Percy Jackson Filmes
36 Westover Hall
Ponto de Vista de Annabeth
Finalmente. Uma missão autorizada por Quíron e Sr. D. Bem, não era necessariamente uma missão, mas definitivamente um dever.
Há duas semanas, Grover havia partido em uma missão em Bar Harbor, no Maine, para ficar de olho em dois semideuses em um colégio militar. Ele não sabia de qual deus ou deusa seus vigiados eram filhos, mas se tratavam de um par de irmãos. Irmão e Irmã.
Quíron, por algum motivo, classificou a missão de Grover como “importante”. E a pedido de nosso amigo sátiro, ele autorizou “reforços”. Nós.
— Tudo pronto? – perguntou Percy, ao entrar no carro, depois de uma parada em um posto de gasolina. Estávamos há 50 minutos de distância do nosso destino, de acordo com o GPS do carro que havíamos emprestado de Sally Jackson. Minha “sogra”.
Eu havia comprado lanches para o resto da longa viagem, enquanto Thalia continuava acomodada no banco traseiro, com fones de ouvido, escutando seu precioso Green Day.
Eu entendia sua atitude. Se eu soubesse que o Maine seria a experiência mais gelada da minha vida, eu teria cogitado em trazer um cobertor. E também meu dicionário avançado de francês.
Apesar da neve do Maine ser maravilhosa, ainda preferia encarar o inverno de Nova York.
Mas um dos pontos positivos, era que eu poderia me aconchegar em Percy sem que Thalia reclamasse tanto de nossa “agarração”.
— Sim – confirmei.
Percy, com suas 4 camadas de roupas, luvas de couro e um gorro preto na cabeça, deu partida no carro e continuamos nosso caminho.
Ω
— É a primeira vez que saímos juntos do Acampamento sem fugir – comentei para Percy, enquanto ele estacionava o carro em frente aos grandes portões de o que seria Westover Hall, o colégio militar em que Grover estava.
Ele me deu um beijo rápido, e um tanto gelado pelo clima.
— Não acho que vamos tirar uma grande aventura de dentro de um lugar como este – ele indicou o colégio com a cabeça – mas talvez isso seja bom...
— Vamos – incitou Thalia.
Percy e eu rimos quando ela saiu do carro, exclamando uma reclamação sobre ter entrado neve dentro de seus coturnos.
Deixamos o carro ali, estacionado, e avançamos pelos portões escuros de estilo vitoriano.
Dos poucos filmes de Hollywood que já assisti, conclui que Westover Hall poderia ser usado como cenário de um deles. Ou poderia ser a moradia de um vampiro imigrante da Transilvânia. O colégio era um castelo de pedra enegrecida, muito provavelmente pelo tempo, acima de um penhasco que dava vista para o oceano de um lado e uma densa floresta do outro. Parecia macabro.
— Uau – exclamou Thalia, em tom de zombaria – talvez tenha Bloody Marys a nossa espera.
— Ou dois furos no pescoço – murmurou Percy, quase inaudível.
Ganchei meu braço ao de Percy, a procura de um pouco mais de calor. E com Thalia ao nosso lado, entramos pela grande porta de madeira.
Se por fora o lugar era um sombrio castelo, por dentro era um museu de guerra. Armaduras de bronze adornavam em cada quina de parede. Machados, rifles antigos e espadas decoravam as paredes.
— Grover deve estar em algum lugar, talvez em um dormitório – Thalia puxou o celular enrolado com os fios do fone de ouvido, e ligou o visor – quase 20:00 horas. Será que eles dormem tão cedo por aqui?
— Acho que não – olhei em volta do átrio de entrada – talvez...
— O que fazem aqui? – uma senhora, vestida em uniforme preto com leves detalhes em vermelho e o logo do colégio, surgiu de uma escadaria.
Droga. Como explicaríamos que somos alunos de um rigoroso colégio militar?
Ela parou ao chegar em nossa frente. A primeira coisa notável na senhora, era o seu bigode grisalho, que deveria ter uma história por trás.
— São alunos? – perguntou ela. Muito provavelmente, era uma professora.
— Sim – respondemos em uníssono. Esse era o plano inicial, se ela nos descarasse, teríamos que pensar em recorrer ao plano B. Um plano que ainda não tínhamos.
A senhora nos avaliou de cima a baixo com ar desconfiado.
Eu estava prestes a surgir com uma desculpa, quando Grover apareceu da mesma escadaria, apoiado em suas habituais muletas de disfarce.
— Estava procurando por vocês – ele notou a professora por perto – por que saíram do baile?
— Sr. Underwood, conhece esses três? – perguntou a senhora, ao se virar para Grover.
— Sim, Sra. Tengiz. Eu estava com eles, mas os perdi de vista do baile.
Tengiz? Que?
— Eu não me lembro desses alunos... – refletiu a Sra. Tengiz.
— Estes são Percy, Annabeth e Thalia – Grover indicou cada um de nós, depois se virou para a senhora – gostei do seu uniforme, Sra. Tengiz.
A professora se auto avaliou, tentando entender a origem do elogio do sátiro.
— Eu uso o mesmo uniforme sempre. Algo de novo? – perguntou ela.
Grover pareceu pensar antes de forçar um sorriso.
— Parece mais elegante – finalizou ele.
A Sra. Tengiz pareceu um pouco constrangida, o que deu a oportunidade que Grover queria.
— Então... estamos voltando para o baile. Vamos pessoal – seguimos Grover pelo saguão, deixando a senhora para trás, averiguando o próprio “elegante” uniforme.
— Essa foi por pouco – suspirou Thalia.
— Que história é essa de baile? – perguntei. Eu ainda estava de braços dados com Percy, mas aquele frio causticante se esvaíra.
— Está rolando lá no ginásio – Grover conseguia ser rápido em suas muletas, terminamos de subir por uma escada de granito — bem... esse lugar é pior do que parece. Mas hoje é um dia especial, pois é o último dia de aula – ele se virou para nós – então há um baile, que acredite, é o melhor que esse colégio pode oferecer.
Grover realmente parecia desanimado, e muito entediado. Tanto quanto Percy, ao meu lado. Ele odiava colégios, que dirá bailes.
— Então... – começou Thalia – onde estão os meio-sangues que você mencionou?
— Estão no ginásio – respondeu o sátiro – conversei com eles um pouco. Eles não parecem ser muito sociais, mas foram simpáticos. Porém algum mistério ronda aqueles dois.
— Eles sabem? – perguntou Percy, se referindo ao fato de eles serem semideuses.
— Ah, não. Estou só seguindo as ordens, descobrindo mais sobre eles. Sabe como é, não posso simplesmente chegar neles e pedir que me acompanhem, até porque Quíron pediu discrição... pelo menos até hoje.
— O que descobriu dos dois? – perguntei.
— Nomes e idades. Bianca e Nico di Angelo, 16 e 14 anos respectivamente. Não encontrei nenhum parentesco. Não há nenhum responsável por eles nos registros do colégio, é estranho.
— É – concordou Thalia – mas talvez assim, seja mais fácil de convence-los a vir conosco.
Conforme avançávamos, eu já conseguia ouvir a música tocando e o som de algumas risadas e conversas.
Quando Grover abriu as portas do ginásio, eu pensei: “Caramba, as noites ao redor da fogueira no Acampamento conseguem ser mais agitadas que isso”.
Estávamos nos deparando com uma estranha separação de gêneros. Várias garotas estavam aglomeradas ao redor da mesa de petiscos, outras em grupos espalhados ao redor do ginásio. Os rapazes estavam mais perto das arquibancadas, alguns em duplas, outros em grupos maiores.
Ou OneRepublic não era dançável o bastante, ou aqueles alunos estavam cozidos. Não havia ninguém utilizando a pista de dança, nem sozinho, nem em par.
— Ali – Grover indicou sutilmente com a cabeça dois alunos, uma garota e um garoto, sentados no assento mais alto da arquibancada, como se quisessem passar despercebidos – são eles.
— Por que é tão urgente? Você suspeitou de alguém? – perguntou Percy.
— É mais um pressentimento negativo do que qualquer outra coisa. Chamei vocês por precaução, Quíron disse que era de extrema importância que eles fossem levados com segurança.
Por falar em pressentimento negativo, eu estava tendo um agora.
— Tudo bem, discrição e sutilidade. Vamos esperar um pouco, observá-los. Acabamos de chegar, misturem-se – sugeriu Thalia.
— Nos misturar? Acho que somos o único grupo misto desse lugar – murmurou Percy.
— Faremos o seguinte. Eu e Grover vamos até os di Angelo, puxar conversa. Vamos leva-los até lá fora, com alguma desculpa. Vocês – ela apontou para Percy e eu – fiquem de olho à nossa volta, 5 minutos depois de sairmos, vocês saem também.
Assenti, seguido de um Percy relutante.
Grover e Thalia caminharam lentamente em direção as arquibancadas, fingindo estarem entretidos em uma conversa. Percy e eu parecíamos ser o único casal dali, em pé de braços dados.
— Não podemos simplesmente ficar de olho, aqui parados – disse à Percy.
— O que você sugere?
— Dançar – deslizei minha mão pela dele, e puxei-o para o meio do ginásio.
— Nada chamativo – ele resmungou baixinho, o que me fez rir.
Dançar ao som de Sam Smith não era ruim. Era um ritmo que poderíamos acompanhar.
Percy estava com uma de suas mãos em minhas costas, mas em uma região um pouco baixa demais, por isso eu o repreendi, fazendo-o rir com falsa expressão de inocência. Sua outra mão estava junto à minha, conforme nossos braços estavam flexionados à altura dos ombros. Minha outra mão estava apoiada em seu ombro.
Estávamos tão à vontade um com o outro, sensação que apenas cinco meses de namoro nos proporcionava. Eu sempre pensei que nosso relacionamento se agravaria com o passar do tempo e as coisas se tornariam mais complicadas principalmente porque somos semideuses, mas tudo estava como no nosso primeiro dia como um casal.
Eu tinha consciência de que o centro de um ginásio rodeado de adolescentes entediados não era o lugar ideal para demonstrações de afeto, mas arrisquei um beijo rápido em Percy.
Thalia e Grover tinham chegado aos di Angelo, e iniciado uma conversa na qual eu tinha esperança de que eles fossem criativos, pois não poderiam começar com: “Oi, viemos atrás de vocês porque são semideuses”.
— Eles estão saindo – avisou Percy, depois de quinze minutos de dança.
— Cinco minutos – lembrei.
Nem havia se passado um minuto e uma figura encapuzada saiu andando para a mesma direção que nossos amigos. Era uma silhueta humana, um metro e noventa talvez.
— Percy – avisei.
— Vamos.
Saímos andando atrás da misteriosa figura, e de nossos amigos.
Ω
— ...eu não entendo o que vocês estão dizendo – escutei uma voz feminina dizer.
Já havíamos saído pela porta dos fundos do ginásio. Caminhávamos sobre 4 cm de espessura de neve, e o frio cáustico havia voltado. Há cerca de 20 metros para a frente estava o penhasco que levava ao oceano.
Thalia, Grover e os di Angelo estavam em um banco de pedra próximo à parede externa do colégio. Percy e eu andamos até eles, olhando em volta, a procura do ser encapuzado que havíamos visto antes.
— Pessoal! – chamou Percy. Todos os quatro olharam para nós – tudo bem aí?
— Sim – afirmou Grover quando alcançamos eles.
— Não. Não está nada bem – queixou-se Bianca, se afastando um pouco mais do grupo – esses dois – ela apontou para Thalia e Grover – trouxeram meu irmão e eu aqui fora para nos contar tolices.
Ela possuía uma espécie de sotaque que eu não conseguia identificar a origem.
— Não é “tolice” alguma, é a verdade. Precisam vir conosco, é para o bem de vocês – assegurou Thalia, e eu sabia que ela estava fazendo de tudo para não perder a paciência.
O garoto Nico cruzou os braços na frente do peito. Ele parecia muito sério para um adolescente, mas também possuía um ar avaliativo. Considerei a chance de aqueles dois serem meus meios-irmãos.
— Sabemos que isso parece estranho aos ouvidos, mas acredite em mim. É a verdade – Percy olhou em volta para ver se estávamos sozinhos – vocês são meio-sangues.
— Meio-sangues? O que isso significa? – perguntou Nico.
— Bem... – eu estava prestes a explicar, mas Grover se endireitou em suas muletas parecendo alarmado.
— Que barulho é esse?
Todos franziram a testa à pergunta de Grover. Ele teria que ser mais especifico, sabendo que sátiros conseguiam ouvir sons em maior distância do que os humanos.
— Tá falando do que? – Thalia quis saber.
E realmente, agora que todos haviam se calado, um som estranho se ouvia, vindo do alto.
Percy se adiantou para a frente.
— Parece um helicóptero...
O barulho das hélices girando à toda velocidade apenas se aproximava mais, e agora todos estavam prestando atenção, Bianca e Nico pareciam apavorados.
— Vocês...? – perguntou Grover.
— Não! – negou Nico.
Tudo aconteceu tão rápido que mal acompanhei qualquer movimento. Em cinco segundos, Thalia e Percy estavam no chão, ou melhor, na neve. Sete figuras encapuzadas apareceram, os rostos cobertos por máscaras negras.
O helicóptero já assomava, quase, em cima de nós, pairando em sua forma escura. Era um helicóptero de combate.
— Peguem os dois! – gritou uma voz desconhecida.
Interceptei um dos atacantes, mas ele era complicado de derrubar. Eu podia presenciar de relance, Grover caindo desacordado. Thalia estava gritando ordens aos di Angelos para se afastarem e permanecerem no chão, enquanto desviava dos golpes de dois atacantes encapuzados, um era o mais alto de todos, talvez aquele que havíamos seguido antes. Percy também estava lutando com dois ao mesmo tempo.
Aproveitei o soco que meu adversário tentava me desferir e puxei-o pelo braço, jogando-o por cima do ombro. Eu não sabia qual era a participação do helicóptero acima de nós, mas era melhor que fizéssemos algo antes que a máquina resolvesse agir.
O vento das hélices jorrava neve para todos os lados, dificultando a visibilidade. Mas corri até Thalia para ajudá-la. Quem quer que fossem aquelas pessoas, estavam atrás dos di Angelo, não de nós.
— A corda desceu – gritou um dos encapuzados. Droga, agora eu sabia a função do helicóptero. Meio de fuga.
— Vão! Agora! – gritou outro.
Um deles passou por Thalia, e agarrou Nico, levando alguns socos da irmã dele, que tentava, sem sucesso, parar a ação.
Eu não podia deixá-los, minha missão era protege-los, e eu não poderia falhar. Joguei um dos atacantes, que estava no caminho, para o chão, e me lancei no mais alto dos encapuzados, aquele que puxava Nico para trás.
Sem perceber que à minha frente, só havia o oceano gelado.
— Annabeth! – a voz estava abafada, mas eu sabia que era Percy.
E foi a última coisa que ouvi antes de alcançar a escuridão.
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