! — gritei o aviso.
— Atrás de você! — avisou meu amigo, ativei o gás e subi para cima evitando o ataque e aproveitando a descida para cortar a cabeça da besta. Em seguida atirei o cabo em uma das bestas, cravando a garra em seu corpo e me puxando até ela para matá-la, acionando o gás e voando sobre o chão até outras duas que matei com outro golpe.
— Agora! — gritei para os dois que seguiram em frente, sendo seguido pelos outros, incluindo o Major.
— Eu vou mandar ajuda — avisou Armin quando passou por mim. Sabia que ele faria isso, apesar de ainda sentir como se ele estivesse novamente me traindo. Assim que eles se foram, subi em meu próprio cavalo e voltei para a barreira, não conseguindo evitar o ataque de uma das bestas e tendo uma ferida no ombro... de novo.
Ao chegar na cidade, desci no cavalo e ajoelhei-me no chão, cobrindo meu rosto com as mãos. — Eu sou um idiota — disse para mim mesmo, por ter arriscado a minha vida por eles.
— Você é um idiota, mas possui um grande coração, isso é o mais importante — disse o chefe, ajoelhado ao meu lado, avaliando o meu ferimento. Ninguém ali ficou bravo pela minha ação imprudente, para eles o que eu fiz foi certo...
Se eles fossem soldados, o mundo seria um lugar muito melhor.
Enquanto o meu ferimento era tratado, escutei um alto barulho, que lembrava muito um vidro que estava trincando. Olhei para cima e vi assustado, aquela cena que nunca mais quis presenciar, a cena conhecida como "o início" que foi quanto Shiganshina foi invadida.
— A barreira está quebrando! Todos para dentro! — ordenei rapidamente me levantando e pegando minhas espadas que já tinha guardado nas costas. Olhei para cima e a mesma visão se repetiu.
Haviam vários riscos brancos que se mesclavam com o azul do céu, quase como se alguém estivesse desenhando no ar. O barulho cessou e em seguida milhares de fragmentos começaram a cair dos céus, eram como pedaços de espelho quebrado, com a diferença que desapareciam no ar antes de chegar ao chão... Da outra vez eu havia visto aquilo também, embora poucas pessoas tenham notado devido ao dia a dia movimentado da grande cidade... Aquela cena linda que mais tarde tornou-se um banho de sangue.
— Capitão... é melhor vir rápido — disse seguindo até a casa e me certificando de que todos tinham entrado, antes de assumir a minha posição em frente a residência.
— Vocês estão prontos?
— Sim! — responderam os três homens que ficaram responsáveis por vigiar os arredores da casa através da janela.
Me mantive sério e disse para a esposa do chefe que estava parada na porta atrás de mim. — Talvez eu perca o controle sobre mim mesmo enquanto luto, se isso acontecer, não deixe ninguém se aproximar de mim, não quero machucar ninguém — Ela pareceu surpresa com minhas palavras e talvez até confusa, mas acenou em concordância, pouco antes de fechar a porta e deixar-me sozinho com os inimigos que vinham até mim.
Usando as minhas habilidades adquiridas naqueles seis meses de treino em combate, matei o máximo que pude, sem usar o gás. Deixando para usá-lo apenas quando precisava ir a outra extremidade da casa. Os gritos das bestas e seus rugidos, eram tudo o que podia ser ouvido. Eu nem mesmo tinha tempo de pensar, pois a cada besta que matava, via mais duas vindo ao longe.
Quanto tempo será que se passou? Para mim pareceu um dia interminável, mas talvez fossem só poucos minutos... Quanto tempo mais eu precisava aguentar antes dele aparecer e quanto mais eu iria aguentar?
O meu gás foi o primeiro que perdeu a luta, deixando-me apenas com minhas pernas para a locomoção. Sem a movimentação do gás, sobrou-me os cabos, mas eles não eram suficientemente rápidos e com isso, meu corpo sofreu variados ferimentos, apesar de serem pequenos. Uma das minhas lâminas foi o próximo ponto da derrota. Com uma única lâmina, a velocidade e a minha capacidade de matá-los diminuíu muito, e meu corpo sofreu ainda mais.
A minha visão estava vermelha há algum tempo e mesmo usando tais habilidades para lutar, eu podia sentir o sangue que escorria de minhas feridas e os músculos do meu corpo imploravam por um descanso, que não me era permitido.
Quanto tempo tinha se passado agora? Rivaille já sabia da minha situação? Já estaria vindo? Já estaria chegando? Quanto tempo mais era preciso esperar?
Senti uma de minhas pernas falhar e caí com um dos joelhos no chão, em uma poça de sangue que não sabia se eram das bestas ou meu. A quantidade de inimigos tinha diminuído o suficiente, para que eu pudesse respirar. E depois de perder tantos dos seus, as bestas estavam hesitantes. Era o mesmo sentimento que eu tinha quando via elas encarando o capitão, no fundo parecia que elas tinham medo de morrer.
Uma delas deu um passo a frente e me levantei rapidamente em um reflexo, mostrando que não desistiria tão fácil. Mas apesar de querer lutar, meu corpo estava chegando ao limite. Caí novamente de joelhos e sabia que precisava de algum descanso, embora as três bestas em minha frente, não tivessem qualquer intenção de me deixar descansar.
— Jovem soldado, descanse um pouco. Essa velha vai te ajudar a conseguir algum tempo — disse passando ao meu lado e seguindo em frente.
Ao vê-la caminhar em direção a besta, não consegui evitar de ver aquela cena em câmera lenta, enquanto tentava lembrar quando a porta foi aberta? Quando ela saiu de lá de dentro?
Não tive tempo de encontrar a resposta, quando a besta avançou sobre ela e com uma pata arrancou metade de seu corpo, fazendo seus pés pararem de andar e o que sobrara do seu corpo cair no chão. Abri minha boca em desespero e meus olhos se abriram em agonia, enquanto lágrimas começaram a descer por eles.
Meus olhos se embaçaram, enquanto eu via o senhor dono da estalagem correr em um das direções e gritar chamando a atenção da besta para si. Tentei levantar, mas escorreguei no sangue e caí, tendo que ver outra vida se perder. Duas mulheres me ajuntaram do chão e me colocaram encostado na parede, seguindo para lutar com as bestas, segurando panelas e uma vassoura como armas.
— O que estão fazendo? Parem com isso! Por favor, parem!! — implorei tentando me levantar, mas sendo segurado pelos dois adolescentes. — Me soltem! Eles vão morrer! Eles... — a minha súplica foi interrompida pelo sangue que deixou a minha boca, enquanto eu o vomitava.
— Se você morrer, todos nós morreremos. Vamos conseguir um tempo para que possa descansar, mesmo que seja ao custo de nossas vidas — explicou o chefe, ajoelhado em minha frente, enquanto mais duas mulheres seguiam para a luta, com lágrimas nos olhos, sabendo que iam morrer.
As três bestas pareciam felizes ao matá-las, vendo isso eu tive uma explosão de raiva, consegui me levantar e me libertar dos que me seguravam, usando o cabo para ir até a besta mais próxima e matando-a, usando o impulso para pular e matar a que estava ao seu lado. A terceira besta veio em minha direção e me acertou no peito. Felizmente eu coloquei os braços na frente, então meu corpo não sofreu tantos cortes, mas com a força da fera, fui arremessado para longe.
A besta que achou ter se lembrado de mim, atacou a casa, enquanto as mulheres mais velhas, saíam da casa e tentavam deter a besta para que não entrasse na residência onde estavam as crianças, uma após a outra elas caíram e se tornavam cadáveres, enquanto eu lutava contra meu próprio corpo para me arrastar até lá, conseguindo fazer nada além de chorar.
Quando finalmente cheguei em uma distância considerável, ativei os cabos e voei até lá, cortando a cabeça da besta... Mas, a minha lâmina quebrou e o corte não foi fundo para matá-la, a besta se preparou para me acertar com suas garras, quando o chefe apareceu em minha frente e me protegeu, tendo seu corpo atravessado pelas garras da fera.
— Agora! — gritou o chefe, enquanto Tony e Riran saíam da casa com dois facões. O chefe segurou na pata da besta deixando-a parada e os dois terminaram de cortar sua cabeça, com golpes precisos de quem está acostumado a cortar lenha.
— Por quê? — perguntei caindo de joelhos no chão.
— Nós vencemos... E tudo graças a você... Não podia deixá-lo morrer — explicou o chefe, pouco antes de cair no chão. Os dois foram ajudá-lo, mas já era tarde demais.
"Nós vencemos"... Aquelas palavras só fizeram sentido quando percebi que começou a chover... Não haveria mais ataques. — Entrem... É perigoso do lado de fora — disse, sabendo que bestas não atacavam durante a chuva, mas temendo que alguma pudesse ter sobrevivido e pudesse feri-los. Eles não discutiram e entraram, fechando a porta atrás de si.
Eu estava novamente sozinho, cercado de cadáveres, tanto de bestas quanto de aliados... Mesmo depois de ter treinado tanto, eu ainda não era bom o bastante.
— Eren! — aquela voz preocupada soou em meus ouvidos. Meu coração disparou quando olhei em sua direção, mas mesmo a sua presença não podia conter as lágrimas que continuavam a descer.
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