Notas iniciais
Hola semideuses lindos!!! = D Sem desculpas do porque demorei, apenas que simplesmente mal tive tempo de toca em meus livros nos últimos dois meses, mas vou tentar recompensar de alguma maneira... Obrigada pela compreensão e boa leitura a todos ; D

JÚLIO

SETEMBRO DE 1943

-Foi tudo o que consegui dessa vez.

Edvine falou assim que entrou no esconderijo, com ambas as mãos ocupadas por sacolas. Ela as colocou no chão e sorriu enquanto retirava a gabardina branca que estava por cima de seu longo vestido de seda vermelho, depois começou a tirar as luvas e a touca também brancas, revelando sua pele em tom café e os longos cabelos pretos presos em uma trança. Seu rosto estava levemente rosado por conta do frio e os lábios possuíam a cor vermelho vivo assim como a roupa.

Ela era a garota mais linda que já tinha visto em toda a minha vida e nunca me cansava de admirá-la...

-Júlio? Está tudo bem?

Sai do meu transe e sorri. –Melhor agora com você aqui.

Ela abaixou a cabeça constrangida o que me fez sorrir mais enquanto ia conferir o que havia levado daquela vez.

Comida, água e roupas o suficiente para alguns dias...

-Obrigado. –Lhe dei um beijo na bochecha a levando a sorrir também.

-Sabe. –Ela começou enquanto se sentava encima das cobertas que serviam de sofá e cama. -A comida pode durar um pouco mais se você não comer tudo de uma só vez, de novo.

A encarei enquanto abria um pacote de biscoitos, ela estava com as sobrancelhas levantadas e fiquei olhando dela para os doces em minha mão.

-Mas que de outra forma eu posso obriga-la a vir me visitar em meu humilde lar? -Estendi o pacote em sua direção.

Edvine revirou os olhos, mas aceitou. –Tão dramático.

Ri e me sentei ao seu lado. –E você adora esse meu lado.

Ela me entregou os biscoitos e comemos em um silêncio reconfortante apreciando apenas a companhia um do outro.

Quando terminamos, Edvine se levantou para jogar o embrulho na pequena bacia de ferro que eu usava de lixo. A observei se afastar e levei a mão ao bolso sentindo o peso reconfortante da caixinha de veludo.

-Me fale sobre a deusa Nyx. –Ela se sentou ao meu lado novamente me encarando com expectativa.

Me aproximei mais ainda com um sorriso diante de sua curiosidade. –Ela é conhecida como a Personificação da Noite e uma das deusas Primordiais e dos Segredos Noturnos. –Uma figura roxa e dourada com roupas feitas de estrela e escuridão começou a dançar entre meus dedos. -Nyx também é vista como defensora das bruxas e feiticeiras, além de controlar a vida e a morte dos homens e dos deuses, atraindo respeito e temor de todos. –Encenei um pequeno altar com várias figuras em diferentes tons de azul, vermelho e verde ajoelhadas diante da Mini Nyx. -Assim sendo, até Tártaro, Titã primordial, a respeitava tanto ao ponto de ceder um lugar em seu grande abismo para que sua mansão de pesadelos fosse instalada.

Seus olhos estavam brilhando agora diante das imagens, tão intensamente que era como se estivesse vivendo a história naquele exato momento.

-Sua vez...

Ela engoliu em seco e demorou mais alguns segundos para desviar das minhas mãos.

-“Lá também fica a sombria morada da Noite;
nuvens apavorantes a envolvem na escuridão.
Em frente a ela, Atlas permanece ereto
e sobre sua cabeça e braços incansáveis
sustenta com firmeza o amplo céu,
onde Noite e Dia cruzam uma soleira de bronze
e então, se aproximam e se saúdam.”

-Teogonia de Hesíodo.

Ela sorriu concordando. –Nunca esquece de nada não é...

Nossos lábios agora estavam a centímetros de distância, a luz das pequenas figuras dançavam a nossa volta iluminando seu rosto de uma maneira incrivelmente bela. Entrelacei uma de nossas mãos e levei a outra ao bolso novamente.

—Também não esqueci que dia é hoje.

Seus olhos negros como a noite.,. como os daquela deusa... se arregalaram enquanto olhavam para a caixinha.

-Júlio...

Respirei fundo. -Apesar da situação em que estamos, 18 anos é uma data muito especial, ainda mais quando se comemora com a pessoa mais legal de todo esse Mundo.

Fiz minha melhor cara de convencido, ela, porém continuou sem me encarar e apertei sua mão com mais confiança enquanto lhe entregava a caixinha.

-Feliz Aniversário. É simples, mas acho que vai gostar.

Edvine demorou alguns segundos para aceitar o presente e quando o fez estava com as mãos trêmulas. Umedeci os lábios sentindo a garganta ficar seca enquanto a observava.

Ela andava diferente nesses últimos dias, me visitando com bem menos frequência e ficando cada vez mais distante, não querendo revelar o motivo de suas atitudes, mas eu precisava fazer aquilo... não podíamos mais continuar naquela situação, se queria seguir com o plano de fugirmos, faria do jeito “certo”.

Edvine a abriu lentamente e prendeu a respiração com o presente.

-Isso é... É...

Seus olhos lacrimejavam, levei sua mão aos lábios e a beijei demoradamente, fazendo-a estremecer. Depois peguei o anel da caixinha e á encarei cheio de esperança e amor.

-Edvine Constantine das Graças, você me daria à honra de ser seu noivo?

Ela piscou várias vezes e depois de alguns segundos agonizantes respirou fundo. –É isso mesmo o que você quer?

Limpei a garganta. -Não era a resposta que eu esperava.

-Seja sincero.

Não hesitei em nenhum momento. -Levando em conta a situação em que me encontro essa é a única certeza que tenho em toda a minha vida. Ela sorriu com o canto da boca. –E sua opinião não mudaria caso nosso tempo fosse curto?

Apesar de estranhar suas perguntas, não as questionei, respondi com todo o meu coração da melhor forma que sabíamos nos comunicar.

-“A vida é curta demais
para longas brigas,
longas angústias,
longas dores,
longos pudores...

Seu sorriso foi amplo e verdadeiro daquela vez.

-Curta demais
para não desculpar,
não viver, não amar...
A gente sempre espera pelo amanhã...

Nossas respirações se misturavam e meu olhar estava fixo em sua boca quando ambos perguntamos ao mesmo tempo.

-Haverá?

Rocei seus lábios nos meus a fazendo suspirar. -Eu me casaria com você mesmo que o Mundo acabasse segundos depois... –Beijei o canto de sua boca. -Porque o meu Mundo, estaria apenas começando.

Ela começou a traçar linhas invisíveis por toda a extensão do meu maxilar. -Eu também me casaria com você mesmo que tudo mudasse segundos depois...

O calor de sua pele sobre a minha tomou conta de todos os meus sentidos e quando ela me beijou, quando suas mãos passearam por meus cabelos, quando nossos corpos dançaram no mesmo ritmo daquela melodia invisível...

Todas as preocupações sumiram, não me importava com o futuro desde que estivéssemos juntos.

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LUKE

Luke Castellan estava definitivamente morto!

Mas a tortura ainda não havia acabado...

Os monstros estavam a minha volta dilacerando-me por completo, como se não bastasse à punição de vê-las presas ou o fato do veneno ainda agir em meu corpo.

-Quando irá entender? Não importa o quanto tente fugir ou se esconder, sempre irá voltar para a estaca zero, sem ninguém que possa ou queira te ajudar.

Rangi os dentes tentando conter a dor, pedaços de pele, da minha pele, voavam para todas as direções. Os sons de ossos sendo triturados em meio a presas e grunhidos abafava os meus próprios sons desfigurados pela agonia de ver e sentir as enormes unhas negras e vermelhas das bestas me rasgando por completo, até não restar mais nada.

Mas meu corpo se regenerava rápido demais, e então o processo se repetia...

De Novo...

De Novo...

De Novo...

-Você não é digno de continuar. É impotente e fraco. Um simples mortal que se sacrifica por pessoas que não dão à mínima.

O som da risada foi tão repentino e inesperado que todos pararam exatamente como estavam.

-Como ousa rir? Não percebe que é o fim?

Não sei quanto tempo demorou exatamente até eu notar que o Bicho sem face estava irritado por eu continuar rindo.

-VOCÊ PERDEU E EU GANHEI!!!

Minhas forças deveriam estar vindo do Tártaro, pois desatei á rir ainda mais. De repente todo o local ficou em silêncio. Era como se até mesmo as outras torturas tivessem sido interrompidas para que assistissem de onde poderia estar vindo aquela risada em um local como aquele.

Encarei o abismo além da visão dos monstros e sorri... um sorriso tão perturbador que fez com que até mesmo as bestas se afastassem e a escuridão se condensasse mais.

-Eis a diferença entre nós dois. Eu tento concertar meus erros mesmo depois da morte... Vivo por eles. –Cuspi uma quantidade excessiva de sangue e tentei recuperar o fôlego diante das correntes. –Mas você... você se fortalece com o sentimento de culpa dos outros... Fazendo de tudo para que se desesperem... E saiba que nunca... –Cuspi mais sangue e senti a visão ficando turva. –Nunca. Irei. Desistir!!!

A escuridão gritou de raiva e os monstros voltaram ao trabalho, porém a dor não me impediu de unir todas as forças do meu pulmão e rir uma última vez.

-EU VENCI!!!

Um clarão.

Tudo desapareceu antes mesmo que eu fosse capaz de processar a informação...

Não havia mais monstros, nem vozes, ou correntes e principalmente... Não havia mais dor ou sangue... Apenas luz...

Minha vista foi se adaptando e pude avistar uma porta de madeira, caminhei até ela e sem hesitar abri uma pequena fresta.

-Vocês estão prontos?

-Sim!

Aquelas vozes... Eram inconfundíveis.

Isso seria possível?

A não ser que também tivessem partido...

Não gostei de pensar naquela possibilidade, precisava ter certeza do que aconteceu depois que morri.

Passei pela porta e sem que soubesse embarquei em outra cachoeira de lembranças, só que dessa vez, de outras pessoas.

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JÚLIO

JANEIRO DE 1944

Eu a perdi...

Não havia duvidas, depois de quatro meses de angustia e sofrimento, finalmente entendi que ela não queria ser encontrada. Mas precisava saber os motivos.

Já fazia uma semana que as observava e havia decidido que aquela noite seria definitiva, iria atrás de respostas!

Esperei que todas fossem dormir. Ela e mais duas garotas haviam sido escaladas para o primeiro turno de vigilância, cada uma foi para um lado do acampamento. Como imaginei, Edvine ficou com a parte mais afastada da floresta, a segui de uma distância segura, apesar de saber que não poderia me ver.

Ela parou á alguns metros de distância, próxima á um lago e antes que pudesse assumir seu posto, á interceptei com cordas invisíveis. A garota tentou gritar, mas fiz com que chegassem até sua boca e nos tele transportei para meu esconderijo, ficando visível logo em seguida.

-Não se apavore. Sou eu, Júlio. -Seus olhos se arregalaram e uma lágrima escorreu em sua face. –Não chore, está tudo bem...

Esperei até que ela assentisse então soltei as amarras. O silêncio porém foi devastador.

-Você se lembra de mim né? –Falei com um nó na garganta, esse pensamento me causava calafrios. –Por favor, fale comigo... Você se lembra...

-Sim. –Ela respondeu com a voz embargada. –Eu sei quem você é Júlio.

Tomado pela emoção, a puxei para mais perto e lhe dei um enorme abraço, sem acreditar que era real, estávamos juntos novamente.

Passei a mão em seu rosto, observando e memorizando cada detalhe.

Deuses.

Mesmo depois de tudo, eu não conseguia ficar longe dela... Queria tocá-la de todas as formas possíveis, ansiava por provar seu gosto novamente, sentir seu cheiro e a maciez de sua pele...

Mas apesar de sua respiração estar se normalizando, aquele olhar... sua postura ainda ereta se recusando a retribuir o abraço...

Me afastei e á encarei sério.

-Por quê?

Ela respirou fundo e sustentou o olhar. –Você não devia ter vindo atrás de mim.

-Essa não é a resposta. –Cerrei a mandíbula e insisti. –Por quê?

-Júlio... Tente entender... Eu... Eu... –Seus olhos lacrimejavam.

-Você o que? –Me aproximei novamente.

-Eu... –Edvine suspirou e tomou fôlego pra continuar. –Eu não sou quem você pensa.

-Então quem é você afinal? Pois a minha noiva não iria sumir de um dia para o outro sem nem mesmo explicar.

-Eu deixei um bilhete...

-Então é isso que sou pra você? –Franzi as sobrancelhas tentando disfarçar a mágoa. -Um pedaço de papel que poderia ser escrito por qualquer um. Achou mesmo que não iria atrás de respostas... que não tentaria te encontrar? –Passei a mão no cabelo irritado diante de seu silêncio. –Pelos deuses Vine! Realmente pensou que eu fosse esse tipo de pessoa?

Ela pressionou os lábios e uma nova lágrima escorreu de seus olhos. -Eu achei que fosse entender...

-DESAPARECENDO DESSA MANEIRA?

Ergui as mãos fazendo com que as luzes na caverna oscilassem e piscassem como se refletissem a raiva, tristeza e angustia que cresciam dentro de mim.

Comecei a andar de um lado para o outro na falha tentativa de acalmá-los, mas não estava ajudando em nada o fato de Edvine ter se encolhido mais diante do meu poder, como se temesse pela sua segurança perto de mim...

-De todas as pessoas nesse Mundo. Achei que era a única que me conhecia... Mas parece que em sua cabeça eu sou um monstro sem coração.

-Não diga isso... Você é uma das pessoas mais bondosas que eu já conheci.

Parei de andar fazendo com que as luzes ficassem em um tom avermelhado e a levando a arregalar os olhos.

Ela fraquejou. -Esse é o meu destino... Desde o dia em que você me mostrou essa nova realidade... Soube onde é o meu lugar. Eu sempre fui uma caçadora e agora entendo o porquê...

-Mas eu não entendo. –Dei um passo em sua direção. -Se realmente sente isso á tanto tempo, então por quê continuou me ajudando? Por quê não me falou nada? –As luzes agora mudavam de vermelho para um roxo cada vez mais escuro. -Por quê me deixou pensar que a haviam matado por ser quem era?

Ela estava olhando de mim para as luzes com um espanto verdadeiro nos olhos.

-Por quê aceitou ser minha noiva? Por quê Edvine?

Por quê me fez sofrer por tantos meses?

Por quê não me avisou da doença da única outra pessoa que já se importou comigo?

Por quê não me deixou me despedir dela?

Por quê me abandonou?

As luzes haviam desaparecido quase por completo, mas mantive o olhar sobre ela, esperando por respostas que vieram em forma de lágrimas, diversas delas em um choro antes contido, mas que agora tomava conta do corpo de ambos e que não dava espaço para palavras.

Eu queria gritar com ela, jogar toda a dor do que passei naqueles últimos meses encima de seus ombros chorosos, mas ao mesmo tempo ainda me agarrava a uma tola esperança e necessidade de poder tocá-la e beijá-la como antes.

Cerrei os punhos e me contive novamente, então esperei, esperei até que ela também jogasse toda sua angustia para fora.

Somente quando todas as luzes retornaram, um pouco foscas e fracas, que Edvine fungou e começou a falar.

-Eu precisava de tempo para encontrar meu destino, para ter certeza de que não cometeria erros. –Ela se aproximou, mas não consegui me afastar. –E até aquela noite ainda não tinha certeza de qual decisão tomar... você foi minha única família por tanto tempo que pensei... –Um pequeno sorriso brotou em seus lábios enquanto segurava de forma hesitante minhas mãos.

Respirei fundo e rocei seus dedos com os meus não querendo que ela se afastasse novamente, porém aquele olhar ainda estava lá...

-Pensei que poderia dar certo entre a gente... Que seriamos felizes juntos e isso bastaria... Mas agora eu entendo que as coisas não funcionam dessa maneira.

Apertei sua mão. –Mas é claro que isso basta. Ainda somos uma família e só temos um ao outro, Vine. Juntos somos capazes de qualquer coisa, você não pode desistir assim...

Por favor não me deixe...

-Nem mesmo parentes somos de verdade.

A encarei incrédulo e me soltei, mas havia um peso extra e minha mão agora. –Que diferença faz?

Ela fechou os olhos e respirou fundo. –Fui adotada pelos seus tios, não sou nada sua... Agora eu sei... Minha vida inteira foi uma completa mentira.

Cerrei a mandíbula sentindo as luzes voltarem a piscar enquanto aquele pequeno circulo entre meus dedos começava a se tornar gélido.

-Então quer dizer que você só aceitou ser minha noiva porque achou que éramos parentes e tínhamos uma obrigação com nossas famílias? -Ela começou a balançar a cabeça, mas continuei. –Bom, ela também não era minha tia e você descobriu isso no mesmo dia que eu, talvez, tenha aceitado me ajudar apenas até conseguir informações o suficiente sobre esse “Novo Mundo” que te mostrei, e aceitar meu pedido foi apenas um bônus temporário não é mesmo?

-Júlio... por favor...

-Tudo em sua vida foi uma mentira? Até seus sentimentos por mim? -Mostrei a aliança que ela acabara de me devolver. -Nada do que passamos juntos significou algo para você?

-Claro que significou! Por Artêmis eles significaram tudo para mim!

Ela se aproximou e tentou me tocar novamente, mas dessa vez consegui me afastar com repulsa no olhar. O peso daquelas palavras, daquela jura e daquele circulo de ouro, pesaram sobre nós enquanto Edvine engolia em seco e tentava continuar.

-Nós dois juntos... tudo o que passamos... foram os únicos momentos que realmente importaram e me fizeram hesitar em minhas escolhas... –Ela abaixou a cabeça e cerrou os punhos. –Mas aqui é o meu lugar... Eu aceitei esse caminho e me sinto feliz... Completa novamente.

As luzes responderam por mim e Edvine voltou a me encarar com súplica no olhar.

-Preciso que você entenda... Por favor, Lio...

Raiva explodiu do meu corpo em forma de um brilho verde e roxo ao escutar aquele nome... o apelido que ela me chamava quando estávamos apenas nós dois em nossos momentos mais secretos... Que nunca mais existiriam novamente.

-Se está feliz assim, então não tenho mais nada para falar.

Virei às costas e andei á passos largos em direção á parede oposta.

-Júlio! Espere! Não vá!

-Se este é o seu lugar e se sente tão bem aqui que não teve tempo de me avisar, então peça ajuda a sua nova família.

-Júlio... Por favor...

O choro e dor em sua voz me fizeram parar. Fechei os olhos sentindo lágrimas escorrendo pelo meu rosto enquanto o peso da aliança se tornava a única lembrança de que não deveria me virar.

E não cedi a ela daquela vez.

-Só não venha me procurar quando essa família virar as costas para você também.

Passei pela parede da caverna ignorando os gritos de Edvine.

Nunca mais cederia.

***

Julho de 1944

Corpos.

Era isso que ocupava todo o meu campo de visão, após mais uma vitória do dia.

-Permissão para falar senhor. –O soldado Collin apareceu ao meu lado.

-Prossiga.

-Esta área está limpa senhor. Não ouve nenhum sobrevivente.

-Relatório.

-Cinco baixas e doze feridos, mas já em fase de recuperação.

-Ótimo.

Olhei para o céu de meio dia, depois o encarei, ele era alguns centímetros mais baixo que eu, com a mesma cor de cabelo castanho, se não fosse pelos olhos azuis e a pele morena poderíamos ser facilmente confundidos.

Collin é o melhor de toda a minha tropa, e consequentemente meu braço direito nessa guerra.

-Não podemos ficar expostos por muito tempo. Darei alguns minutos pare que os feridos sejam tratados e o local limpo, então partiremos em direção ao nosso posto de vigia levando os nossos mortos para que sejam feitos os devidos ritos funerários. Entendido?

-Sim senhor!

Ele bateu continência e saiu para cumprir minhas ordens.

Fiquei alguns segundos parado, observando a cena ao meu redor, não era algo que me orgulhava, mas sabia que era necessário.

Vidas eram perdidas hoje para que outras delas tivessem uma chance...

Sessenta minutos depois deixávamos para trás um campo limpo sem sinal algum de que antes era um banquete para os abutres e um indicativo de nossa localização. Porém mesmo que de alguma forma conseguissem identificar nossa presença ali, contingentes comuns levariam até três horas para chegar perto do nosso posto, e fazíamos esse caminho na metade do tempo com o peso extra dos corpos, então não encontrariam absolutamente nada de relevante caso chegassem ao local certo.

Um tempo depois já havíamos enterrado os corpos e fiz uma carta explicando nossa situação ao meu superior, mandei por meio da minha águia “particular”, treinada por mim mesmo apenas com a finalidade de nos manter conectados com o Mundo exterior e de ser meus olhos no Céu. Já que não podíamos nos dar ao luxo de um meio de comunicação mais comum das guerras, como os mensageiros que arriscavam suas vidas para entregar comunicados importantes. A existência de nosso batalhão não era confiada a esses jovens ou a qualquer outro soldado.

Já era noite e a maior parte de minha tropa descansava depois de duas batalhas vitoriosas em um único dia. Eles eram meu maior orgulho e conquista desde que havia saído clandestinamente do Brasil.

Dei uma volta por todo o acampamento antes de assumir meu posto de vigia. Estávamos á alguns quilômetros do quartel inimigo, fiquei no meio das árvores de um modo quase invisível. Atacaríamos ao amanhecer e estava tudo preparado, eles nem saberiam o que os atingiria.

Um pequeno ruído as minhas costas me chamou a atenção, virei-me com a espada em punhos (que era a única arma que carregava, além do livro de feitiços), porém ela foi varrida da minha mão com um simples estralar de dedos.

-Poxa não é assim que você trata uma dama.

A encarei expressando indiferença, á minha frente estava uma jovem de aproximadamente 17 anos, com cabelos e olhos pretos quase tão profundos quanto os de Edvine, mas a semelhança acabava por ali. Sua pele muito clara e postura ereta davam sinais de ser uma guerreira, apesar de saber que isso não era possível. Estava vestida com uma camiseta roxa com detalhes em dourado e uma calça escura, mesmo parecendo simples, não pude deixar de admirar sua beleza, mas sabia que ela era uma deusa, porém não tinha contato com muitos deuses (na verdade nunca havia visto um pessoalmente).

-O que quer de mim?

Ela arregalou os olhos e balançou a cabeça. –Por que sempre que aparecemos vocês acham que é para pedir algo? É difícil acreditar que eu sai lá do Monte Olimpo apenas para conversar?

Não me dei ao trabalho de responder, já havia pesquisado e me informado o suficiente dos deuses para saber como fazem seus jogos.

Ela respirou fundo e passou a mão em seu lindo cabelo com trança lateral. -Sinto lhe informar que vocês estão errados, meu namorado como você deve saber adora guerras e eu amo as declarações e cenas românticas que acompanham esse cenário devastador.

A garota suspirou. Por mais que tentasse se esforçar, não conseguia fazer uma expressão romântica, era como se a fisionomia que escolhera assumir não tivesse sido criada para isso.

Porém as peças começaram a se encaixar e não hesitei em afirmar. -Você é Afrodite, a deusa do amor e da beleza.

Ela sorriu amistosamente e seu rosto ficou ainda mais bonito. –Fico feliz de ter me reconhecido tão rapidamente assim. Tudo bem que com as pistas que forneci e seu extenso histórico de estrategista foi fácil. –Afrodite piscou pra mim

Cruzei os braços. -Pensei que se parecia com alguém que a gente conheça e goste.

A garota riu. –Não necessariamente, às vezes me mostro como a mulher mais bonita da atualidade, o que todos dizem que sou em modéstia parte. –Ela riu internamente e continuou. –Mas dessa vez eu estou exatamente como descreveu.

Continuei com a mesma expressão, mas por dentro vasculhava minha mente tentando encontrar alguém com aquele mesmo rosto.

-Achei que seria mais fácil falar o que preciso com a aparência de alguém que apesar de ainda não conhecer fará parte de sua vida... Pelo menos se sobreviver. –Ela fez sinal de indiferença e continuou. –De qualquer forma preferia que eu aparecesse assim?

Em um piscar de olhos Edvine se materializou bem na minha frente, e imediatamente fui tomado pela raiva e desejo o que fez com que eu ansiasse ter minha espada novamente.

Limpei a garganta tentando me manter firme, mas por pouco não fraquejei. -Assuma a aparência que quiser desde que fale logo de uma vez, pois preciso voltar ao meu posto.

Ela pareceu querer demonstrar ressentimento, mas aquilo combinava com Edvine tanto quanto a expressão apaixonada para a outra garota.

-Quando vocês homens irão entender de uma vez por todas que o amor pode resolver todos os problemas? Algumas histórias são mais interessantes que outras, como no seu caso, mas nenhuma é menos importante ou insignificante. –Seus olhos brilharam intensamente. –Em casos mais sérios não gosto de facilitar as coisas para a pessoa em questão e confesso que tenho muitos planos para deixar seu caso amoroso ainda mais intrigante. Isso é claro se as Parcas não interferirem. –Ela bufou. –Aquelas senhoras se acham as donas de tudo só porque controlam a vida e o destino. Grande coisa! O que é uma vida sem amor?

Antes que eu pensasse se realmente deveria responder ela continuou:

-É completamente insignificante! Mas ao que parece não se pode interferir no destino nem que seja em casos sérios como o amor.

Ela realmente parecia indignada naquele momento, porém se notou não se importou. Era difícil me concentrar em algo que não fosse ruim, vê-la mesmo sabendo que não era ela, ainda me deixava transtornado.

-Sei que isso não faz tanto sentido agora, mas logo você irá entender o quero dizer, porem não temos muito tempo, por mais que eu deteste admitir a guerra é mais importante agora e meu namorado está se preparando para uma neste momento...

Então mais uma vez voltou a sua antiga aparência. Isso aliviou um pouco a tensão e de repente senti novamente o desejo de admirá-la.

-Acho que será mais fácil se eu estiver assim. –Afrodite sorriu calorosamente, mas como não respondi, ela ficou séria. –O que tenho para dizer é muito importante então preste atenção. –Fez uma pausa dramática. –Desista!

Não pude evitar levantar uma sobrancelha, não era algo que eu ouvia com muita frequência.

-Estou falando de seus sentimentos por Edvine. Desista, ela não pertence á você e apesar de eu não apoiar sua escolha, acabaria sozinha de qualquer maneira, pois seu pretendente morreu á muitos anos atrás, antes mesmo de você pensar em existir.

-O que...

-Você nunca irá encontrar amor com um dos seus!

Fiquei completamente sem reação e resisti ao impulso de levar a mão ao bolso secreto onde eu mantinha a aliança. Mesmo depois de tudo que aconteceu ainda tinha esperanças que Edvine voltasse atrás e ficássemos juntos, porem sabia que isso nunca iria dar certo, nossos caminhos tomaram rumos diferentes seguindo a trilha das nossas escolhas...

Silêncio, foi tudo que consegui fazer, então ela simplesmente sorriu e começou á ir embora, como se acabasse de riscar mais um item de sua lista de afazeres.

Cerrei os punhos sentindo meu poder adormecido querendo sair, mas tentei me conter enquanto via aquele sorriso desafiador se voltando para mim novamente.

-Ah, não se preocupe, vai levar alguns bons anos antes de vocês se conhecerem pessoalmente, mas então irá me agradecer... e mais uma dica. –Ela olhou para minha jaqueta no ponto exato do bolso secreto. –Livre-se disso, ela não será muito fã de joias.

Ela desapareceu no mesmo instante em que o fogo roxo e verde cintilaram em meu campo de visão enquanto era tomado pela costumeira sensação de quando estava em um campo de batalha... Com o silêncio da morte cantando em meus ouvidos como única companheira enquanto eu liberava todo o meu poder de uma única vez.

Acordei em meio ao sangue e corpos mutilados de ambos os lados. Minha cabeça latejava e todo meu corpo estava dolorido. Flashes da recente batalha piscavam como pequenos faróis de lanterna, pequenos fragmentos do caos que liberei junto com o meu poder... Das pessoas que matei...

Pelos deuses... Não...

Não...

Não... por favor...

Fiquei de joelhos e deixei que todas as lágrimas de raiva e tristeza saíssem como uma cachoeira sem fim. Mais uma vez mostrei o monstro que realmente sou...

Não sobrara ninguém!

Em um momento de frustração gritei com todas as forças dos meus pulmões, liberando o resto da adrenalina e consequentemente reduzindo tudo á pó e cinzas em um raio de três quilômetros.

Quando o brilho se dissipou completamente o trabalho estava feito, não restara nada, até aquela maldita aliança havia desaparecido dessa vez... e mesmo assim eu continuava respirando...

Não havia nem mesmo mais corpos para enterrar...

Com a audição aguçada pude sentir algo se aproximando e por reflexo peguei a flecha á alguns centímetros do meu rosto.

Ri sarcasticamente diante dos pensamentos que tomaram conta da minha mente, e só de imaginar que realmente poderia ser verdade senti um arrepio tremendo por todo o meu corpo.

Então era assim que deveria acabar?

Com uma simples flecha prateada da qual a dona nem mesmo teve coragem de se mostrar?

Minha risada ecoou pelo campo vazio diante da ironia de toda a situação, sabia que qualquer um que passasse por lá ia achar que eu era louco e isso me deu vontade rir mais.

Você nem faz ideia meu jovem.

Shiiiu. Não está vendo que ele começou a entender

Acha mesmo que ele é capaz de entender algo?

Nós fazemos parte dele, claro que acho!

-Mas o quê?

Olhei ao redor, porém não encontrei nada além da poeira que já se espalhava pelo vento.

Eu realmente estava ficando louco!

Agora que você entendeu?

Pare com isso! Não dê ouvidos ao seu outro pensamento, você se acostuma com ele.

Mas eu estou certo! Você acaba de chamar a atenção especial dos deuses e eles não irão descansar enquanto não te verem nas profundezas do Tártaro.

Não necessariamente tão fundo, acho que ficariam felizes se parasse nos campos de punição...

-Tudo bem, eu realmente estou louco, mas pelo que entendi vocês são meus pensamentos?

Exatamente Sherlock! Mas não precisa sair espalhando por ai, pode falar com a gente pelo pensamento também. Apesar de saber que logo, logo você irá desistir.

Não é verdade, você sempre arruma um jeito.

-Então como faço para que vocês desapareçam?

Isso felizmente não é possível, é uma espécie de maldição assim como seu visual, é algo permanente.

Não parei para pensar no que ele havia dito, pois logo em seguida outra flecha tentou me acertar, assim como da primeira vez á interceptei.

Levantei-me decidido de que não seria responsável pela felicidade de ninguém.

Se os deuses realmente queriam me matar. Teriam que me pegar primeiro.

Nunca mais cederia!

***

Um ano e alguns meses atrás.

Estava na beira do penhasco que dava direto para o Tártaro, com a respiração ofegante e me sentindo mais vivo do que nunca.

Depois de quase sessenta anos fugindo, passei por experiências o suficiente para entender que não havia sentido no que eu fazia, era simplesmente insignificante para qualquer um, ainda mais para seres divinos.

Finalmente tinha tomado minha decisão.

Toda a minha vida deu uma reviravolta em menos de um dia, por um simples ato que fiz sem nem mesmo saber e pensar nisso. Depois de tudo que enfrentei simplesmente parecia mais um sonho distante do que fatos verídicos e reais.

Se iria morrer tinha que ser com estilo e do meu jeito, abraçando de boa vontade a morte e punição que me aguardavam!

A escuridão parecia querer rir daquilo comigo, era uma piada que sempre compartilhávamos quando eu estava a beira da morte, mas daquela vez não usaria uma de minhas arte manhas para escapar.

-Olá velha amiga...

A escuridão sorriu para mim, a única que fazia isso nos últimos anos. Fechei os olhos inebriado por aquela sensação, então pulei direto nas profundezas do Tártaro de braços abertos enquanto sentia a adrenalina daquele salto mortal como algo pulsante e vivo sendo injetado em minhas veias.

Mas aquilo não durou mais do que nove dias e confesso que fiquei desapontado quando a queda não me atingiu.

Mas pelos deuses!

Eu estava no Tártaro!

Era questão de tempo até que o ar ácido me matasse ou que os monstros que me observavam ás escondidas resolvessem comer um lanchinho suculento como eu.

Mas por mais que eu os atiçasse e provocasse, nada acontecia. Então cheguei à conclusão de que essa era a minha punição eterna, ficar destinado á vagar entre todos os mundos, sem nada nem ninguém, apenas com a névoa da morte como minha velha amiga.

-Tisc, tsic... –Balancei a cabeça enquanto andava envolta de um monstro Marinho que tentava me acertar com sua cabeça de javali. –Crisaor o Terrível! -Ele grunhiu diante do meu tom de zombaria. -Acho que deveria mudar seu nome para algo mais do tipo “Crisaor, o facilmente enganado!”. -O analisei de cima abaixo envolta das amarras e sorri. -Esse título combina mais com você, amigo.

O bicho mostrou a enormes presa negras, mas fiz um movimento com a mão e as correntes de fogo Flegetonte se enroscaram mais fundo na garganta asquerosa da besta o levando a arquear e grunhir como um animal ferido.

-A vamos lá! –Falei mais empolgado para tentar animá-lo. -Nós mal começamos!

Ergui os braços e lanças de ouro imperial começaram a atravessar o corpo cheio de escamas do monstro que uivou de dor. Ele estava quase se transformando em pó de novo.

Fechei a cara. -Não se fazem mais monstros como antigamente...

Como resposta, mas licor negro saiu de seus ferimentos. Suspirei frustrado e comecei a desenhar círculos no ar fazendo com que lâminas de bronze fatiassem o monstro.

-Não me leve a mal, mas acho que você não está a altura para ser aquele que reivindicará minha vida e...

-Nãaaaaooo!!

Um grito estrondoso me deixou alerta. Aquilo definitivamente soava a um desafio...

-Parece que temos visitas... Interessante...

Olhei com empolgação para Crisaor, mas ele já havia virado pó e recomeçado o processo de regeneração em algum outro lugar daquele vasto matadouro. Dei de ombros.

-Bom, sobra mais humanos para mim então.

Notas finais
★♡★