Capítulo 26: É isso o que posso oferecer

Fiquei apenas mais alguns minutos na festa, deixei que todos falassem de mim como se não estivesse ali e depois me despedi dos superiores, voltando para a minha base, na qual ele me esperava com uma xícara de chá.

Sentei-me na mesa com ele e em silêncio, desfrutei da sua companhia e daquele momento que se tornou pouco a pouco o meu preferido. Era até engraçado, pois se fosse qualquer outra pessoa que estivesse me oferecendo algo para beber, eu iria recusar, mesmo se fosse Erwin.

Meus instintos não me permitiam confiar tão facilmente ou era o que eu achava, até lembrar que na primeira vez que ele me ofereceu o chá, eu o tomei sem nem parar para pensar... Aquele era o nível no qual a minha confiança nele estava.

Depois do chá, nós fomos para o quarto. Naquela noite ele não tentou nada e fiz o mesmo, mas no meu caso, era porque estava confuso demais e mesmo que não quisesse admitir, no fundo estava nervoso. Precisava conversar com ele sobre aquele assunto, mas não sabia como fazer isso, na verdade, não sabia nem como começar!!

A manhã chegou antes que eu pudesse dormir e descansar, mas nada podia fazer, era hora de partir ou estaríamos todos com um grande problema. Eren e Mya já tinham preparado tudo, então pudemos partir bem cedo, deixando a cidade Maria pelo portão lateral e indo para a minha base na cidade abandonada.

Mya que já tinha visto muitas cidades como aquela, não se surpreendeu e apenas se limitou a ouvir as explicações de Eren sobre o terreno e as armadilhas das quais certa vez falei para ele, armadilhas essas que poderiam salvar nossa vida e as quais misteriosamente não tinham sido ativadas naqueles últimos meses.

Parando para pensar naquele ponto, desde que Eren tinha vindo morar comigo, não fomos atacados nem uma única vez. Aquilo era estranho... Teria alguma coisa a ver com Eren ser meio besta? Porque mesmo que as bestas me temessem, ainda assim elas me atacavam de tempos em tempos, então o que teria mudado?

Decidi não pensar naquilo por agora, pois tinha assuntos mais importantes a serem tratados, como o treinamento de Eren e o assunto sobre o qual eu precisava falar com ele. Deixaria aquela dúvida sobre os ataques das bestas, para que meu amigo resolvesse. Ele podia ser um idiota, mas para aquelas questões, ele era ótimo.

Começamos a treinar naquele mesmo dia, enquanto eu explicava para o recruta sobre o seu novo treino de combate. Ele pareceu ansioso para esse treinamento, mas como da outra vez, o início foi doloroso. Ruim, era uma palavra boa demais para categorizar suas habilidades, elas estavam mais para, catastróficas.

Felizmente eu já era um homem mais paciente do que aquele que ele conheceu e com isso, consegui treiná-lo mais facilmente, mas suspirei muito... muito mesmo. E a cada vez que eu o derrotava e ele ficava estirado no chão, lutava contra a vontade de cancelar o treino, sabendo que não podia fazer isso.

Foram dias difíceis, muito difíceis, mas assim como foi com o treinamento para aprender a usar o dispositivo de locomoção, podia ser visto a sua melhora gradativamente, enquanto os dias se passavam.

Uma semana se passou e enquanto a nossa relação profissional seguia um bom rumo com o nosso treinamento, a vida pessoal, não seguia assim tão bem. Apesar de ainda dormimos na mesma cama todas as noites e de ele me abraçar para dormir, nada mais aconteceu. Eu dizia a mim mesmo que ele estava apenas respeitando as regras, já que o tempo não estava para chuva e estávamos fora da segurança de uma barreira, mas...

Aquilo me abalou mais do que eu esperava. Mesmo sabendo que não deveria ser assim e que eu estava pensando besteiras, ainda não conseguia deixar de pensar em respostas como: Ele se arrependeu de ter dormido comigo... Ele percebeu que não me ama... Ele não quer mais ter uma relação pessoal entre nós...

A cada dia me sentia ainda mais idiota e ainda assim, não conseguia ir até ele e perguntar o que queria saber. Aquilo era estranho, mas eu conseguia falar honestamente com Eren, mas não conseguia iniciar uma conversa. Para algo como aquilo, Levi Ackerman, Capitão Rivaille, era um grande covarde.

— Ai! — reclamou meu recruta, enquanto eu cuidava do machucado em sua cintura. — Desculpe — pedi, não só por não conseguir ser mais delicado, mas também por tê-lo machucado no treino... de novo. Estava sentado na mesa e Eren estava em minha frente, de pé e segurando a camisa para que eu pudesse tratar o hematoma. Terminei de passar o remédio e guardei o material que estava usando, quando olhei para frente, ele ainda estava parado ali, me encarando.

— O que é?

Para a minha surpresa, a resposta não veio com palavras. Ele deu um passo para frente, se abaixou e enquanto segurava em meu pescoço tocou a sua boca na minha, movimentando-a calmamente.

Apesar da surpresa inicial, levantei-me da mesa e o abracei pela cintura, de maneira gentil devido ao seu machucado. Seus braços passaram por cima de meus ombros e ele me abraçou, colando nossos corpos. Mesmo que ele fosse um pouco mais alto que eu, sentia como se nossa combinação fosse perfeita, pois não conseguia encontrar qualquer erro, seja com ele, comigo, com nossa relação ou nossos atos.

Quando ele se afastou, estava levemente corado, mas não parecia ser vergonha, e sim, felicidade. Sentindo o beijo que ficou ausente durante toda aquela semana, não queria que isso acabasse tão rápido, então capturei seus lábios e voltei a beijá-lo, do modo mais intenso que podia. Me separando apenas alguns minutos depois, sentindo sua respiração acelerada em meu rosto, assim como seu coração acelerado que martelava em seu peito, tanto quanto o meu.

— Posso te beijar, mesmo quando não estamos no quarto? — perguntou para a minha surpresa, com um pouco de preocupação. Seu corpo continuava em meus braços, mas agora havia uma pequena distância entre nós, era pouca e estava ali apenas para que pudéssemos conversar confortavelmente.

— Eu não te desejo só quando estamos entre quatro paredes — respondi sem saber exatamente o que ele queria dizer com aquelas palavras. Eren sorriu, um sorriso envergonhado e feliz, antes de dizer:

— Fico feliz em saber... Talvez seja muito insolente da minha parte perguntar, mas eu preciso saber... Posso sonhar em ser algo para você, além de um recruta? — perguntou sorrindo tristemente e abaixando seu rosto. Fui pego completamente desprevenido, afinal, era eu que deveria estar falando algo como aquilo, não era?

— Pirralho... Quando você disse que me amava enquanto dormia, aquilo era real ou apenas palavras as quais não devo dar ouvidos? — criei coragem para perguntar, vendo seus olhos se abrirem em espanto e ele tentar se afastar, mas apertei-o contra mim, ao puxar seu corpo contra o meu, deixando nosso rostos próximos um ao outro.

— Responda, Eren Jaeger — ordenei em tom sério. Seu corpo tremeu sob meu abraço e senti que talvez estivesse indo longe demais, mas se afrouxasse aquele aperto e lhe permitisse se afastar, não teria coragem para trazê-lo para perto novamente.

— Eu te amo — respondeu me abraçando pelo pescoço e escondendo seu rosto do meu.

— Eu estou longe de ser uma boa pessoa e tenho muitos defeitos... E muitos segredos.

— Não me importo. Eu ainda te amarei e estarei sempre ao seu lado — afirmou, lembrando-me daquela noite em que dividimos a cama, quando ele prometeu enquanto dormia, que estaria sempre ao meu lado. Sorri minimamente e segurei em sua cintura, afastando-o alguns centímetros para que pudesse olhar novamente em seus olhos.

— Eren... O fato de que sou seu Capitão, não vai mudar, independentemente da nossa relação pessoal. Você precisa entender isso. E mesmo que eu goste de você, isso não significa que vou mudar meu jeito de agir. Estar sob minha proteção te causará problemas, mas estar em minha cama e em meu coração, pode dificultar ainda mais a sua vida. Uma vida em meus braços, significava uma vida de conflitos, isso é tudo o que posso te oferecer — disse-lhe honestamente.

— Rivaille, você realmente gosta de mim? — perguntou levando uma de Suas mãos até meu cabelo e fazendo ali um carinho.

— Sim. Eu gosto de você — afirmei usando a coragem que usava quando ia enfrentar exércitos e bestas.

— Se gosta de mim, não me importo com mais nada. Desde que possa estar ao seu lado — disse para a minha surpresa, sorrindo e depois voltando a me beijar.

Mais alguns minutos entre beijos se passaram e depois me afastei por mais alguns minutos, contando a ele sobre o que Erwin tinha proposto. A cada palavra que eu pronunciava, mais seu sorriso aumentava. Ele disse que aceitava aquela loucura, afirmando novamente que não se importava muito com os problemas. Sorri e voltei a beijá-lo, pouco antes de nos separar por completo e dizer que deveríamos voltar ao treino.

Aquele assunto importante e sério sobre o qual temia falar, foi resolvido em alguns minutos, entre sorrisos e beijos. Se o nosso futuro se resumisse naquele momento, eu seria um homem extremamente feliz.

— Capitão, agora, posso considerar que você é meu? — perguntou com um sorriso, enquanto andavamos lado a lado para fora da casa.

— Sim. Mas a parte mais importante é que você é meu. Tente me trair e te darei de comida para as bestas — avisei vendo-o rir como se tivesse ouvido uma piada. — Qual é a graça? — perguntei sem entender.

Eren colocou os braços atrás do pescoço, olhou para o céu e respondeu: — Quem seria louco de te trocar por outra pessoa? Não existe ninguém que possa te substituir. O que você disse, soa como uma piada — explicou dando um passo para mais perto, se aproximando e me dando um selar de lábios. — Vamos — chamou, seguindo em direção ao local onde estávamos praticando o combate.

Ao escutar suas palavras, novamente sorri discretamente, percebendo que tinha sorte em ter encontrado aquele pirralho. Se o destino final da nossa jornada fosse o inferno, eu só precisava matar todos os demônios e fazer daquele lugar o nosso lar. Desde que tivesse ele ao meu lado, seria perfeito.

— Algumas semanas na companhia dele e não consigo mais imaginar viver sozinho. Esse garoto é um perigo — disse baixinho, mexendo a cabeça para os lados, tentando convencer a mim mesmo que não estava completamente apaixonado por ele... tentando.

Notas finais
Até mais. :-)