Perdição
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Sonho 11: A sala de conferências estava vazia quando Ethan trancou a porta. Não houve aviso, discussão ou sequer um "bom dia". Apenas o clique seco da fechadura e aquele olhar azul perigosamente calmo atravessando a mesa de vidro.
"Você tem ideia do que faz comigo quando me desafia em público, Sara?" Ele afrouxava os botões do punho lentamente enquanto caminhava na minha direção. Um predador corporativo em um terno absurdamente caro.
Eu recuava até sentir a borda fria da mesa pressionando minhas costas.
"Ethan..."
"Não." Ele apoiava as mãos ao lado do meu corpo, me prendendo ali sem realmente tocar em mim. "Agora você vai me ouvir."
Eu estava atrasada.
Dois minutos de atraso poderiam transforma minha vida em um completo inferno, ainda mais quando se trabalha para Ethan Stern.
Ele era capaz de transforma a vida de qualquer em um pesadelo, e infelizmente transtorna minha vida parecia ser uma de suas diversões favoritas.
O motorista do táxi estacionou bem em frente ao prédio da empresa. Um suspiro de alívio saiu dos meus lábios ao ver que eu estava três minutos atrasada, com sorte ele encontrava-se perturbando a existência de um pobre infeliz e nem tenha notado a minha falta.
Mas, como sorte é uma palavra que não existe em meu pequeno dicionário pessoal, nesse exato momento Ethan Stern localizava-se em seu escritório em frente a sua mesa preparando um adorável discurso sobre meu atraso.
Paguei o motorista e agradeci por ele ter burlado todos os sinais de transito e conseguido fazer com que eu chegasse a sã e salva e não tão atrasada na Stern Media Group.
O motorista de táxi acelerou como se estivesse em Interlagos, passando por cima de uma poça que deveria ter o seu próprio CEP.
O resultado?
Um tsunami de água suja de Nova York batendo direto nas minhas pernas, atingindo minha saia com a precisão de um míssel.
— Puta que pariu.
A melhor parte de ser fluente em português é ter em mãos o melhor acervo do mundo para palavrões. A segunda melhor parte, usá-lo livremente sem olhares discriminatórios quando se mora fora.
— Filho de uma... — O xingamento em português morreu na minha garganta enquanto eu olhava para a minha saia azul, agora com um degradê digno de um pântano.
Aquele motorista de táxi devia ter uma licença para pilotar barcos, não carros.
Se eu estivesse no banco de trás da Maybach blindada do meu padrasto, eu nem teria sentido o solavanco. Mas não, eu escolhi a 'experiência autêntica' da classe trabalhadora, e a experiência autêntica tinha cheiro de bueiro e esgoto.
Se eu fosse uma protagonista de filme fofo, eu choraria. Como eu sou Sara Mason, metade brasileira, metade cafeína e 100% atrasada, eu apenas ajeitei a coluna e entrei no prédio.
Eu tinha agora seis minutos de atraso. Para Ethan Stern, isso era o equivalente a um crime de guerra.
O elevador estava lotado, e as paradas que fazia em cada andar pareciam durar uma eternidade. Eu olhava para o relógio no meu pulso a cada três segundos, e a cada olhada desejava que o tempo tivesse parado. Rezei para que a terra me engolisse, ou que Ethan tivesse sido abduzido. Cadê o ET Bilu quando se precisa dele?
Cheguei dez minutos atrasada na minha mesa e o desalmado e sem coração do meu chefe me fuzilou com o olhar. Sua carranca era visível a quilômetros de distância, e ele não fazia nenhuma questão de esconder isso.
Lá estava ele, em toda a sua glória de terno sob medida, cheirando a dinheiro e a decisões ruins.
— Srta. Mason. — A voz dele era um barítono que vibrava nos meus ossos, infelizmente. — Pensei que o horário de início fosse às oito, não quando você decidisse que sua presença era necessária. E vejo que resolveu adotar o estilo "sobrevivente de naufrágio" hoje.
Eu respirei fundo. Não o mate, Sara.
— Se quiser que eu compre um despertador ou um bote inflável para você, é só descontar do seu bônus. — Ele deu aquele sorriso presunçoso, o tipo de sorriso que me fazia querer socá-lo e beijá-lo ao mesmo tempo. — Vá para sua mesa. E, por favor, tente não pingar no carpete. É caro.
Eu respirei fundo. Não o mate, Sara. Repeti novamente como um mantra.
O seguro-desemprego não é o problema; o problema é ter que voltar para a mansão dos meus pais com o rabo entre as pernas e admitir para o meu padrasto que eu não aguentei nove meses no 'mundo real'.
A humilhação de ser sustentada por ele era muito pior do que qualquer humilhação pluvial que o Ethan pudesse me causar
Fui para a minha mesa bufando. Trabalhar na Stern Media Group era o bilhete dourado para o meu futuro, a joia da coroa da publicidade em Nova York. Eu sabia disso. Meu currículo sabia disso.
E se a SMG era a joia da coroa da publicidade, e eu estava ali para roubá-la. Não o dinheiro (eu já tinha o suficiente) mas o conhecimento.
Eu não era idiota. Estar na SMG era o ápice da carreira para qualquer publicitária, e eu não ia jogar meses de esforço no lixo por causa de um ego inflado.
Eu queria ser a melhor sem usar o sobrenome Mason. Queria que o Ethan Stern me respeitasse antes de saber que eu poderia, tecnicamente, ser a maior acionista de um dos seus concorrentes se fizesse uma ligação para o escritório do meu advogado.
O problema é que o Ethan não era apenas um chefe difícil; ele era um tirano com rosto de anjo e a alma de um agiota.
Revidar seria o meu fim profissional, então eu praticava o meu melhor 'sorriso de assistente eficiente' enquanto, mentalmente, o atropelava com um caminhão de lixo. Infelizmente, no meu diário, o caminhão de lixo era substituído por coisas muito menos letais e muito mais pecaminosas.
A aparência de Ethan Stern era o meu maior lembrete de que o universo não tem senso de justiça. Ele era alto, com aqueles cabelos de um loiro escuro perfeitamente desalinhados que pareciam ter sido bagunçados por um ventilador profissional ou por uma sequência de pecados, os quais eu, infelizmente, visualizava com detalhes em meu diário.
Eu sempre tive uma teoria: homens loiros são o diabo na terra. Não confie neles. Existe algo naquela genética de 'príncipe encantado da Disney' que esconde uma alma de vilão de filme de terror. O Ethan era o líder dessa seita.
Com aquela barba por fazer emoldurando um rosto que parecia ter sido esculpido sob encomenda e olhos azuis tão poderosos que pareciam estar constantemente escaneando meus segredos mais sujos, ele era a prova viva de que o perigo não usa chifres; ele usa ternos de três peças e tem fios dourados. Ele não era apenas o meu chefe; era a minha perdição particular com filtro de luz solar.
Ethan Stern não era apenas um homem; era um evento catastrófico para a libido feminina. As mulheres se jogavam aos seus pés com tanta frequência que eu me perguntava se ele não tinha um seguro de responsabilidade civil para danos causados por tropeços em saltos agulha.
Ele provocava um efeito devastador em qualquer ambiente e, por mais que meu lado racional quisesse protocolar uma reclamação formal no RH, eu não estava a salvo.
odiar a personalidade dele e, ao mesmo tempo, ter um subconsciente que insistia em projetar filmes de classificação +18 com ele toda santa noite? Meus sonhos eróticos com aquele loiro de alma sombria estavam se tornando um trabalho de meio período não remunerado.
Eu acordava às três da manhã, ofegante, suada e com uma vontade pecaminosa de cometer um crime (ou um pecado).
No fim das contas, a culpa do meu atraso era inteiramente dele. Se Ethan não fosse tão insistente em invadir minha mente enquanto eu dormia, eu não estaria tão exausta ao acordar.
Tecnicamente, aquilo era assédio onírico, e ele me devia horas extras por isso.
Eu já batia ponto na Stern Media Group há nove meses. Comecei como a estagiária que trazia cafés e ideias brilhantes, e logo após a formatura, fui promovida a assistente do Richard Stern, um homem adorável que, tragicamente para o meu bem-estar mental, decidiu se aposentar.
Ele deixou o império nas mãos dos filhos, e foi aí que minha vida virou um roteiro de filme de terror (com um vilão absurdamente GOSTOSO).
Nos últimos três meses, minha rotina consistia basicamente em duas tarefas: ser uma profissional impecável e me segurar para não cometer um crime passional contra Ethan Stern.
Teoricamente, com o diploma de publicidade na mão, eu já deveria estar criando campanhas e ganhando prêmios, não agendando as reuniões de um loiro prepotente e com ego inflado.
Mas eu tinha um plano: prometi a mim mesma um ano de 'imersão total' para aprender com os melhores antes de voar sozinha.
Faltavam apenas três meses para o fim do meu autoexílio na assistência, e a ideia de nunca mais ter que ver a carranca de Ethan era o meu combustível diário. No fundo, eu amava o desafio. Queria esfregar na cara dele que eu não era apenas a garota que anotava recados, mas a publicitária que ia deixar a SMG implorando para que eu não fosse embora.
Eu mal tive tempo de sentar e sentir o frescor do ar-condicionado secando o resto da humilhação pluvial na minha saia quando a sombra do mal se projetou sobre a minha mesa. Ele estava de volta.
— Srta. Mason, preciso de cópias do contrato com a Firgo — disse ele, sem sequer me dar um 'bom dia' ou perguntar se eu precisava de uma boia.
Ethan deslizou o olhar para o Rolex no pulso com uma lentidão teatral. Aquele relógio provavelmente custava o preço de um rim saudável no mercado negro, e ele o usava como uma arma de tortura psicológica.
— Quero os documentos na minha mesa em dez minutos. A reunião que seria após o almoço acaba de ser adiantada. — Ele se inclinou levemos em minha direção, o suficiente para que eu sentisse o cheiro de sucesso e deboche que emanava dele.
Então, ele me deu o sorriso. Não era um sorriso gentil; era uma curva de lábios letal, do tipo 'eu sei que você vai falhar e mal posso esperar para te dar um sermão sobre pontualidade'.
Sem esperar uma resposta, ele deu meia-volta e caminhou em direção à sua sala, com aquela confiança irritante de quem sabe que o mundo gira em torno do seu próprio eixo loiro.
Eu odeio esse homem.
Soltei um suspiro que veio lá do fundo da alma, de um lugar onde eu já estava planejando como seria o funeral do Ethan. Infelizmente, as chances de eu falhar naquela missão impossível eram de 99,9%, o que, para o ego dele, eram as estatísticas ideais.
Agarrei o contrato da Firgo como se fosse um escudo e marchei em direção à sala de xerox. O corredor parecia uma passarela da vergonha, com o meu rastro de água da chuva ainda me perseguindo. Quando cheguei, havia uma fila digna de pré-venda de show de rock.
— É para o Stern? — perguntou um estagiário pálido, me olhando com a mesma piedade que se dedica a um condenado à morte.
— Dez minutos. — Respondi, minha voz carregada de um desespero controlado.
Como se eu tivesse aberto o Mar Vermelho, a fila se dissipou instantaneamente. Ninguém queria ser o responsável pelo atraso de Ethan Stern.
Eles sabiam que, quando o 'Loiro do Mal' perdia a paciência, o Wi-Fi da empresa parecia até cair de medo. Me deixaram passar à frente com uma reverência silenciosa e aterrorizada. Eu agradeci com um aceno rápido, sentindo o peso da responsabilidade, e o calor da máquina de xerox que, naquele momento, era minha única aliada contra o desemprego.
A Firgo era a nova promessa no mercado de rações premium para cães, e o objetivo da SMG era nada menos que a dominação mundial das tigelas caninas. Se existia alguém capaz de convencer um dono de pet que aquela ração era o equivalente a um jantar no Michelin para o seu Golden Retriever, esse alguém era Ethan Stern.
Esse era o grande problema. O motivo real e irritante pelo qual eu ainda não tinha enviado meu currículo para a concorrência acompanhado de uma foto do meu dedo do meio.
Ethan podia ser um estúpido arrogante que provavelmente tinha um bloco de gelo no lugar do coração, mas o homem era um gênio do marketing. Assistir ele trabalhando era como ver um maestro regendo uma orquestra de marcas e milhões de dólares.
Ele não apenas sabia o que estava fazendo; ele fazia isso com uma precisão cirúrgica e uma paixão que, por puro azar da minha genética, eu achava terrivelmente atraente. Era degradante admitir, mas eu estava ali para aprender com o melhor, mesmo que o 'melhor' fosse o vilão da minha história.
— Dia difícil? — Amanda surgiu ao meu lado, parecendo saída de um editorial de moda da Vogue corporativa.
Como sempre, seus cabelos loiros estavam presos em um coque tão perfeito que parecia desafiar as leis da gravidade, e o batom vermelho sangue dava ao seu rosto pálido um ar de quem nunca foi atingida por uma poça d'água de Nova York na vida.
— Um verdadeiro inferno — bufei, sentindo minha saia ainda úmida grudar na perna. — E o Stern está empenhado em ganhar o título de Lúcifer do mês. Ele está fazendo de tudo para deixar as coisas piores.
Amanda jogou a cabeça para trás e soltou uma risada sonora que ecoou pela sala de xerox. Revirei os olhos, mas não consegui evitar um sorriso torto; pelo menos alguém estava se divertindo com a minha desgraça.
Ela trabalhava para o William, o que tecnicamente a tornava a pessoa mais sortuda de Manhattan. Ao contrário do irmão, que parecia ter sido forjado no gelo e na arrogância, Will era o "Loiro do Bem": um chefe compreensivo, agradável e que provavelmente não usava o relógio para cronometrar os segundos de vida dos funcionários.
Ele era a exceção da minha regra. O único homem loiro legal que já conheci.
— Boa sorte, Sara. Você vai precisar de todo o seu axé hoje — Amanda piscou para mim, o rosto ainda corado de tanto rir.
— Obrigada. Vou precisar de sorte, paciência e, possivelmente, de um advogado criminalista até o fim do dia — respondi, pegando minhas cópias e saindo em disparada.
Oito minutos. Esse foi o tempo recorde que levei para lutar contra a máquina de xerox, vencer a fila de desesperados e voltar voando para a sala do Sr. Stern.
Bati na porta, tentando controlar a respiração para não parecer que tinha acabado de correr uma maratona na umidade de Nova York. Ouvi um entre curto e seco, e deslizei para dentro.
— As cópias do contrato que o senhor pediu — anunciei, mantendo a voz o mais profissional possível. — Dez cópias, para garantir.
Ethan nem se deu ao trabalho de olhar para cima imediatamente. Ele estava ocupado demais sendo importante com outro papel, que deixou de lado com um desdém estudado para pegar o que eu oferecia.
— Cinco seriam suficientes. Acabei de encontrar os originais que haviam sumido — mentiu ele, com a cara mais lavada do mundo.
O sangue subiu às minhas bochechas.
Ele sabia, eu sabia, e até o Rolex dele sabia que aquilo era uma mentira descarada para me punir pelo atraso. Era uma vingança mesquinha embrulhada em um terno de três mil dólares.
— A reunião começa em dez minutos — continuou ele, finalmente me encarando com aqueles olhos azuis que pareciam lasers de julgamento. — E, embora você claramente não esteja em seu melhor estado... apresentável, vou precisar de você lá dentro.
Não apresentável? Meu desejo era dizer que não apresentável era o caráter dele, ou talvez soltar um palavrão em português tão bem articulado que ele ficaria confuso por uma semana.
Abri a boca, as palavras de revide já dançando na ponta da língua, mas a fechei logo em seguida.
Era exatamente o que ele queria: que eu surtasse, desse o show que ele precisava para me demitir com justa causa. E eu não daria esse gostinho ao Loiro do Mal.
Saí daquela sala sentindo o oxigênio queimar nos meus pulmões.
Trabalhar para Ethan Stern era um teste de resistência que nenhum curso de publicidade me preparou para enfrentar. Manter a calma era um conceito abstrato, algo que eu só conseguia visualizar em meditações guiadas que eu abandonava no segundo minuto.
Eu não podia surtar, não podia mandar o herdeiro da SMG para o quinto dos infernos com um sotaque brasileiro bem carregado, porque eu sabia que ele teria o prazer sádico de enterrar minha carreira antes mesmo do meu primeiro prêmio Cannes Lions.
Sentei na minha mesa e enterrei o rosto nas mãos, tentando não deixar o ódio transbordar pelos olhos.
Precisava de um plano, ou de um milagre. Abri a primeira gaveta e encarei meus dois cúmplices: dois cadernos de capa preta, absolutamente idênticos.
O primeiro era meu porto seguro profissional, preenchido com organogramas, orçamentos e as frases curtas e grossas que Ethan disparava em reuniões. O tablet, que deveria ser meu aliado tecnológico, havia decidido cometer suicídio digital semanas atrás, me forçando a voltar à era analógica do papel e caneta.
O segundo caderno, no entanto, era onde o perigo morava. Ele tinha o mesmo peso, a mesma textura e a mesma capa discreta, mas o conteúdo era dinamite pura.
Era o meu caderninho quente, o repositório de todos os meus devaneios inconfessáveis com o homem que eu acabara de querer esfaquear com uma lapiseira. Ter os dois ali, lado a lado, era como brincar de desarmar bombas em pleno horário comercial. Um erro de cálculo, uma mão apressada, e minha vida profissional viraria cinzas em papel pólen.
E por que eu tinha dois cadernos idênticos? Por que não um caderno rosa choque ou um tablet com senha biométrica para os meus segredos? Porque, no fundo, eu achava aquilo divertidamente perigoso.
Era o meu pequeno ato de rebelião silenciosa.
Escrever confissões, pensamentos e os meus desejos mais profanos em um espelho fiel do meu caderno de trabalho era como esconder um segredo à luz do dia; era o ápice da adrenalina corporativa.
Havia um prazer doentio em saber que eu podia estar em uma reunião séria, fingindo anotar orçamentos, enquanto na verdade estava a um movimento de gaveta de distância de me tornar a pessoa mais procurada, e possivelmente processada, da Stern Media Group.
Eu vivia no limite, e o limite tinha capa preta e cheiro de papel novo.
Aquele caderno era o santuário dos meus desejos mais profundos, o lugar onde eu depositava sonhos que fariam um roteirista de filmes proibidos corar.
A pior parte de tudo (a facada final no meu orgulho) era saber que Ethan Stern era o protagonista absoluto de cada parágrafo. Era humilhante admitir que aquele filho da puta (gostoso) arrogante conseguia invadir meu subconsciente com tanta eficiência quanto invadia o mercado publicitário.
Ele me fazia acordar no meio da madrugada, com a respiração errática e o corpo em chamas, me obrigando a marchar até o banheiro para um banho gelado punitivo às três da manhã. Enquanto ele provavelmente dormia o sono dos justos (ou dos tiranos), eu estava ali, tiritando sob a água fria e amaldiçoando cada centímetro daquela genética loira abençoada que me perseguia até quando eu fechava os olhos.
Eu o odiava com cada fibra do meu ser enquanto estava acordada, mas meu corpo... bem, meu corpo parecia ser um traidor da pátria com sérios problemas de critério.
Com meu diário em mãos, peguei a caneta com uma fúria quase carnal e escrevi:
Sonho 32: Ethan Stern morre afogado em uma piscina de café gelado enquanto eu assisto comendo um pão de queijo. Mas, antes de afundar, ele tira a camisa e...
— Creio que já esteja pronta, Srta. Mason. — A voz de Ethan surgiu como um trovão bem atrás de mim, fazendo meu coração disparar contra as costelas.
Joguei meu caderno na gaveta e a fechei com um chute sutil, mas desesperado, e agarrei o caderno de notas, o oficial (eu espero) com as mãos levemente trêmulas.
Levantei-me em um salto, agradecendo mentalmente a todos os deuses da moda por minha saia já estar seca.
Agora, restava apenas uma mancha quase imperceptível no tecido azul-escuro, um mapa geográfico da minha humilhação matinal.
— Estou — respondi, tentando recuperar a dignidade. — Já podemos ir.
Caminhamos em direção ao elevador em um silêncio tenso, quebrado apenas pelo som dos meus saltos e do passo firme dele. O último andar da SMG era o "Monte Olimpo" da publicidade.
Era ali que os grandes contratos eram assinados e os corações dos estagiários eram estraçalhados. O hall de entrada era um desfile de sofisticação e elegância moderna: vasos monumentais, orquídeas que provavelmente recebiam mais cuidados que eu e uma iluminação que conseguia ser acolhedora e intimidadora ao mesmo tempo.
Entramos na sala de reuniões principal. A mesa de vidro era tão longa que eu quase esperava ver um avião pousando nela. Sete pessoas já estavam a postos, incluindo os representantes da Firgo. Sentei-me ao lado de uma mulher elegante em um vestido roxo, a personificação da seriedade executiva.
Ethan, claro, ocupou a cabeceira, sentando-se exatamente de frente para mim. Ele me encarou por um segundo, um olhar azul tão gélido e penetrante que me fez apertar o caderno contra o peito. O jogo ia começar, e eu só esperava que minha mente não decidisse projetar o "Sonho 19" bem no meio dos gráficos de vendas.
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