Percy Jackson - Uma Nova Profecia
22 XX - Armamos um Plano.
Notas iniciais
-Precisamos de mais néctar!
Thalia falou tão rápido que quase não á acompanhei enquanto ela corria pelo convés indo em direção á porta.
-Espere! Não podemos arriscar.
Annabeth fez com que ela parasse e concordasse de forma relutante. Mesmo que tivéssemos levado uma quantidade considerável para a missão (além da reserva extra que meu pai deixou aqui no barco), ainda não havíamos chegado nem na metade do caminho e podíamos ter muitas outras surpresas antes de voltarmos para o acampamento. Sem contar que todos sabiam o risco de consumirmos néctar demais...
Júlio me ajudou á levar Tobias para o sofá, o deitamos tomando cuidado com seus ferimentos.
-Precisamos ter certeza de que são apenas esses antes de tentarmos movê-lo para um dos quartos.
Ele concordou e logo em seguida as meninas apareceram, Thalia já havia se recuperado do choque e se ajoelhou para analisa-lo.
-Não há duvidas de que as harpias foram as responsáveis, mas não faz sentido, demos néctar para ele, foi apenas alguns cortes profundos, mas mesmo assim não seriam o suficiente para que ele ficasse desse jeito, sem contar que a pele morta envolta dos ferimentos...
Annabeth se juntou a ela e com uma faca de cozinha rasgou o resto da camiseta de Tobias.
Prendi a respiração.
Era ainda pior do que imaginávamos, seus cortes estavam em carne viva e um líquido verde escorria junto com o sangue.
Tainara colocou a mão na boca.
-Acho que vou vomitar. –Ela ainda estava com os olhos vermelhos e saiu correndo para o banheiro.
-Meu feitiço apenas atrasou a ação do veneno.
Júlio estava com a fisionomia destruída, provavelmente não deve ter dormido nem dez minutos e acabou abusando demais com os feitiços.
Se não fosse por ele ter feito uma barreira no barco, às harpias ainda estariam atacando, sem contar que enquanto isso o garoto ainda mantinha o feitiço de camuflagem para que nenhum deus nos encontrasse, fora que mesmo com esses dois pesos ainda se manteve firme durante a batalha e tentou salvar a vida de Tobias...
É, eu realmente fui uma pessoa horrível ao pensar mesmo por um segundo aquilo dele.
-Que veneno?
-A harpia que o sequestrou deveria estar com veneno nas garras.
-Por isso esse liquido verde esta saindo de seus ferimentos.
Ele concordou. –Se me lembro bem, o veneno utilizado não é para mata-lo, apenas neutralizá-lo. -Olhei sem entender e ele continuou. –Na guerra isso servia para manter o inimigo sob controle, é tipo um tranquilizante. Não que fosse permitido e nem era muito conhecido, mas mesmo assim sim era uma excelente arma de tortura, já que enquanto a pessoa está sob o efeito desse veneno ela tem dores e alucinações.
Enquanto falava sua expressão ficou um pouco sombria como se tivesse ido para uma guerra e presenciado cenas piores.
-Como é que sabe de tudo isso? –Annabeth o encarava desconfiada, ele deu um sorriso fraco.
-Gosto de história, era minha matéria preferida.
Ela concordou com a cabeça e ficou de pé. –E você sabe como curá-lo?
-Na verdade, o efeito passa com o tempo, mas não acho que as harpias teriam atacado o barco apenas para nos neutralizar, porém quando fiz o feitiço de cura não percebi nenhum componente á mais no veneno.
-Às vezes elas só queriam nos assustar.
-Então por que estavam levando Tobias embora? Eu vi quando elas o pegaram pelos ombros e começaram a voar, queria ter feito algo, mas outras vieram e... -Seus olhos começaram a marejar novamente, a puxei para um abraço.
–Ei, não fique assim, a culpa não foi sua. –Acariciei seu cabelo. -Como iria imaginar que mais delas viriam?
Ela me abraçou forte o que me deixou feliz. Não iria permitir que Annabeth ficasse se culpando.
-Percy tem toda a razão, você fez bem em controlar o barco, se não nenhum de nós estaria aqui agora. –Júlio olhou para o amigo desacordado como se esperasse que as respostas aparecessem dele. -A questão é que elas realmente não queriam nos matar, só não entendo porque então se deram ao trabalho de vir até aqui.
-Ás vezes elas só queriam nos assustar? –Reforcei minha teoria, porque ainda tinha esperanças de estar certo.
Júlio ficou quieto como se estivesse pensando em alguma resposta. Annabeth se soltou para nos olhar.
-Vamos ver uma coisa de cada vez. Thalia o que você acha?
Ela nos encarou e ficou de pé, estava um pouco molhada e suja com o sangue de Tobias, mas fora isso parecia estar bem melhor o que foi um alivio.
-Limpei os ferimentos e Júlio está certo, o veneno foi apenas para neutraliza-lo. Ele só deve ter desmaiado por que caiu na água de uma altura que poderia matar qualquer pessoa, tivemos sorte de tirá-lo antes que afundasse mais. -Ela parecia estar aliviada, começamos a relaxar, porem infelizmente Thalia continuou. –O problema é que o corte foi muito fundo e a água salgada não ajudou em nada além de infectar mais ainda o local.
-Pensei que água do mar ajudasse na cicatrização.
-Em cortes superficiais sim, mas quando são mais profundos ela apenas prolonga o tempo de cicatrização e assim como Thalia falou, infecciona o ferimento.
-Então o que podemos fazer?
Annabeth parecia pensativa, Thalia olhava fixamente para Tobias e Júlio aguardava instruções assim como eu. Tainara saiu do banheiro com as mãos na boca.
-Acho que meu café da manhã já era.
Fiquei com pena, não sabia se também tinha enjoo em barcos, mas ela lembrava um pouco a Hazel e isso me fez perguntar se eles estavam bem e se haviam chegado em segurança no Acampamento Júpiter.
-Você quer um pouco de água?
-Não, obrigada, já passou. -Concordei com a cabeça. –Como Tobias está?
Expliquei o que poderia estar acontecendo e Tainara ficou aguardando um pouco longe de Tobias, para não ver seus ferimentos. Depois resolvemos ir para a cozinha montar uma estratégia enquanto Thalia cuidava dele.
-Nós estamos em Portugal, durante o ataque acabamos desviando da rota e passamos pela Foz do Douro entrando na cidade do Porto.
Franzi as sobrancelhas. –A Foz é feita de ouro?
Annabeth revirou os olhos. –Não. O nome é Foz do Douro.
Concordei com a cabeça e ela continuou. -Se não fosse pelas harpias já teríamos chegado à França, mas nas condições em que Tobias se encontra não poderemos continuar com a viagem até que ele mostre sinais de melhoras e o barco também está precisando de reparos.
Annabeth falou essas palavras mais para si mesma do que para o restante de nós. Júlio e Tainara arregalaram os olhos e perguntaram juntos.
–Estamos em Portugal? –Ela balançou a cabeça como se fosse óbvio.
-Então você esta dizendo que esse barco aqui. –Ele gesticulou com os braços para dar ênfase em sua história. –Conseguiu atravessar o Atlântico em uma única noite e nos trazer são e salvos até Portugal?
-Nós fomos atacados por um bando de galinhas voadoras então de certo modo não chegamos completamente ilesos. –Tainara suspirou olhando para a sala na ultima parte.
-Tudo bem, mas ainda sim não sofremos ataque durante toda a noite e de novo ATRAVESSAMOS O ATLÂNTICO!
Nós rimos e Annabeth o encarou. –Você não deveria estar tão surpreso assim, parte disso ocorreu graças a seus poderes.
Ele olhou para os lados como se alguém estivesse espionando. -Espero que você não esteja se referindo as harpias.
Ela riu novamente. –Não. –Júlio fingiu relaxar um pouco. -Foi você quem protegeu este barco dos ataques noturnos, nunca havia visto um semideus filho de Hécate ser tão poderoso... –Annabeth pensou um pouco. –Bem, tinha aquela feiticeira do mar de monstros...
-Mas não precisamos lembrar disso, foi há muitos anos né Annabeth.
Ninguém precisava se lembrar do que aconteceu naquela ilha, mas os dois pareceram curiosos, principalmente Júlio.
-Que feiticeira?
Annabeth me lançou um olhar desafiador, depois olhou para os dois e contou cada detalhe da nossa pequena visita até a ilha. Eles não aguentaram e riram, olhei para Annabeth que também ria, queria ficar bravo, mas o clima estava começando a melhorar então resolvi deixar pra lá, mas aquilo teria volta.
Júlio deu alguns tapinhas no meu ombro. -Cara. Porquinho da índia, sério isso?
Dei um soco em seu braço, não foi forte, mas ele passou a mão no local e continuou rindo, revirei os olhos.
Quando eles finalmente pararam e resolveram voltar ao foco que definitivamente não era a minha pequena experiência como porquinho da índia. Annabeth continuou.
-Estamos perto da ponte Luís, não acho que os mortais tenham visto algo que aconteceu, o problema é que o barco não quer mais ligar. –Ela nos encarou com um plano já formado. –Somos em quatro, vamos nos separar em duplas, uma vai em busca de materiais para consertar o barco e a outra pega o que for preciso para ajudar na cura de Tobias.
-Tudo bem, mas eu ainda não consigo me conformar que realmente estamos em Portugal, por mais que eu tenha nos protegido dos ataques noturnos o que isso tem a ver com o fato de...
-Atravessarmos o Oceano Atlântico! –Tainara debochou de Júlio que a encarou sem entender. –Júlio, pense um pouco, estamos no oceano com um filho de Posseidon que como você percebeu é muito poderoso o que acha que aconteceu enquanto você estava no modo hibernação?
Ele coçou a cabeça ainda confuso, mas logo em seguida me encarou, fiquei um pouco sem graça, não era tão poderoso assim e também não poderia levar todo o crédito de nos trazer até aqui.
-Eu havia me esquecido que você é filho do deus dos mares, os meus meio irmãos falam muito de você.
-Desde que não estejam querendo me matar está tudo bem. –Sorri com escárnio o que o fez retribuir o gesto.
-Alguns ainda possuem rancor pelo que você fez na guerra contra os Titãs, mas a maioria te acha o cara das profecias. –Ele fez sinal de que não era importante.
-Como assim o cara da profecia? –O humor saiu do meu rosto.
-Bem você chegou no acampamento com doze anos não foi?
-Sim...
-E nesses últimos anos participou de duas grandes profecias, além de suas aventuras á parte. Quer dizer, todos os sete meio sangues. –Ele apontou para mim e Annabeth, depois fez um gesto como se estivesse alcançando os outros. –São respeitados lá no acampamento, isso é óbvio, mas parece que você foi o que mais chamou atenção.
-Não acho que isso seja correto, eu fui apenas o ajudante em ambas as profecias, não sou tão importante assim.
-Bom, não é desse jeito que os outros enxergam isso. –Júlio falou como se não fossem apenas os semideuses que pensavam nisso.
Balancei a cabeça levemente e voltei ao foco. -De qualquer forma, não fui o único responsável por nos trazer até aqui, Annabeth e Thalia se revezaram para manter o barco no curso certo enquanto Júlio nos manteve seguros de monstros e deuses, Tainara também fez os reparos para que o barco não se destruísse com a velocidade. Tobias ficou vigiando quase a noite toda. Fora que meu pai deu uma mãozinha...
A garota ficou um pouco vermelha. –Bem eu não sou tão útil quanto vocês.
-Ela está sendo otimista. Vocês deviam ter visto o dia em que ela derrotou um enorme basilisco sozinha! –Seus olhos roxos assumiram um brilho de orgulho conforme falava os feitos da garota. -Ou quando tivemos que lutar contra um bando de harpias dançarinas e ela e Tobias...
-Já chega Júlio! –Tainara lhe lançou um olhar cortante. -Não fiz mais do que minha obrigação e tive a ajuda de vocês dois. –Ela ainda estava vermelha, ele pareceu querer discutir, mas seu olhar severo persistiu e o garoto se calou.
Annabeth olhou para um depois para o outro e continuou:
-Bem, tenho certeza de que Thalia ira ficar no barco para poder ficar de olho em Tobias, pensei em Júlio e Percy irem buscar os materiais de reparos enquanto eu e Tainara vamos comprar os remédios.
Eu ia protestar, pois adoraria ir dar uma volta com Annabeth para conhecermos Portugal, mas pensei um pouco e aqueles grupos nos dariam a chance de ficar perto dos novos campistas e conhece-los melhor. Tudo bem que não gostei muito da ideia de Annabeth sair sozinha, porem tenho certeza de que ela me xingaria caso eu mudasse suas ordens.
-Tudo bem, mas onde iremos arrumar dinheiro para comprar as coisas de que precisamos? Eu gastei tudo que ganhei.
-Sim, mas Júlio havia transformado aquelas folhas em dinheiro para alugarmos um barco, porem nós não os utilizamos.
-Eu os guardei em minha mochila para o caso de precisarmos.
-Ótimo. Então está decidido. Farei uma lista para vocês dois com os materiais que iremos precisar, enquanto isso, Tainara. –Ela encarou a indígena. -Pergunte á Thalia o que ela quer. –A garota assentiu e Annabeth continuou. -Se acontecer qualquer coisa mandem um sinal para avisar aos outros antes de agirem, temos que estar aqui até no máximo às duas da tarde, se alguma dupla atrasar então os outros irão atrás, ou seja não podemos enrolar. Ok?
Todos concordaram, Júlio foi para o porão pegar sua mochila, Tainara se dirigiu á sala e antes que eu fosse pegar minhas coisas parei de frente á Annabeth que já estava escrevendo.
-Está tudo bem?
-Sim. –Ela suspirou. -Só estou um pouco preocupada com o que pode acontecer, nosso prazo é curto e...
Coloquei as minhas mãos por cima das suas, fazendo com que parasse de falar, ela me encarou com os olhos cinzas e brilhantes.
-Fique calma, tudo vai dar certo. -Acariciei a palma de sua mão. -Estamos juntos nessa né?
Ela concordou com a cabeça, beijei sua testa e depois depositei um beijo rápido e delicado em seus lábios, porém tentando ao máximo transmitir meu apoio e amor pela minha sabidinha.
Annabeth relaxou e retribuiu o beijo. –Te amo. Se cuida cabeça de algas.
Sorri e lhe dei mais um selinho antes de sair. –Também te amo. E não faça nada que eu não faria em.
Então fui para o porão pegar minhas coisas sem lhe dar a chance de responder, mas continuei a escutar sua risada durante todo o caminho que fiz com Júlio.
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