Perfect!
55 Shots on twilight
Notas iniciais
“Mesmo quando tudo pede;
Um pouco mais de calma;
Até quando o corpo pede;
Um pouco mais de alma;
A vida não para...”
Paciência
Lenine
Shopping El Dourado, Cental City (sexta-feira, 13/11- 15:34 p.m)
Narrador
—Deveríamos fazer isto mais vez! – Sarah sugere, sorridente, olhando as amigas em volta da mesa – O dia está sendo top! – declara, levando o canudinho a boca, sorvendo um pouco da bebida em seu copo.
—Concordo. Aliás, podíamos tornar isto oficial, tipo: um dia só para as meninas, como sua mãe e as amigas tinham, ou têm ainda, sei lá, né Maddie? – Camile anui, olhando diretamente para a prima.
—Tinham. Não conseguiram manter depois de casadas – responde a garota, suspirando aborrecida antes de erguer os olhos do celular – Além disso, Kendra foi morar em nova York, Anitta vive mais fora do que em Starling por conta das viagens do Jax, Max e Caroline mal têm tempo para respirar com o sucesso da loja de cupcakes e segundo tia Sara, depois do triangulo Barry / Emily / Íris o clima meio que ficou estranho já que as duas participavam dos encontros – relata, olhando o aparelho mais uma vez.
—Nada ainda? – Laura pergunta, levando uma colherada generosa de sorvete a boca.
—Hum, hum. Nem papai, nem o chato do meu irmão responderam. O pai até entendo. Pode estar em alguma reunião. Mas o peste do meu irmão....não sei no que pode estar tão ocupado assim. Não estou dizendo que esteja fazendo algo errado tá Laura – acrescenta rapidamente, rindo torto – Mas é que essa mania que o Ethan tem de não atender minhas ligações me irrita! – bufa fazendo as amigas rirem – Acho que teremos de voltar para casa de ônibus mesmo – supõe.
—Por mim tudo bem e relaxa, sei que Ethan não está fazendo nada errado– Laura afirma, dando de ombros.
—Também não vejo problema em voltar de ônibus Maddie– Sarah anui – O único lance chato nisso é que precisaremos ir agora para a rodoviária ou perderemos o penúltimo ônibus para Starling – conta, recebendo olhares intrigados – Minha mãe e eu viemos diversas vezes para cá quando ela discutia com meu pai e não queria passar o dia em casa, assim acabei memorizando os horários. Se não houve nenhuma alteração deve sair um as dezessete e depois somente por volta da vinte horas. Particularmente não gosto deste ultimo horário. Tem sempre muita gente esquisita – justifica a garota.
—Beleza então. Deixa acessar o site do terminal rodoviário e verificar se algo mudou – Camile se oferece, sobressaltando-se, junto com as demais, ao escutarem uma voz masculina questiona-las.
—Consultar site da rodoviária por que? – Ronnie Palmer pergunta, parando ao lado da filha – Por acaso não virão busca-las ? – quer saber.
—Pai? Que faz aqui? – Laura espanta-se.
—Negócios. E por que a surpresa? – quer saber, inclinando-se para beijar o topo da cabeça da filha.
—É que não esperava encontra-lo, só isso – justifica-se a garota.
—A reunião demorou mais do que o esperado caso contrário não iria encontrar-me mesmo – relata ele, voltando-se para Maddie – Então, seu pai não vira busca-las ? -insiste.
—Vem. Ele vem sim– apressa-se dizer a jovem – Na verdade já deve estar a caminho – mente.
—Não sei se isto é bom ou ruim, mas puxou a seus pais menina. Não sabe mentir – Ronnie ironiza fazendo-a corar.
—Pai, por favor não começa! – Laura pede, sem graça, empurrando a taça com sorvete para longe.
—O que houve? Não está conseguindo falar com ele? – pergunta, ignorando o pedido da filha — A verdade por favor – acresce antes que ela respondesse.
—É, não estou. Nem com ele nem com meu irmão pra saber o que houve – Maddie admite, resignada, enrugando e contorcendo a boca levemente – Combinamos de nos encontrar aqui na praça de alimentação as dezesseis e trinta. Já são quase dezesseis e não consigo confirmar se está a caminho ou não – explica, olhando a tela de seu celular novamente, frustrando-se ao ver que nada fora enviado em resposta quer por seu pai, quer pelo irmão.
—Vai ser pra lá de chato se formos embora e ele chegar, afinal é uma viagem e tanto! – Sarah comenta, terminando de tomar seu suco – É suco. Só suco – frisa ao notar o olhar inquisidor do pai de sua amiga.
—Não estamos bebendo senhor Palmer. Nenhuma de nós – Camile assegura, não escondendo sua irritação – Viemos nos divertir em companhia uma das outras. Fazer compras, assistir filmes, jogar boliche, paquerar, Sarah e eu no caso, ter um dia só de meninas e isto não inclui encher a cara, ficar bêbedas pra ter ressaca no dia seguinte – conclui, encarando-o desafiadora.
—Quando foi que ficaram tão atrevidas assim?? – questiona Ronnie, rindo com o canto da boca – Bem, não importa – acresce rapidamente – Estou voltando para Starling agora e como vim em um dos carros da Palmer Tech vou leva-las – avisa, causando-lhes surpresa.
—Hã...não é necessário senhor Palmer, podemos ir de ônibus caso não consiga falar com meu pai. Já estamos até vendo os horários – Maddie informa, ainda mais tensa – Se a Laura quiser ir, por nós tudo bem – libera, voltando-se para a amiga, lançando um pedido mudo de ajuda.
—Não seja tola menina! Por que estressar-se em um transporte demorado e desconfortável quando pode ir confortavelmente sentada com suas amigas, conversando tranquilamente, com musica e ar condicionado? – questiona-a, olhando as demais – Não me digam que preferem o estresse ao conforto? – inquere.
—Não seria tão desconfortável já que os ônibus tem ar, senhor Palmer, mas sem dúvida teremos mais liberdade para conversarmos indo de carro com o senhor, além do bônus de podermos escutar a musica que quisermos e não a que o motorista quer – discursa Sarah, recebendo três pares de olhares fulminantes – O quê? Estou sendo prática e honesta!.
—Honesta vá lá, mas praticidade definitivamente não é seu forte miga! Nem semancol – Camile ralha, fazendo a amiga enrugar o nariz numa careta.
—Melhor irmos de ônibus pai – Laura fala, erguendo o rosto para ele – Se não importa-se eu gostaria de ir com as meninas. Viemos juntas e quero voltar com elas. Está sendo um dia divertido, leve....
—E em que exatamente irá estragar seu dia caso retornem comigo? – Ronnie interrompe-a, cruzando os braços – Não pretendo ficar vigiando suas conversas, se é o que te preocupa, a menos que escute algo referente a seu namoro, tipo : estou pensando em transar com ele! – exemplifica fazendo a filha corar, Camile engasgar com o sorvete que pusera na boca e Sarah abrir a sua, abismada.
—Pai, por favor! – Laura consegue falar após recuperar-se.
—Isso não ouviria mesmo!!- Maddie garante — Até porque se ela e Ethan decidirem transar não irão pedir permissão ao senhor ou a nosso pai, portanto pode perder qualquer esperança de que irá saber quando isto acontecer. Mesmo para pai que é um pouco mais, digamos, aberto do que o senhor, pelo que sei, não pretendo contar quando transar com meu noivo, imagina a Laura e meu irmão – dispara, deixando as amigas boquiabertas – Além do mais, usando a mesma honestidade que o senhor, não sei se quero passar horas em companhia de alguém que declara abertamente odiar meu pai. Não me leve a mal, mas acho que ficaria um clima estranho não acha? – questiona-o.
—Sendo honesto senhorita Merlyn, ficaria sim – concorda – Ao menos no começo. Mas asseguro-lhe que não iria permanecer. Pode não parecer mas não sou tão chato quanto aparento – garante o mais velho, olhando-a admirado — Quanto a odiar seu pai, quero acreditar que saiba termos declarado trégua mutua por causa justamente deste bendito namoro de minha filha com seu irmão. Thomas e eu tivemos uma conversa bastante proveitosa a respeito disto e chegamos a um acordo satisfatório, acredito eu, já que a relação deles está indo de vento em popa, para minha surpresa já que, sendo filho de quem é, não pensei que pudesse ser fiel a uma única garota. Não querendo desfazer a imagem que tem dele....Mentira, quero sim! – corrige-se de imediato, rindo divertido – Seu pai não era exatamente um santo na idade de seu irmão. Boa parte das meninas do colégio já haviam passado pelas mãos dele quando sua mãe biológica apareceu e tentou pôr lhe rédeas engravidando. Mas acho que já sabia disto não é? – inquere ao final.
—Não com essa...hã... clareza toda, pode-se dizer – Maddie reconhece, fazendo um gesto com as mãos – E não precisava desta imagem na mente! Sério! – diz a jovem – Bem, de qualquer forma, essa é mais uma razão para não ir com o senhor não acha? – pergunta.
—Não, não acho – rebate, surpreendendo-a – Minha filha anda para cima e para baixo com seu pai e não faço a menor oposição faço? – compara, não dando a jovem chance responder – Continuando a ser honesto, como estamos sendo, ficarei deveras magoado se insistir em não ir comigo porque entenderei que julga iria fazer-lhe algum mal, o que de forma alguma aconteceria. Ainda que fosse seu irmão, a não ser que tivesse sacaneado minha menina, não o faria, portanto, paremos de perder tempo já que, pela forma impaciente com que tem olhado seu celular em busca de uma resposta que aparentemente não veio e posto que já se passaram alguns preciosos minutos, sugiro irmos andando – conclui, encarando-a.
—Caramba Maddie, diante de um discurso destes fica difícil até para mim dizer não! – Camile declara.
—Não dá mesmo – murmura a garota, suspirando – Ok senhor Palmer. Correndo o risco de deixar meu pai muito chateado...bastante chateado, vamos com o senhor – rende-se, olhando a tela de seu aparelho desanimada – No caminho tento contato com ele novamente e conto o que aconteceu – declara, levantando.
—Que tal levarmos um lanchinho para o caminho? – Sarah sugere, imitando a amiga.
—Olha, eu realmente queria saber como tu consegue manter este corpitcho comendo da maneira que come!! É algo a ser estudado pela ciência! – brinca Camile, recolhendo suas sacolas ao levantar.
—Genética, fazer o que? – responde a garota, abrindo um largo sorriso, pegando suas sacolas.
—E por acaso alguma de vocês aqui é gorda? Tem mulheres que matariam para ter estes corpinhos – Ronnie elogia, tomando para si a responsabilidade de levar as sacolas da filha.
—Hã....Obrigada... acho – Maddie titubeia, estranhando o aparente bom humor apresentado pelo pai da amiga.
—Deveras, quem usa palavras como esta hoje em dia? – Camile indaga enquanto seguem pelo corredor, olhando diretamente para Laura – Sem contar este bom humor todo. Seu pai é uma figura viu!! – exclama, a jovem anuindo com um aceno, suspirando, olhando o pai, confusa.
O grupo vai direto a uma loja para que pudessem comprar o lanche sugerido por Sarah. Após o fazerem, dirigem-se ao estacionamento.
—Vou enviar uma mensagem a meu pai avisando que estamos a caminho – Maddie comunica depois de haverem se acomodado no interior do veículo.
—Se preferir, pode ocultar que está comigo, mas pelo que conheço de seu pai é preferível que fale a verdade – Palmer declara, manobrando o carro – Cinto filha – cobra ao notar que ela esquecera – Ok senhoritas, o que desejam escutar? Jazz, Blues? – questiona-as recebendo olhares de estranhamento – O que foi? Perguntei algo errado por acaso? – quer saber, adentrando a via pública após deixarem o estacionamento do shopping.
—Jazz e Blues? Sério pai? – Laura devolve, balançando a cabeça negativamente – Deixa que eu cuido disso – avisa, ligando o rádio do automóvel.
—Ok – responde ele simplesmente, acelerando em direção a highway.
Haviam cruzado o limite da cidade faziam alguns minutos quando o celular de Maddie toca.
—É meu irmão – anuncia a garota, tomando coragem antes de atender – Oi Ethan, por onde andou? Tentei falar com você um milhão de vezes – exagera.
< Boa tarde pra você também, mana > retruca ele de volta < Estava ajudando a cuidar dos anjinhos... e acabei ganhando uns probleminhas aqui! > exclama, prosseguindo sem dar a irmã chance de falar < Olha só, o pai está atrasado mas não é culpa dele. Teve que esperar por mim....e pelo Connor. Pronto, falei! > exclama o rapaz, rindo < Estraguei a surpresa mas pelo menos não ficou com raiva achando que o pai tinha te esquecido! > justifica-se < Já estamos a caminho viu! > revela, a garota retendo o ar ao escutar a frase, dirigindo um olhar tenso a prima a seu lado < Não ficou zangada não é? > questiona o rapaz.
—Hã...não...não fiquei não – responde, o tom vacilante não passando despercebido ao irmão.
< Tem certeza, porque me parece chateada > observa.
—Melhor avisar que estamos a caminho Maddie, assim tio Tommy não dá viagem perdida – Camile aconselha.
—Tarde demais – Maddie responde.
< O que é tarde demais? > Ethan questiona do outro lado da linha, curioso.
—Primeiro, me diz aonde vocês estão – pede a garota.
< Saindo daquele posto localizado na metade do caminho para Central City. Paramos para abastecer porque não havíamos abastecido antes de sair de Starling já que papai não queria perder ainda mais tempo > explica < Por que? Algum problema? > pergunta.
—Porque acabamos de pegar a rodovia para Starling. Estamos a caminho de casa, as meninas e eu....
< Ué, basta dizer o número do ônibus que o pai dá a volta e esperamos vocês na rodo...>
—Não estamos voltando de ônibus Ethan. O senhor Palmer, pai da Laura, quem está nos levando de carro !!!....
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Rodovia para Central (16:47 p.m)
Ethan
< Não estamos voltando de ônibus Ethan. O senhor Palmer, pai da Laura, quem está nos levando de carro! >
A informação dada por minha irmã ecoava em minha mente. Demorei tempo demais para processar e isto acabou deixando nosso pai desconfiado.
—Ethan, o que há? Aconteceu alguma coisa a sua irmã? – ouço-o perguntar ao mesmo tempo em que Maddie chama minha atenção do outro lado da linha.
< Ethan, ouviu o que eu disse? > questiona-me.
—Maldição Ethan, fale logo!! O que aconteceu? Maddie está ferida? Ou alguma outra menina? – papai insiste, irritado e antes que me esgane com uma mão, respondo, antevendo sua reação.
—Estão voltando pra casa com o pai da Laura – informo de um golpe só, precisando apoiar as mãos no painel a fim de evitar chocar-me contra o mesmo ante a freada brusca que dá (sorte não haver ninguém atrás de nós ou teria sido abalroado) – Putz pai, quase perdi meu celular! – resmungo, me arrependendo da frase no momento em que fito seu rosto – Desculpe, eu não....
—Ponha no viva voz – ordena e obedeço sem contestar ( já estava bastante ferrado com ele naquele dia para me arriscar ficar ainda mais !!).
—Maddie, tô pondo no viva voz. O pai quer falar com você – aviso, ela soltando um suspiro alto – Pronto.
< Oi pai. Desculpa não ter esperado mas é que não conseguia contato com o senhor, não tinha como saber se estava a caminho ou algo tinha atrapalhado e você não poderia vir ...e como o senhor Palmer nos encontrou aqui, no shopping e ofereceu carona... acabamos aceitando > explica de um fôlego só, o que indica que está nervosa e certamente com receio da reação de nosso pai.
—Aonde vocês estão? –papai quer saber – Em que altura da rodovia, quero dizer? – especifica, sua voz saindo mais calma do que esperávamos. Calma demais na verdade.
< Não sei bem...espera... > Maddie pede fazendo uma pausa breve < Entramos na rodovia propriamente dita. Quilometro vinte em direção a Starling...> nova pausa aonde podemos escutar a voz do pai de minha namorada explicando algo < Pai, o senhor Palmer vai falar com o senhor > Maddie avisa segundos antes de a voz dele se fazer ouvir....
< Boa tarde Merlyn. Como sua filha explicou, encontrei-as na praça de alimentação após haver terminado o almoço de negócios para o qual vim a Central City. Ofereci carona já que não conseguiam lhe falar. Espero não ter causado nenhum desconforto entre vocês > declara o senhor Palmer com aparente sinceridade < Se preferir, podemos nos encontrar no caminho e Madeleine e a prima podem passar para seu carro assim sua viagem não será de todo perdida posto que, pelo que entendi, já estão na metade do caminho correto? > sugere.
—Um pouco mais que isso – papai responde, refletindo um segundo antes de voltar a falar – Não há necessidade. Podem continuar com você até em casa – diz e o olho espantado — Se não for incomodar, deixe Maddie e Camile na entrada do condomínio aonde moramos, por favor – pede, pondo o carro em movimento novamente.
< Deixarei, não se preocupe > garante o senhor Palmer.
—Ok. Estou fazendo a volta e retornando a Starling. Obrigado e mais uma vez desculpe-me o incomodo Ronald – papai diz, olhando os retrovisores.
< Incomodo algum. Sua filha quer falar-lhe novamente > avisa e ouço o farfalhar de alguma coisa antes de ouvir a voz de minha irmã outra vez...
< Pai, o que houve com seu celular? Tentei ligar uma dezena de vezes e dava sempre número inexistente > quer saber e sinto meu rosto esquentar.
—Pergunte a seu irmão! – responde nosso pai, o toque de irritação se fazendo notar, buscando mais uma vez os retrovisores, ligando o pisca alerta a fim de avisar algum motorista que se aproximasse estar fazendo o retorno em meio a auto estrada.
< Ethan, o que aprontou??? > inquire daquele jeito que só ela consegue fazer!
—Eh...eu ... bem, eu...- gaguejo.
—Ethan pegou o celular do seu pai e deixou de bobeira amor. Resultado: três anjinhos que conhecemos o encontraram e ai já pode imaginar o resto! – Connor adianta-se, inclinando-se entre os bancos, me provocando, o som de risos do outro lado da linha e o bufar de papai me deixando ainda mais sem graça.
—Não deixei de bobeira coisa nenhuma! Sai apenas um minuto pra pegar um lanche e eles entraram no meu quarto e fizeram uma montanha de bagunça e traquinagem incluindo estragar o celular do pai, foi isso! – defendo-me – Que culpa tenho se são uns pestes!? – declaro, zangado.
—Um: não fale assim sobre seus irmãos. Dois: nem deveria estar com Meu celular pra começo de conversa e três...- antes que papai pudesse completar seu raciocínio, duas coisas acontecem quase simultaneamente.
—Que zumbido é esse?? – Connor o interrompe com a pergunta...
—Parece com...- e quando vou responder ouvimos um estouro forte ao mesmo tempo em que o carro começa a derrapar.
—Pai!!?? – chamo, largando meu celular, agarrando-me ao painel, assustando-me ao escutar outro estouro que faz meu pai perder o controle de nosso carro.
—SEGUREM-SE! – é a última coisa que ouço-o dizer.
No minuto seguinte, o carro rompia a proteção de metal que permeava toda a rodovia a nossa direita, precipitando-se pelo declive acentuado.
Ainda vejo meu pai lutar, em vão, para evitar a sequência de capotagens que nos joga cada vez mais para baixo no que agora percebi ser uma ribanceira íngreme. Dor e agonia se misturam com imagens de meus irmãos, minha mãe e namorada passando na velocidade de um flash a minha frente, como num filme em câmera lenta.
Então assim que é morrer!?, penso, um ultimo e mais forte impacto deixando tudo escuro e silencioso.
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“....Será que é tempo que lhe falta pra perceber;
Será que temos esse tempo pra perder;
E quem quer saber;
A vida é tão rara (Tão rara!)...”
Ronald Palmer (16:41 p.m)
—Ethan?? – escuto, pela terceira vez, a filha de Thomas Merlyn dizer, a urgência em sua voz fazendo-me olha-la pelo retrovisor interno – Ethan??- nova tentativa aparentemente sem sucesso.
—O que há? – questiono, após um breve silencio aonde a vejo morder lábio inferior – Algum problema? – insisto.
—N-não sei – gagueja, olhando o aparelho em suas mãos – Estava conversando com meu irmão e meu noivo quando a ligação caiu – relata, mordendo o lábio mais uma vez.
—Deve ser o mesmo problema que tivemos lá em Central, Maddie, nada mais. Daqui a pouco tenta de novo que você consegue – a amiga tranquiliza-a. Melhor dizendo, tenta, a expressão em seu rosto dizendo-me que algo não estava certo.
—O que a esta incomodando? Seu irmão disse algo que não gostou? – interrogo, sentindo-me penalizado, confesso (acho que a idade está me amolecendo um pouco!) – Ou ouviu algo que não gostou? – intuo – Seu pai reclamou por estar comigo? – quero saber, preparando-me para tudo. Ao menos foi o que pensei até ouvi-la falar.
—Connor e Ethan estavam comentando algo sobre um zumbido e depois....- cala-se, apertando as mãos, elevando meu nível de estresse.
—Depois o que?? – instigo-a prosseguir.
—Não sei... posso ter-me enganado ou talvez tenha sido o vento, não sei – recomeça, olhando-me pelo retrovisor – Pensei ter escutado algo estourar – declara e sinto um calafrio percorrer minha espinha.
Nunca gostei deste tipo de sensação pelo simples fato de sempre que a tive algo de ruim aconteceu a mim ou a alguém próximo, sendo meu amigo ou não. Neste caso, o pai dela.
—Que tipo de estouro? Alto, baixo, abafado? Parecia com o quê? – reinquiro, olhando-a pelo retrovisor novamente.
—Como assim parecia com o quê? – devolve e suspiro em busca de controlar meus nervos. Pressentia não ser hora de perder a paciência tão rapidamente.
—Semelhante um saco de papel sendo estourado, ou uma embalagem daqueles sucos em caixa, ou um balão muito grande... – exemplifico, sua resposta confirmando meus temores.
—Um balão grande...ou talvez uma dessas embalagens que falou porém maior – responde e respiro fundo tentando encontrar uma maneira fácil de revelar minhas suspeitas sem a deixar apavorada. Sem deixar qualquer uma delas apavorada incluindo minha filha.
—Ok – digo, ganhando tempo, olhando os retrovisores – ok – repito, tomando forte respiração — Madeleine e Laura, gostaria de ter uma maneira fácil ou menos assustadora de falar e honestamente espero estar enganado – começo dizer, olhando-as de soslaio – O que ouviu pode ou não ter sido o estouro de um pneu – digo, direto, vendo as quatro garotas reterem o ar nos pulmões – Agora, quero que as quatro mantenham a calma e sigam minhas instruções o mais precisamente possível, ok? – ordeno, olhando-as rapidamente – Laura, você e Madeleine tentem contato com seu namorado e o noivo dela, vocês duas tentem contato com Thomas...
—O celular de meu pai não está funcionando. Parece que meus irmãos mais novos causaram algum problema com ele. Era sobre isto que estávamos conversando – relata Madeleine, angustiada.
—Escute mocinha, não sofra por antecipação. Posso estar errado e mesmo que não esteja um pneu estourado pode não ser nada – minto.
—Com todo respeito senhor Palmer, até eu que não entendo bulhufas sobre carros além do fato de terem quatro rodas e serem movidos a algum tipo de combustível, sei que isto não é verdade. Nosso professor já nos mostrou diversos vídeos de acidentes provocados por estouros de pneus! – relembra a ruivinha de cabelos cacheados, Sarah.
—Sarah, não está ajudando – a prima da filha do Merlyn, Camile, ralha.
—Desculpa, mas é que quando fico nervosa falo pelos cotovelos, como devem estar notando – justifica-se a ruivinha.
—Neste caso melhor que tente conter-se minha jovem – recomendo, acionando a discagem de emergência em meu celular, conectando ao carro via bluethooth.
< Patrulha rodoviária, qual a emergência? > a voz nasalada pergunta.
—Quero relatar um provável acidente na atura do quilometro cinquenta e sete sentido Starling / Central City – comunico, mantendo meus olhos atentos a estrada.
< Provável acidente senhor? > questiona a mulher do outro lado da linha.
—Sim. A filha de um conhecido, que está comigo em meu carro, estava falando ao telefone com o irmão, este encontrando-se na companhia do pai, quando escutou o que pode ter sido um pneu estourando. Desde então não estamos conseguindo contato com eles – relato detalhadamente – Estou em sentindo contrário. Mais alguns minutos em minha velocidade atual estarei no mesmo ponto aonde disseram estar no último contato. Estou atento a estrada, mas gostaria de solicitar o envio de uma viatura para averiguação – peço.
< Enviarei o helicóptero para averiguar senhor. Peço que, caso alcancem o local antes e verifiquem a validade de sua suspeita, comunique-nos de imediato > solicita a atendente.
—Farei isto – garanto, desligando após ouvir dela a recomendação de não tentar fazer nada caso descobríssemos que de fato ocorrera um acidente, o que para mim é quase uma certeza.
Um pneu estourado, mesmo que em baixa velocidade, raramente não é causa de acidente. Se mais ou menos grave, com ou sem vitimas fatais, irá depender tanto da habilidade do condutor quanto do terreno no qual o veículo derrapar. Neste caso, o fator preocupante é quão perto estaria do guard rail quando o pneu estourou.
—Nada? – questiono ao notar Laura suspirar profundamente a meu lado pondo o celular sobre o colo.
—Não – minha filha responde, claramente angustiada, o soluçar as minhas costas chamando minha atenção.
Pelo retrovisor, vejo a jovem filha de Thomas controlando-se a muito custo, o olhar perdendo-se ora na tela do celular, ora na paisagem lá fora, ansiosa. Penso em dizer algo porém me calo. Nada do que eu diga irá tranquiliza-la ou a minha filha. A aflição que tomava conta delas era quase palpável agora.
Suspiro, voltando prestar atenção a estrada, rezando (após muito tempo que não o fazia) para desta vez estar enganado. Não por gostar de Thomas ou de seu filho, mas pelas garotas em minha companhia, afinal estavam sofrendo. Ok, talvez estivesse um pouco preocupado com os dois, melhor dizendo, os três. Droga, estava muito preocupado com os três ocupantes daquele bendito carro, tenho que reconhecer. Meu lado sensível estava ganhando a batalha com meu lado duro, que tentava manter-me imparcial e insensível por conta de meu passado com o Merlyn. E ganhando de goleada!
—Definitivamente a velhice está me amolecendo! – resmungo.
—Senhor Palmer, caso tenha acontecido um acidente, teremos como saber onde ocorreu? – a ruivinha pergunta fazendo-me procura-la pelo retrovisor – Quero ocupar minha mente para não pensar em bobagens que logo vão escapar da minha boca e magoar minhas amigas – assume, baixando a vista, sem graça.
—Sarah, desculpa se fui grossa com você. É que estou nervosa com o que pode ter acontecido ao tio Tommy , meu primo e Connor – pede a sobrinha do Merlyn, pondo a mão no ombro da amiga.
—Pai, acha que....- Laura tenta questionar-me, porém sua voz não sai. Lágrimas pesadas caem de seus olhos e de imediato sinto um aperto que nunca senti antes.
A verdade é que não tinha lá muita prática nesse negocio de ser pai. Quando Laura nasceu estava longe, separado da mãe dela, as volta com um casamento malfadado. Quando fui procurar consolo nos braços da pessoa que realmente amava, descobri que Sheila dera a luz uma menina. Minha menina.
Na época tinha muito a perder caso me expusesse portanto, depois do fracasso em casar com Cait, logo optei pela segurança: casei-me com a mãe de minha filha escolhendo não apresenta-las de imediato a minha família.
Reconheço que até hoje nunca fui um pai presente para Laura mesmo quando as trouxe para morar comigo em Starling. Sempre me preocupei mais em esconder minha vida pregressa, meu passado nebuloso, proibindo-a interagir com qualquer um que pudesse me comprometer, ao contrário de Thomas, devo reconhecer. O que não adiantou muita coisa posto seu namorado era o filho dele.
—Estamos chegando ao quilometro cinquenta e sete – Madeleine alerta, colando seu rosto ao vidro da janela traseira, a prima, minha filha e a amiga imitando-a – Veem alguma coisa? – pergunta ela, ansiosa, recebendo um coro de nãos em resposta.
—Devem procurar por....- começo dizer, calando-me ao divisar alguns metros à frente, a direita, justamente o que Não desejava encontrar – Merda! Só desta vez queria realmente estar errado! – resmungo alto demais, chamando atenção das quatro jovens em minha companhia.
—Aquilo é...?? – Madeleine inquire, não conseguindo completar a frase.
—Marcas de frenagem ... e a droga de um guad rail arrebentado! – confirmo entre dentes, parando meu carro alguns metros depois do local aonde uma parte da barreira que ladeia a auto estrada do lado direito fora arrebentada – Fiquem aqui. Não saiam a menos que as chame entenderam? – ordeno, soltando meu cinto de segurança, olhando-as uma a uma – Entenderam? – reforço quando não dizem nada.
—Sim senhor – respondem num coro estranhamente apático.
Desço já com o celular em mãos, apertando a tecla de chamada de emergência enquanto caminho a passos largos até o local.
< Patrulha rodoviária, qual sua emergência? > uma voz diferente da que me atendera anteriormente pergunta.
—Liguei alguns minutos atrás comunicando um provável acidente na altura do quilometro cinquenta e sete sentido Starling para Central City – relembro, aproximando-me da borda aonde a proteção rompera – Estou confirmando: houve um acidente – alerto, atentando as marcas na vegetação, melhor dizendo, na ausência de vegetação posto que fora arrancada pelo veículo.
< Certo senhor. O helicóptero será enviado o mais rápido possível > avisa e bufo.
—Está decolando apenas agora? A outra atendente garantiu que enviaria imediatamente. E se estiverem gravemente feridos? Esta demora pode fazer toda a diferença! – esbravejo tentando localizar o carro.
< Houve um pequeno problema que já foi resolvido senhor. Não se preocupe. Além do helicóptero uma unidade terrestre já está a caminho > explica < Por favor, não tente remover as vítimas > recomenda.
—Claro que não tentarei – bufo, desligando, descendo alguns metros ainda não conseguindo enxergar o veículo do Merlyn, as vozes juvenis fazendo-me voltar o rosto em direção a elas.
—Pai! Papai! Maddie...Connor... – Laura balbucia, nervosa, vindo a meu encontro seguida de perto pelas demais.
—O que eu falei a respeito de não saírem do carro?? – ralho, encarando-as – Não ouviram o que disse por um acaso? – interrogo-as.
—Ouvimos senhor Palmer, mas isto é importante – a sobrinha de Thomas justifica-as – Connor...ele está ao telefone com Maddie – revela – Ele acordou...e..
—Passe-me o telefone agora! – ordeno, estendendo a mão a filha de Thomas, meu tom não permitindo contestação – Rapaz, como está? – pergunto assim que recebo o aparelho, a respiração irregular porém forte dele me trazendo um pouco de alivio.
< B-bem...a-acho > balbucia em resposta.
—Ok. Consegue mover-se mesmo que minimamente? – inquiro, a resposta demorando alguns segundos.
< Sim > sopra.
—Certo. Eis o que quero que faça: primeiramente tente verificar como Thomas e o filho estão. Acha que consegue fazer isto? – pergunto – Não force. Caso não consiga, permaneça quieto – acresço rápido. Não queria ser responsabilizado por nenhuma lesão em sua coluna.
< Consigo sim senhor > garante, calando-se durante um tempo impreciso, o som de gemidos e o farfalhar de alguma coisa chegando a meus ouvidos < O Ethan está bem... digo, está como eu...está acordando > conta e entendo os gemidos < O senhor Merlyn está desacordado...acho que ele...ele não parece estar respirando! > exclama, assustado, e sinto um mal estar crescente.
—Leve dois dedos ao pescoço dele, na junção com o queixo. Faça uma leve pressão e aguarde alguns segundos – oriento o mais baixo que consigo, evitando olhar a jovem ansiosa a meu lado.
Novo silencio por parte dele, só que desta vez não consigo esperar.
—Então? – pergunto, não conseguindo disfarçar a ansiedade – Sentiu algo? – insisto.
< Sinto sim senhor > responde finalmente e volto a respirar < Ele parece...machucado...mais que a gente > relata pausadamente.
—Normal – minto, tentando tranquiliza-lo – Agora quero que tente fazer outra coisa: o resgate já está a caminho, porém quero ir até vocês para tranquilizar estas senhoritas aqui a meu lado – digo, tomando ar antes de prosseguir – Veja se consegue acionar a buzina para que saiba aonde estão – peço – Mais uma vez, não force. Se não conseguir, tudo bem – recomendo.
< Sim senhor > responde, silenciando outra vez.
Passam-se alguns minutos até que escutemos o som de uma buzina cerca de uns duzentos metros abaixo e a nossa esquerda.
—Segure isto e pelo amor de Deus, me obedeçam. Fiquem aqui até que diga o contrário entenderam? – ordeno, despindo meu terno, entregando-o a Laura.
—Sim senhor – dizem em coro outra vez, minha filha olhando-me ansiosa.
—Fique aqui Laura. A viatura de emergência já deve estar chegando e precisam saber aonde parar – argumento, ela acenando afirmativamente, muda – Peça-lhe que acione a buzina com intervalos regulares – volto-me para Madeleine, esta obedecendo-me.
Guiado pelo som da buzina, avanço. Pelo caminho, os destroços do carro confirmam que estou na direção certa.
Havia dado aproximadamente uns quarenta e poucos passos quando, além do som da buzina soar mais perto, vislumbro o brilho metálico do automóvel sob o sol poente.
Faço os últimos metros num passo rápido, quase correndo, alcançando o veículo em poucos minutos.
Para minha surpresa, e felicidade de seus ocupantes, havia parado sobre as quatro rodas. Me aproximo com cuidado. Não sabia como era o terreno depois do automóvel e não queria me por ou pô-los em risco causando algum tipo de deslizamento. Mais uma vez a sorte sorriu para Thomas Merlyn. A frente de seu carro o terreno estendia-se regular, levemente inclinado, porém não encontravam-se sobre nenhum monte ou desnível que pudesse fazer com que cedesse caso começasse a mexer, o que faço assim que certifico-me ser seguro mesmo sabendo não estar agindo corretamente. Queria ter certeza de que o rapaz não enganara-se.
—Hei – falo, o jovem na parte traseira voltando o rosto ensanguentado para mim. Tinha um corte profundo na testa mas não parecia sangrar naquele momento. Outros pequenos ferimentos espalhavam-se por seu rosto, ombro e braços – Connor, presumo – identifico-o, ele acenando afirmativamente de forma torpe – Consegue sair? – questiono-o, correndo o olhar pelo interior do automóvel, seu silencio preocupando-me – Hei, olhe pra mim. Consegue sair? – repito, recebendo a mesma resposta de antes – Ótimo – digo, forçando a porta até abrir, ajudando-o sair – Sente-se aqui e mantenha-se acordado – ordeno, verificando que tinha mais ferimentos nas pernas, nenhum deles com sangramento intenso, graças a Deus – Entendeu o que eu disse garoto? – pergunto.
—S-sim senhor – responde parecendo um pouco mais alerta.
—Ótimo. Vou ver os outros – aviso, indo até o namorado de minha filha que, apesar de estar de olhos abertos, parecia distante – Ethan – chamo, forçando a porta, essa cedendo bem mais fácil que a anterior – Ethan, pode me ouvir? – pergunto, passando a mão a frente de seus rosto, obtendo resposta na terceira tentativa – Como sente-se? – quero saber, notando o corte profundo acima do supercilio – Ethan!! – chamo de forma mais firme ao mesmo tempo em que pressiono o local diminuindo o sangramento.
—Doí! – reclama, erguendo o braço na tentativa de afastar minha mão.
—Eu sei mas preciso conter um pouco desse sangue – afirmo, segurando seu pulso, a careta de dor alertando-me que poderia o ter fraturado – Consegue sair? – questiono-o, soltando o cinto de segurança, afastando o airbag com a mão livre sem deixar de pressionar o ferimento em sua fronte, o deslizar de terra fazendo-me olhar em direção a auto estrada – Mas que diabos, desconhecem o sentido da palavra obediência pelo visto!?! – esbravejo ao ver minha filha vindo em nossa direção enquanto as demais dirigiam-se para o outro lado, o medo em seu semblante preocupando-me – O que foi agora? Seu namorado esta vivo! – exclamo assim que para a meu lado.
—Vimos um homem descendo a encosta...- diz, olhando-me assustada — Pai, ele parece estar armado! – revela.
—Armado? – repito, olhando para o alto, tensão e medo tomando-me – Quão longe está? – quero saber, ajudando o filho de Thomas que justo naquela hora cisma de mover-se.
—Laura! – chama, praticamente atirando-se sobre ela.
—Ethan...eu...- minha filha tenta falar mas o choro não permite.
—Agora não é hora para isto – ralho, apoiando o braço do garoto em meu ombro, tirando-o de cima dela – Precisamos nos esconder até sabermos quem é este sujeito que viram – lembro, olhando em direção ao topo mais uma vez, milhares de teorias e questionamentos cruzando minha mente num piscar de olhos – Já que me desobedeceram, tratem de ajudar com este ai – resmungo, fazendo as três garotas mexerem-se ajudando o rapaz levantar – Sigam em frente, em direção aqueles arbustos. Deixem o mínimo de rastros possível – recomendo, lembrando algo que vira num documentário ou filme, sei lá.
—Meu pai! – Madeleine exclama, estancando.
—Seu pai está desacordado, não corre perigo, nós sim. Agora siga em frente – ordeno, dando uma olhada em direção ao carro e novamente ao topo do declive, xingando mentalmente a equipe de resgate que nunca chegava – Andem, mais rápido! – apreso-as ao notar o deslizar de terra indicando que alguém se aproximava.
Para nossa sorte, hoje o sol decidira pôr-se mais cedo, o que nos daria proteção. Bastava-nos ficar quietos por detrás do imenso arbusto enquanto o estranho estivesse por perto.
—Acha que ele é perigoso pai? – Laura questiona-me assim que nos posicionamos no declive por detrás da moita, ajudando-me a por seu namorado deitado no solo o mais próximo que conseguimos.
—Até que me provem o contrário sim – respondo, atento aos sons a nosso redor já que, se por um lado a escuridão crescente nos servia de proteção, por outro nos deixava igualmente “cegos” – Fiquem o mais próximo que conseguirem e não façam barulho – recomendo, olhando as outras meninas, sinalizando para abaixarem-se.
Quando termino de posiciona-las e me posiciono de forma a poder observar o carro e seu entorno, noto o movimento discreto no interior do veículo.
—Só pode estar brincando!! -exclamo, xingando baixinho – Merda Merlyn, escolheu uma péssima hora para despertar – sussurro, o facho de luz discreto situando-me acerca da posição do estranho.
Novamente olho em direção ao carro, suspirando ao vê-lo mover a cabeça minimamente.
—Merda! – xingo outra vez, voltando-me para minha filha – Laura, fique aqui e mantenha-se e aos demais quietos. Em hipótese alguma, escute o que escutar, movam-se, gritem ou mesmo falem, entendeu? – recomendo num sussurro junto a seu ouvido – E por tudo que é sagrado, obedeçam-me desta vez! – imploro, não esperando resposta.
Cuidadosamente, guiado pelo facho da lanterna, posto que escurecera numa rapidez espantosa, usando a escuridão como proteção, me reaproximo do carro optando por ir direto ao lado do carona, adentrando o mais silenciosa e cuidadosamente possível, erguendo-me a fim de verificar aonde o estranho encontrava-se, um frio formando-se em meu estomago ao perceber que dirigia-se ao arbusto aonde os jovens estavam. Num ímpeto, cato a primeira coisa que minhas mãos alcançam atirando-a no sentido oposto, atirando-me ao solo, vendo, por debaixo do veículo, o facho afastar-se deles e por tabela do carro. Aproveito para adentrar o mesmo, aproximando-me o máximo de Thomas.
—Escute Merlyn, não é uma boa hora para voltar ao mundo dos vivos! – cochicho buscando o facho da lanterna – Um homem armado espreita-nos. Não faço ideia de quem seja e qual sua intenção. Os jovens estão escondidos. Consegui afasta-lo mas logo retornara. Aconselho que mantenha os olhos fechados e sequer respire daqui alguns segundos e espero não estar fazendo papel de idiota falando com uma pessoa desacordada – murmuro, localizando o facho da lanterna vindo em nossa direção.
—Não... esta – responde-me Merlyn de forma quase inaudível.
—Bom – respondo, enfiando-me por detrás dos bancos – ele vem vindo – sussurro em aviso, cobrindo a cabeça com o blazer que encontro no assoalho mantendo-me completamente imóvel.
Durante o que me pareceu uma eternidade o estranho permanece investigando o carro, caminhando em volta, indo e voltando, o som de suas pegadas sendo a única coisa que escuto. Quando finalmente pensei que ia afastar-se, surpreendo-me ao escutar uma porta ser aberta para logo em seguida ouvir uma voz gutural perguntando alguma coisa que não entendo, parecendo furiosa, mas para meu alivio neste exato momento um facho de luz maior vindo do céu anuncia a chegada (finalmente) da equipe de resgate e por tabela espanta o estranho.
Saio de meu “esconderijo” indo direto a Thomas, verificando seus sinais.
—Estou...vivo Palmer – anuncia, virando a cabeça de lado, seus olhos azuis intensos me fitando – Ethan...Connor – balbucia.
—Laura, podem sair – chamo, respirando aliviado ao escutar o chamado do resgate – AQUI! ESTAMOS AQUI! – grito, visualizando os jovens aproximando-se lentamente – Estão todos bem Merlyn – aviso.
—Bom – responde, fazendo uma careta – Quem era...?? – pergunta, fazendo nova careta.
—Não sei, mas não gostei do que ouvi mesmo não tendo entendido uma vírgula. Notei tratar-se de uma pergunta por conta da entonação – afirmo.
—Russo – Thomas diz e enrugo o cenho, confuso – Era russo – explica, tossindo intensamente.
—Poupe-se – aconselho voltando-me ao escutar e ver as luzes do resgate – Aqui, rápido. Os outro dois estão ali – aponto o grupo de jovens sentados alguns passos de onde estamos.
—O senhor está bem? – um rapaz loiro pergunta-me.
—Sim. Fui eu quem comunicou o acidente mas não estava envolvido – explico, afastando-me para que pudessem atender Thomas.
—Pai...é a mamãe – Laura chama minha atenção, fungando – Não estou conseguindo falar ...- soluça, entregando-me seu celular.
—Tudo bem minha querida, deixe isso comigo. Sente-se – peço, respirando fundo antes de falar com minha ex – Sheila, escute bem, quero que se acalme e sente-se, caso esteja de pé, e não me interrompa até que termine. Não estou com paciência ou tempo para ficar repetindo-me – ordeno, contando-lhe pausadamente tudo que se passara desde que encontrei nossa filha e as amigas até a descoberta do carro, não omitindo nem mesmo o sujeito misterioso com a arma enquanto acompanho o resgate a Thomas Merlyn, o filho e o futuro genro.
Quando termino, Sheila esta as lagrimas, por mais que tenha-lhe dito que todos estavam bem, sendo preciso meu ex sogro assumir a ligação comprometendo-se de entrar em contato com as famílias avisando o ocorrido desligando em seguida.
—Pai, quero ir com Ethan mas o pessoal disse que precisa autorizar – Laura me surpreende, chorosa – Por favor, me deixe ir com ele!! – implora.
—Tudo bem – libero, encarando o paramédico – Para onde irão leva-los? – questiono.
—Starling. Todos os três. Os dois rapazes irão na ambulância e o mais velho no helicóptero – comunica.
—Por que? Ele não esta bem? – preocupo-me, voltando-me para o local aonde a aeronave pousara, vendo-os colocarem a maca em seu interior.
—Apenas por ter ferimentos mais severos e haver perdido mais sangue. Não corre risco de morte senhor – tranquiliza-me – Irá seguir-nos? – quer saber, ajudando minha filha adentrar a ambulância.
—Sim – confirmo, buscando as outras garotas com o olhar.
—Estão próximas a outra ambulância – o paramédico avisa ao perceber minha aflição – A outra garota também é sua filha? – questiona, completando – Ela quer ir com o rapaz...
—É o noivo dela e não, não é minha filha. O pai está no helicóptero e o irmão é este ai – aponto o interior do veículo de socorro.
—Então melhor que vá com o noivo – pondera o rapaz, falando ao radio em seu ombro, liberando o acesso de Madeleine a outra ambulância – Estamos indo – avisa, fechando um lado da porta.
—Te vejo no hospital minha querida e fique calma filha. Ele vai ficar bem – garanto, soltando um beijo para ela, que me sorri pequeno antes de o segundo lado da porta ser fechado.
—Senhor, os pertences que recolhemos das vítimas. Irá leva-los ou ficarão conosco? – um bombeiro pergunta, estendendo-me um saco transparente.
—Levo – respondo, segurando-o, olhando o veículo – E quanto ao carro? – quero saber.
—Será levado a central para ser periciado a fim de esclarecer a causa do acidente. A principio parece-me ter sido provocado pelo estouro de dois pneus – comunica, tocando a ponta de seu capacete antes de afastar-se.
—Não fosse nosso amigo russo armado sei lá com o que, pensaria o mesmo...Agora já não tenho tanta certeza – digo para mim mesmo, voltando-me, caminhando ao encontro das amigas de Laura, que me aguardavam, seus olhos vermelhos e inchados denunciando-as – Vamos – chamo, conduzindo-as ao carro em silencio – Vai ficar tudo bem meninas, os Merlyn são duros na queda, sendo eles de sangue ou não – brinco, tranquilizando-as o suficiente para conseguir arrancar-lhes um sorriso tímido, piscando antes de por o carro em movimento, seguindo atrás dos veículos de emergência, preparando-me mentalmente para o encontro com minha ex, meus ex sogros e principalmente com Caitlin.
“Mesmo quando o tudo pede um pouco mais de calma;
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma;
Eu sei, a vida é tão rara ( a vida não para);
A vida é tão rara...”

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