Perfect Mind
2 Parte dois - Eles não são sua família
Todos os campistas caminhavam em direção ao anfiteatro; os filhos de Apolo estavam remontando em forma de peça a clássica obra de Homero, "A Odisséia", para apresenta-lá no fim do verão, antes que todos fossem embora.
Thalia já estava por ali há algum tempo, sentada na primeira fileira da arquibancada, de braços e pernas cruzados. Havia também muitas outras meninas por ali, no palco recém montado, rodeando Silena Beauregard. Ela havia ganho de presente uma pulseira de Beckendorf e desde então não parava de exibi-la. Fora o próprio Charlie que fizera para ela, e todas as garotas estavam extasiadas, reconsiderando se não deviam namorar um filho de Hefesto. Se Thalia tivesse almoçado, estaria vomitando.
Ela ainda observava a confusão quando Luke chegou e sentou-se ao seu lado. Thalia não o olhou, nem falou com ele. Continuou observando as garotas com o olhar duro. Luke olhou para frente, para ver o que Thalia observava.
– O que esta acontecendo? — perguntou Luke.
– Beckendorf deu uma pulseira a Silena — respondeu-lhe Thalia.
– Ah.
– Que ele mesmo fez — a garota concluiu.
Luke olhou para Thalia. Pareceu-lhe que Thalia, assim como as outras garotas, gostaria de ganhar um presente desses.
– E...? — tentou Luke.
– E nada. Isso é tudo. [n/e: sempre imagino isso dito em inglês]
– Ah, e o que você vai querer de presente de três anos de namoro?
Thalia olhou para Luke como se ele fosse louco.
– Eu não estou com inveja de Silena – queixou-se a garota, indignada.
– Eu não disse isso! – tentou se defender Luke.
Thalia o olhou feio, e voltou a observar as garotas.
Aos poucos os outros campistas foram chegando e quando todos finalmente estavam reunidos Lee Fletcher reuniu todos de pé em volta do palco e começou a falar sobre a história da peça para aqueles que não conheciam. Foi um longo monólogo. Thalia aproveitou aquele momento para mostrar a Luke que, por mais que ela estivesse maltratando-o nos últimos dias, estava tudo bem. Puxou-o pelas mãos, passando os braços dele em volta de seu corpo, em um abraço. Luke sorriu, entendendo o recado, e beijou-lhe no rosto.
Depois do discurso de Fletcher, as tarefas foram dividias entre os campistas. Os filhos de Afrodite logo se ofereceram para serem os atores, mas os testes só seriam mais tarde. Thalia ficou encarregada de ajudar no cenário, junto com alguns filhos de Dionísio, Atena e Hermes.
As semanas que se seguiram foram de trabalho intenso. Cada dia que passava aumentava a tensão entre os campistas e brigas tinham que ser apartadas a todo o momento.
Para Thalia aquelas semanas significaram solidão. Mesmo trabalhando em grupo com outros semideuses, ela quase não via Luke, que ficara com o papel de Alcínoo, e sendo ele o único que entendia e aceitava a grosseria de Thalia, ela acabou ficando isolada pelos outros. Sua única companhia era a voz em sua cabeça.
Ela sempre a ouvia quando havia outras pessoas por perto, então se controlava ao máximo para não demonstrar o que estava passando por sua cabeça.
Sem domínio sobre os próprios pensamentos, as vozes sussurravam a todo instante. Coisas relacionadas aos deuses e suas atitudes. Coisas que, na verdade, Thalia já havia pensado por si própria, e agora que ela as ouvia verbalizadas por outra pessoa, pareciam fazer ainda mais sentido.
Quando finalmente chegou o dia antecessor ao da apresentação, o último dia de ensaio, eles se permitiram relaxar com uma festa na praia, com direito a fogueira e música.
– O que você quer: salsicha ou marshmallow? – perguntou Luke.
– Marshmallow – respondeu Thalia sem muito interesse.
Luke começou a preparar os espetos. Parecia estar se divertindo fazendo aquilo. Thalia o observou por um tempo, então desviou o olhar para os outros campistas.
– Posso pegar minha amiga? – perguntou Annabeth vindo para perto da fogueira e puxando Thalia dali pela mão. Sentaram então em um tronco de árvore, não muito longe de Luke.
Logo Pólux veio correndo de volta a praia com um cálice ricamente decorado na mão. Ele deu um gole e o passou para a pessoa ao seu lado. Assim, o cálice passou de mão em mão, todos experimentando do feito de Pólux.
Havia o boato de que os filhos de Dionísio estariam fazendo vinho, mas ninguém sabia ao certo.
Quando chegou a vez de Thalia ela primeiro cheirou o conteúdo. Havia visto uma vez uns caras frescos na TV fazendo isso. O cheiro era doce, mas não como o de um perfume. Lembrava o de alguma flor, mas Thalia não conseguia associar o aroma a imagem da planta.
Então ela levou o líquido até os lábios. Já havia tomado vinho uma vez, mas o feito por mortais era incomparável ao feito por um filho de Dionísio. Havia algo de muito diferente nele; era mais suculento, como uma fruta, mas ainda amargo pelo álcool.
Thalia tomou outro gole.
– Ei! – chamou Annabeth, sentada ao seu lado. – Deixe um pouco pra mim!
Ela passou o cálice a Annabeth.
Thalia virou-se para olhar quando todos começaram a bater palmas, comemorando. Will Solace, do chalé de Apolo, estava voltando com uma flauta: a música iria começar.
Ao ver a flauta Thalia murchou: que tipo de festa era essa em que se tocava flauta? Mas quando Solace levou a flauta à boca e começou a soprar Thalia surpreendeu-se, pois da flauta saiam os sons de baixo, guitarra, bateria e a voz do Kurt Cobain. Estava tocando Aneurysm.
Muitas pessoas já haviam levantado e começado a dançar, inclusive Annabeth. Thalia acompanhava a introdução instrumental. Annabeth estendeu-lhe a mão, e as duas começaram a dançar juntas. Intercalavam passos do twist com, ao que parecia, os de uma quadrilha caipira. E riam alegremente.
Thalia cantava junto com o Kurt o “uh-huh” de cada verso, e depois repetia “beat it”. Com os braços para cima, girava no mesmo lugar, deixando o cabelo se bagunçar com o movimento.
Luke já estava segurando os espetos no fogo havia um bom tempo, mas os marshmallows ainda não estavam bons. Ele olhou para o lado procurando por Thalia e a viu sentada na areia, comendo uvas verdes e tomando algo que ele não conseguia ver o que era, junto a Annabeth e mais alguns filhos de Afrodite. Um deles estava de pé na roda e parecia estar contando algo engraçadíssimo, pois todos riam. Luke não se lembrava de um dia ter visto Thalia alegre daquele jeito.
Ele se aproximou do grupo e se abaixou perto de Thalia.
– Ei...
– Oi amor! – Disse Thalia, passando os braços em volta do pescoço de Luke. – Vem comigo! – Ela chamou, levantando-se e puxando ele pela mão.
Eles foram para uma parte afastada da praia onde havia um posto de salva-vidas abandonado. Thalia se embrenhou pela armação da estrutura, Luke seguindo-a. Pararam em um ponto onde a luz quase não chegava; Thalia abraçou Luke pelo pescoço novamente, e eles se beijaram.
Luke também não se lembrava de um dia ter beijado Thalia daquela maneira. Era cheio de urgência e voracidade. Suas mãos passeavam pelas costas da garota, traçando o caminho da coluna, sentindo os ossos salientes. Thalia apertava cada vez mais seus corpos juntos. Luke começou a beijar seu pescoço.
– Eu quero o raio – disse Thalia, alto e claro.
– O que? – perguntou Luke, diminuindo a intensidade dos beijos.
– Eu quero o raio de meu pai – repetiu Thalia, afastando-se de Luke para poder encará-lo.
Luke ficou confuso. Não entendeu porque Thalia estava lhe pedindo isso, mas assentiu.
– Claro.
Thalia lhe sorriu e o puxou de volta para os beijos. Ainda atordoado, Luke manteve os olhos abertos, sem se entregar. Mas aos poucos Thalia o envolveu novamente e ele já estava perdido nela.
Todos acordaram cedo na manhã seguinte, apesar de muitos ainda estarem cansados pela festa da noite passada. Todo o acampamento estava agitado: campistas corriam de um lado a outro colocando no lugar o que ainda não estava arrumado, sátiros e náiades e dríades ajudavam a dar os últimos retoques com suas magias.
Em um canto Thalia bocejava. O cenário, que era de sua responsabilidade, já estava pronto. Até onde sabia, todos os outros também estavam com suas tarefas concluídas. Mas o chalé de Apolo insistia em tentar melhorar os assentos reservados aos deuses. Qualquer outra pessoa entenderia a aflição deles, afinal, até Ártemis, com suas caçadoras, confirmara presença. Mas para Thalia isso era trivial.
Depois de três horas de extremo nervosismo, todos estavam prontos e posicionados, esperando para receber os deuses. Obviamente, Dionísio foi o primeiro a aparecer, afinal ele já estava ali. Aos poucos chegaram Hefesto, arrastado por Afrodite, Apolo, em seu carro esporte, Ártemis, com suas caçadoras, e todos os outros deuses. Por último chegaram Zeus e Hera, de braços dados posando de casal perfeito.
O estômago de Thalia revirou-se de raiva. Como eles ainda tinham coragem?
Não se esqueça do plano.
A voz. Thalia não esqueceria. Já repassara o plano um trilhão de vezes pela cabeça. Ainda não havia comentado os detalhes com Luke, mas isso também fazia parte do plano; avisá-lo somente na hora, para evitar desistências.
Com um último olhar de desprezo aos deuses, Thalia se voltou para a entrada da coxia. Lá encontrou Luke, seu belo Alcínoo, repassando as falas sozinho.
– Preparado para o grande momento? – perguntou Thalia ao se aproximar dele.
Luke abriu seu maior sorriso ao vê-la.
– Claro. Só estou repassando as falas e...
– Não estava falando da peça – Thalia o interrompeu.
Luke a olhou, confuso.
– Depois do terceiro ato, você vai pegar o raio para mim – explicou-lhe Thalia. – Como presente de três anos de namoro.
Thalia falava em um sussurro, para que mais ninguém ouvisse. Luke ainda não estava certo de que faria o que Thalia lhe pedia, mas quando ela se aproximou e o beijou, ele esqueceu do pedido.
Na arara mais próxima dos dois, agachado no chão procurando sua caneta/espada, estava o garoto novo, Percy Jackson, que ouvira o que Thalia falara, mas não entendera muito bem.
– Ok! Todos aqui! – chamou Lee Fletcher.
Thalia dirigiu um último sorriso de encorajamento a Luke e o puxou para a rodinha que se formava em volta de Fletcher. Eles então fizeram algo como que uma reza para que tudo corresse bem, e por último gritaram o clássico “merda”.
Thalia voltou para a plateia para dali acompanhar a peça. Percy ficou observando-a, quando viu um vulto loiro passar por ele.
– Ei, Annabeth! – chamou o garoto.
– Ah, oi! Ansioso para a peça? – perguntou Annabeth, puxando assunto.
– Sim, muito – respondeu-lhe ele, automático. – O que você sabe sobre raios?
Quando o fim do segundo ato se aproximou, Thalia se moveu de seu lugar para a orla da floresta, próximo de onde Zeus estava. Seria durante o quarto ato, no clímax da peça, que tudo ocorreria, e ela precisava estar pronta.
Enquanto esperava, chegou até a se distrair, tamanha a demora. Mas voltou a si quando viu Luke se esgueirar pela arquibancada. Thalia manteve os olhos fixos nele, preparada para o grande momento.
Luke estava atrás de onde Zeus estava sentado, com o braço esticado, prestes a tocar o raio...
Ele lançou um último olhar a Thalia, que estava quase explodindo de expectativa...
Luke voltou sua atenção ao raio, faltava pouco agora...
– Parem! – gritou alguém do palco, e não era parte da peça. – Parem! – Percy Jackson gritou novamente. – Luke está tentando roubar o raio de Zeus.
Várias coisas aconteceram ao mesmo tempo.
O queixo de Thalia caiu; como aquele pirralho recém-chegado além de saber sobre o plano tinha a ousadia de conta-lo assim?
Luke tentou recuar e fugir, mas foi interceptado por Zeus, que o agarrou de qualquer jeito e o jogou no vão entre a primeira fileira e o palco.
– Pirralho insolente! – gritou Zeus.
– Devemos voltar imediatamente para o Olimpo e realizar o julgamento deste semideus – ponderou Atena.
– Sua ousadia não necessita de julgamento; eu sei muito bem o que fazer nesses casos – respondeu-lhe Zeus.
Um giro de punho em direção ao garoto foi o suficiente para fazê-lo se estrebuchar. Luke começou vomitando sangue, depois algo maciço e ensanguentado foi sendo expelido por sua boca.
Thalia observava a tudo sem conseguir reagir de nenhuma forma. A maioria dos campistas tivera a mesma reação que Thalia. Ninguém conseguia acreditar no que via. Luke era um dos campistas que dava menos dor de cabeça a Quíron, era líder de seu chalé, um dos campistas mais velhos, uma figura de autoridade. Por que havia feito aquilo?
E sua punição... Era uma cena tão grotesca que muitos não conseguiam desviar os olhos, por mais repugnante que fosse ver Luke no chão, engasgado com as próprias vísceras.
Thalia mantinha os olhos grudados em Luke, sem saber o que fazer, sem saber como ajudar, sabia que ele estava morrendo e seu coração pesava, mas seu corpo foi se tornando leve, não como se ela estivesse voando, mas sim como se estivesse caindo, e tudo a sua volta começou a clarear num forte feixe de luz direto em seus olhos.
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