Percy Jackson - Uma Nova Profecia
29 XXVI - Respostas Part. I
Notas iniciais

TAINARA
Raiva e angustia se destacaram em seus olhos roxos e brilhantes, porém não pareciam dele... era como se refletissem os meus sentimentos e aquilo me surpreendeu ainda mais...
Como era possível que duas pessoas que eu conhecia há apenas um ano, soubessem bem mais de mim do que qualquer outro, às vezes até mesmo mais do que eu?
Naquele momento pude entender um pouco do que estava acontecendo. Ela havia feito parte da vida de duas pessoas completamente diferentes, separadas por séculos, mas que ao mesmo tempo possuíam um vinculo familiar, nós dois perdemos a única pessoa que realmente fazia sentido em nossas vidas...
Sabia qual era o sentimento de Júlio em relação á ela, sua história juntamente com os acontecimentos daqueles últimos dias se encaixavam perfeitamente.
Por um segundo fiquei imaginando se Júlio só havia nos salvo das Arai alguns meses antes porque achou que eu era ela... e se esse foi realmente o motivo, então era por isso que sempre tentou me proteger e ficar perto de mim?
Não fazia sentido, pois Luke também me tratava como uma pessoa indefesa que estava constantemente precisando de ajuda. Apesar de ser um pouco irritante, não conseguia imaginar minha vida de outra maneira, essa proteção fazia com que me sentisse parte de uma família, e é isso que nós três somos...
Perto dos dois pude encontrar felicidade e amor fraternal, isso era algo que não abriria mão. Independentemente do que acontecesse.
Minha vista começou á escurecer e notei que haviam se passado apenas alguns segundos dentro daquele circulo. Então antes que pudesse pensar em qualquer outra coisa, tudo desapareceu.
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THALIA
-Vamos. Você consegue!
-Diz isso porque não é você nessa situação. –Falei entre os dentes enquanto olhava fixamente para a escuridão abaixo de mim.
-Thalia Grace! A garota mais corajosa que já conheci em toda a minha vida, está com medo de um simples precipício?
Cerrei a mandíbula e abaixei a cabeça ainda mais para que ele não visse minha cara ruborizada, como se isso fosse possível graças a meu cabelo curto.
Sua risada ecoou pela caverna. –Tudo bem, vamos fazer diferente. Imagine que tem um monstro bem atrás de você e sua única opção é atravessar essa pequena ponte onde do outro lado há o cara mais legal e bonito do Mundo te esperando...
-E o mais convencido também. –Bufei e finalmente o encarei, mas sem tirar a atenção do abismo.
-Isso é apenas um detalhe. -Ele fez um gesto com as mãos como se não fosse importante. –Você tem duas opções. Fica com o monstro e deixa que ele te devore... ou vem correndo para os meus braços! O que prefere?
Fingi estar pensando na resposta enquanto seu sorriso convencido e maravilhoso aumentava.
-Qual era a primeira opção? –Falei com sarcasmo o fazendo bufar.
-Escolha errada.
Ergui a sobrancelha. -E o que pretende fazer?
-Vou contar até cinco para que você esteja aqui senão...
-O que? –Ele sabia como adorava desafios. Porem a cara que fez me deixou desconfiada.
-Eu mesmo irei ai e a trarei em meus braços.
Arregalei os olhos sentindo o rosto esquentar, mas imediatamente voltei ao normal.
-Você não pode estar falando sério...
-1...
Engoli em seco. -Está blefando.
-3...
-Mas isso é injusto! Você está pulando os números...
-5!!!
Antes que eu pudesse reagir ele deu um salto e veio parar bem do meu lado.
Paralisei tentando disfarçar a surpresa de sua proximidade, já havíamos ficado assim antes, mas em geral quando precisávamos do calor um do outro contra o frio congelante ou para nos escondermos de algum monstro que quisesse nos devorar.
Fechei a cara e cruzei os braços. -Agora que estamos os dois desse lado vamos voltar, ainda temos tempo até que alguém nos... -Já ia dando meia volta, quando senti sua mão em meu pulso. –Mas o que...
Sua expressão estava séria. -Nem pense nisso mocinha, chegamos até aqui e não iremos voltar agora.
Ele me pegou no colo e prendi a respiração olhando bem dentro daqueles olhos azuis que me encaravam com o inicio de um sorriso, por um segundo o medo desapareceu, mas voltou tão rápido quanto antes quando ele começou a pegar impulso.
Gritei com todas as forças dos meus pulmões e afundei meu rosto em seu peito esperando pela morte que enfim viria.
-Viu? Nem foi tão ruim.
A primeira coisa que senti foi o quanto sua respiração estava acelerada sob meu corpo, ergui a cabeça um pouco e abri os olhos lentamente me acostumando com a visão do outro lado do precipício...
Finalmente encarei ainda um pouco assustada, ele apenas sorriu orgulhoso e deu uma piscadela. Meu medo passou e imediatamente enrijeci ao notar que ainda estava em seus braços.
-Tudo bem, agora você pode me soltar. -Ele ficou levemente corado, mas imediatamente seu sorriso voltou.
-Sem problemas.
Luke me soltou no chão e com um ultimo olhar voltou-se para frente, onde a escuridão da noite se estendia por todo o lugar. Aquele havia sido apenas o primeiro desafio.
-Pronta?
Afastei a sensação de seus braços envolta do meu corpo e olhei para o mesmo lugar que ele. -Com certeza.
A cena começou a se dissolver em névoa.
Tudo não se passava de uma lembrança distante. Ultimamente isso havia ocorrido com bem mais frequência, era como se meu cérebro resolvesse por conta própria desenterrar todas as minhas antigas aventuras.
Quantos anos a gente tinha nessa?
Annabeth ainda não estava conosco, porem aquilo ocorreu pouco antes de encontra-la. Estava entre meus onze e doze anos e Luke, acho que treze ou quatorze.
Mas isso não era tão importante, o que eu realmente queria entender era o porquê destes sonhos repentinos...
Mas não havia notado que ainda dormia e sem que pudesse impedir, já embarcava para outra lembrança...
-Sabia que as estrelas são as coisas que eu mais gosto em tudo... –Soltei assim que me sentei na árvore ao lado.
-Eu também, quando estávamos apenas nós três, eu e Tainara revezávamos para montar guarda durante a noite, e sempre gostei de observar as estrelas, elas dão uma sensação de conforto e esperança. –Tobias suspirou, enquanto encarava o céu.
Balancei a cabeça e suspirei pesadamente. -A constelação que eu mais gosto é a de Zoe doce amarga.
-Por que esse nome?
Ele me olhou curioso e sem notar acabei desviando o rosto. -Foi em homenagem á uma amiga caçadora que morreu durante a guerra de Cronos.
-Entendi.
Ficamos alguns segundos em silêncio, pude sentir que me encarava e estava quase levantando para ir embora de volta ao chalé, mas por algum motivo não achei forças pra ficar de pé.
Ele me perguntou sobre a guerra de Gaia, depois acabei me empolgando e inclui a de Cronos também, mas não deixei explícitos os detalhes. Tobias relatou sua experiência no campo do inimigo, apesar de já ter uma ideia do que ocorria, fiquei surpresa com algumas histórias que ele contou.
E com isso a madrugada se passou tranquila e calma, conversamos sobre várias coisas, não disse nada relacionado á minha vida pessoal, assim como não o pressionei. Porem Tobias se mostrou muito interessado em meu trabalho no acampamento.
Estava tão envolvida na conversa que não me dei conta dos raios de sol que atravessavam os galhos. Quando ficamos em silêncio, nossos olhos se encontraram e me vi hipnotizada por seus brilhantes olhos castanhos, meu coração fraquejou e usei todas as minhas forças para desviar e levantar.
Quando nos despedimos, hesitei em ir embora com uma sensação maravilhosa que á muitos anos não sentia...
Acordei sentindo as lágrimas escorrerem, abri os olhos lentamente e fiquei encarando o teto do quarto escuro enquanto tentava entender o motivo daqueles sonhos.
Era como se meu subconsciente estivesse dando sinais dos sentimentos que tomavam conta de mim.
Nem conhecia Tobias direito e mesmo assim, aceitei vir para essa missão com o argumento de ficar de olho neles, porém a minha verdadeira intenção era conseguir me aproximar mais para tentar entender...
Como era possível que em uma semana ele começasse a invadir meus sonhos sem nem mesmo pedir permissão?
Um simples olhar havia sido o suficiente, assim como da primeira vez...
A questão era que Luke ainda permanecia vivo em minhas memórias, lembrando-me constantemente de que não importa o tempo que passasse, nunca deixaria de amá-lo...
Fechei os olhos com força, deixando que mais lágrimas escorressem, me encolhi na cama e apertei as cobertas contra meu corpo, minha cabeça girava e latejava, buscando por respostas...
Dois garotos completamente diferentes e ao mesmo tempo tão parecidos haviam deixado meu coração divido de uma forma que nunca tinha sentido antes...
Na falha tentativa de esquecer tudo aquilo, tentei dormir novamente, mas infelizmente o sonho piorou.
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TAINARA
Meu grito era a única coisa que se podia ouvir naquele momento. Novamente fomos obrigados a passar por todas as lembranças e isso doeu ainda mais, principalmente pelo fato de que agora ela estava do meu lado (pelo menos tudo indicava que sim).
Mas até mesmo o grito de frustração e dor não pertenciam aquele momento, pois ainda estávamos no meio da visão...
Ajoelhada nos destroços do que antes havia sido meu lar, sem saber o que fazer ou pra onde ir. Toda a minha vida havia sido virada de cabeça para baixo em menos de 30 luas.
Mas poderia ter sido diferente?
Quem sabe se eu não tivesse pegado no sono nada disso tivesse acontecido?
E se não houvesse passado o dia e a noite toda naquele rio e conseguisse voltar á tempo de salvá-los do incêndio?
Ou pelo menos á tempo de me juntar á eles...
Cai de bruços abraçando minhas próprias pernas, sem vontade alguma de reagir, na tola esperança de que a fumaça ali presente fosse o suficiente para me matar, fazer com que toda a dor e sofrimento fossem embora, junto com as lembranças...
Sentia as lágrimas escorrendo pela minha bochecha, mas poderia ser também o sangue ainda um pouco fresco em meu rosto...
As imagens piscavam em minha cabeça, mas ainda sim, não quis abrir os olhos, pois sabia que a menos de dois metros se encontravam os corpos incinerados e ensanguentados dos meus pais...
-Está tudo bem, já passou. Pode abrir os olhos.
Encolhi-me ainda mais sem saber de quem era a voz, poderiam ser o inimigos que ao notarem o incêndio resolveram vir saquear o que restou. Ou ainda os responsáveis pelo ocorrido que vieram terminar o serviço...
Cerrei os punhos e olhei mortalmente para cima preparada para a briga, porém a cena que vi me fez levantar em um salto e andar cambaleante para trás tentando me afastar da mulher de cara pálida, com longos cabelos e olhos da cor do céu em fim de tarde, e coberta por um pano diferente do que usávamos, com vários detalhes de flores silvestres...
Bati com as costas em algo frio e liso, levei alguns segundos para entender que era uma rocha, desviei o olhar da mulher para saber onde eu estava.
A floresta, as ocas e os corpos carbonizados haviam desaparecido e tudo que eu conseguia ver naquele local era iluminado por flores grudadas nas pedras. Tinha quase certeza de que era uma caverna e se fosse esse o caso, minha única saída se encontrava atrás da estranha mulher que mantinha os olhos pregados em mim.
-Sei que está assustada, mas preciso que me ouça. Infelizmente não cheguei á tempo de salvá-lo, porem ainda tenho uma chance...
Sua voz doce e suave estava cada vez mais próxima, assim como sua mão estendida em minha direção. Aproveitei a oportunidade para me esgueirar por seus braços abertos e correr.
-Espere!!! Vai bater...
Ignorei seu alerta e continuei correndo, a escuridão que começou a se alastrar não me incomodava, pois meu pai sempre dizia que a nossa maior arma contra a caça era à noite, desde que soubéssemos utilizá-la com sabedoria. Infelizmente não fui inteligente o bastante para seguir seus conselhos....
Balancei a cabeça tentando afastar as lágrimas que embaçavam ainda mais minha visão.
-Cuidado!!!
Sua voz estava mais distante e isso seria ótimo, pois significava que logo, logo encontraria a saída, se eu não estivesse correndo direto á outra rocha.
Parei bruscamente á alguns milímetros da parede, apesar de saber que havia percorrido uma grande parte da caverna, não sentia cansaço, a adrenalina ainda estava pulsando em minhas veias.
Esperei ouvir passos atrás de mim, mas não ocorreu absolutamente nada como se ela permanecesse no mesmo lugar.
Respirei fundo e comecei a procurar outra saída me esgueirando sempre com as costas grudadas nas paredes lisas e decorando cada caminho. Mas não importa por onde eu ia, sempre parava perto do mesmo ponto...
Pressionei os lábios enquanto retornava a única parte iluminada naquele momento. A mulher ainda estava parada no mesmo lugar com uma aura rosada á sua volta.
-Não tenha medo, eu apenas quero lhe mostrar a verdade...
Cerrei a mandíbula e fechei minhas mãos tentando conter a raiva.
-Não estou com medo.
Minha voz saiu em um rosnado e apesar de estar surpresa comigo mesma pelo modo como agi, não era mentira o que havia acabado de falar. Depois de tudo que passei, aquilo definitivamente não me causava nada além de repulsa.
A mulher sorriu com o canto da boca e fechou apenas um de seus olhos, fiquei um pouco confusa com o gesto, mas continuei do mesmo jeito.
-Você não faz ideia á quanto tempo tenho sonhado com a essa conversa...Tudo bem que não nessas circunstâncias... –Ela assumiu uma expressão melancólica, como se realmente estivesse triste pelo ocorrido. –Queria tanto que ele estivesse aqui... Mas as parcas tinham outros planos...
A mulher suspirou sonhadoramente e ficou daquele jeito por alguns segundos, mas então voltou a me olhar com um sorriso no rosto.
-Mas você ainda está aqui... E bem... Eu não poderia pedir coisa melhor.
Seus olhos brilhavam de emoção, troquei o peso de um pé para o outro sem saber o que fazer, apesar de não ter a mínima ideia de quem era a mulher algo dentro de mim dizia que eu podia confiar nela... A mesma intuição que me levou á pegar no sono naquela noite...
Segurei as lágrimas novamente, ainda era difícil aceitar que havia acabado, tão rápido e ao mesmo tempo tão doloroso...
-Calma, não chore. Sei que dói, mas vai passar.
Sem que eu tivesse notado deixei que ela se aproximasse á ponto de tocar um dos meus ombros, recuei alerta com seu toque a deixando com uma expressão ainda mais triste.
-Infelizmente não temos tanto tempo quanto gostaria, por isso espero que seja o suficiente para te impedir de ir atrás de vingança.
Ela estendeu em minha direção um estranho objeto em forma de flor pendurado em uma corda amarela, muito diferente de qualquer coisa que eu tenha visto em toda a minha vida.
A curiosidade falou mais alto e depois de hesitar por alguns segundos, o peguei em minha mão. Uma sensação de conforto e felicidade tomou conta de mim e pela primeira vez consegui enxergar uma fresta de luz em toda aquela escuridão.
-Isso é um colar, foi seu pai que escolheu... –Ergui os olhos em sua direção á menção do nome. –Ele queria lhe entregar quando fosse a hora certa e depois de tudo que a vi fazer, não tenho duvida nenhuma de que esteja preparada.
Não respondi, apenas voltei á olhar o colar em minhas mãos, ele tinha um brilho próprio e era quase impossível não se impressionar. Ainda mais quando descobri que foi ele quem me deu. Essa nova informação apenas me fez ter certeza de que nós dois éramos completamente diferentes de todos, nem mesmo Naiá tinha tanta visão de um mundo diferente quanto nosso querido pai...
-Preciso que o coloque em seu pescoço e feche os olhos.
Concordei com a cabeça e fiz exatamente o que ela pediu, apesar de não fazer ideia como foi que o colar se abriu e deu a volta em meu pescoço, travando logo em seguida. Resolvi não perguntar e fechei os olhos então um clarão cobriu todo o lugar.
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THALIA
Todos estavam lá, juntos e felizes.
Annabeth e Hazel conversavam animadamente enquanto á alguns metros de distancia Percy e Frank lutavam, espada contra arco, não era uma competição, sempre que um deles estava prestes á ganhar se rendia. Queriam apenas testar suas habilidades de parceiros da quinta corte.
Grover e Juniper andavam de mãos dadas em direção á praia. O treinador Hedge e sua esposa Mellie corriam á gargalhadas atrás de seu pequeno bodezinho.
Quiron estava dando aula de montaria para Connor e uma garota, não conseguia ver seu rosto, pois o campista estava na frente, apenas um vislumbre de seus cabelos na altura dos ombros era visível.
Vários outros semideuses treinavam ou cumpriam suas tarefas, todos sorrindo e se divertindo, sem preocupações...
Nico e Will acenavam para o Pégaso de Reyna que havia acabado de pousar um pouco abaixo da colina. A pretora usava sua roupa normal de campista e estava de mãos dadas com um garoto alto e forte, que por algum motivo possuía uma espessa neblina cobrindo o rosto, mas não achei estranho, pois era apenas um detalhe em meio á tantos sorrisos e risadas.
-O que está olhando?
Uma voz muito conhecida falou ao meu lado. Sorri para seus intensos olhos azuis e respondi.
-Estou apenas observando a maravilhosa paisagem.
Estávamos no topo da colina do acampamento, encostados á sombra do meu Pinheiro e era possível enxergar absolutamente tudo. Ele sorriu com a imagem, então me encarou e seus olhos brilharam.
-Realmente. É Muito linda.
Abaixei a cabeça ainda sorrindo, senti sua forte mão em meus cabelos, descendo vagorosamente para minhas bochechas rosadas, demorando um pouco mais em meus lábios e por fim parando em meu queixo, onde começou a levantá-lo levemente, me deixei ser conduzida, olhando para sua boca, o inicio de sua cicatriz...
-Você já pode se afastar dela.
Ele parou e nós dois olhamos para Jason que o encarava com a sua melhor cara de malvado e com os braços cruzados. Piper revirou os olhos e lhe deu uma cutucada com o cotovelo.
-Pare com isso, eu disse que eles estavam conversando.
-Isso não me pareceu uma conversa. –Ele bufou e ela riu.
-Deixa disso e vamos que as meninas estão me esperando.
Ele continuou no mesmo lugar, nos levantamos ao mesmo tempo e os abracei bem forte.
-Você deveria ouvi-la, ela sabe o que diz. –Falei seriamente para Jason e pisquei para Piper logo em seguida, ela retribuiu e concordou. –E não se esqueça de que eu ainda sou a irmã mais velha.
-Às vezes não parece...
Piper o bateu novamente e nós duas rimos. Ele o encarou por alguns segundos, então apertaram as mãos e sorriram um para o outro.
-Cuide bem da minha irmã Castellan.
-Pode deixar.
Eles se afastaram e nos sentamos novamente. Senti sua mão em volta dos meus ombros e me aproximei até encostar a cabeça em seu peito.
Ficamos daquele jeito, apenas observando e apreciando a alegria que emanava daquele lugar. Jason e Piper pararam no meio do caminho para conversar com Edvine, Andressa e as outras caçadoras.
Estavam todos lá, juntos e felizes.
Como tinha que ser.
Sem nenhuma preocupação.
Nem arrependimentos.
Apenas nós com nossa família...
-Você acha mesmo que isso realmente irá acontecer?
Afastei-me e o encarei com os olhos arregalados, não era ele... Não mais...
-Olhe ao redor e veja o que seu futuro aguarda.
Esforcei-me para desviar o olhar de Ártemis que sorria friamente.
Levantei em um salto com as mãos tremendo.
Onde quer que eu olhasse tudo que via era caos e destruição. Fumaça se alastrava por todo o acampamento e os corpos das pessoas caiam sem vida marcados por flechas. Meus olhos encontraram os de Jason antes deles se fecharem completamente com uma flecha cravada em seu peito.
Lágrimas caiam descontroladamente, fiquei paralisada, balançando a cabeça de um lado para o outro, sem saber o que fazer.
-É o que acontece com quem não cumpre suas promessas. Sabia que isso iria acontecer e mesmo assim foi egoísta. Você pensa só em si mesma, é fraca e inútil. –Sua risada ecoou por todo o local me dando arrepios. –Todos que te amam pagam um preço, pois você não é digna!
-Tha-Tha-Thalia... Você... Pro-prometeu...
Olhei para o lado e gemi, sentindo mais lágrimas caírem. Luke estava amarrado com correntes que lhe injetavam veneno, todo seu corpo tremia e os olhos estavam revirados nas órbitas.
-Você é uma desgraça. Enquanto respirar continuará quebrando promessas e todos a sua volta morrerão e sofrerão.
Então bem diante dos meus olhos, Luke desapareceu com um ultimo suspiro, dando lugar á Tobias, na mesma situação, seus olhos castanhos se encontraram com os meus e pude ver suplica, medo, dor e angustia me acertando direto no peito.
-Po-por...que?
Queria gritar ou espancar aquela deusa até o mais próximo de morte que um deus poderia chegar, mas ao invés disso cai de joelhos balançando com ainda mais força a cabeça, meu corpo começou a tremer entrando em convulsão, lágrimas embaçavam completamente minha visão.
Aquilo não era real.
As coisas não podiam acabar daquela maneira.
Estava tudo bem.
Eu matei á todos.
Não era real...
-Nã-na-não...Não... –Encarei Ártemis que ainda sorria diabolicamente e isso despertou um pouco de força em minhas veias, então gritei com todas as minhas forças.
–NÃO!!!
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TAINARA
Depois de 25 sóis procurando, eu finalmente havia encontrado.
Mesmo ela não querendo acabou me dando pistas, suas respostas foram esclarecedoras o suficiente para que eu soubesse quem estava procurando e finalmente, depois de tanto tempo eu havia conseguido...
-Pare...
Um sussurro ecoou em meus ouvidos, fazendo com me arrepiasse por completo, olhei ao redor procurando pelo responsável, mas não encontrei ninguém.
Desde do nosso encontro naquela misteriosa caverna essa voz vinha me acompanhando, principalmente quando estava no caminho certo, era como um alerta de que não devia continuar.
Fiquei de pé encarando a espessa neblina que cobria a entrada para o Mundo Inferior, mesmo não dormindo há três luas, com fome, sede e com as roupas “novas” aos farrapos, sentia a adrenalina percorrer todo meu corpo, não estava nem um pouco cansada e segurei o impulso de correr em direção aquele lugar tenebroso, iria precisar de todas as minhas forças para enfrentar o que estava por vir e depois de pensar um pouco resolvi montar acampamento próximo ao local.
Parei á alguns metros de distância, em um canto camuflado. Olhei para a terra e levantei minhas mãos, fazendo com que uma rosa aparecesse, ela começou á crescer acompanhando meus gestos e quando ficou do tamanho exato, parei.
Peguei minha “mochila” que Perséfone me deu. Nunca havias visto algo parecido, mas ela explicou como funcionava, colocando várias coisas dentro e facilitando a viagem de uma pessoa.
Realmente era muito útil, havia um estranho objeto que ela chamou de garrafa térmica que armazenava a água que eu colhia dos rios, além de ser grande o suficiente para carregar todas as frutas que eu encontrava.
Comi o suficiente para preencher os enormes buracos do meu estômago e bebi água até saciar minha sede, então usei o resto do liquido para lavar o rosto. Quando terminei limpei um pouco da sujeira de minha roupa, outro presente dela, assim como o nome.. era um pouco diferente das que usávamos, feita com pele de animal e cobrindo todo o meu corpo, além da bota.
Demorei muito para me acostumar com tudo aquilo, mas depois de tanto tempo vagando por lugares novos e desconhecidos acabou sendo útil.
Entrei dentro da flor e fiz com que ela se fechasse, pegando no sono quase imediatamente.
Não sei por quanto tempo dormi, mas não estava cansada. Desmontei o acampamento e segui em frente sem olhar pra trás, ignorando completamente o ultimo alerta de minha mãe...
Não foi tão difícil quanto achei que seria enganar Caronte (o porteiro do mundo dos mortos) e em menos de alguns segundos estava no Mundo Inferior. Passei despercebida pelo enorme cão de três cabeças, graças á uma flor que inibia o cheiro, descobri ela quando precisei me esconder de um gigante e a tenho usado para afastar outras criaturas piores desde então...
Quando finalmente cheguei ao castelo das trevas, acabei travando. Passei tanto tempo procurando por isso, sendo o único motivo para eu não me jogar no abismo sem fim a minha volta, minha vida havia sido tirada de mim desde aquele dia e não tinha mais nada que me motivasse além da Vingança.
Uma sensação que havia ficado sem nome até que Perséfone a descreveu para mim naquela caverna...
Segui em frente, usando todas as minhas habilidades adquiridas para passar despercebida, estava indo tudo tão bem que até achei que teria uma chance quando o encontrei.
Não havia palavras para expressar o sentimento de raiva, angustia e dor que me tomavam naquele momento. Tudo que passei foram jogados pra fora em um turbilhão de emoções e quando percebi o havia prendido em uma enorme flor de bronze celestial em seu próprio trono.
Caminhei até ele com o doce gostinho da vingança pulsando em minhas veias.
-Lembrasse-se de mim?
Falei com raiva, ele porém continuou me encarando com uma expressão de escárnio.
Não consegui me conter e esqueci tudo que iria falar, com um simples movimento a flor começou a esmaga-lo e seus olhos ficaram vermelhos.
-PARE!!!
Ambas as vozes me fizeram vacilar e olhei para trás sem acreditar no que via.
-Na-Naiá...?
Era ela, mas não é possível, eu a vi morrer...
-CUIDADO!!!
Ela e Perséfone arregalaram os olhos e gritaram juntas com as mãos para o ar, me virei á tempo de ver Hades se livrando da prisão em toda a sua fúria, agora mais alto do que qualquer coisa que eu tenha visto.
-NÃO GOSTO QUE ME DESAFIEM GAROTA! E NÃO VOU PERMITIR QUE UMA SIMPLES MORTAL FASSA ISSO!
-Por favor, você prometeu!
Perséfone suplicou, mas ele já possuía uma enorme bola negra em suas mãos e sabia que nenhum escodo de espinhos me ajudaria diante daquilo.
Olhei uma ultima vez para Naiá com um olhar de melancolia tentando entender o motivo daquilo, mas ela apenas negou com a cabeça com os olhos cheios de lágrimas.
Voltei á encará-lo com a raiva como uma canção pulsando em meus ouvidos. Fiz com que várias flores prateadas brotassem do chão até a sua altura, não lhe dando chance de fazer qualquer coisa além de inalar o veneno do pólen.
Ele urrou e antes que desmaiasse, jogou seu poder em minha direção. Minha vista escureceu e senti todo meu corpo em chamas enquanto uma dor lancinante tomava conta de todos os meus sentidos.
Pude ouvir vozes distantes, mas não ás reconheci.
As enormes chamas negras ainda queimavam e conseguia escutar meus próprios gritos de terror e dor como um chamado da morte que se aproximava...
Depois do que pareceu uma eternidade, um pouco de claridade voltou, apesar de estar tudo tingido de vermelho, vi quando elas apareceram ao meu lado, Naiá ergueu meu corpo incinerado do chão e me abraçou chorando descontroladamente, assim como Perséfone.
-Minha querida filha. Eu tentei avisar...
Fixei os olhos em Naiá desejando obter as respostas que precisava para partir. Ela pareceu entender e após me dar um demorado beijo na testa, sussurrou em meu ouvido.
-Eu escolhi a caça... Minha culpa... Devia ter contado... Sinto muito... Eu te amo.
O tempo que levei para entender suas palavras foram também meus últimos pensamentos antes de me render ao sentimento de desespero e traição.
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