Sonho 7: A sala estava na penumbra, iluminada apenas pelos reflexos neon da Times Square. Ethan não dizia nada. Ele apenas caminhava em minha direção enquanto desatava o nó da gravata de seda azul-marinho com uma lentidão que beirava a tortura. Quando ele parou a centímetros de mim, enrolou uma das extremidades da seda em seu próprio punho, apertando até os nós dos dedos ficarem brancos, enquanto a outra ponta pendia, livre, esperando para ser usada como minha coleira ou minhas algemas. "Você escreve sobre controle, Sara", ele sussurrou, a voz vibrando na base da minha coluna, "mas você não tem ideia do que é ser dominada por mim."

Acordei com o coração batendo na boca e o lençol enrolado nas minhas pernas como se estivesse tentando reproduzir a cena do sonho. Bufei, jogando o travesseiro para o lado.

— Maldição, Stern. Saia da minha cabeça — resmunguei para o quarto vazio.

Meu ritual noturno tinha sido o de sempre: uma taça de vinho, três capítulos de um suspense e o caderninho de capa preta.

Mas o sonho tinha sido vívido demais. Senti o calor do hálito dele, a pressão da seda... eu quase podia sentir o cheiro de sândalo impregnado no meu travesseiro.

Enfiei a cara no travesseiro e gritei frustada.

Ficar com outros caras não tinha resolvido esse problema. Acha mesmo que não tentei? Era como comer um bolo de aveia sem açúcar, sabendo que tem um pedaço generoso de bolo de cenoura com muito chocolate te esperando em casa. Não tem graça.

Me tocar pensando nele? Rá. Isso era jogar gasolina no fogo esperando apaziguar um incêndio.

Tomei um banho frio, daqueles que fazem os dentes baterem, na esperança de que a água levasse embora cada resquício daquela fantasia. Se eu fosse presa por pensamentos indevidos, pegaria prisão perpétua antes do café da manhã.

O dia na SMG estava um caos. O projeto da Firgo exigia revisões de última hora e eu estava mergulhada em planilhas até que a porta da sala de conferências se abriu. Ethan entrou como um furacão de elegância e mau humor.

— Mason, os layouts da campanha de lealdade. Agora — ordenou, sem nem olhar para trás.

Peguei as pastas e o segui até o escritório dele. Ele parecia exausto, mas de um jeito que só o tornava mais atraente, como um guerreiro voltando de uma batalha que ele obviamente venceu. Ele se sentou atrás da mesa monumental e, por um segundo, o mundo pareceu desacelerar.

Ele levou as mãos ao pescoço.

Meus pulmões travaram.

Lentamente, com uma precisão que parecia coreografada pelo meu próprio subconsciente, Ethan começou a desatar o nó da gravata. Ele a puxou devagar, o tecido deslizando pelo colarinho da camisa branca com um som sibilante.

Meus olhos se fixaram em suas mãos. E que mãos... eu já tinha sonhado com ela no meu pescoço, na minha cintura, e indo cada vez mais baixo...

— Os layouts — consegui dizer, empurrando as pastas na direção dele antes que eu começasse a latir igual um golden retriever no cio. — A versão revisada está separada por público-alvo.

Minhas mãos não tremeram, o que foi um milagre, considerando que meu subconsciente estava gritando para eu pular aquela mesa. Eu não era uma estagiária deslumbrada; eu era uma Mason, e nós não perdemos a compostura por causa de um homem desatando uma gravata. Mesmo que esse homem fosse o Ethan.

Ethan não desviou os olhos de mim imediatamente. Ele demorou um segundo longo demais. Um segundo que fez minha pele inteira ficar quente.

Só depois ele puxou a primeira pasta.

Ele não parou por aí, enquanto lia o primeiro layout, ele enrolou a seda azul-marinho em volta do punho direito, apertando com força, exatamente como no sonho. A outra ponta da gravata ficou pendida sobre a mesa, balançando levemente.

Senti um calafrio subir pela minha espinha. Não era possível. Era uma coincidência. Uma terrível e excitante coincidência.

— Algum problema, Sara? — ele perguntou, sem tirar os olhos do papel, mas com aquele tique quase imperceptível no canto da boca que indicava que ele sabia que eu estava olhando. — Você está me olhando como se eu fosse um personagem que acabou de ganhar vida.

— Eu... eu só estava analisando a composição visual da sala, senhor — menti, sentindo meu rosto ferver.

— Entendo. A composição visual. — Ele deu um puxão seco na gravata enrolada no punho, o som da seda estalando. — Cuidado com o que você visualiza, Mason. Às vezes a realidade tem o péssimo hábito de ser muito mais... rigorosa do que a ficção.

Ele finalmente ergueu o olhar. Não era o olhar de um chefe revisando publicidade. Era o olhar de quem estava lendo a minha alma (ou as páginas escondidas na minha gaveta). Ele inclinou a cabeça, observando minha reação ao ver a gravata apertada em seu punho.

— Você parece pálida. Ou talvez... quente demais — ele comentou, a voz baixando para aquele tom barítono que fazia meu "creu" interno gritar. — O ar condicionado está seco de novo?

— Eu... eu só preciso de um pouco de água — menti, sentindo que se ficasse ali mais um segundo, eu mesma me ofereceria para ele usar aquela gravata em mim.

— Fique — ele ordenou, e o som daquela palavra me pregou no chão. — Ainda não terminamos com os estímulos.

O silêncio voltou a dominar a sala. O único som era o farfalhar das páginas e o trânsito distante de Manhattan lá embaixo.

Eu deveria aproveitar aquele momento para recuperar minha dignidade. Respirar. Pensar em planilhas. Em impostos. Em qualquer coisa não relacionada ao fato de que a gravata dele ainda estava jogada sobre a mesa como uma ameaça erótica.

Então Ethan pegou a gravata novamente.

Filho da puta.

Ele passou o tecido entre os dedos distraidamente enquanto analisava o layout, como se não estivesse reduzindo minha estabilidade emocional a cinzas.

Ele soltou a gravata sobre a mesa, bem em cima do projeto da Firgo, e me encarou de um jeito que me fez ter certeza de uma coisa: ou eu era vidente, ou Ethan Stern estava jogando um jogo onde ele já conhecia todas as minhas cartas. E ele estava adorando blefar.

Meu cérebro entrou em pane.

Não uma pane elegante e cinematográfica. Não. Foi uma pane do tipo tela azul do Windows XP com erro fatal e ventilador interno fazendo barulho de helicóptero.

Porque Ethan Stern estava me olhando. Puta merda, ele estava me olhando como se estivesse esperando alguma coisa.

Uma reação?

Uma confissão?

Um colapso nervoso?

E o pior? Eu estava perigosamente perto de entregar os três.

— Sente-se, Sara — ele disse, sem desviar os olhos de mim.

eeu me acomodei na cadeira de couro à sua frente, tentando manter os joelhos juntos e a postura ereta, mas a presença daquela gravata azul enrolada no punho dele gritava no meu campo de visão.

A gravata em particular mexia muito comigo. Nos meus sonhos, ela é um objeto frequente (e muito versátil). Já fui vendada, amarrada, amordaçado entre outras coisinhas a mais, tendo ela como coadjuvante

— Sobre essa abordagem de lealdade que você sugeriu... — Ele se inclinou para frente, apoiando os cotovelos na mesa. A gravata ainda estava lá, uma extensão de seda do seu poder. — Você disse que o cliente precisa se sentir único. Quase como se houvesse um segredo compartilhado entre a marca e o consumidor. Uma intimidade que ninguém mais entende.

Ele fez uma pausa, o olhar azul percorrendo meu rosto com uma lentidão que me fez sentir nua sob as luzes do escritório.

— Você é muito boa com as palavras, Mason. Às vezes, me pergunto se você as usa para revelar o que sente ou para esconder o que realmente deseja.

Engoli em seco.

— São apenas estratégias de marketing, Sr. Stern.

— Estratégias. — Ele repetiu a palavra como se a estivesse saboreando. — Engraçado. Eu sempre achei que as melhores estratégias são aquelas que nascem de impulsos genuínos. Aquelas que nos fazem perder o sono.

Ele começou a desenrolar a gravata do punho, mas não a soltou. Ele a segurou pelas duas pontas, esticando o tecido entre as mãos com um estalo seco.

Sonho 7. Meu cérebro gritou o alerta. No sonho, ele fazia exatamente isso antes de dizer que eu falava demais e que precisava de algo para me calar.

— Você está muito quieta hoje — ele observou, a voz baixando para aquele tom confidencial que me fazia querer subir na mesa dele. — Cadê aquela língua afiada que colhe lama em poças de táxi?

— Eu estou apenas focada no projeto — respondi, meu coração batendo tão forte que eu tinha certeza de que ele podia ver o pulso na minha garganta.

Ethan se levantou. Ele contornou a mesa com passos de pantera, parando bem ao lado da minha cadeira. Eu me recusei a olhar para cima, mas podia sentir o calor que emanava dele, o cheiro de sândalo misturado com o aroma de café recém-passado que ele sempre trazia.

Ele estendeu a mão e, com as pontas dos dedos, tocou levemente o meu queixo, forçando-me a encará-lo.

— Sabe o que eu acho, Sara? — Ele se inclinou, o rosto a centímetros do meu. A gravata ainda estava pendurada entre os dedos da outra mão, roçando levemente no meu ombro. — Acho que você tem uma imaginação muito fértil.

Ele não me beijou. Ele não me amarrou. Ele apenas sustentou o olhar por um segundo eterno, deixando a dúvida florescer no meu peito como uma erva daninha. Ele sabia? Ele estava apenas brincando com a coincidência?

— Essa tipografia está fraca — comentou. — Falta impacto.

— Posso alterar.

— Vai alterar.

O tom autoritário deveria me irritar. Em vez disso, meu cérebro traidor imediatamente:

"Vai alterar."

"Sim, senhor."

"Boa garota."

Meu Deus.

Eu precisava urgentemente de ajuda profissional.

Cruzei as pernas com força, tentando expulsar meus próprios pensamentos da cabeça. Ethan levantou os olhos no exato momento do movimento.

Merda.

O olhar dele caiu por um segundo para minhas pernas antes de voltar lentamente para meu rosto. A expressão permaneceu calma, mas havia algo perigosamente atento ali.

Observador demais.

— Você está desconfortável, Sara?

Sim. Porque aparentemente meu corpo decidiu virar um episódio proibido da HBO.

— Estou ótima.

— Curioso. — Ele apoiou o cotovelo na mesa. — Porque normalmente pessoas ótimas não parecem prestes a cometer um homicídio ou um pecado capital.

Soltei uma risada curta e nervosa.

— Talvez eu esteja avaliando as duas opções.

O canto da boca dele subiu. Foi pequeno, rápido, mas eu vi. Ethan Stern raramente sorria de verdade. Ele dava aqueles sorrisos corporativos ensaiados para clientes e investidores, mas aquilo ali? Aquilo parecia genuíno.

O telefone da mesa tocou, quebrando a tensão antes que eu espontaneamente me transformasse numa mulher sem direitos civis.

Ethan atendeu sem desviar os olhos de mim.

— Stern.

Ele ficou em silêncio, apenas ouvindo a pessoa do outro lado da linha. A mandíbula dele travou levemente.

— Não. Reagenda.

Mais um momento de silêncio.

—Porque eu mandei.

Ele desligou sem paciência e passou a mão pelo rosto, claramente irritado. Pela primeira vez desde que entrei ali, a armadura perfeita dele rachou um pouco. E foi involuntariamente íntimo.

— Problemas? — perguntei antes de conseguir me impedir.

Os olhos azuis dele voltaram para mim, agora menos afiados.

— Meu pai.

Ah, então era isso... William tinha comentado algumas vezes, em tom de fofoca corporativa, que Richard Stern era o verdadeiro tubarão da família. Ethan comandava a SMG no dia a dia, mas o império ainda orbitava ao redor do sobrenome do patriarca.

— Ele acha que eu deveria transformar a Firgo numa campanha conservadora e previsível — Ethan disse, recostando-se na cadeira. — Porque aparentemente qualquer coisa minimamente emocional é arriscada demais.

Meu cérebro ainda estava tentando sobreviver à gravata, então demorei dois segundos além do aceitável para responder.

— Bem... você é meio controlador. Imagino que tenha herdado isso de alguém.

Assim que as palavras saíram da minha boca, percebi o erro. Porque Ethan ficou em silêncio. E aquele silêncio não era irritado. Era muito pior, ele estava interessado.

— Controlador? — ele repetiu devagar.

Eu deveria recuar.

Pedir desculpas.

Fingir desmaio.

Inventar uma morte súbita.

Mas alguma força suicida dentro de mim decidiu continuar.

— Você controla tudo. A sala, as reuniões, as pessoas... — dei de ombros, tentando parecer indiferente. — Até o jeito que você afrouxa essa gravata parece calculado.

O ar da sala mudou. Instantaneamente. Os olhos dele escureceram de um jeito quase imperceptível, mas suficiente para meu corpo inteiro perceber antes do meu cérebro.

Ethan largou lentamente a gravata sobre a mesa.

— É interessante você mencionar a gravata especificamente, Sara.

Eu deveria ter fingido demais. Meu coração parou. Depois voltou mais rápido.

— Foi só um comentário.

— Foi?

Ele se levantou.

Ethan caminhou devagar até mim, sem pressa nenhuma, como um homem que sabia exatamente o efeito que causava. Parou perto o suficiente para que eu sentisse o calor do corpo dele outra vez.

Meu oxigênio pediu demissão.

— Porque eu tenho a impressão — disse ele baixinho — de que você presta atenção em coisas muito específicas sobre mim.

Não se mexa.

Não fale.

Não confesse crimes.

Mesmo assim, minha boca abriu:

— Faz parte do meu trabalho observar detalhes.

Meu Deus. Por que eu não consigo ficar quieta?

— Ah, eu não tenho dúvidas disso.

A forma como ele disse aquilo definitivamente não tinha relação nenhuma com publicidade.

Meu Deus. Ele sabia. Ele definitivamente sabia alguma coisa. Ethan inclinou a cabeça de leve, analisando meu rosto como se procurasse uma reação específica.

Então os olhos dele desceram lentamente até minha boca. A sala inteira pareceu prender a respiração junto comigo. E foi exatamente nesse momento que alguém bateu na porta.

— Ethan? A Firgo quer confirmar os horários da próxima apresentação.

William entrou sem esperar resposta. Eu quase agradeci em voz alta. Quase. Porque Ethan não se afastou imediatamente. Aquele homem demoníaco continuou perto de mim por um segundo longo demais antes de finalmente dar um passo para trás.

— Entre, William — disse calmamente, como se não tivesse acabado de reduzir minha expectativa de vida em uns quinze anos.

Peguei minhas pastas numa velocidade humilhante.

— Eu vou atualizar os layouts.

— Vai mesmo — Ethan respondeu, voltando para a mesa. — E Sara?

Parei na porta. Ele girou a gravata uma vez no próprio punho antes de completar:

— Termine os relatórios — ele disse, afastando-se subitamente e voltando para a sua cadeira como se nada tivesse acontecido. — E Mason...

— Sim? — respondi, tentando recuperar o fôlego que ele tinha roubado.

— Amanhã, venha com algo mais... vibrante. Esse cinza não combina com a cor que seu rosto fica quando você está sob pressão.

Saí da sala sentindo que o chão estava se transformando em areia movediça. Quando cheguei à minha mesa, abri a gaveta com mãos trêmulas e olhei para o diário.

Eu precisava parar de escrever. Ou precisava começar a escrever que ele me dava um aumento e parava de ser um gostoso manipulador.

Porque, se o "Sonho 9" (aquele que envolvia o elevador e a falta de roupas íntimas) se tornasse real, eu não seria apenas presa. Eu seria a ruína da Stern Media Group.

Fiquei encarando o caderno de capa preta por tempo demais, como se ele fosse um artefato amaldiçoado. E talvez fosse. Cada linha escrita ali parecia ter se transformado em um roteiro que Ethan seguia com uma precisão assustadora.

— Algo mais vibrante... — sussurrei, repetindo a ordem dele.

Minha mente, que já não estava operando em condições normais de temperatura e pressão, imediatamente projetou a imagem de um vestido vermelho. Um vermelho tão escandaloso que faria Richard Stern ter um enfarto e Ethan Stern perder o que restava de seu autocontrole (se é que ele tinha algum).

Mas o problema não era o vestido. O problema era o que ele causava em mim. Aquele "Boa garota" que meu cérebro projetou quando ele mandou eu alterar a tipografia ainda ecoava, fazendo meu estômago dar voltas.

Eu não era uma garota submissa. Eu era uma publicitária feroz, uma mulher independente, uma brasileira que não levava desaforo para casa.

(Exceto quando o desaforo vinha em um terno de três peças e cheirava a sândalo).

Fechei a gaveta com um baque e tentei me concentrar nos relatórios, mas meus olhos teimavam em fugir para a porta de vidro do escritório dele. William ainda estava lá dentro, provavelmente discutindo logística, mas eu ainda podia sentir o fantasma dos dedos de Ethan no meu queixo.

Aquele homem era um perigo para a saúde pública. Ele era o tipo de problema que você sabe que vai te destruir, mas você pula de cabeça só para sentir a queda.

Quando o expediente finalmente acabou, saí da SMG quase correndo. Eu precisava de ar. Precisava de distância. Mas, acima de tudo, eu precisava decidir se amanhã eu iria para o trabalho como a Srta. Mason, a funcionária exemplar, ou como a Sara do diário, a mulher que estava prestes a transformar o "Sonho 9" em um incidente internacional no elevador.

Olhei para o céu de Manhattan, que começava a ganhar tons de roxo e laranja.

— Você quer algo vibrante, Stern? — perguntei para o vento frio. — Pois você vai ter o espetáculo inteiro.

Amanhã, eu não seria a assistente de saia manchada. Eu seria a mulher que ele não pode ter, usando um vestido que custa o bônus anual dele. Se ele quer jogar com estímulos, vamos ver quem desvia o olhar primeiro.

Caminhei em direção ao metrô, mas minha mão, por puro hábito traidor, tateou o caderno dentro da bolsa. Eu sabia que, assim que chegasse em casa e abrisse aquela taça de vinho, a caneta deslizaria pelo papel mais uma vez. E Deus me ajudasse, porque o capítulo de hoje seria escrito com sangue (ou com algo muito mais quente).

Notas finais
E aí, oq tá achando desses dois? 👀 É tão gostoso desenvolver a Sara, é dar voz a coisas que eu não faria, mas ela sim hahahaha Vem conversar cmg, o que acham que vai acontecer nos próximos capítulos? hehe