Perdidos no inferno

7 Episódio 1: Gritos - Capítulo 2C


Notas iniciais
Desculpe por deixar vocês esperando muito, eu finalmente consegui escrever um capítulo, era para ser pequeno, mas acabei ficando inspirado e tive que fragmentar, mesmo assim ficou grande. Espero que gostem.

Carolina Vieira

Esse era praticamente o dia mais azarado da minha vida, mas parecia que eu era uma das mais sortudas nesse dia, muitas pessoas tiveram um fim trágico e ainda muitas estão sendo comida por esses mortos carnívoros sangrentos. Eu tinha acabado de chegar à casa de alguém em busca de abrigo, talvez eu pudesse ficar ali ou eu podia convidar e arriscar eles para ir até a boate, com certeza a primeira opção é a melhor. A sala de estar não tinha muitos objetos, era decorada com apenas um sofá branco, uma prateleira com alguns objetos e uma TV na parede.

– Eu sou João, Clara é minha esposa e essa aqui é a minha filha, Verônica. – O velho se apresenta.

Uma senhora de mais ou menos 50 anos e uma moça de mais ou menos 25 estava sentadas no sofá, parecia que a mais velha confortava a mais nova, provavelmente eles perderam alguém na família.

– Oi, eu sou Matheus, e essa é a Carolina, somos colegas de classe. – Matheus nos apresenta.

– Aconteceu uma tragédia? – Eu pergunto preocupada com Verônica chorando.

– Sim, seu marido voltou desesperado para casa e tinha ferimentos na perna, eu achei que era só enfaixar a perna e ele ficaria bem, mas ele começou a ter uma febre incrivelmente alta. Fizemos de tudo para salvar ele, mas não conseguimos, ele se transformou em um monstro e eu simplesmente o matei. – Ele responde triste.

Pelo visto parecia que aconteceu agora a pouco, o cenário era de um velório, e não tem como fazer um funeral em outro lugar, apenas João falou alguma coisa ali.

– Precisa de alguma ajuda como agradecimento? – Matheus pergunta.

João pensa por um pouco, ele parecia meio indeciso, provavelmente ele não aceitaria, mas Matheus parecia querer muito ajudar ele.

– Se você quiser ajudar, pode me ajudar a cavar um buraco. – Ele responde.

– Claro que eu ajudo. – Matheus aceita.

João olha pela janela da cozinha, como eu sou curiosa, eu o sigo, Matheus faz o mesmo. Eu vi uns mortos mancando lá no quintal, eles pareciam confusos, mas estavam à espera de alguém, de nós. Alguns mortos repararam João e seguiram direto para a janela, mas a tentativa de quebrar a janela era inútil. Eu tinha acabado de relaxar, mas eu sentia minha adrenalina de antes subindo nas minhas costas.

– Eu acho que você deveria descansar. – João avisa para mim.

– Não, eu estou bem. Eu gosto de adrenalina. – Eu minto.

– Não, você fica ali, talvez você possa ajudar as duas. – João sugere.

– Eu não acho que elas precisam de ajuda. – Eu respondo.

João me olha com cara de quem está pedindo “ajude mesmo assim”, mas eu não queria ficar tentando confortá-la inutilmente. Eu me lembrei de tudo que aconteceu, aquela correria, muitas pessoas perdendo a corrida pela vida, eu ainda lembro-me dos gritos dela, na verdade ainda dá para ouvir os gritos lá fora. Eu sinto aquela adrenalina voltando para todo o meu corpo, como uma espécie de mutação. Eu acho que essa era só a primeira corrida da vida, como se escolhesse quem iria passar para a segunda fase, e parecia que essa fase seria ainda mais difícil.

– Já chega de enrolar, Matheus, você tem alguma coisa para matar eles? – João pergunta.

– Eu tinha uma barra de ferro, mas eu larguei isso. – Ele responde.

– Talvez tenha alguma coisa aqui na cozinha. – João sugere.

João abre uma gaveta de talheres, eu não via alguma coisa mais afiada que uma faca de serra pequena. João tira dali uma faca um pouco maior que as outras, a faca tem uma ponta afiada e navalha fina, serve bem, mas eu não agüentaria ficar matando aqueles mortos.

– Você sabe matar eles? – João pergunta.

– Sim, tem que atingir a cabeça deles. – Matheus responde.

– E você acha que pode usar uma faca dessas? — João pergunta.

Matheus abre a boca, mas fecha rapidamente e depois começa a pensar, eu tinha certeza que a duvida dele era grande e ele só devia estar com medo.

– Sim. – Ele finalmente responde.

João dá um sorriso meio escroto e depois dá a faca para Matheus, que olha para ela meio assustado (Qual é o problema, Matheus? Você teve coragem de atingir um morto com uma barra de ferro). João pega sua faca, que parece ser um pouco maior que a do Matheus. Eles seguem até a porta aonde entramos, João começa a destrancar a porta e agora segura bem firme na maçaneta.

– Preparado? – Ele pergunta.

– Sim. – Matheus responde.

João abre a porta e os dois vãos rapidamente acertando os mortos que chega à sua frente, João parece ter facilidade, ele acerta e já derruba ele, enquanto Matheus tem que apertar a faca na testa do morto e depois fazer força para tirar, eu preferia nem ficar vendo aquilo. Fechei a porta e olhei pela sala, eu não tinha nada para fazer além de conversar com as duas mulheres, então eu sentei do lado delas.

– Eu sinto muito pelo seu marido. – Eu falo.

Verônica parecia mais relaxada, ela já não precisava mais de conforto da sua mãe. Clara me lança um olhar, como se eu tivesse falado besteira (provavelmente eu falei).

– Está tudo bem. – Ela apenas fala.

Aproveitei uns segundos de silêncio, exceto pelo som de sangue sendo tirado do corpo de mortos lá fora, para pensar. Eu pensei em todas as pessoas que eu vi morrendo, eu já consegui me aliviar daquilo, mas me veio um pensamento que me atingiu em cheio. Eu pensei onde estaria minha mãe, ela estaria trabalhando em uma fabrica, mas ela podia ser pega por aqueles mortos.. Senti uma lagrima escorrer do meu rosto, eu duvidava que minha mãe sobrevivesse aquilo, e eu provavelmente não chegaria a tempo de salva-la. Meu pensamento ficou muito pesado, até que eu resolvi acordar para o mundo real.

– Espero que isso acabe logo. — Eu aviso, sendo uma mensagem ridícula para dizer agora.

– Eu também. – Clara responde.

Verônica continuou em silêncio, enxugando suas lagrimas, nem sequer olhou para mim, mas Clara estava focada em mim, se eu murmurasse uma coisa para mim mesmo ela provavelmente ouviria. Eu resolvi fazer uma pergunta que afetaria muito as duas mulheres.

– Quem era o marido dela? – Eu pergunto, me sentindo envergonhada por perguntar aquilo.

Clara me olha com olhos arregalados, até Verônica me lança um olhar, parece que eu perguntei demais.

– O nome dele é Fernando, ele trabalhava como policial. – Ela começa.

Ela levanta (Eu me pergunto: Por quê?), mas percebi que ela foi em direção a uma prateleira, onde tinha porta-retratos, e pegou um retrato.

– Ele é bem assim. – Clara avisa.

Ele tinha cabelo escuro, pele bronzeada e vestia uma regata azul, Verônica estava no seu lado abraçado, ela tinha cabelo solto e castanho e vestia uma blusa azul. Os dois tinham um bom relacionamento.

– Ele era um homem legal e fiel, não merecia morrer desse jeito. – Clara finaliza.

– Eu sinto muito. – Eu respondo.

Ainda penso na minha mãe, eu sei que brigamos hoje, mas eu gosto dela, eu não quero ir mais para aquela boate, eu só quero voltar para minha mãe e sobreviver isso junto com ela. Não tem jeito, eu vou ter que ir naquela boate se eu quiser sobreviver, vou ter que torcer para que minha mãe consiga sobreviver também, uma coisa eu tenho certeza: Ela quer que eu sobreviva isso.

– Como está sua família? – Clara adivinha meus pensamentos.

– Meu pai está trabalhando em outra cidade, enquanto minha mãe está trabalhando em uma fabrica, espero que eles estejam vivos. – Eu respondo.

– Eu não tive muita chance que nem você, minha mãe foi assassinada quando eu tinha 12 anos e meu pai morreu de câncer nove anos depois. – Clara avisa triste.

Eu resolvi ficar em silêncio por alguns minutos, que pareciam séculos, eu já não ouvia mais aquele barulho de mortos sendo mortos de novo, parece que já terminaram o serviço. O silêncio foi quebrado (Adivinha quem? Eles), os dois voltaram para casa suados e com sangue na mão, até me espantei com a matança que eles fizeram.

– Está tudo pronto, já podemos enterrar ele. Vocês podem fazer as ultimas despedidas. – João avisa.

...

O velório caseiro era assim, alguns potes de flores em volta de um buraco onde vai ser enterrado o cadáver de Fernando, que está em uma pequena mesa coberto com uma toalha. Verônica voltou a chorar daquele jeito, Clara me olhava triste e João ainda parecia sério, Matheus estava nervoso e eu, sei lá como estava eu. Eu vi um menino que parecia ter dez anos chegando, ele estava sério e tímido, vestia regata azul e calça vermelha.

– Quem são eles? – Ele levanta um ar de curiosidade apontando para mim e Matheus.

– Eu sou Matheus e ela e Carolina, prazer em conhecê-lo, qual é o seu nome, moleque? – Matheus o intimida.

– Eu sou Bruno, o que vocês estão fazendo aqui? – Ele pergunta.

– Nós estamos tentando sobreviver, ficar na rua está difícil. – Eu respondo tentando ser calma.

Eu esperava que a criança discordasse, mas ela simplesmente nos ignorou e ficou perto de Verônica, provavelmente sua mãe. João fica entre a mesa e o buraco.

– Infelizmente eu não sou que nem um padre e esse não era o velório que Fernando merecia, mas é o melhor que podemos fazer por ele, um homem fiel e leal. – Ele começa.

João tira a toalha e revela o corpo de Fernando, ele usa camisa azul-clara e calça Jeans azul, parecido com aquele Fernando da foto, ele tem uma mordida no braço direito e um furo na testa. Ele estava com olhos fechados e expressão séria, como alguém que estivesse esperando por sua morte, mas provavelmente ele não esperava isso.

– Perdemos um membro importante na família, ele fez de tudo para nos sustentar e manter a harmonia familiar, mas hoje se despedimos dele. Verônica, você tem alguma coisa para falar para o seu falecido marido? – Ele recita.

Verônica tira as mãos da testa, ela parecia suada com tanta lagrima no seu rosto. Ela anda até Fernando e coloca a mãe no lado esquerdo de seu peito.

– Obrigado por tudo, Fernando. Você vai continuar vivo aqui. – Ela aponta para o seu peito.

Ficamos alguns segundos em silêncio, esperando Verônica decidir o que falar.

– Obrigado mesmo, você não merecia morrer desse jeito, mas vou continuar sem você, eu prometo; nós vamos acabar com essa praga que matou você e vou continuar vivendo nossa vida, eu prometo. Adeus Fernando. – Ela termina.

Verônica tenta murmurar mais alguma coisa, mas não consegue, ela simplesmente desiste e para de olhar para ele. João faz um sinal para Matheus, ele pega o pé de Fernando enquanto João pega o ombro, e os dois colocam Fernando lentamente no buraco.

– Você foi um bom genro. – João se despede.

Depois João começa a empurrar o monte de terra em cima dele, Matheus ajuda um pouco, mas desiste e apenas olha. Eu me sentia uma intrusa em um velório, mas parecia que eles já não se importavam mais comigo.

...

Depois que o funeral acabou eu apenas fiquei quieta, junto com Matheus, sentada em uma cadeira, eu ainda me sentia como uma intrusa. João se aproxima de Matheus com aquela mesma cara de sempre, mas dessa vez mostrava confiança.

– Eu queria saber uma coisa: Qual era a intenção de vocês? Ficar na casa de alguém ou tinha um objetivo. – Ele pergunta para Matheus, parece que os dois estão se dando bem.

– Nós planejávamos nos abrigar lá na boate do Prazer, mas parece que aqui está bom. – Ele responde.

– O problema é que aqui não está bom, olha só como a rua está. – Ele discorda.

Eu consigo dar uma olhada na rua, dezenas de mortos passeavam por lá, alguns até tentavam derrubar o portão inutilmente, eu duvido que nós vamos conseguir sobreviver aqui.

– É verdade, deveríamos sair daqui. – Eu sugeri.

– Sim, eu quero saber por que a boate do Prazer. – Ele avisa.

– Eles têm uma segurança boa, serve até de abrigo para quando ocorrer tiroteio, eu avisei a um amigo meu que está lá na boate, eles provavelmente já devem estar preparados, ou mortos. – Matheus responde.

– Então vamos ir lá, tomara que seja boa mesmo. – João manda.

Eu pensei em discordar, mas era a melhor idéia que tínhamos, eu não queria ficar presa naquela casa.

– Pessoal! Nós vamos ir para a boate do Prazer em busca de abrigos, eu duvido que nós vamos sobreviver aqui, então eu peço que arrumem todas as suas coisas. – João avisa.

As duas mulheres vão para dentro, provavelmente arrumar suas coisas, enquanto eu fico sentada no banco esperando, junto com Matheus. Eu pensei em conversar, mas resolvi ficar quieta esperando.

...

João fecha o porta-malas e abre a porta do carro.

– Vocês já podem entrar. – João avisa e entra no carro.

Eu também entro e pego o canto esquerdo do carro, Matheus ficou do meu lado, Bruno no lado de Matheus, e Verônica ficou do outro lado do banco de trás, sorte que nós éramos magros. João acelerou depois de abrir o portão e entrou na estrada, eu apenas fiquei observando os mortos que tentavam inutilmente quebrar a janela do carro, depois sendo derrubados no chão.

Notas finais
Sobre esse capítulo: Eu planejei esse capítulo para descrever alguns personagens, alguns deles vão ser importantes e outros infelizmente não vão durar muito, eu não queria fazer um velório, mas eu tive que fazer para deixar realista, e isso acabou ficando muito grande e pouco interessante, mas talvez vocês gostaram. Capítulos: Decidi nomear os primeiros capítulos, mas eu não vou colocar no título do capítulo para não ocupar muito espaço. Capítulo 1: Dia normal. Capítulo 2: Corrida pela vida. Capítulo 3: Desesperados para viver. Eu quero ver quem vai adivinhar o que vai acontecer no capítulo 3 ;)