Perfect Mind

1 Parte Um - Eu posso ouvir as vozes novamente


Apolo resolvera castigar os campistas naquele dia. O sol brilhava alto, esquentando as armaduras dos que ousaram usa-lá e cegando todos que olhavam para as construções de mármore branco, como o pavilhão do refeitório e os chalés de Zeus e Hera. Cada campista tentava se refrescar como podia. Alguns ficaram nas sombras das árvores, outros foram para o lago de canoagem, mas mesmo na sombra ou dentro d'água o calor era intenso.

Em um ponto do riacho Zéfiro, Thalia e Luke se refrescavam embaixo de uma árvore. Não era exatamente o lugar mais privado, com as náiades e dríades, mas eles não se importavam. Ainda estava calor, mas isso não os impedia de se curtirem.

– Eu estava pensando... — começou a dizer Luke, com os braços em volta de Thalia e o queixo apoiado em sua cabeça. — As missões estão ficando cada vez mais perigosas, e nos já estamos a 3 anos juntos. Talvez nos... — Luke não continuou.

– Talvez nos o que? — quis saber Thalia, beijando-lhe.

– Talvez nos devêssemos ficar juntos — respondeu Luke, após a pequena pausa. — Para sempre.

Thalia sorriu, o sorriso favorito de Luke. Geralmente, quando ela gostava de algo, dava um pequeno e simpático sorriso, como se dissesse "legal!". Também havia o sorriso que dizia "incrível!", que era simpático como o "legal", mas um pouco maior. Mas para Luke ela reservava um sorriso especial, que era grande como o "incrível", mas maroto como nenhum outro.

– Você está me pedindo em casamento? — perguntou Thalia.

Luke respirou fundo.

– Bem, sim! — respondeu, ficando nervoso. — Acho que nos poderíamos tentar ser pessoas normais e formar uma família! Afinal, até os deuses tem família.

– Mesmo a taxa de sobrevivência entre os semideuses sendo pequena, ainda acho que somos muito novos — Luke murchou. — Que tal mais três anos? Nos já temos uma família, aliás. O Olimpo e todo o acampamento são nossa família. Ou você quer ter filhos aos 19 anos? — Thalia terminou com um singelo sorriso.

– Não, acho que não — respondeu Luke, sorrindo também. E eles se beijaram novamente.

– Tenho que voltar — disse Luke, ainda de olhos fechados. — Esgrima com todo o chalé de Hermes. Vai ser uma loucura.

– Tudo bem — respondeu Thalia.

– Te vejo no jantar? — perguntou Luke.

Thalia fez que sim com a cabeça.

Luke sorriu. Ele não conseguia ficar triste ou sério perto de Thalia. A amava tanto que ficaria pulando de um lado ao outro, gritando para todos os seus sentimentos. Só não o fazia porque sabia que com isso perderia o pouco tempo que tinha para ficar com ela.

Como despedida, deu-lhe um último beijo e seguiu para a arena pela floresta, contento-se para não começar a fazer um número digno da Broadway.

Thalia ficou observando Luke ir embora, até ele sair de seu campo de visão. Então voltou-se para a água e percebeu como estava com calor. Enquanto Luke estava com ela, Thalia não reparava em mais nada. Mas agora que estava sozinha, começou a pensar o quanto uma chuva seria boa para refrescar. Então fez uma reza silenciosa para o seu pai, pensando no que ele poderia fazer.

Eles não são sua família.

Thalia congelou ao ouvir aquilo. Não viera de nenhum lugar por ali; de trás de uma árvore ou do outro lado do riacho. Ela sabia que estava ouvindo aquilo de dentro de sua cabeça. Era como um fantasma em um porão, que sempre gemia quando alguém passava perto da porta.

Instintivamente, Thalia levantou-se e começou a correr o mais rápido que podia. O problema era que não importava para onde ela corresse a voz sempre estaria com ela, em sua mente.

Ela tentou alcançar Luke, mas ele não estava em nenhum lugar à vista. Já devia estar na arena, treinando. Thalia parou de chofre; olhou em todas as direções enquanto recuperava o fôlego. Não estava muito longe, já conseguia ver a arena e o arsenal por entre as árvores. Voltou a andar, tentando colocar os pensamentos em ordem. Não queria ficar sozinha, mas não iria para a arena atrapalhar a aula de Luke. De onde estava podia ver o Sr. D., Quíron, Grover e Annabeth na varanda da Casa Grande. Thalia foi até lá.

– E se ele ficar dormindo para sempre? — quis saber Grover.

– O cara novo? — perguntou Thalia, se aproximando.

Annabeth fez que sim com a cabeça.

– Não seria de todo ruim se ele só dormisse. Vocês também poderiam ir dormir — disse o Sr. D., tomando um gole de sua Coca Diet.

– Ninguém dorme pra sempre depois de enfrentar o Minotauro — disse Quíron. — Não se preocupem com ele. Uma hora irá acordar.

Grover e Annabeth se entre-olharam, e então saíram, Thalia os acompanhando. Foram até a quadra discutindo sobre o garoto novo chamado Percy.

– Quíron tem razão — disse Thalia, entrando na conversa. — Ele está dormindo só há 3 dias. Logo vai acordar.

Os três continuaram por ali conversando, enquanto observavam alguns garotos do chalé de Apolo jogar contra o chalé de Hefesto. Ao longo do jogo alguns jogadores saíram e Thalia, Grover e Annabeth entraram no lugar.

Pouco antes do jantar, Thalia saiu do jogo e foi tomar um banho. Agora que não tinha os sons do jogo a sua volta, seus pensamentos voltaram para a voz que ouvira mais cedo.

Eles não são sua família. Thalia sempre se sentirá sem família. Sua mãe vivia bêbada e até pouco tempo ela não sabia quem era seu pai. Vivia em um acampamento com os mais diferentes tipos de pessoas, e de nenhuma delas podia dizer que eram sua família. Fizera alguns bons amigos e até mesmo namorava o cara que amava (que tecnicamente era seu sobrinho, já que era filho de Hermes), mas nada daquilo se encaixava em seu conceito de família.

Para Thalia, família eram os pais e os filhos, todos morando juntos com os pais colocando os filhos para dormir, contando-lhe histórias, levando-os para a escola, acendendo as velas de seu bolo de aniversário...

Thalia inspirou profundamente, reprimindo o choro. Quando criança nunca tivera uma festa de aniversário, quanto mais seu pai acendendo as velas do bolo. Mesmo agora seus aniversários eram pequenas reuniões com Annabeth, que estava com ela na escola. Nem mesmo Luke comemorava com ela no dia: só se viam quando Thalia voltava ao acampamento no feriado de Natal.

Nenhum olimpiano nunca se importara com Thalia, então porque ela devia se importar? Travar batalhas que não eram dela, em nome daqueles que a renegaram. Não lhe fazia bem ser mártir dessa causa. Por que insistir nisso?

Eles não merecem o poder.

A voz novamente. Não, eles não mereciam. Eram cruéis e impiedosos, todos eles. Mereciam ser destruídos e lançados as profundezas do tártaro.

Não.

Apesar de serem deuses suas atitudes e erros eram tão humanos quanto poderiam ser. Thalia sacudiu a cabeça, tentando afastar os pensamentos. Estava confusa e atordoada. Sua cabeça doía.

Ela saiu do banheiro, deixou suas coisas em seu chalé e foi para o pavilhão-refeitório. Ao chegar lá todos já estavam acomodados comendo. Thalia notou que Luke a observava, mas não retribuiu o olhar. Sentou-se e ficou a brincar com a comida a maior parte do tempo. Não tinha fome. Naquela noite ela não jogou nada a fogueira como oferenda.

Luke a interceptou quando Thalia ia descendo a escada do refeitório, pois já cansara de tentar comer. Mais cedo eles haviam combinado de se encontrarem no jantar, mas Thalia já esquecera completamente disso.

– Ei, oi — disse Luke. — Tá tudo bem com você?

– Perfeito — respondeu-lhe Thalia que, apesar da angustia que estava sentindo, não podia deixar de admirar a capacidade de Luke de perceber quando algo estava errado com ela.

Luke a encarou, esperando que ela falasse o que estava acontecendo. Thalia sabia que ele não a deixaria ir sem saber da história, mas agora Thalia não queria falar sobre isso. Então sentou-se em um dos degraus, fora do caminho dos que também saiam do refeitório. Luke sentou ao seu lado.

– Sabia que eu nunca tive uma festa de aniversário? — disse Thalia.

– Não — respondeu Luke. Na verdade ele sabia, mas não sabia onde Thalia queria chegar.

– É, eu nunca tive. Nada de bolo, nada de balões, nada de palhaços, nada de nada!

– Mas você odeia palhaços.

Thalia o olhou feio.

– Não é essa a questão.

– Então qual é? — quis saber Luke. — E as festas que Annabeth e eu fizemos aqui no acampamento?

– Não é a mesma coisa — o tom de Thalia mudou. — Isso tudo é agora, mas quando eu era criança nunca tive esse tipo de coisa.

– Ainda faltam 4 meses para o seu aniversário — disse Luke, tentando animá-la. — Eu posso fazer alguma coisa! Com balões e palhaços.

Thalia sorriu, mas logo voltou a ficar séria.

– Não — ela sacudiu a cabeça.

– Thalia, o que tá acontecendo? — perguntou Luke, ficando também sério.

Thalia respirou fundo, fechou os olhos e disse:

– Eu posso ouvir as vozes novamente.

Luke assumiu uma posição ereta e se afastou um pouco de Thalia, como se ela tivesse lhe dito que tinha uma doença contagiosa, a passara para todo o Acampamento Meio-Sangue e agora todos só tinham três horas de vida. Sua preocupação se equiparava a preocupação de uma situação como a acima, pois Luke tinha esperanças de que as vozes nunca voltassem.

Há um ano Thalia começara a ouvir vozes. Ou melhor, uma voz específica. Mas todos sempre se referiam como "vozes". Luke sabia por alto o que as vozes diziam, mas sabia muito bem o que elas causavam. Deixaram Thalia completamente confusa e desorientada, fazendo a tentar suicídio duas vezes, "para que as vozes parassem", segundo ela. Então Thalia passou a ficar sempre na Casa Grande, para que o sr. D. cuidasse dela. Durante essa reabilitação Thalia não quis ver Luke, mas o que ele realmente temia era que as vozes não fossem causadas por loucura, e a volta delas reforçava os temores de Luke.

– Vai ficar ai só me olhando?

– Hã... Eu...

– O.k. Não diga nada — Thalia levantou-se e seguiu para o seu chalé.

Luke hesitou, mas acabou por segui-la. Quando já estavam em frente ao chalé de Zeus, ele a alcançou e a puxou pelo braço. Thalia lhe lançou um olhar duro, e então Luke compreendeu o quanto ela precisava dele e a abraçou.

Thalia se sentiu pequena e frágil, mas finalmente protegida nos braços de Luke.

Um trovão rugiu ao longe, fazendo os dois pularem e se afastarem. Mas era apenas um trovão comum; anúncio de temporal.

– Te vejo amanhã, ok? — disse Thalia a Luke, segurando sua mão e afastando-se aos poucos, só soltando- a quando a distância ficou grande demais.

Ela entrou no chalé e Luke ainda estava parado observando-a quando ela fechou a porta.

Não demorou muito e grossas gotas de chuva começaram a cair, fazendo todos os que ainda estavam ao ar livre voltarem correndo aos seus chalés.

Zeus havia ouvido o pedido que Thalia o fizera mais cedo. Ou será que não?

No dia seguinte Thalia acordou disposta a esquecer as vozes e voltar ao normal. Sem preocupações, sem drama. Então ela levantou-se e se arrumou para tomar o café da manhã. Saindo do seu chalé encontrou Annabeth também a caminho do café da manhã, a qual ela se juntou.

– Ei, já soube da novidade? — perguntou Annabeth a Thalia.

– Qual?

– Percy acordou! — disse Annabeth, com um sorriso radiante.

– E porque essa felicidade toda? — quis saber Thalia, sorrindo marota a amiga.

– Oh, por nada! Só estava preocupada dele ficar em um coma, ou algo do tipo... — respondeu-lhe Annabeth com um leve rubor.

E então as duas seguiram para o pavilhão-refeitório, rindo.

Durante o café da manhã, Quíron fez um pronunciamento em nome de um Sr. D. muito mais mal-humorado do que de costume:

– Bom dia campistas. Gostaria de avisar a todos que esse ano teremos um encerramento do fim do verão diferente. Lee Fletcher veio até o Sr. D. e a mim e sugeriu, em nome de todos os campistas do chalé de Apolo, que remontássemos em forma de peça teatral o clássico "A Odisséia". A sugestão foi aceita, e todos os campistas devem contribuir de alguma forma para a realização da peça. E é só — Fletcher tomou uma posição empertigada quando Quíron terminou e começou a dar instruções.

Thalia parou de ouvir o que ele dizia tal era sua estupefação. Ela seria obrigada a fazer uma peça de teatro com todo o acampamento? Só podia ser brincadeira.

– Eu gostei da idéia — disse Luke a Thalia, meia hora mais tarde, quando os dois estavam no Arsenal vestindo armaduras para irem a Arena.

– Gostou, é? Eu achei terrível. Obrigada — disse Thalia, agradecendo por ele ajuda-lá a vestir a armadura.

– Não seja ranzinza Thalia. Há 5 anos que nos estamos nesse acampamento e nada de diferente acontece. Sempre as mesmas atividades, sempre a mesma coisa. Concordo que uma peça teatral não seria minha primeira idéia pra quebrar a rotina, mas já é alguma coisa.

– Quebrar a rotina — murmurou Thalia com desdém. — Você já não acha suficiente quase virar almoço de monstro todos os dias? — ela completou em tom normal.

Luke não respondeu.

Thalia virou-se para encará-lo e ele não olhava pra ela.

– Desculpa — foi só o que ela disse.

Ela se aproximou de Luke e tomou seu rosto em suas mãos, observando suas feições. Passou então um dedo pela cicatriz em seu rosto, traçando-a. Luke afastou suas mãos de seu rosto, e saiu em direção a Arena, deixando Thalia sozinha no Arsenal.

A garota deu um suspiro de frustração e saiu logo depois, fechando a porta ao passar.

Notas finais
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