Notas iniciais
Se você acha que tem algo de errado acontecendo, eu explico tem sim algo de errado acontecendo. Primeiro que não era para eu estar postando esse bônus, porque ele nem sequer existia. Mas esse é o meu personagem favorito, e ele merece glamour. E em segundo lugar esse capítulo acontece uma semana depois que a Nancy chega em Phoenix, estou abrindo espaço para o próximo núcleo.

― Acorde senhor Paul, está na hora de tomar seu remédio. ― Aquela voz doce e melodiosa que mais parecia um arrastar de correntes.

Ignorei seu chamado e fingi continuar dormindo.

― Senhor Paul. Acorde.

Mais que mulherzinha persistente dos infernos.

― Me dê essa porcaria. ― Peguei o remédio de sua mão e joguei dentro da boca empurrado por um copo de água. ― Satisfeita?

― Bastante senhor. ― A enfermeira saiu e dei graças a Deus.

Se eu pudesse ir embora desse lugar eu iria, o que eu precisava não era de remédios e sim de uma garrafa de cerveja, um bom filme de faroeste e uma namorada. Vai me dizer que só porque sou velho que não posso pensar nessas coisas?

Vesti as roupas que a enfermeira Susan me deixou em cima da cômoda, minha calça jeans e uma camiseta escrita: Eu sou um bad-boy e sai para mais uma volta pelos arredores do asilo St. Domingos.

Você quer saber como eu vim parar aqui. Ora que indelicadeza meu caro, sinto lhe informar mas não vou contar absolutamente nada.

Não minto, tenho amigos que agora considero indispensáveis no meu resto de vida, mas eu não estava feliz. Eu queria fazer coisas diferentes, não preso em um lugar fingido de "lar".

Depois de uma idade a sensação de abandono e certeza da futilidade da vida parece ainda mais presente.

― Thomas venha ver minha nova pintura.

― Lourel gatinha mais que margarida maravilhosa. ― Sorri para ela que pintava alegremente. ― Ouso dizer que está tão bela quanto a artista.

― Você é um amor querido. Já viu meu Daniel por aí? Ele disse que ia vir me buscar hoje.

― Falei com ele Lourel, não se preucupe ele está vindo.

― Você vai adorar ele Thomas.

Iria.

― Não tenho dúvidas gatinha.

Coloquei as mãos nos bolsos da calça e me despedi de Lourel. Ela era uma das minhas amigas, a melhor, um doce de mulher. Se fosse mais jovem eu acabava com a raça da filha dela.

Lourel passou a maior parte da sua vida pintando quadros para sustentar o casal de filhos. Com o tempo foi perdendo a lucidez e quando filha ganhou muito dinheiro, a deixou aqui. O filho sofreu um acidente de carro e morreu, era o único que realmente se importava com ela.
Todos os dias ela pergunta por ele.

Infelizmente essa só é uma das muitas histórias daqui. Já pensou em com setenta anos e cega, sua filha te deixar em um asilo alegando fazer compras e nunca mais voltar? É, já aconteceu também.

Há uns que odeiem, outros que gostem, mas em resumo estamos todos em um mesmo maldito lugar.

Em um asilo.

― Paul Thomas? ― Parei de andar e fitei a jovem que me chamava. Ela estava com roupas comuns, e jovem demais para ser uma funcionária.

Ela parecia ter no máximo dezoito anos. Com uma pele pálida e expressivos olhos claros, que não consegui distinguir a cor e cabelos castanhos compridos e cacheados.

― Mais outro remédio brotinho? Por que se for vou logo avisando que eu não vou tomar. ― Sentenciei.

― Não sou enfermeira, garanto. ― Ela sorriu e contatei que ela de fato não era enfermeira. ― Sou uma voluntária. Vou trabalhar com o senhor e mais outros quatro idosos. É um novo projeto que estão montando, antes eu ficava na cozinha.

Estão nos mandando adolescentes? E idoso uma pinoia, em meus setenta e quatro anos posso afirmar que estou em forma.

― Vai me ensinar alguma coisa?

Ela se divertiu com a minha pergunta e começei a simpatizar com a garota.

― Pelo contrário senhor Paul Thomas, se alguém tem algo pra ensinar, esse alguém é você.

― Gostei de você brotinho, qual o seu nome?

Ela me estendeu a mão.

― Nancy Vougan. ― A neta da coordenadora. ― A propósito gostei da blusa.

Notas finais
Espero que tenham gostado! As situações acima são baseadas em fatos reais, e sempre que tiverem oportunidade visitem os asilos e orfanatos é uma experiência modificadora. Abraço de urso!