Perdição
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Sonho 11: Então ele pegava minha caneta da mesa, girando entre os dedos.
"Aqui está o problema, Srta. Mason." O tom dele ficava perigosamente baixo. "Você fala demais... e eu fico imaginando outras formas de ocupar essa boca."

O trajeto de elevador até o último andar foi uma prova de resistência para os meus batimentos cardíacos.
O espaço era pequeno demais para conter o ego de Ethan Stern e o meu nervosismo, sem mencionar o rastro de sândalo e poder que emanava dele, ocupando cada centímetro cúbico de oxigênio.
Quando as portas se abriram, o "Monte Olimpo" da SMG nos recebeu. O andar da diretoria era uma ode à sofisticação: o pé-direito alto abrigava vasos monumentais com orquídeas que exalavam uma elegância quase intimidadora.
Era um ambiente moderno, com vidros do chão ao teto revelando a selva de pedra de Nova York, mas que conseguia manter um tom acolhedor, o tipo de lugar onde decisões de milhões de dólares eram tomadas com um gole de uísque.
Caminhamos até a sala de conferências principal, onde a atmosfera mudou de "luxo" para "arena". Sete pessoas já ocupavam seus postos, organizadas com uma precisão quase militar.
Deslizei para a cadeira ao lado de uma mulher de traços marcantes em um vestido roxo, a seriedade em pessoa, provavelmente a mente por trás da Firgo.
Ethan, no entanto, não se sentou na cabeceira, como de costume. Ele ocupou o lugar exatamente à minha frente. A mesa de vidro entre nós parecia pequena demais para a intensidade do seu olhar.
Ele ajeitou os botões do punho com uma calma exasperante, cravando os olhos azuis nos meus como se pudesse ler cada linha que eu tinha acabado de escrever na gaveta da minha mesa.
O jogo não ia apenas começar; ele já estava sendo jogado.
A reunião começou com Ethan assumindo o controle da sala como um predador alfa em um terno de corte impecável. Ele estava em seu elemento, destrinchando métricas com uma frieza que faria um iceberg parecer acolhedor.
Eu, por outro lado, tentava focar minha atenção no caderno oficial, mas minha mente era uma traidora reincidente.
— O posicionamento da Firgo precisa ser agressivo — Ethan declarou, inclinando-se levemente sobre a mesa. A luz de Nova York entrava pelas janelas e atingia o loiro do cabelo dele, criando uma aura que ele definitivamente não merecia. — Não queremos apenas uma entrada sutil. O que buscamos aqui, senhores, é uma penetração profunda no mercado.
Eu quase engasguei com o ar.
Uma tosse seca e desesperada escapou da minha garganta, e eu precisei levar a mão à boca, sentindo meu rosto esquentar instantaneamente.
Penetração profunda. Santo Deus.
Minha memória fotográfica, em um ato de pura sabotagem, projetou o "Sonho 14" na minha frente: Ethan, sem aquele terno, as mãos grandes segurando minha cintura enquanto...
— Algum problema, Srta. Mason? — A voz dele cortou meus devaneios como uma lâmina de gelo.
Levantei o olhar e encontrei Ethan me observando. Ele não parecia preocupado; ele parecia divertido. Havia um brilho de deboche naqueles olhos azuis, como se ele soubesse exatamente que tipo de caos estava causando nos meus neurônios.
— Nenhum, Sr. Stern — respondi, minha voz um oitavo acima do normal. — Apenas... o ar condicionado. Um pouco seco.
Quando recuperei o fôlego após o comentário sobre o mercado, Ethan se inclinou um pouco mais, apoiando os cotovelos na mesa de vidro.
— Você parece tensa, Srta. Mason. Talvez esteja preocupada com o... clímax da campanha? — Ele deu ênfase à palavra de um jeito que só eu entendi. — Ou será que o roteiro que você tem em mente é um pouco mais descritivo do que o esperado?
— Estou perfeitamente focada, senhor — respondi, sentindo o suor frio.
— Ótimo. Porque detesto quando a narrativa se perde em devaneios. Gosto de uma estrutura firme. — Ele abriu um sorriso que era puro veneno. — Algo que prenda o leitor da primeira à última página. Não concorda?
Senti o sangue latejar nas minhas têmporas.
Ele estava se divertindo com o meu colapso interno. Cruzei as pernas sob a mesa de vidro, tentando recuperar qualquer vestígio de dignidade, e sustentei o olhar dele.
— Concordo que a firmeza é essencial para evitar que a história desmorone, Sr. Stern — respondi, minha voz carregada de uma ironia que eu esperava que soasse profissional. — Mas às vezes, o que prende o leitor são as nuances... os detalhes que ficam nas entrelinhas. Aquilo que não é dito, mas que se sente sob a superfície.
Ethan inclinou a cabeça, os olhos azuis brilhando com um reconhecimento perigoso. Ele tamborilou os dedos sobre o tampo de vidro, o som ecoando como uma contagem regressiva.
— Detalhes sob a superfície? — Ele repetiu, baixando o tom de voz apenas o suficiente para que os representantes da Firgo, ocupados com seus tablets, não notassem a eletricidade entre nós. — Curioso. Eu sempre achei que você fosse mais adepta da exposição direta. De deixar tudo... muito claro.
Minha respiração travou.
Ele estava falando do diário. Tinha que ser. Abri a boca para retrucar, mas ele foi mais rápido, voltando-se para os clientes com a facilidade de um mestre da manipulação.
— Entendo — ele disse, com uma lentidão que fez meu estômago dar um solavanco. Ele voltou sua atenção para os representantes da Firgo, mas o sorriso de canto de boca não desapareceu. — Como eu dizia, precisamos focar na satisfação total do consumidor. Queremos que o cliente sinta que suas necessidades mais íntimas foram atendidas.
Necessidades mais íntimas. Eu apertei a caneta com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos.
Ele estava fazendo de propósito. Tinha que estar. Ethan continuou a falar sobre "frequência de alcance" e "engajamento orgânico", e a cada termo técnico, meu subconsciente gritava um comentário impróprio.
— No final das contas — Ethan concluiu, fixando o olhar em mim de um jeito que me fez esquecer como se respira —, tudo se resume a saber como estimular os pontos certos para gerar uma reação duradoura. Você concorda, Sara?
O uso do meu primeiro nome foi o golpe final. Ele raramente me chamava de Sara em reuniões. O "Srta. Mason" era sua armadura de chefe, mas o "Sara" era um convite ao desastre.
Olhei para o meu caderno, onde eu deveria estar anotando sobre ração para cachorros, e percebi que tinha desenhado um pequeno coração inconsciente no canto da página.
Fechei o caderno com um estalo alto, atraindo a atenção de todos. Era hora de tirar o foco da minha anatomia e colocá-lo na publicidade.
— Eu concordo que o estímulo é importante, Sr. Stern — comecei, forçando meu sotaque a sumir sob uma camada de confiança profissional. — Mas se focarmos apenas na técnica, esqueceremos o coração. Donos de cães não compram apenas ração; eles compram a segurança de que seu melhor amigo está feliz. Se a campanha não tiver emoção, será apenas mais um produto em uma prateleira lotada.
Pela primeira vez naquela manhã, o sorriso presunçoso dele vacilou. Ele me estudou em silêncio por três segundos que pareceram três anos.
— Emoção — ele repetiu, a palavra soando como uma carícia perigosa. — Interessante. Desenvolva, por favor.
Com todos os olhares da sala voltados para mim, o ar pareceu ficar ainda mais rarefeito. Eu sentia o peso do olhar de Ethan, não mais como um chefe que espera um erro, mas como um predador que finalmente encontrou uma presa à altura.
— Exatamente, Sr. Stern. Emoção — continuei, ignorando o tremor sutil em minhas mãos. — A Firgo não pode ser vendida como um produto químico equilibrado. Ela precisa ser vendida como o momento em que o dono chega em casa e é recebido com uma festa. Se focarmos apenas na "penetração de mercado", seremos técnicos. Se focarmos na "lealdade", seremos líderes.
A morena de roxo ao meu lado assentiu, anotando algo freneticamente. O silêncio de Ethan, no entanto, era o que mais me incomodava.
Ele se recostou na cadeira, cruzando os braços, o que fez o tecido do terno marcar seus ombros de uma forma que deveria ser proibida por lei em ambientes corporativos.
— Uma abordagem sentimentalista para um mercado pragmático... — ele murmurou, mais para si mesmo do que para a sala. — Arriscado. Mas, se executado com a intensidade certa, pode ser devastador.
Ele sustentou meu olhar por mais alguns segundos. Eu não desviei. Naquele momento, não era a assistente que teve um sonho erótico com ele às três da manhã; era a publicitária que sabia que tinha uma ideia de um milhão de dólares nas mãos.
— Muito bem — Ethan disse finalmente, quebrando o transe e voltando-se para os clientes. — Vamos trabalhar nessa linha de "conexão emocional". Srta. Mason, prepare um esboço estratégico sobre esse conceito até o final do dia.
A reunião prosseguiu por mais vinte minutos, mas eu mal conseguia ouvir os detalhes técnicos sobre logística e distribuição.
Meu foco estava dividido entre a vitória profissional e o fato de que, agora, eu teria que passar o resto do dia provando minha teoria para o homem que habitava meus piores pesadelos e meus melhores sonhos.
Embora eu tenha mantido a postura de publicitária de elite, cada vez que Ethan mencionava termos como "alcance" ou "engajamento", meu cérebro traidor completava a frase com imagens que certamente não constavam no manual de conduta da SMG.
Quando a reunião finalmente terminou, os representantes da Firgo saíram acompanhados por William, que passou por mim com um joinha discreto e um sorriso encorajador. Sobramos apenas eu e Ethan na sala de vidro.
Eu comecei a recolher meus pertences, mantendo os olhos fixos na mesa.
— Sara.
Parei o movimento de guardar o caderno. O som do meu nome na voz dele, agora sem a plateia de executivos, soava muito mais perigoso. Odeio essa voz grave que ele tem, faz tudo soar pecaminoso.
— Sim, Sr. Stern? — respondi, tentando soar indiferente.
— Foi um bom insight. Mas tente não se perder tanto nas suas "emoções" da próxima vez — ele disse, levantando-se e caminhando em minha direção. Ele parou a poucos centímetros, o suficiente para que eu sentisse o calor que emanava dele. — Você parecia... distraída no início. Algum pensamento persistente ocupando sua mente?
Ele se inclinou, a voz baixando para um tom que era quase um sussurro, e seus olhos desceram rapidamente para o caderno de capa preta que eu apertava contra o peito.
— Ou talvez você estivesse apenas revisando suas anotações mais... íntimas?
Meu coração parou. Ele viu? Ele desconfiava?
— Apenas focada no trabalho, senhor — menti, sentindo o suor frio brotar na nuca.
— Veremos — ele concluiu, com um sorriso de lado que prometia problemas. — Meu escritório. Dez minutos. Quero ver o que mais você tem guardado aí dentro.
Ele saiu da sala com aquela elegância irritante, balançando a bela bunda que tem, deixando-me sozinha com uma pergunta que martelava na minha cabeça: qual dos dois cadernos eu estou segurando agora?
Bati na porta de carvalho maciço, o portal para o meu inferno particular.
— Entre.
Ethan estava sem o paletó, com as mangas da camisa branca dobradas até os antebraços, revelando veias e músculos que eu já conhecia bem demais (graças ao meu hábito nada saudável de stalkear suas redes sociais nas madrugadas de insônia, eu já o tinha visto sem camisa mais vezes do que meu orgulho permite admitir).
Ele gesticulou para a cadeira à sua frente sem tirar os olhos da tela do computador.
— Sente-se, Sara. Quero ver os tópicos daquela sua ideia sobre lealdade emocional. Se vamos vender ração para cachorro como se fosse uma herança de família, preciso de substância, não de poesia.
— Claro — respondi, tentando manter a voz firme enquanto sentava. Coloquei o caderno sobre a mesa (o oficial, conferido três vezes antes de eu cruzar a porta).
Eu estruturei a campanha em três pilares: confiança, memória e pertencimento.
Ethan estendeu a mão e puxou o caderno para si. Ele começou a folhear as páginas com uma lentidão que parecia proposital, apenas para me ver inquieta. O silêncio na sala era quebrado apenas pelo som do papel e pelo tic-tac do Rolex no pulso dele.
— Você fala com muita propriedade sobre conexão emocional para alguém que me olha como se estivesse pronta para me incinerar — ele comentou, sem desviar os olhos das minhas anotações.
— Publicidade é sobre entender o que o outro sente, Sr. Stern. Minha opinião pessoal sobre o senhor não interfere na minha capacidade de ler o mercado.
Ele finalmente parou de folhear e ergueu os olhos. O azul das íris dele parecia mais escuro sob a luz suave do escritório. Ele se inclinou para frente, invadindo meu espaço pessoal.
— E o que você lê quando olha para mim, Sara? — O uso do meu nome de novo. Aquele tom baixo, quase confidencial. — Além dessa sua fúria mal contida.
Meu coração falhou uma batida.
O cheiro de sândalo dele era como um feitiço. Eu poderia dizer que via um tirano, um egocêntrico, um homem que não merecia o rosto que tinha. Mas a verdade era que eu via o protagonista dos meus sonhos mais eróticos.
— Eu vejo um homem focado em resultados — respondi, sustentando o olhar. — E vejo que o senhor está tentando me desestabilizar para ver se minha ideia tem fundamento ou se foi apenas um golpe de sorte.
Ethan soltou um riso curto, seco, mas com um brilho de algo que parecia... admiração? Ele fechou o meu caderno e o deslizou de volta para mim.
— Dez minutos de atraso, uma saia manchada e, ainda assim, você não baixa a guarda. Interessante. — Ele se recostou na cadeira, voltando à postura de chefe inalcançável. — O esboço está bom. Mas quero o plano detalhado na minha mesa amanhã, às oito em ponto. Sem atrasos, sem desculpas e, de preferência, sem incidentes com poças d'água.
— Estará aqui — afirmei, levantando-me e pegando meu caderno como se estivesse recuperando uma arma.
Eu não estava ali pelo contracheque; eu estava ali para provar que a minha mente era tão afiada quanto a dele.
— E Sara? — ele chamou quando eu já estava na porta.
Virei-me, tentando manter a expressão neutra.
— Tente descansar um pouco. Você parece... tensa. Como se não estivesse dormindo bem.
Ele me deu aquele sorriso de lado, o tipo que dizia que ele sabia exatamente o efeito que causava. Ethan Stern é um safado. Mas não qualquer tipo de safado; ele é o tipo de perdição que parece ter saído direto de uma letra da Alcione.
Saí da sala sentindo minhas pernas meio bambas. Ele não sabia do diário. Ainda não. Mas ele estava me caçando, testando meus limites, e a pior parte era que eu estava adorando o jogo.
Enquanto eu tentava estabilizar minha respiração, o vozeirão da Marrom ecoava na minha cabeça: "Você é um negão de tirar o chapéu, não posso dar mole se não você creu".
Sim, eu sei, o Ethan é branco como a neve de uma manhã de janeiro em Manhattan, mas a Alcione sabia exatamente do que estava falando quando compôs aquilo.
Ele era aquele perigo de tirar o chapéu, o tipo de homem que, se eu desse um milímetro de mole, ele creu. E o pior? O creu dele provavelmente era tão devastador quanto suas estratégias de marketing.
— Foca, Sara. Foca na publicidade — sussurrei para mim mesma, abrindo a gaveta para esconder meu caderno de anotações.
Olhei para o caderninho de capa preta oficial e depois para o gêmeo malvado dele, ainda escondido no fundo da gaveta. Eu estava brincando com fogo, ouvindo samba em um escritório na Madison Avenue e desejando o corpinho nu do meu chefe mais do que o meu próximo bônus.
Se isso não era o começo do meu fim, eu não sabia o que era. Mas uma coisa era certa: eu não ia ser a próxima a dar mole. Pelo menos, não enquanto eu estivesse acordada.
O restante da tarde foi uma maratona de reuniões e egos inflados. Ethan atendeu outros três clientes, e eu podia ouvir sua voz barítona e autoritária através das paredes de vidro, ditando o destino de marcas milionárias.
Quando faltavam apenas vinte minutos para o meu horário de saída, e eu já estava contando os segundos para encontrar meu pijama e uma taça de vinho, a sombra da reencarnação do pecado da luxúria se projetou sobre a minha mesa.
— Um café, Srta. Mason. Sem açúcar, preto como a alma dos seus antepassados — pediu ele, sem sequer diminuir o passo.
Não era uma das minhas funções oficiais. Eu era assistente, não barista. Mas, em um raro momento de boa vontade (ou talvez apenas para garantir que ele não tivesse motivos para reclamar do meu desempenho), levantei-me e preparei a bebida com o maior cuidado do mundo.
Usei os melhores grãos da copa da diretoria, controlei a temperatura e entreguei a xícara fumegante na mesa dele.
Ethan deu um gole lento, fechando os olhos por um segundo. Por um momento idiota, achei que ele fosse elogiar.
— Uma xícara de lama teria sido mais agradável, Srta. Mason. — Ele colocou a porcelana de lado com uma careta de desgosto que beirava o teatral. — Se a sua publicidade for tão amarga e sem corpo quanto este café, a Firgo está perdida.
— Pena que o estoque de lama acabou, mas amanhã posso tentar colher um pouco da poça que o táxi jogou em mim.
Ele nem sequer piscou, mas você pôde ver o canto da boca dele ter um tique quase imperceptível, um sinal de que ele achou graça, mas jamais admitiria.
— Pelo visto, o café não é a única coisa amarga nesta sala. — Ele deu um sorriso de lado, aquele que faz seu subconsciente traidor vibrar. — Se canalizasse essa língua afiada para o roteiro da Firgo, talvez não precisássemos de tantas revisões. Boa noite, Sara. Tente não ser atropelada por nenhum outro fenômeno meteorológico no caminho de casa.
Respirei fundo, sentindo o sotaque brasileiro vibrar na garganta, louco para sair em forma de xingamentos criativos.
Minha vontade era pegar aquela xícara e testar se o terno dele era realmente à prova de manchas, mas apenas forcei um sorriso gélido.
Não respondi. Se eu abrisse a boca, ou sairia um processo por desacato ou um convite para o pecado, e eu não tinha saldo bancário para o primeiro nem estrutura emocional para o segundo.
Me virei para recolher a xícara rejeitada, decidida a sair dali como uma rainha exilada, mas o destino (que claramente é um roteirista de comédia romântica de baixo orçamento) decidiu intervir.
No exato momento em que meus dedos envolveram a porcelana, Ethan estendeu a mão para pegar um documento que estava logo ao lado.
Nossas mãos se chocaram.
Foi apenas um segundo. A pele dele, quente e firme, roçou nas costas da minha mão com uma voltagem que faria a rede elétrica de Nova York parecer uma pilha de lanterna usada.
Senti um "friozinho" na barriga.
Mentira.
Não foi um friozinho. Foi um zoológico inteiro de borboletas em pânico, batendo as asas contra o meu estômago como se tivessem acabado de tomar dez doses de café expresso.
Meu sistema nervoso entrou em curto-circuito, e por um momento esqueci como funcionavam as articulações dos meus joelhos.
Recuei a mão como se tivesse levado um choque de realidade (o que, tecnicamente, levei).
— Perdão — murmurei, tentando recuperar a pose enquanto meu estômago ainda fazia acrobacias dignas do Cirque du Soleil.
Ethan não recuou. Ele manteve a mão onde estava, os dedos longos agora tamborilando sobre a mesa, e me encarou com uma sobrancelha arqueada.
— Cuidado, Sara — ele disse, a voz baixando um oitavo, carregada daquele deboche insuportável. — Se você descarregar essa eletricidade estática toda em mim, o seguro do prédio não vai cobrir os danos.
Danos? Eu vou te mostrar o dano, pensei, enquanto meu rosto atingia um tom de vermelho.
Peguei a xícara com uma velocidade que beirava o teletransporte e saí daquela sala sentindo o peso do olhar dele nas minhas costas.
Caminhei pelo corredor da SMG como se estivesse em uma passarela; se ele estivesse olhando, que aproveitasse a vista, porque por dentro eu estava apenas tentando lembrar como se colocava um pé na frente do outro sem tropeçar no meu próprio desejo.
A porta do banheiro feminino do trigésimo andar fechou-se com um clique abafado, isolando o som dos telefones e o burburinho corporativo.
Eu precisava de ar. Ou, pelo menos, de um lugar onde não houvesse o risco de cruzar com o perfume de sândalo de Ethan Stern nos corredores.
Caminhei até a bancada de mármore e me apoiei ali, sentindo o frio da pedra sob as palmas das mãos. Respirei fundo e, finalmente, tive coragem de olhar para cima.
O espelho me devolveu a imagem de Sara Mason, a funcionária impecável, mas eu mal a reconhecia.
Minha pele, de um tom mel, parecia mais pálida sob as luzes fluorescentes impiedosas. Passei os dedos pelas maçãs do rosto, sentindo o calor que ainda não tinha baixado. Meus olhos castanhos, que eu tentava manter neutros e profissionais durante as reuniões, estavam brilhantes, dilatados, como se guardassem o segredo de cada palavra proibida que escrevi naquela manhã.
Ajeitei uma mecha do meu cabelo castanho, que caía em ondas pesadas sobre os ombros, tentando domar os fios que insistiam em escapar do lugar.
Eu tinha essa aparência de serenidade, uma beleza equilibrada que passava confiança para os clientes, mas por trás daquela testa lisa, meu cérebro estava em chamas.
Aproximei-me um pouco mais do vidro, observando o contorno da minha boca. Eu era uma mentirosa. O mundo via uma mulher focada na carreira, mas o espelho... o espelho via a mulher que, há exatos dez minutos, quase esqueceu como se respira só porque o chefe encostou a mão no batente da porta.
— Recompõe-se, Sara — sussurrei para o meu reflexo.
Abri a torneira e deixei a água gelada escorrer pelos pulsos. Eu precisava que aquela mulher no espelho voltasse a ser apenas a assistente eficiente. Porque se Ethan Stern olhasse para mim por mais de cinco segundos e visse o que eu acabara de ver naqueles olhos castanhos, eu estaria oficialmente perdida.
Quando o relógio finalmente marcou meu horário, peguei minhas coisas com uma velocidade que beirava o teletransporte.
Saí do prédio sem olhar para trás. Se eu ficasse naquele escritório por mais cinco minutos, o próximo capítulo dessa história não seria um romance, mas um episódio de True Crime onde eu seria a principal suspeita de agressão com objeto perfurocortante. No caso, minha própria caneta.
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