Notas iniciais
Divirtam-se.

Eu estou muito nervoso e olho para ela atentamente tentando decifrar seus pensamentos. Primeiramente, ela fica pálida, depois vermelha. Seus olhos vão da surpresa à raiva e, por fim, brilham. Parece que ela está em um conflito interno grande, pois não sabe definir o que sentir ou pensar. Em outras circunstâncias eu teria achado isso engraçado, porém, no momento, estou muito tenso para se quer respirar normalmente. Então, espero pacientemente.

– Percy, eu achava que nós... Quer dizer, sim, mas... Hãn... – Agora estou preocupado, eu nunca tinha visto ela se enrolar com os próprios pensamentos antes.

Então, Annabeth respira fundo algumas vezes e me encara determinada, mas um pouco corada.

– Eu achava que nós já estávamos namorando. — Ela diz meio exasperada.

Um ar de surpresa perpassa meu rosto. Afinal, só faltava eu assumir o que já era esperado por todos.

– Ufa Annabeth, que bom que não você não tentou me afogar, haha... Brincando, isso é impossível. Haha... – Ela me lança um olhar torto e zombeteiro. — Bem, pelo menos agora eu tenho certeza.

Ela me abraça e, assim, meio embolados, meio caminhando vamos aos tropeços até ao chalé 11. Então, percebo um conforto totalmente diferente de antes, sinto-me mais confiante, seguro de mim, de minhas decisões. Com um sorriso e totalmente imerso em meus pensamentos, compreendo que é a Annabeth causa isso em mim.

– Qual o motivo do sorriso, Cabeça de Alga?

– Todos, Sabidinha. – Chegamos no Chalé.

– É melhor você entrar logo, seus irmãos devem estar percebendo sua ausência e você está sem seu boné. — Disse.

– Culpa de quem? – Eu a cutuco nas costelas.

– Verdade, culpado. De qualquer forma não iria embora sem me acertar com você. – Ela esboça um sorriso de canto e desvia o olhar.

– Boa noite Cabeça de Alga.

– Boa noite, Sabidinha.

O despertador toca. Rolo para um lado à procura do botão do relógio. Só mais um pouquinho... O primeiro treino é tiro com o arco, não gosto dessa modalidade mesmo, então quanto mais tempo eu perder melhor, o pessoal não vai sentir minha falta, os chalés de Apolo e Atena podem começar sem mim. Logo, abro os olhos rapidamente, dando um pulo da cama. Annabeth.

Tomo um banho apressadamente e corro para o chalé 11. Ao me aproximar, eu a vejo caminhando para o pavilhão acompanhada de algumas irmãs, o que me chateia um pouco, pois ela podia ter me esperado se quisesse, mas mesmo assim eu corro no seu encalço e a abraço apertado por trás, assustando-a. Ao se recuperarem do susto, suas irmãs caminharam mais rapidamente, com risinhos bobos no rosto, nos deixando sozinhos.

– Ah Percy! Quase derrubo você no chão. Por que você se atrasou? — Annabeth pergunta, enquanto caminhamos ainda abraçados.

– Ora, simples: Tiro com o arco.

– Entendo. Mas você jura que eu ia deixar você chegar atrasado? Claro que não! Eu gosto de ver você se irritar, principalmente, quando eu consigo acertar o alvo e você não. — Annabeth fala rindo da minha cara.

– Rá... Muito engraçada você. — Falo sarcasticamente.

Chegamos ao pavilhão, então cada um segue para sua mesa. Muitos campistas nos olham com certo interesse mexeriqueiro nos olhos, provavelmente eles já sabem da reconciliação. Dessa vez eu não estou nem aí para isso, a fome fala mais alto para me importar.

Como o previsto, a aula de tiro com o arco foi um fiasco completo. Annabeth me provocava, ela sabia que eu estava me irritando. Sinceramente, não sei qual o sentido em eu fazer essa aula, é inútil para mim.

Ao sair do almoço e Annabeth e eu vamos fazer os relatórios dos chalés. Ao terminarmos, nós nos sentamos no píer de canoagem, apreciando o por do sol. Eu deito minha cabeça no colo dela, enquanto ela ler um pequeno livro e me faz cafuné.

– Annabeth, eu tenho uma dúvida.

– Mentira, sério? — Ela desvia os olhos do livro sorrindo e pisca inocentemente para mim. – Okay, qual a sua dúvida?

– Sabe quando eu vou para o mar e eu me sinto mais forte e renovado?

– Sei. – Ela responde atentamente, querendo entender qual a minha dúvida.

– Pois então, a mesma coisa acontece com você quando toca em um livro?

Eu nunca explodi em uma gargalhada como agora. A cara da Annabeth é impagável. Enquanto eu me contorcia em risos, ela virou a coxa e minha cabeça caiu sem dó no piso do píer.

– Cabeça de alga babaca. – Ela retruca sem piedade, enquanto eu me sento alisando a nuca soltando pequenos risos. – Fico contente em entretê-lo e espero que esteja doendo.

– Duas palavras para você, Sabidinha: Maldição de Aquiles. – Digo com ar de vencedor e zombeteiro.

– São três, irritante. – Quando estou prestes a ataca-la nas costelas com cócegas, vejo Grover se aproximando.

– Olá pombinhos... — Olho muito feio para ele — Desculpa Percy, hãn... Peixinhos. Como vão vocês? — Ele pergunta rindo.

– Bem. Percy é um babaca, não sei por que estamos namorando. — Ela diz dando de ombros, o que me faz rir.

– E aí, cara, como está? E a Juníper? — Pergunto, mas me arrependo, pois ele cai no choro.

– O que houve? — Annabeth pergunta.

– Eu segui o conselho do Percy, realmente funcionou, não brigamos, nem discutimos. Nada.

– Isso é bom, não? – Annabeth questiona querendo compreender o motivo das lágrimas do sátiro.

– Não, não do jeito que eu gostaria. A gente deu um tempo. Vocês acreditam nisso? Juníper me pediu um tempo! Ela é uma árvore, isso pode levar anos! Ela confessou que está confusa com os próprios sentimentos e achou mais certo ser sincera comigo. Disse que sou o melhor bode do mundo e por isso não podia, não seria certo me iludir ou me enganar. Béé...

Grover está, realmente, muito mal. Pelo elo de empatia percebo a profundidade da sua dor, muito além do que ele gostaria de demonstrar. Sinto-me mal pelo meu amigo, se eu pudesse o ajudaria, mas acho que ele deve resolver isso sozinho.

Então, passamos o resto da tarde tentando animá-lo, conversando e relembrando das nossas aventuras. A corneta toca anunciando o jantar. Faço minha oferenda ao meu pai e vou para minha mesa. Todos ainda estão no pavilhão quando Quíron se levanta. Como sempre, o sr. D não se manifesta, nos ignorando completamente.

– Campistas, amanha é a nossa última semana aqui no Acampamento Meio-Sangue. Para nos despedirmos, os campistas do chalé de Hermes criaram um novo jogo, "As artimanhas de Hermes", com algumas retificações, eu autorizei o jogo. Vocês serão divididos em dois grandes grupos, um será o "Ladrão H", em homenagem à Hermes, Deus dos ladrões, e o outro grupo será "Temis", em homenagem à Temis a deusa da justiça.

O objetivo do Ladrão H é conseguir roubar os objetos que estão sendo guardados pelo grupo Temis. Mas o detalhe diferencial é que não será qualquer objeto. Temis guardará seus próprios instrumentos mágicos. – No momento em que Quíron fala instrumentos mágicos, todos se agitam como assim instrumentos mágicos? E aí a ficha cai, ele se refere aos nossos presentes dados por nossos pais deuses.

– Mas prestem atenção, os instrumentos mágicos guardados serão apenas dos campistas do grupo Temis, logo o objetivo do Ladrão H é conseguir roubá-los. Atentem-se que o Ladrão H é obrigado a roubar pelo menos três objetos mágicos para ganharem o jogo. No entanto, um campista só poderá pegar apenas um instrumento. Ou seja, três diferentes ladrões para três diferentes instrumentos. Ademais, para que seja uma luta justa, assim como o grupo Temis não poderá usar seus itens mágicos, o grupo Ladrão H tampouco poderá. Por outro lado, seus poderes, agilidade e inteligência estão permitidos. Esse é o principal objetivo do jogo, desenvolver o raciocínio.

E uma observação importante e motivadora, o ladrão que pegar um instrumento mágico poderá usá-lo por três dias. Repito, roubou o item, pode ficar por três dias. Assim, o ladrão que não conseguir pegar, paciência, seja melhor na próxima vez. — Todos estavam animados e excitados, nós sempre cobiçamos o instrumento mágico de alguém. Mas pelo visto isso não era tudo, pois Quíron bate o casco no chão pedindo silêncio.

– Agora, se o grupo Temis conseguir capturar ou prender, no mínimo, metade do grupo Ladrão H, todos deste grupo irão prestar qualquer tipo de serviço ou favor, como queiram chamar, para os campistas do grupo Temis, incluindo as atividades do acampamento e por três dias também. — Quíron conseguiu, o pavilhão está em um alvoroço só, os campistas estão agitados e alguns possuem olhos vingativos. Definitivamente, esse jogo será interessante. — As regras são simples, vocês poderão usar suas armas e artimanhas. Os campistas que ficarão no grupo Temis vão ter que depositar seus instrumentos mágicos no local designado, independente se é arma ou não.

O Ladrão H não poderá usar itens mágicos como já instruído, e poderá ser preso em qualquer local do acampamento, mas pode ser solto por outro Ladrão. Como sempre, nada de mutilações ou morte, eu serei o juiz. O jogo será realizado amanhã às seis da tarde e a divisão dos grupos será agora, porém a divisão será feita pelo Sr. D. — Que?! Eu não acredito nisso! Pelo visto isso foi uma ideia do próprio Quíron, porque os campistas do chalé de Hermes estão com uma cara azeda para o nosso treinador. O Sr. D, vagarosamente, se levanta e fez um muxoxo com a boca.

– Hãn... Pois então, mais um joguinho sem graça para entreter a mente sem graça de vocês, não é mesmo? Vamos acabar logo com esse tédio. Os chalés de Hermes, Hefesto, Afrodite e Poseidon serão o Ladrão H, e os chalés de Ares, Atena, Apolo e Dioniso serão do grupo Temis. Espero que pelo menos um de vocês perca uma orelha ou dedo. — Antes de se retirar ele olha rapidamente para mim com um ar divertido, ele está me separando de Annabeth de propósito. Maldito, esse é o pagamento por eu ter mantido o filho dele fora do perigo da batalha contra Cronos.

Saio do pavilhão irritado. Annabeth me chama no meio do caminho.

– Não se preocupe Cabeça de Alga, você se divertirá muito fazendo os meus serviços por mim, além do mais só são três dias! — Ela diz confiante e rindo. Eu a fuzilo com os olhos o que só provoca mais risos.

– Ahhh veremos, Sabidinha. Eu acho que o seu boné fica bem melhor na minha cabeça! — Bagunço os cabelos dela e saio correndo antes que ela me socasse por isso, tinha que preparar as estratégias de jogo com meus aliados e amigos.

A nossa reunião de estratégia é feita no chalé de Hefesto. Discutimos tudo e estávamos prontos para ganhar os novos equipamentos mágicos. No caminho para o meu chalé, não vejo Annabeth, mas encontro o chalé 13, de Hades, aberto, o que quer dizer que Nico está de volta no Acampamento. Bato na porta duas vezes e entro.

– Nico, quando você chegou? Por que você não jantou no pavilhão? — Pergunto enquanto me escoro na parede.

– Acabei de chegar, vou passar um tempo por aqui. Na verdade, quero participar das atividades e tudo mais, o trabalho que eu tinha que fazer para meu pai terminou. — Ele diz indiferente.

– Nico, hum... Nós nos conhecemos a alguns anos, certo? Então, por que você não me conta que está aqui por outro motivo, algo mais convincente? – Ele remexe impaciente em uma gaveta meio vazia no armário e se vira para mim.

– Não consigo mais lhe enganar, não é mesmo? Err... Não sei Percy, acho que não posso lhe contar. Meu pai não quer que isto se espalhe. — Eu o encaro.

– Seja lá o que for Nico, você sabe que pode confiar em mim e posso até lhe ajudar.

– Sei, sei... Bem, vou falar de uma vez então. Eu estou aqui por conta de uma nova missão para o meu pai. Algo muito mais secreto e sinistro está acontecendo no mundo inferior. — Nico fica muito sombrio, com feições semelhantes do pai, as sombras se intensificam e o clima torna-se mais frio.

– O que está havendo lá embaixo? – Pergunto curioso.

– Percy, estou em uma missão de busca. – Nico responde com um suspiro cansado.

– Busca? — Perguntei confuso e ele desvia os olhos para baixo.

– É, busca. Luke sumiu do mundo inferior e eu estou à procura dele.

Notas finais
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